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Esse coqueiro que dá coco III

Manuel Soriano 30 de abril de 2022

Não é só de lá pra cá. O Brasil, com sua música e ritmo, também influencia a forma como os outros sul-americanos torcem. Manuel Soriano, escritor argentino residente em Montevidéu, se dedicou a investigar origem e influência cultural brasileira na forma de… hinchar

Esse coqueiro que dá coco III

10. Os Amantes

Tinha pensado em fechar essa lista porque, na verdade, já estava um pouco cansado. Além do mais, já se parece um desses potes de maionese onde sempre parece que dá pra tirar um pouquinho mais. Se concluirmos que a lista é inesgotável, não seria tão grave fechá-la por aqui. Mas antes disso eu vou citar duas canções que me mandou Martín Giardelli, um expert em músicas e torcedor do River.

“Os Amantes”, uma balada de Luiz Ayrão de 1977, tem uma versão de Maria Marta Serra Lima chamada “Ay amor“. Cualquier día / cualquier hora / en cualquier lugar / nos vemos tu y yo / para hablar de amor. Fala sobre uma história de amor passado e perdido. A versão de arquibancada se baseia no refrão.

Esta es tu hinchada la que tiene aguante

La que te sigue siempre a todas partes

Y la que nunca te va a abandonar

É uma história de amor presente e incondicional e, entretanto, consegue resguardar a emoção intensa da canção original.

Lee Jackson é uma banda brasileira dos anos setenta que cantava em idioma inglês sem fazer nenhum esforço para dar um toque nacional à própria obra. Em 1972 lançaram “Hey Girl“, um sucesso tremendo, especialmente na Argentina.

A canção começa com uns arranjos de guitarra desavergonhadamente parecidos à banda Creedence, e quando entra a voz é possível cantar por cima (não tão fácil porque o tempo está alterado): “dale, dale X“.

Leia o segundo episódio da série especial “Esse coqueiro que dá coco”

11. Charlie Brown

Acabo de receber um email de uma pessoa chamada Julio Quattrucci Junior que se diz manager de Benito di Paula. Ele me conta que Benito não sabia sobre a música ter sido utilizada pelas torcidas argentinas e que está muito emocionado. Ele também me encaminha algumas palavras da parte de Benito:

“É muito gratificante para um artista ver sua música cruzar fronteiras e conquistar massas. À toda nação Argentina, que assim como os Brasileiros são amantes do futebol arte, muito obrigado! Que o nosso querido Charlie Brown ainda possa embalar muitos gols e vitórias, no grito apaixonado de seus torcedores, independente do seu time do coração.”

Leia o primeiro episódio da série especial “Esse coqueiro que dá coco”

Eu terminei de escrever essa crônica algumas semanas antes da Copa do Mundo da Rússia. Revisei tudo alguns meses depois de terminado o Mundial. As músicas da torcida argentina não foram muito melhores que o time. Não houve que chegasse perto de ser um hit, nem mesmo com a ajuda das redes sociais foi possível popularizar uma canção.

Naquela hora, pensei que pudesse aproveitar essa viagem pelas músicas brasileiras e a mensagem fraterna de Benito (diz que somos amantes do futebol arte!) para me “desruggerizar” um pouco e assistir a Copa de uma perspectiva mais elevada. Mas a verdade, e é um pouco triste admitir isso, é que Eden Hazard, pela forma e como fez, foi sem sombra de dúvidas o jogador que eu mais desfrutei neste Mundial.

Por quem será que torceu, neste jogo, o belga de bigodes de Two Man Sound? Pelo país onde nasceu ou pelo que o tornou milionário? É difícil saber. Isso não é algo que possa controlar à vontade.


Essa crônica é parte do livro “Canten, puntos! Historia incompleta de los cantitos de cancha” que foi publicado, na Argentina, pela editora Gourmet Musical.


Puntero Izquierdo menorPublicado originalmente no Puntero Izquierdo em 2020. O Puntero em parceria com o Ludopédio publica nesse espaço os textos originalmente divulgados em sua página do Medium.

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Como citar

SORIANO, Manuel. Esse coqueiro que dá coco III. Ludopédio, São Paulo, v. 154, n. 39, 2022.
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