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Ep. 1 – O Gênio do Crime | Procura-se

Guilherme Trucco, Raul Andreucci 23 de setembro de 2021

por Raul Andreucci

Eu nunca mais encontrei O Gênio do Crime. Tem em qualquer livraria, continua sendo um sucesso, com mais de um milhão de exemplares vendidos. Eu sei. É só ir lá no site da Editora Global pra conferir: versão comemorativa dos 50 anos (em 2019) e já alcançando (incrivelmente!) a sua 61ª edição – um verdadeiro best-seller!

Mas… Não é bem isso o que eu queria.

Sinto falta do exemplar da Vó Ruth, minha avó materna. Com esse que a gente escutava de noite, antes de dormir, eu e meus irmãos, toda a trama da turma, com Edmundo, Pituca, Bolacha e Berenice – além do detetive gringo, claro!

Esses momentos ficaram comigo pra sempre – mais precisamente, tudo o que senti. E voltaram a pipocar no meu peito quando eu e o Trucco escolhemos o livro de João Carlos Marinho para iniciar nossa jornada na coluna e podcast Travessão – Literatura & Futebol.

Só mais velho (agora!) que eu entendi aquela sensação. De novela, de seriado. Quando você não quer que acabe o episódio, precisa ver mais um – e mais um, mais um…

Quando ainda não tinha streaming, era sofrer até a chegada do dia seguinte. Com os serviços atuais, dá pra maratonar até não poder mais – e começar outro, e outro… 

Ansiedade? Compulsão? Quem sabe até curiosidade, pura e simplesmente. Não sei. 

Minha primeira memória de algo lá dentro, essa sensação, como eu disse, de ficar louco pelos próximos capítulos de alguma história, surgiu com esse livro, O Gênio do Crime, em sua 14ª edição, ainda pela Brasiliense. Uma capa linda, até agora insuperável, com siameses (ou duas metades?) com cabeças de roldana segurando uma pasta vermelha.

Era nessa arte que eu me detinha enquanto as palavras saíam da boca de Dona Maria Ruth, como eu costumava ouvir o povo a chamando.

E a dita cuja é quem tinha a preciosidade em casa, geralmente localizada em alguma das prateleiras mais baixas de sua estante de parede inteira. Justamente para que as crianças, como eu, pudessem explorar a literatura mais condizente com a sua faixa etária.

Quando começou a ler pra gente, era bem esse o esquema. Ela lia, a gente ouvia. Se começasse a interromper demais, bronca na certa. E eu meio falante e curioso como sou…

Do alto de uma dessas camas de casal de madeira bem antigas, que range só de encostar, em que ela dormia sozinha há anos, corajosa de se desquitar no meu nascimento, ali pela metade da década de 1980 (mera coincidência?), ouvíamos de um colchonete no chão.

Não sei se lia um capítulo, alguns, se administrava uma certa quantidade de páginas. Um tanto e pronto. Hora de dormir. A gente implorava por mais. Quer dizer, na neblina das minhas memórias, ao menos eu. João Gabriel e Caio, meus irmãos, também?

Nunca era o suficiente. Queria saber mais – e mais, e mais! O que aconteceria com a Turma do Gordo? Eu era o Bolacha, gordinho como me sinto até hoje? Também amava futebol, batia figurinhas e, ué, imaginava que poderia ser ótimo detetive como ele! Rs! Vamos, afinal, conseguir derrotar o gringo na disputa de quem soluciona o caso antes?

Hoje eu sei o quanto sou parecido com minha avó. Dois taurinos. Imagine. Em teimosia e insistência em métodos. Então, agora eu entendo – e talvez fizesse o mesmo! Rs!

Ela não abriu mão do seu processo de leitura nas noites em que dormíamos lá. Ou seja, para acompanhar o desenrolar do enredo, só se você passasse a noite naquela casa térrea da Rua Alberto Faria, no Alto de Pinheiros – que foi onde virei assistente de Papai Noel aos seis, sete anos, pois ameacei desmascarar o velhinho. E agora até me pego perguntando se concluímos a leitura, tamanha minha estranheza ao fazer isso nos meus 36 anos.

E veja só, não podia levar livro emprestado pra casa, não. Anos mais tarde, quando isso se tornou inevitável – tanto pelos pedidos dos netos, como por sua resistência em emprestar sem garantia de retorno –, Vó Ruth implementou sua biblioteca. Só faltou carteirinha.

