105.1

O eterno interino

José Paulo Florenzano 1 de março de 2018

Sair da área exígua delimitada pelas relações de poder, romper a linha de cor traçada pelo racismo e ascender à direção técnica do grande time, exigia do comandante negro a vontade inquebrantável de superar tais barreiras, bem como contar com a sorte e agarrar as oportunidades que surgiam, quase sempre em condições adversas, como a do Botafogo no transcorrer da disputa do Campeonato Brasileiro de 1972.

De fato, para avaliarmos a gravidade da situação do time de General Severiano, basta dizer que a imprensa da então Guanabara o rotulava como a “vergonha do futebol carioca”. As críticas incidiam sobre os atletas, acusados de “indisciplinados, irresponsáveis, arruaceiros”, e respingavam no treinador, Tim, condenado por perder o controle do grupo e demitido em função dos resultados negativos, os quais tornavam iminente a desclassificação da equipe na competição, àquela altura dada como “certa”.

Pois bem, foi nesse cenário de caos e descrença, em meio às suspeitas a respeito da capacidade técnica e do comportamento moral do elenco, bem como da crise de autoridade do treinador, que a diretoria do alvinegro decidiu entregar o time aos cuidados do auxiliar técnico, Sebastião Leônidas: “Uma escolha feita sem muita convicção”, salientava a matéria de O Estado de S. Paulo, mas que provara ser “a única capaz de arrumar o Botafogo”. [1] Já a cobertura do Jornal do Brasil adotava um enfoque diverso, ressaltando que a escolha do novo técnico se afigurava “lógica e natural”, à medida que se enquadrava na categoria da “solução caseira”, antiga tradição do clube da Estrela Solitária, ilustrada pelas trajetórias de João Saldanha, Paulo Amaral e Mario Zagalo.[2] A naturalidade que o periódico carioca atribuía à troca na direção técnica, no entanto, ocultava as tensões e conflitos presentes no episódio. Rudolph Fischer, o atacante argentino do Botafogo, não escondia de ninguém sua posição a respeito do novo técnico: “Não aceito ordens de um negro”.[3] Na imprensa carioca, recordava o próprio Sebastião Leônidas, muitos o viam como “um homem sem condições de comando”.[4] A solução, ao contrário do que sugeria a reportagem do Jornal do Brasil, estava muito longe de ser “lógica e natural”.

Considerado um “jogador clássico”, dotado de técnica “impecável”, Sebastião Leônidas chegara a General Severiano em meados dos anos sessenta, contratado junto ao América do Rio de Janeiro, clube que, por sua vez, o havia contratado ao América de Minas Gerais onde iniciara a carreira. Bicampeão carioca com o Botafogo, em 1967 e 1968, foi convocado para a Seleção Brasileira em 1970, sendo cortado no período de preparação em virtude dos problemas físicos que lhe abreviaram a trajetória, encerrada, afinal, no ano seguinte. Ato contínuo, o antigo zagueiro foi contratado pelo Botafogo para exercer a função de auxiliar técnico. Com a queda do treinador Tim, selada no início de outubro de 1972, ele obtinha a oportunidade de ocupar o cargo deixado vago. Pouco a pouco, Sebastião Leônidas foi restituindo à Estrela Solitária a confiança perdida e a calma necessária para voltar a brilhar nos gramados:

Para favorecer o velho amigo e ex-companheiro, para ajudá-lo a se firmar na posição – que ocupa até hoje apenas provisoriamente – os jogadores se transformaram.[5]

A transformação passava pelo caráter democrático da liderança exercida pelo comandante negro. Descontente com o recurso repetido e inócuo do “chuveirinho”, jogada que havia se tornado “um vício”, Sebastião Leônidas reuniu o elenco e promoveu um debate sobre a necessidade de recolocar a bola no chão, de sorte a resgatar o estilo de jogo da equipe, baseado na troca de passes. “Os jogadores ficaram satisfeitos já que há muito não tinham diálogo e quase todos falaram, opinando sobre a conduta do time”.[6] As contusões dos principais nomes do grupo: Roberto, Zequinha e Jairzinho, os salários atrasados do elenco e o problema contratual de Nei Conceição, figura-chave do meio de campo, constituíam, no entanto, um duro obstáculo para o trabalho de recuperação da confiança do Botafogo. Um mês após assumir o cargo, o Jornal do Brasil considerava ameaçada a classificação, mercê da “melancólica campanha” no Campeonato Brasileiro.[7] O ponto de inflexão, não resta duvida, chegaria numa quarta-feira à noite, no Maracanã, no clássico contra o Flamengo, a histórica goleada de 6 a 0, com direito a gol de letra de Jairzinho.[8]

