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Era uma vez… um clube grande (VI): “a grandeza vascaína à margem”

“Fato sugestivo e digno de ser ressaltado é o de ser o Vasco da  Gama que abriu as portas do futebol para os homens de cor, isto em 23. Até então todos os grandes clubes repudiavam esta raça. Foi, assim, o Vasco da Gama que quebrou essa odiosa discriminação”.[1]

No último Fla-Flu, decisão do Campeonato Carioca, dia 22 de maio de 2021, a torcida tricolor exibiu os seguintes dizeres em um mosaico: “orgulho de não ser como vocês”. De acordo com o Lance!, a mensagem é parte de protestos de torcedores do time das Laranjeiras contra as intenções da diretoria flamenguista de levar o jogo para Brasília para ter mais público. O jornalista Mauro Cezar, contudo, interpretou a frase de outro modo. Para ele, a mensagem se parece com as provocações dos ultras italianos, remetendo a uma suposta superioridade tricolor em relação aos rubro-negros. Seria, assim, uma provocação marcadamente perpassada pelo preconceito racial e de classe, já que o Fluminense  nunca procurou afastar-se de sua origem nobre, diferente do rival Flamengo que, entre as décadas de 1930 e 1950, esforçou-se para que sua imagem se aproximasse do “povo”.

Fla Flu
Foto: LUCAS MERÇON / FLUMINENSE F.C. / Fotos Públicas

De acordo com essa narrativa, Fla e Flu concentrariam o confronto entre elite e povo no Rio de Janeiro, uma das oposições mais poderosas nos discursos acadêmicos, jornalísticos e artísticos sobre a história do futebol brasileiro, como aponta Marcelino Rodrigues (2012). No entanto, o futebol carioca também contém, no campo simbólico, sua disputa pelo posto de “clube do povo”, como ocorre explicitamente em Belo Horizonte, entre Cruzeiro e Atlético-MG ou em Porto Alegre, entre Internacional e Grêmio. E a reivindicação pelo status de “clube do povo” vem lá dos lados da Zona Norte carioca.

Já adiantando possíveis questionamentos, nossa intenção aqui não é oferecer qualquer tipo de veredicto sobre o “verdadeiro” clube do povo do Rio de Janeiro, senão pensar sobre quais bases estão calcadas o que estamos chamando de “grandeza vascaína à margem”. E, aliás, a questão geográfica é justamente um dos argumentos mobilizados nessa disputa. Os vascaínos, da Zona Norte, sugerem que os outros grandes cariocas — Flamengo, Fluminense e Botafogo — não podem denominar-se clubes do povo por possuírem raízes na Zona Sul do Rio de Janeiro, uma conhecida área nobre da cidade.

Mas é bem mais que geografia. A grandeza do Vasco, para os cruz-maltinos, guarda relação com a memória da introdução de jogadores negros em seu time profissional nos primeiros anos do futebol carioca, período em que a maioria dos clubes defendia um esporte restrito às elites. Influenciada pelo pensamento freyriano a autora do livro Cem anos de paixão: uma mitologia do futebol carioca encontra na origem portuguesa do Vasco a explicação para essa “democratização” vascaína do futebol. Segundo ela, o povo português, como bem escreveu Gilberto Freyre, não se igualaria a nenhum outro colonizador quando o assunto era a  “miscibilidade”. Isso lhe garantiu “eficácia” na ação colonizadora e, no futebol não teria sido diferente: “foi na miscigenação, na mistura, na mestiçagem que o Vasco, um clube de pequenos comerciantes portugueses e de suburbanos, conseguiu formar um time vencedor” (Guedes, 1997, p. 92).

É exemplo dessa reivindicação vascaína, o recente livro Vasco, o clube do povo: uma polêmica com o flamenguismo (1923–1958), publicado em 2020 e de autoria do torcedor Leandro Tavares Fontes. O questionamento central da obra são os motivos da transferência da imagem de clube popular do Vasco para o rival Flamengo e sua hipótese central é a de que “a história do futebol brasileiro foi hegemonizada por uma narrativa flamenga […] que busca narrar as vantagens que o adversário se beneficiou e beneficia […]”. O processo de popularização do Flamengo, descrito por Leandro  — apesar de não ser citado no lançamento da obra — foi problematizado na tese defendida em 2013 (e que virou livro em 2014), do historiador Renato Coutinho Um Flamengo grande, um Brasil maior: o clube de Regatas do Flamengo e a construção do imaginário político nacionalista popular (1933-1955). Contudo, a grande questão para o autor vascaíno, é que essa história “inventada”, por não pertencer originalmente ao Flamengo, roubou de seu clube do coração o posto de verdadeiro clube do povo, que é seu por direito. Seu livro, nesse sentido, seria uma espécie de reparação histórica:

