150.11

Esquece o jogo

Arnon Manhães 8 de dezembro de 2021

Há um bocado de tempo atrás, ocorreu-me um fato curioso, para não dizer sobrenatural, desses que justificam a crônica de qualquer natureza. Encontrava-me em um velho estádio subdesenvolvido e dependente, frente a frente com uma partida de mata-mata válida por um campeonato situado na periferia do sistema. Para não me acusarem de vira-latismo ou coisa pior, ratifico que torço pelo time que ia a campo, o time da casa, eu e outros não muitos que, como bons dependentes, subdesenvolvidos e periféricos, mantínhamo-nos tensos e desconfiados diante das possíveis consequências dos fatos que ali se apresentariam, um estado de espírito que se expressava francamente nos temas dos burburinhos prévios que assolavam o alambrado: as inconstâncias do lateral direito, a dependência química do ponta esquerda, a confusão tática do treinador, a consideração estratégica pela disputa de pênaltis…

A partida começou com o adversário ditando o ritmo e nos controlando por completo. Contra isso, nada podia fazer a harmonia dos nossos surdos e metais, que atravessava despercebida na atmosfera dominante das expectativas decrescentes. A tensão e a desconfiança, características de nossa condição precedente ao apito inicial, converteram-se na mais plena inércia perante tal estado de coisas. Não há consequência mais instintiva do que a mais aguda paralisia por não ter a bola nos pés em uma partida como essa. A propriedade sobre a bola significa, dentre tantas outras coisas, a possibilidade iminente do chute rasteiro, a pior das artimanhas dos futebóis que ocupam o nosso grau de desenvolvimento material, e o seu contraditório, a não-propriedade, significa justamente a sujeição alienada a tal dispositivo de horror.

Com as condições infraestruturais de que dispomos, um chute rasteiro incapacita qualquer envergadura europeia de se impor à frente do jovem carpinteiro capixaba que ali fazia as vezes de camisa 9. Aqui, de nada servem as virtudes técnicas da boa batida na bola e de sua consequente trajetória estética, de modo que tudo se resume ao momento em que ela alcança o declive correto e acaba por consagrar o gol, nossa finalidade objetiva maior, como fruto de um artifício melindroso de pura enganação e sacanagem. Se isto segue as normas da boa prática do esporte, pouco nos importa, pois, para usar uma expressão aclamada pelos estudiosos de gabinete, eis a nossa formação sui generis e nada mais importa. A partida seguiu com nós amarrados e, entre um e outro sonoro alívio da arquibancada, eis que um camarada da torcida, desses que ditavam o fracassado ritmo dos surdos e metais, deu de costas para o campo e com os dedos em riste esbravejou contra seu povo inerte: canta, caralho, esquece o jogo!

À princípio, aquilo se revelou para mim como uma baita duma insensatez, duma violência sem tamanho, e muitos outros camaradas também se desconfortaram. Como poderíamos nós, na condição de público pagante e espectador, abrirmos mão de nosso brioso propósito competitivo, de nossa rigorosa atenção pelo dever de conquistar o tão estimado troféu? Demorei para perceber, todavia, que a ofensa trazia consigo intenções das mais belas. Demorei para perceber que naquele curto espaço de tempo estabelecemos contato com um velho espírito, há muito exaltado e agora perseguido, que ali se revelava montado em sandálias havaianas. Sua afronta, tão firme quanto a força que pretende combater, remete-nos a algumas verdades sobre o fenômeno do futebol em nossas fronteiras. Acredito que a verdade se encontra na história e foi nela que encontrei melhores definições para esse espírito em resistência. Lembrei-me das imagens de que dispomos do extinto Maracanã, o velho palco em que se via tudo e nada ao mesmo tempo. Nele, apenas parte do público era capaz de enxergar com clareza as silhuetas de um Zico ou de um Dinamite em movimento, mas todos sabiam que elas existiam e ali se encontravam, vibrantes e atuantes.

Maracanã
Foto: reprodução redes sociais

Em parte, suponho que a experiência de toda uma comunidade, a dos mitológicos geraldinos, definia-se pelo imperativo estrutural do esquecimento do jogo, um esquecimento de força maior, um esquecimento heterônomo implicado pelo próprio estádio que os abrigava e que lhes barrava o contato visual mais direto com as ocorrências vivas do campo. Entretanto, por mais insistentes que fossem, toda sorte de constrangimentos pareciam não ter páreo diante da euforia geraldina por coincidir em tempo e espaço com um Vasco e Flamengo junto a tantos outros que vibravam e festejavam com a graça de viver momento tão singular, apesar dos tantos pesares. Ali, naquele tempo e espaço, o futebol adquiria máxima independência das ocorrências inacessíveis do jogo jogado e suas partidas, muito além de um evento protocolar, carregavam consigo a potência de um marco histórico.

Hoje, do mesmo Maracanã a que me refiro, ainda se vê tudo e nada ao mesmo tempo, com a diferença de que os impedimentos estruturais se dizem resolvidos pelo moderno revestimento que o teria lançado direto ao panteão das arenas globais e de sua respectiva alta cultura teatral. Nem mesmo o Cristo, o último dos geraldinos, um geraldino solitário por assim dizer, foi poupado do martírio acometido, pois teve sua visão do gramado obstruída pela marquise da nova arena, numa clara manobra para levar ao cliente a experiência de estar em qualquer outro lugar do mundo, como Munique ou Paris, que não seja o Rio de Janeiro. Além, é claro, da ofensa ao apreço futebolístico do divino… os/as engenheiros/as que se resolvam com ele depois.

Ora, voltando aos geraldinos, se nada lhes sequestrava a liberdade de festejar o acontecimento futebolístico, tão mais complexo do que o mero jogo em si, por que haveríamos de nos comprometer tão penosamente com as inconstâncias de nosso lateral direito? Tomei ciência, afinal, de que levar a sério o apelo feito pelo espírito do esquecimento do jogo pode nos ser muito favorável. Do seu fundamento de verdade, segundo o qual o futebol não se resume aos desdobramentos atléticos do evento esportivo, transborda um princípio libertador, isso porque retiramos do princípio do esquecimento do jogo uma relação mais honesta, sincera e, por que não, menos torturante com os caminhos que a bola traça em campo. Hoje, ao esboçar estas linhas, passei a não mais considerar o quanto sofri com os cruzamentos do lateral ou com as más coberturas do ponta adicto. Sei que vencemos e que terminamos campeões, para a alegria de toda uma gente: torcedores/as, jogadores, familiares, dirigentes, patrocinadores e afins. Para esse espírito a que me refiro e em nome do qual agora falo, seu bem mais valioso, tão singelo quanto si próprio, foi a oportunidade de brotar em todas as partidas que o campeonato tornava possível… e de festejar por isso.

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Como citar

MANHãES, Arnon. Esquece o jogo. Ludopédio, São Paulo, v. 150, n. 11, 2021.
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