Fio
Sebastião Leônidas quando era zagueiro do Botafogo. Foto: Última Hora/Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Não é difícil imaginarmos o clima de euforia instaurado nos vestiários do Botafogo, invadido por jornalistas, dirigentes e torcedores em estado de êxtase. “A um canto”, porém, “quase sem ser percebido e muito menos solicitado, um negro alto, com um sorriso tímido, observava tudo”. Tratava-se de Sebastião Leônidas, que “saiu sem ser notado, assim como quando assumiu a direção do time”.[9] A cena simbolizava aos olhos da crônica esportiva a figura discreta do treinador alvinegro. Ele era caracterizado como um “crioulo de fala mansa”, dotado de “poucas teorias”, cujo principal traço de comportamento residia na “humildade”. Em síntese: o “bom negro”.[10] Esta identidade era evocada de forma obsessiva nas matérias que lhe eram dedicadas a fim de realçar a “liderança pacífica” que ele exercia, situando-o na condição do “antichefe”. Somente assim, isto é, como um “chefe” desprovido do exercício do poder e despojado do atributo intelectual, autorizava-se a presença do comandante negro em um lugar reservado ao treinador branco.

No entanto, exercendo o cargo com a discrição exigida pelo discurso de poder, restabelecendo a troca de passes na equipe, e assegurando aos atletas o direito de opinião, Sebastião Leônidas trouxe de volta a confiança perdida, conduzindo o Botafogo à decisão do título do Campeonato Brasileiro contra o Palmeiras, em dezembro, no Morumbi.[11]

Sem dúvida, uma reviravolta surpreendente, que nem o mais otimista e crédulo torcedor do alvinegro carioca esperava presenciar. Ela agora exigia uma explicação e a imprensa se dedicava em fornecê-la aos leitores. A metamorfose pela qual passara o time, desdobrando-se em campo, debatendo-se pela vitória, acumulando pontos, devia-se à figura de Sebastião Leônidas, cuja escolha para o cargo de treinador traduzira uma “antiga reivindicação” dos atletas.[12] Com ele no comando o elenco do Botafogo chegara às finais “por amizade” ao antigo companheiro.[13]

Temos, assim, mais uma variável a ser considerada na trama complexa envolvendo o destino do técnico negro no futebol brasileiro. Todavia, se as relações de amizade obviamente não esgotam a análise da questão em tela, ajudam-nos, no entanto, a compreender melhor a margem de ação que os sujeitos coletivos possuem para combater os preconceitos raciais, contornar as práticas discriminatórias e instaurar relações mais democráticas na esfera do futebol, porquanto restritas muitas vezes a uma determinada e solitária equipe, a qual, de resto, achava-se enquadrada pelas estruturas de poder mais abrangentes como revelava a sequência dos acontecimentos no clube de General Severiano.

Pois, mesmo levando o alvinegro ao vice-campeonato Brasileiro, não obstante tê-lo classificado para a disputa da Taça Libertadores da América, Sebastião Leônidas permanecera sempre na condição de “tapa-buraco”, conforme o termo utilizado pela revista Placar.[14] De fato, o revés dentro de campo determinara o fim da interinidade, admitia Sebastião Leônidas: “Sai porque disputei quatro títulos e não ganhei nenhum”. [15] Ele aludia, além dos dois torneios acima mencionados, à Taça Guanabara e ao segundo turno do Campeonato Carioca. Contudo, se a pressão decorrente dos resultados negativos torna compreensível, embora não necessariamente justificável, a demissão do treinador, o fato dele não encontrar a chance de prosseguir na profissão em outro clube de expressão nacional, constitui um mistério aparentemente impenetrável.