“Nessa forçada “mudança de vestuário”, muitas fábulas e distorções foram produzidas e divulgadas como verdades absolutas, apresentando um clube elitista como se fora popular. Entre a História original e a mitificação de uma História, existe uma enorme diferença. E o Vasco da Gama é o legítimo representante da História original”.[2]

Vasco da Gama
O time do Vasco campeão carioca em 1923. Foto: Divulgação

Cientes de que a pretensão de escrever “a” História como “aquilo que realmente aconteceu” já foi superada pela historiografia, e de que, hoje, o que guia os historiadores é muito mais um compromisso com um “alto padrão de verossimilhança” e da escrita de “uma” História (Santos, 2020), acreditamos que, tanto a narrativa flamenguista quanto a narrativa vascaína possuem sentido, sendo relevantes para as identidades destes grupos. Especialmente por serem relatos vivos e seletivos do passado, como toda boa e potente memória. Até porque, se o Flamengo nunca foi um clube genuinamente popular, os negros já davam seus pontapés pelos subúrbios cariocas muito antes de 1923. O feito vascaíno, digno de nota, é verdade, não foi abrir as portas do seu time às massas, mas ameaçar o status quo sagrando-se campeão em 1923.

Nesse sentido, não seria um equívoco evocar Michael Pollak neste caso, dizendo que, assim como em diversas outras paragens brasileiras, o futebol carioca também tem sua  disputa de memória. Por isso acreditamos, como conclui Marcelino Rodrigues sobre a disputa belorizontina do título de “clube do povo”, entre Atlético e Cruzeiro, que Flamengo e Vasco também nos apresentam duas formas distintas de “ser popular”. Para isso, cada um à sua maneira, esforçou-se para “mitificar a [sua] origem, mascarar os antagonismos internos e selecionar no passado os pontos de referência que sustentam a memória coletiva” (2012, p. 85). Do lado flamenguista, foi necessário afastar-se de sua origem nobre, para assim  constituir-se como “o mais querido”, enquanto, para os vascaínos, o grande trunfo foi mitificar o passado. E é isso o que também os torna dois gigantes do futebol brasileiro.

Notas

[1]Folheto comemorativo dos 70 anos do Vasco, retirado do livro: Guedes, Cláudia. Cem anos de paixão: uma mitologia do futebol carioca. Rio de Janeiro: Rocco, 1997, p. 91.

[2]Livro ‘Vasco: o clube do povo‘, de Leandro Tavares Fontes, será lançado no dia 21/08; conheça a obra. NETVASCO, 18 ago. 2020. Acesso em: 30 jun. 2021.

Bibliografia

Folheto comemorativo dos 70 anos do Vasco. In: Guedes, Cláudia. Cem anos de paixão: uma mitologia do futebol carioca. Rio de Janeiro: Rocco, 1997, p. 91.

GUEDES, Cláudia. Cem anos de paixão: uma mitologia do futebol carioca. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

Livro “Vasco: o clube do povo”, de Leandro Tavares Fontes, será lançado no dia 21/08; conheça a obra. NETVASCO, 18 ago. 2020. Acesso em: 30 jun. 2021.

SANTOS, João Manuel Casquinha Malaia. Futebol e história. In: GIGLIO, Sérgio Settani; PRONI, Marcelo Weishaupt. (Orgs.). O futebol nas ciências humanas no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp, 2020. p. 139 – 152.

SILVA, Marcelino Rodrigues da. Picadinho de Raposa com sopa de Galo. In: SILVA, Silvio Ricardo da; DEBORTOLI, José Alfredo de O.; SILVA, Tiago Felipe da. O futebol nas Gerais. Belo Horizonte: UFMG, 2012. p. 67-91.

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Letícia Marcolan

Graduanda em História pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Participa do Fulia/UFMG e do Memória FC.

Marcus Vinícius Costa Lage

Doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), membro do Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes (FULIA), da UFMG, e do Grupo de Estudos e Pesquisa Memória FC.

Como citar

MARCOLAN, Letícia; LAGE, Marcus Vinícius Costa. Era uma vez… um clube grande (VI): “a grandeza vascaína à margem”. Ludopédio, São Paulo, v. 145, n. 22, 2021.
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