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Lutas, vitórias e histórias: entrevista com Stefany Krebs

Cássio Lamartine Paiva 12 de dezembro de 2020

O futebol feminino é reduto de histórias de superação. A estrutura que dificulta o acesso de mulheres aos lugares de destaque na sociedade também opera no esporte, e o futebol feminino sobrevive por conta da persistência de tantas mulheres que lutam diariamente por seus sonhos.

Stefany Krebs é mais uma dessas lutadoras. No entanto, Stefany foi além e se tornou a primeira atleta surda do Brasil. Atualmente no Palmeiras, gentilmente, Krebs respondeu algumas perguntas à reportagem do Universidade do Esporte, e contou sobre o início da carreira, os desafios no caminho, comentou sua surdez e deu uma aula de como não se deve desistir de seus objetivos.

P: Como iniciou no esporte?

Eu tinha seis anos, comecei a me apaixonar por esporte, na verdade era futsal que aprendi primeiro e comecei a jogar, porque eu morava ao lado do ginásio. Minha família cuidava de uma igreja e meu irmão surdo se chama Jean, me ensinou a jogar bola, me fez descobrir o meu brinquedo favorito, meu dom e o que me deixa mais feliz o que faço todos os dias.

Na verdade tenho dois irmãos, a primeira é ouvinte, se chama de Josiane, também jogava só de brincadeira, o meu segundo irmão surdo tinha o sonho de ser jogador de futebol também, mas não deu por conta de ser surdo. Carrego a motivação de fazer por ele também. Sou muito grata a Deus por ter me dado essa família maravilhosa que me apoia desde quando descobri minha paixão, acredita em mim, na minha capacidade e nos meus sonhos.

P: Você começou no futsal e chegou a ser eleita a melhor jogadora do Mundial de 2015. Como foi sua passagem pelas quadras?

Comecei no futsal com seis anos, sempre jogava com meninos, nunca tive medo de jogar com meninos. Amo. Sempre sonhei ser jogadora profissional, com 12 anos comecei a jogar no clube da minha cidade que uma minha amiga me convidou. Fiquei muito feliz, mas fiquei na dúvida se o técnico ia me aceitar. No final do treino, ele gostou e me chamou. Comecei a treinar bastante, viajar com clube e conquistei várias medalhas com o time. Eu era a única surda, sou muito grata ao clube por abrir as portas para mim, foi a primeira.

Em 2013, conheci o clube Associação Balneário Camboriú de Surdos, antes jogava só com ouvintes. Viajei sozinha até Santa Catarina, eu tinha apenas 15 anos, participei na Taça Brasil e fui convocada pela Seleção Brasileira de Desportos de Surdos. Foi incrível. Já fui morar longe da família com 15 anos, morava com meninas, treinava todos os dias e estudava. Joguei para clubes ouvintes em Santa Catarina e participei do Campeonato Estadual e dos Jogos Abertos, até que em 2015 fui convocada pela Seleção Brasileira de Desportos de Surdos.

Fui focada no Mundial, treinava, fazia academia para me preparar, pois os treinos da Seleção Brasileira aconteciam só uma vez por mês. Não tivemos condição para ficar mais dias, sem apoio, pagamos do nosso bolso e tivemos o apoio da empresa em que meu pai trabalha, aí treinei com clube ouvinte. Eu tinha 17 anos quando fui para Tailândia. Foi incrível participar no Mundial, experiência que jamais vou me esquecer, o nosso objetivo era a final e chegamos, mas ficamos com o vice, com gosto de ouro, não esperava que fosse eleita a melhor jogadora do mundo, fiquei muito, mas muito feliz por representar a comunidade surda e o Brasil, esse prêmio não só meu, sim para Deus, família, clubes ouvintes e surdos, minhas companheiras da Seleção Brasileira e tudo.

P: Como aconteceu a transição entre o futsal e o futebol? Você teve uma primeira experiência nos gramados com a camisa do Pelotas, como foi?