Com efeito, por que razão, após realizar um trabalho convincente em um grande time, o técnico negro quase sempre regredia na carreira, quer reassumindo as categorias de base do clube que o projetara, quer dirigindo uma esquadra pequena que o condenava ao ostracismo? Quais mecanismos impediam-no de trilhar o caminho da mobilidade vertical, de ascender e se firmar no exercício da profissão, pleiteando, por exemplo, o cargo de treinador da Seleção Brasileira? São estas as questões que abordaremos no próximo artigo, o último da série sobre o comandante negro.

[1] Cf. “Da indisciplina à grande decisão”, O Estado de S. Paulo, 23 de dezembro de 1972.

[2] Cf. “Novo técnico já estava preparado para assumir”, Jornal do Brasil, 4 de outubro de 1972.

[3] Cf. “Um crioulo muito digno”, revista Placar, nº 176, 27 de julho de 1973. Rudolph Fischer era atacante do San Lorenzo, e da Seleção Argentina, tinha sido contratado por indicação do técnico Tim. O Globo registraria posteriormente uma declaração bem diversa de Fischer sobre o técnico negro: “Leônidas é uma das pessoas mais leais que encontrei na vida”. Cf. “Fischer: a lição de responsabilidade”, 4 de novembro de 1972.

[4] Cf. “Leônidas acha que a união fez renascer velho estilo”, Jornal do Brasil, 17 de novembro de 1972.

[5] Cf. “Da indisciplina à grande decisão”, O Estado de S. Paulo, 23 de dezembro de 1972.

[6] Cf. “Leônidas não quer cruzamentos sobre a área”, Jornal do Brasil, 18 de outubro de 1972.

[7] “Botafogo perde de novo, é uma rotina”, Jornal do Brasil, 8 de novembro de 1972.

[8] Cf. Botafogo vence de 6 e deixa Fla em má posição”, Jornal do Brasil, 16 de novembro de 1972.

[9] Cf. “Leônidas, a humildade do aluno aplicado”, Jornal do Brasil, 16 de novembro de 1972.

[10] Cf. “Um crioulo muito digno”, revista Placar, nº 176, 27 de julho de 1973. “Sebastião Leônidas”, revista Placar, nº147, 5 de janeiro de 1973. Cf. “O Ajax que se cuide”, revista Placar, nº 160, 6 de abril de 1973.

[11] O título foi decidido em partida única, realizada em São Paulo, devido à pontuação obtida pelo Palmeiras, primeiro colocado na classificação geral.

[12] Cf. “Jogadores ficaram alegres com mudança”, Jornal do Brasil, 4 de outubro de 1972.

[13] Cf. “Da indisciplina à grande decisão”, O Estado de S. Paulo, 23 de dezembro de 1972. Ver, também, a reportagem “Esforço por Leônidas”, Jornal do Brasil, 15 de outubro de 1972.

[14] Cf. “Sebastião Leônidas”, revista Placar, nº 471, 5 de janeiro de 1973.

[15] Cf. “Um crioulo muito digno”, revista Placar, nº 176, 27 de julho de 1973.

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José Paulo Florenzano

Possui graduação em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1994), mestrado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (1997), doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (2003), e pós-doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Doutorado do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2012). Atualmente é coordenador do curso de Ciências Sociais e professor do departamento de antropologia da PUC-SP, membro do Conselho Consultivo, do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, em São Paulo, membro do Conselho Editorial das Edições Ludens, do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre o Futebol e Modalidades Lúdicas, da Universidade de São Paulo, e participa do Grupo de Estudos de Práticas Culturais Contemporâneas (GEPRACC), do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Tem experiência na área de Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia Urbana, Sociologia do Esporte e História Política do Futebol, campo interdisciplinar no qual analisa a trajetória dos jogadores rebeldes, o desenvolvimento das práticas de liberdade, a significação cultural dos times da diáspora.

Como citar

FLORENZANO, José Paulo. O eterno interino. Ludopédio, São Paulo, v. 105, n. 1, 2018.
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