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Estádio San Siro: impacto urbano e consequências de uma possível demolição

Mariana Vantine de Lara Villela 25 de julho de 2022

A história de um estádio e um bairro

O estádio Giuseppe Meazza, mais conhecido como San Siro – nome do bairro que o abriga na cidade de Milão – , pode estar com os seus dias contados. O palco de memoráveis disputas entre grandes clubes e entre seleções, incluindo a Copa do Mundo de 1990, tem seu futuro incerto, e vem suscitando um debate acerca do assunto. A sua possível demolição, não coloca em questão uma temática puramente sobre futebol, mas também quanto a uma configuração urbana que diz respeito a muitos problemas do sistema capitalista no qual estamos inseridos.

Em 1925, o local começava a configurar um reduto esportivo, principalmente pela construção do hipódromo, e o futebol paralelamente, conquistava um espaço maior na sociedade. No mesmo ano, o então presidente do AC Milan, Piero Pirelli, solicitou a construção do estádio. Projetado pelo notório arquiteto Ulisse Stacchini – responsável também pela estação central de Milão- em conjunto ao engenheiro Alberto Cugini, a obra foi inspirada no modelo inglês e representava uma resposta a construções mais simplificadas e prudentes de outros locais na Itália da época, como por exemplo os que mantinham o público afastado do campo e continham a arquitetura no estilo do regime fascista. Um amistoso entre Milan e Inter, no dia 19 de setembro do ano seguinte, inaugurou oficialmente o estádio San Siro.

O desenvolvimento do bairro, no entanto, pode ser considerado a partir de 1934, onde em uma área periférica e semi rural, surgiam sucessivamente – até aproximadamente 1952- construções de materiais com qualidade escassa e soluções mais econômicas. Era nesse período também, que o futebol alcançava uma intensa massificação, se integrando cada vez mais na cultura local. Em tal contexto, no ano de 1935, o estádio que pertencia somente ao clube rubro-negro da cidade, é adquirido pela prefeitura, que logo providencia a sua primeira reforma para aumentar a capacidade, e se tornar mais condizente ao fenômeno que o esporte se tornou.

Anos depois, o país veio a sediar uma Copa do Mundo, e para isso, em 1990 foi concluída sua última grande reforma, dando origem ao terceiro anel, que ampliou a capacidade do estádio para 85.700, além da construção de uma cobertura que abrange todos os lugares da arquibancada. Durante a década que se seguiu, foi notada uma mudança na população do bairro segundo estudos da urbanista Liliana Padovani. A partir desse momento, se percebe três perfis de habitantes: idosos de maioria italiana residentes há muitos anos; estrangeiros provenientes sobretudo do Egito, Marrocos e Filipinas; e cidadãos que se mudaram devido a crise econômica e fragilidade social.

San Siro
Foto: Wikipédia

San Siro hoje e seu possível destino

Atualmente, ao mesmo tempo que o local abriga um número considerável de apartamentos vazios, ocupações, e sinais da falta de serviços públicos essenciais, ele está mais próximo do centro da cidade. Isso ocorre porque, com a conclusão do projeto de revitalização da zona vizinha em 2015, surge o City Life, complexo que abriga três torres destinadas a escritórios e condomínios de luxo.

O estádio Giuseppe Meazza ocupa então, no presente, uma área urbana muito estratégica que divide duas realidades socioeconômicas distintas. Quais interesses, e o mais importante, a quem serviria a demolição e reformulação da área?

A construção de um novo estádio no local, vem de uma premissa já conhecida no mundo esportivo: a necessidade de reforma devido a estruturas velhas que podem oferecer perigo, e que por consequência seria mais custoso do que construir um novo. Somado a isso, surge o argumento da oportunidade de introduzir ali um novo espaço de lazer, revitalizando e melhorando a qualidade de vida que hoje é precária no bairro. Contudo, existe uma contradição nessa justificativa, que se refere ao fato de nunca haver sido sinalizada vontade por parte do estado de prover melhores condições aquela população local, ainda que houvessem estudos e mapeamentos apontando espaços espalhados no bairro que poderiam ser melhor aproveitados. 

Desse modo, o projeto de revitalização do bairro vem acompanhado de um medo. Se teme que, um novo estádio San Siro sirva na verdade para aproximar de vez o complexo esportivo do centro milanês, eliminando uma barreira que consiste na existência de uma população marginalizada entre os dois, e resultando na gentrificação da área.

Movimentos sociais questionam esse projeto, sobretudo o comitê de habitantes de San Siro, levando ao atraso do início das obras, afinal o debate público ainda é uma etapa a ser superada para que comece enfim a demolição. No fim, assistimos novamente a uma disputa que vai além do valor afetivo de um estádio de futebol, e diz sobre o que entendemos como cidade e o que queremos dela. E quando o debate toca nesse ponto, todos deveriam ter em mente a citação de  David Harvey, que diz: “cidades são para pessoas, não para o capital”. 

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Mariana Vantine

Pesquisadora de Futebol e Políticas Econômicas. Membro do coletivo internacional Football Collective.

Como citar

VILLELA, Mariana Vantine de Lara. Estádio San Siro: impacto urbano e consequências de uma possível demolição. Ludopédio, São Paulo, v. 157, n. 26, 2022.
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