Na verdade, antes de tudo, só jogava no futsal, nem gostava muito do campo, mas em 2016 tive oportunidade de jogar no Pelotas. O técnico Marcos, do Pelotas – RS, me ensinou muitas coisas, comecei a gostar do campo, me colocava para jogar, me deu muitas oportunidades, participei no Campeonato Gaúcho do Futebol Feminino, uma experiência incrível. Jogava como atacante e fazia gol, mas depois do campeonato, terminou. Quando soube sobre o teste do Internacional, fui para Porto Alegre, passei no teste, fiquei lá por duas semanas, treinando com atletas de alto nível, foi uma experiência maravilhosa, em 2017 tive oportunidade de participar da Surdolimpíada, vestindo a camisa da Seleção Brasileira de futebol feminino de surdas. Ficamos com o bronze.

P: Quais foram as maiores dificuldades em relação à surdez que você enfrentou na carreira?

No início, com 11 ou 12 anos por aí, comecei a entrar no time de ouvintes que minha amiga ouvinte me chamou para jogar. Fiquei ansiosa, perguntava se me aceitariam por causa de surdez. Minha amiga respondeu que claro, são pernas para jogar, por que vão olhar só na audição?

Fui, mostrei o meu futebol, o técnico gostou e me chamou para treinar, jogar e viajar para competir os campeonatos. Fiquei super feliz, pois me deu várias oportunidades, mas já sofri por não sentir igualdade, principalmente na comunicação. Já pensei em desistir várias vezes, mas não desisti até hoje, a cada dia, um novo desafio. Nada é fácil, mas nada é impossível. Acredito que a maior dificuldade seja a comunicação, pois falta empatia às pessoas e enfrento isso até hoje na minha carreira.

P: Na seleção de surdas, acredito que não houvesse dificuldades para se comunicar, porém, atualmente, você considera difícil jogar com atletas que ouvem? Como é o dia a dia de treinamento, a comunicação entre você, as outras jogadoras e a comissão técnica?

Na Seleção de Surdas, é uma delícia, a comunicação é perfeita e me sinto bastante incluída. Já em clubes com ouvintes, antes do treino sempre vou pro campo uns 30 minutos antes para saber o que vai acontecer nos trabalhos e para tirar as minhas dúvidas. Assim, consigo entender melhor a comunicação entre jogadoras e comissão técnica. Na verdade, tem meninas que moram comigo, aprendem bastante em Libras comigo, outras jogadoras aprenderam o básico, mas tem algumas que não aprendem. A gente dá um jeito de se comunicar, e leitura labial, é importante ter visual para mostrar melhor. A comissão técnica, principalmente o preparador físico e o auxiliar do preparador físico sabem em Libras, são básicos, pois trabalhavam comigo na Seleção Brasileira de Surdas, estão me ajudando umas coisas e os outros não sabem, mas tem algumas meninas que me ajudam também.

Nada é impossível. No começo, é difícil, mas depois vai ser tranquilo. Tem que combinar as coisas para ajudar a melhorar a comunicação, é muito importante. Acho super legal se todo mundo aprender em libras, ajuda muito ainda.

P: Acredita que a surdez influencia no seu estilo de jogo?

Não, não me atrapalha nada. Tem dias que jogo e esqueço que sou surda, sabe?!, pois são pernas para trabalhar, não os ouvidos. Os surdos têm visuais ótimos, quando jogo bola, sempre vejo o técnico, nosso time, árbitro e adversário, é importante levantar a cabeça para olhar tudo, também perceber o movimento continuar ou parar e observar. Até hoje, não reclamo que sou surda, sempre agradeço a Deus por ter me dado assim, pela vida, saúde, família e por tudo.

P: Você acredita que a sua presença em um grande clube do futebol brasileiro é importante para dar visibilidade a população surda?

Com certeza, é super importante. Tem muitas meninas que sonham em ser jogadoras, mas os clubes não darão oportunidade e por medo de comunicar. O maior problema é a comunicação. Torço muito para que os clubes abram as portas e façam a diferença para quem quer ser atleta. Espero que possa ajudar também. Com certeza, não é fácil assim, mas não podemos desistir e é preciso sempre lutar e acreditar em nossos sonhos.