Naquelas mesmas estantes baixas, um caderninho vermelho de espiral, com caneta amarrada por um barbante, era depositário dos meus empréstimos, de irmãos e primos. Até de alguns filhos – ainda que os mais tinhosos esnobassem a norma.

E tinha de devolver mesmo, hem. Caso contrário, você não podia pegar mais. E calhava de levar uma cutucada se tentasse, apostando no esquecimento daquela professora de História. Tinha tanta coisa boa ali, melhor devolver, né. 

Na época das leituras de O Gênio do Crime, porém, essa possibilidade não estava no horizonte. O máximo que podíamos era ver as tais figuras e admirar a capa. 

O negócio era voltar à casa dela e pedir aquela leitura. Porque se bobeasse, os mais novos poderiam solicitar outra ou Maria Ruth inventar uma mais simples – pra encerrar logo esse momento noturno ou evitar o risco de querermos levar embora a obra.

Tentado a pegar e nunca devolver? Sim, fiquei. Segurei a peruca. E eis que hoje o danado é dado como desaparecido. Já perguntei por aí sobre aquele exemplar. 

Minha mãe (Cristina) não sabe, nem minha madrinha (Marta). Talvez eu tenha questionado meu tio (Álvaro), talvez nem ele saiba. Ficou pra mim que o proprietário desse exemplar era ele, o único homem da trinca de filhos e (adulado como costuma ser um) caçula. 

Vó Ruth foi diagnosticada com Mal de Alzheimer neste ano e, infelizmente, perdi a chance de tirar essa dúvida. Parte do momento ficou pra trás – e a raridade se perdeu.

Nunca mais vi o tal O Gênio do Crime que fez a minha cabeça e começou minha história nos livros de futebol – e que eu sequer imaginaria, né, pois ainda me iludia em ser jogador de futebol ou, ao menos, um jornalista de Redação, antes de ver como funciona a coisa…

Não sei se o livro se perdeu em alguma mudança, da minha avó ou do meu tio, se doaram, se algum primo nem imagina que procuro por ele. Ou mesmo se ainda está em alguma das estantes dela (agora menores, restritas a um apartamento), a despeito da minha caçada esperançosa a cada visita – como se pudesse brotar de tanto acreditar.

Quem teria sido o gênio do crime, hem?

Um tanto quanto injuriado, admito, por não ser o dono do livro, comprei duas edições. Uma durante a faculdade de Jornalismo, na PUC-SP [da foto desse texto], e mais tarde, porque imaginei ter perdido essa mesma – e estava emprestado, vejam que Vó Ruth tem razão!

Nenhuma das capas, entretanto, me satisfez como aquela. Juro que tentei. Criei argumentos na cabeça como os de que agora era tudo mais colorido, ao menos as páginas não estavam amareladas… Você sabe como a cabeça da gente prega essas peças. 

Só que nenhuma capa era como aquela. E nem a minha leitura. Nunca mais foi tão saborosa com as que ela empreendia mudando a entonação de voz, com carinho e dedicação. As primeiras páginas, com Rivellino e os meninos procurando a figurinha perdida, lembram da gente fazendo o mesmo numa banca perto da casa – o jornaleiro vendia pacotes fechados e, ao mesmo tempo, colecionava (e trocava!) junto. 

Tampouco esqueci ou vai se perder, como o exemplar, com o perdão do trocadalho do carilho, esse exemplo de quem tanto me ensinou a amar e respeitar os livros que, sem querer, despertou minha paixão por livros de futebol, hoje o meu propósito de vida com a Dolores e o Ludopédio. Fazer o primeiro episódio do podcast Travessão reavivou tudo isso em mim. Enfim, meio acabrunhado, mas de peito aberto, só queria te dizer: obrigado, vó!

 

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Ouça o primeiro episódio do Travessão

 

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__ Travessão
Literatura & Futebol
com Guilherme Trucco & Raul Andreucci

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Guilherme Trucco

Escangalho a porosidade das palavras. Rabisco um Realismo de Encantaria e futebol. Filho de Xangô e Iemanjá.

Raul

Graduado em Jornalismo e Mestre em Ciências Sociais, ambos pela PUC-SP. Com passagens e frilas por Lance!, Folha de S.Paulo, Caros Amigos e Editora Abril. Idealizador da Dolores, um dos editores do Ludopédio e sócio da Eita.

Como citar

TRUCCO, Guilherme; ANDREUCCI, Raul. Ep. 1 – O Gênio do Crime | Procura-se. Ludopédio, São Paulo, v. 147, n. 37, 2021.
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