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Espaço, uma abordagem holandesa

Espaço, um conceito geográfico

O espaço (ou espaço geográfico), é um conceito chave para a geografia, desde sua institucionalização como disciplina universitária em meados dos anos 1870. Afinal de contas, a geografia se constituiu como “a ciência que estuda todos os fenômenos organizados espacialmente” (CORRÊA, 2020), se diferenciando da história, que é a ciência que estuda os fenômenos a partir da dimensão temporal.

Existem diferentes escolas de pensamento geográfico, todas com seus próprios pensadores e concepções sobre o espaço. Nesse texto, me baseio na Geografia Crítica, que tem em Milton Santos um de seus principais expoentes.

Para o filósofo urbano Henri Lefebvre, o espaço está diretamente relacionado à reprodução de relações sociais de produção. Com base nessa concepção do filósofo francês, a partir dos anos 1970, geógrafos passaram a adotar o materialismo histórico e dialético como modelo. Para eles, “o espaço é concebido como locus de reprodução das relações sociais de produção, isto é, produção da sociedade” (CORRÊA, 2020).

Para o geógrafo brasileiro Milton Santos, o espaço geográfico é compreendido como a “acumulação desigual de tempos” (SANTOS, 2014), pois dificilmente se encontrará lugares nele que foram concebidos simultaneamente. Ele é resultado de uma associação que se desfaz e se renova constantemente, entre uma sociedade em contínuo movimento e uma paisagem em eterna evolução. Assim sendo, o espaço geográfico é um acúmulo de objetos que são obrigados a conviver juntos.

Biografia de Milton Santos é apresentada em evento no Sesc – Jornal da USP
Professor Milton Santos, um dos maiores pensadores da Geografia Crítica. Foto: Reprodução Jornal da USP.

Espaço, uma abordagem holandesa

A Holanda é um país relativamente pequeno, tem uma extensão de aproximadamente 41.528 km², sendo 7.645 km² completamente submersos por água. 30% do território neerlandês se encontra abaixo do nível do mar, área habitada por 60% da sociedade. Com uma população estimada em 17.7 milhões de habitantes, é dono de uma das maiores densidades populacionais do mundo (423 hab/km², 16º do mundo). Dessa forma, a expansão territorial dos Países Baixos só foi possível por conta da subordinação da natureza às tecnologias de engenharia, à organização do território e à cooperação comunitária.

A relação entre Estado e mercado e os resultantes conflitos causados pelos interesses coletivos e privados tiveram de ser devidamente solucionados durante história do país, uma vez que o controle da natureza exigiu um alto grau de organização e presença do poder público, enquanto, por outro lado, essas mesmas características naturais permitiram com que os Países Baixos se tornassem mercadores por excelência.

Amsterdã
Plano de expansão de Amsterdã de 1934. Imagem: Reprodução Arquiscopio.

Nesse cenário, o domínio das técnicas de engenharia e navegação se tornaram imprescindíveis para a sobrevivência do país e, ao mesmo tempo, proporcionou a expansão marítima e colonial que transformou a Holanda em uma das principais potências econômicas do mundo já no século XVI.

A forma como se deu a organização territorial e a solução de questões fundiárias foram reflexo do controle estatal de um lado e os interesses mercantis do outro. Os aterros de áreas submersas se iniciaram durante o século XVI sob tutela e planejamento do Estado, com o surgimento das primeiras leis de desapropriação.

Desde essa época, o controle da organização do território do país é visto pela sociedade holandesa como uma maneira de minimizar os efeitos negativos de interesses individuais e maximizar os benefícios que resultam do processo de produção do espaço.

Futebol Total, uma concepção de espaço

O termo “Totaalvoetbal” (Futebol Total) foi criado após a fantástica performance neerlandesa na Copa do Mundo de 1974, no entanto, o prefixo “totaal” já era há muito utilizado em outras áreas do conhecimento na sociedade holandesa. O arquiteto Jacob Berend Bakema escreveu para a revista Forum falando sobre “urbanização total”, “ambiente total” e “energia total”, para ele se temos como objetivo compreender as coisas em sua plenitude, é necessário primeiro entender a relação estabelecida entre elas. Outro arquiteto, dessa vez estruturalista, Aldo van Eyck, escreveu: “todos os sistemas deveriam ser familiarizados uns com os outros, de forma que a combinação de suas interações e impactos possa ser apreciada como um único sistema complexo”. Ambos estavam falando única e exclusivamente de arquitetura, no entanto, suas palavras poderiam facilmente ser utilizadas para descrever o futebol do Ajax e seleção holandesa de Rinus Michels, Johan Cruijff e companhia (PEREIRA, 2018).