Gostaria muito de que os clubes vissem os talentos e não os ouvidos. Torço para que os clubes abram as portas, gostaria de ver aumentar as atletas surdas também. Seria muito legal encontrar as atletas surdas no futebol profissional, não só feminino e masculino, quero ver as outras modalidades também, não só no futebol. Os clubes precisam ter coragem de dar oportunidade para atletas surdas, esquecer da audição, mas, com certeza, seria muito importante ter apoio. Respeito é o que os surdos precisam, por exemplo, ter intérprete de Libras, ter acessibilidade e sentir-se incluído.

Cristiane Rozeira. Foto: Rener Pinheiro/Mowa Press.

P: Quais são suas referências no esporte?

Na infância a atleta Cristiane Rozeira me chamou atenção. Sou muito fã dela até agora, admiro muito, não só no futebol, sim a pessoa que ela é, eu usava a camisa de 11 nos clubes ouvintes de futsal e na Confederação Brasileira de Desportos de Surdos (CBDS). Depois, admirei várias atletas como Andressinha, Marta, Formiga, Rosana, entre outras, mas principalmente a Cristiane Rozeira é a minha grande inspiração até hoje.

P: Qual é o significado do futebol/futsal em sua vida?

São amores da minha vida e meus remédios, me fazem muito feliz, principalmente o futsal que comecei, meu coração expoliu de amor, fico arrepiada, depois comecei a gostar de futebol. Nasci para jogar bola, agradeço a Deus pelo dom que me deu e a família por apoiar, motivação e por tudo que fez para mim.

P: Para alguém que já superou tantas barreiras, existe limite? O que você ainda deseja e quais são seus objetivos na carreira?

Existe ainda sim, desejo que a minha carreira cresça mais e fazer mais histórias do Futebol Feminino na inclusão. Continuar jogando pela Seleção Brasileira de Surdas, quero mudar algumas coisas na inclusão para melhorar, quero evoluir o meu futebol, no momento quero ter mais oportunidade para ajudar no Palmeiras.

Sobre meus sonhos e planos, deixo na mão de Deus para escolher o que é o melhor, se tiver as propostas futsal e campo, vou amar, com certeza sonho em ser atleta da Seleção Brasileira de futebol e futsal, se Deus quiser. No momento, é trabalhar muito para chegar lá e seria muito legal jogar na fora do Brasil.

P: Stefany, você é um exemplo para toda a população surda, o que diria para quem tem essa condição e está em busca de algum sonho?

Vou manter a frase que sempre falo para motivar as meninas/pessoas: “Acredite nos seus sonhos, nunca desista ou duvide deles. Lembre-se de que você é capaz, pode conseguir e lute até o fim. Se não deu certo, tente mais uma vez e confie nas mãos de Deus, que ele sempre tem melhor plano para nós. O importante é não ter medo de tentar”. Essa frase sempre me faz lembrar a não desistir e sim lutar mais, até o meu último batimento do meu coração. Vocês são capazes de tudo, sei que cada ser tem um talento incrível, é só não desistirem, apenas lutem até conseguir. Quanto mais foco nos objetivos, melhores resultados vai receber. Sei que a vida não é fácil, mas não desista, um dia vai olhar pra trás, chorando pela felicidade e gritar que CONSEGUI. E tudo depende de vocês, não esperem por ninguém e não escutem as negativas se alguém não acredita, vai e continua tentando!

ACREDITE SEMPRE JAMAIS DESISTA!!!! Que Deus abençoe vocês sempre.


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Cássio Lamartine Paiva

Acadêmico de Jornalismo pela UFRN.
Conhecimento é vida!
Surdo que ouve com auxílio de próteses auditivas.

Como citar

PAIVA, Cássio Lamartine. Lutas, vitórias e histórias: entrevista com Stefany Krebs. Ludopédio, São Paulo, v. 138, n. 29, 2020.
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