Como vimos anteriormente, os Países Baixos são um país devoto ao conceito de uso inteligente do espaço. Em seu livro, Brilliant Orange, David Winner explica o Futebol Total: “o Futebol Total foi construído a partir de uma teoria de espaço flexível. Assim como Cornelis Lely havia concebido e executado a ideia de criar novos espaços habitáveis no século X, Rinus Michels e Johan Cruyff exploraram a capacidade de uma nova safra de jogadores para modificar as dimensões de um campo de futebol”.

Rinus Michels Johan Cruijff
Rinus Michels e Johan Cruijff, os dois principais pensadores do Futebol Total. Foto: Reprodução redes sociais
Rinus Michels Johan Cruijff
Rinus Michels (ao centro) e Johan Cruijff (à direita), os dois principais pensadores do Futebol Total. Foto: Wikipédia

As ideias foram trazidas por Rinus Michels e Cruijff que, como só ele conseguiria, transformou-as em poesias dentro de campo. Johan explicitava a importância do espaço em dois momentos distintos: com e sem a posse da bola. Ele afirmou que Michels mudou para sempre a sua forma de ver e entender o jogo. “Quando tem a bola, você deve abrir o maior espaço possível. Quando perde a bola, precisa minimizar o espaço do seu adversário. Na verdade, tudo no futebol está relacionado às distâncias” (COX, 2022). Dessa forma, isso se tornou o mantra na mentalidade de jogo holandês: tudo é planejado a partir do posicionamento dos atletas e da formação assumida pelo time no relvado.

Existem múltiplas escolas de pensamento do futebol, algumas dão ênfase em características específicas dos jogadores (força, velocidade etc), algumas em situações específicas (duelos aéreos, contra ataques etc.) e outras apenas se importam com o que fazer com a bola. No entanto, a partir do Futebol Total, a escola holandesa passou a se basear pesadamente na ocupação dos espaços.

Os ideais holandeses no tocante a organização dos espaços urbanos influenciou a mentalidade da sociedade como um todo, transcendendo até chegar aos campos de futebol com o Futebol Total de Rinus Michels e Johan Cruijff.

Referências

COX, Michael. Entre Linhas: de Ajax a Zidane, a construção do futebol moderno nos gramados da Europa. Campinas: Grande Área, 2022.

CORRÊA, Roberto Lobato. Espaço, um conceito chave da geografia. In: CASTRO, Iná Elias de; GOMES, Paulos Cesar da Costa; CORRÊA, Roberto Lobato (org.). Geografia: Conceitos e Temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2020. p. 15–47.

NOBRE, Eduardo Alberto Cusce. “Deus criou o mundo, mas os holandeses fizeram a Holanda”: a política urbana holandesa e os impactos recentes da globalizaçãoRevista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, São Paulo, v. 16, n. 2, p. 137, 30 nov. 2014. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais (RBEUR).

PEREIRA, Miguel Lourenço. Noites Europeias: 120 anos de história das competições de clubes da Europa. Petrópolis: Corner, 2018.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. 4. ed. São Paulo: Edusp, 2014.

WILSON, Jonathan. A Pirâmide Invertida: a história da tática no futebol. Campinas: Grande Área, 2016.

WINNER, David. Brilliant Orange: The Neurotic Genius of Dutch Football. London: Bloomsbury Publishing PLC, 2012.

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João Luiz

Graduando em geografia pela Universidade Estadual de Campinas. Campineiro. Santista.

Como citar

SANTOS, João Luiz Aguiar Giordan. Espaço, uma abordagem holandesa. Ludopédio, São Paulo, v. 155, n. 19, 2022.
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