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Fernando Antunes Coimbra: o primeiro jogador brasileiro anistiado

“Política e futebol não se misturam”. Essa é uma frase que ecoa inclusive no meio esportivo e é repetida a esmo como uma verdade absoluta na tentativa de impedir o debate sobre a sociedade brasileira por intermédio desses dois pilares da vida pública. Porém, a verdade é que esses dois conceitos são indissociáveis.

Muitos políticos brasileiros usaram a “alienação” do esporte para maquiar os vários problemas existentes no país. Basta pesquisar como a Copa de 1970 foi publicizada para esconder o que os militares faziam nos porões da ditadura.

Quando expandimos a pesquisa para o cenário mundial, exemplos não faltam para demonstrar as intersecções entre política e futebol e quanto o esporte já foi usado politicamente para os mais diversos fins. Ou seja, o futebol é um braço da política ou vice e versa.

Quem viveu o período da Ditadura Militar Brasileira (1964-85) sofreu na pele como política e futebol fizeram uma mistura igual a café e leite. Infelizmente, não foram as melhores lembranças. Foi o caso de Fernando Antunes Coimbra, o Nando – irmão de Zico. Ele foi considerado o primeiro jogador anistiado pelo Estado brasileiro.

Começo de tudo

Nando veio de uma família de cinco irmãos e uma irmã. Todos jogaram bola e três deles se tornaram grandes jogadores e um está no patamar de ídolo brasileiro – como é o caso de Zico. Quando tinha 18 anos, estava no juvenil do Fluminense e resolveu se inscrever no concurso do Governo Federal para ser professor do Plano Nacional de Alfabetização (PNA), que consistia em alfabetizar os brasileiros usando o método de Paulo Freire. Ele conseguiu passar no programa ao mesmo tempo em que era aluno da Faculdade Nacional de Filosofia.

Com o golpe militar de 1964, e o educador Paulo Freire considerado subversivo – ao ponto deste se exilar no Chile -, o PNA foi extinto e muitos dos seus jovens professores foram demitidos, perseguidos e monitorados pelo regime militar.

Nando durante a homenagem do Ceará Sporting Club após sua anistia. Foto: Reprodução.

Porém, Fernando Coimbra já seguia os primeiros passos no esporte, ao ponto de ter sido revelado pelo Santos-ES – time que não existe mais. Começou a trilhar um caminho de sucesso no Espírito Santo, só que uma mudança na comissão técnica fez ele ser afastado e, posteriormente, dispensado. O novo treinador era um oficial do exército que conhecia a ficha de Nando.

Após a profissionalização, o jogador foi para o Rio atuar pelo América – no qual seu irmão Edu é ídolo -, e pelo Madureira. Em 1968, ele recebeu uma proposta do Ceará.

Com a camisa alvinegra, a sua habilidosa perna esquerda fez muito sucesso com os torcedores locais ao ponto de ganhar notoriedade pelo futebol praticado em terras cearenses, apesar de não bater campeão.

No ano seguinte, o Belenense, de Portugal, faz uma proposta irrecusável. Então, ele partiu para o velho continente. Mas lá teve uma surpresa desagradável. Integrantes da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), que era a principal tropa de choque do ditador português António Salazar, o interrogaram sobre seu histórico no Brasil. Com as ameaças reais da polícia portuguesa, Nando teve que deixar o país o mais rápido possível e voltar para o Rio de Janeiro.

Noite de Terror no DOPS

Já no Rio de Janeiro – que naquela época não tinha nada de cidade maravilhosa devido ao recrudescimento do regime – Fernando via seu irmão Edu ser um dos destaques do América, ao lado de Zeca Antunes – irmão mais velho – e Zico já brilhava no juvenil do Flamengo. As virtudes futebolísticas da família do bairro do Quintino já davam suas amostras dentro de campo. Fora dele, Fernando Coimbra passava por uma situação oposta. Pior, a mais temida para quem era tachado de subversivo.

No dia 30 de Agosto de 1970, Nando, Cecília – sua prima – e seu marido foram levados ao DOI-CODI (Órgão de Repressão na Ditadura). No temido espaço foi torturado e ficou detido por 48 horas, ouvindo os gritos dos estudantes ali presentes, dentre os quais de sua familiar, que fazia parte do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro).

Em entrevista à Revista Líbero, em 2017, Fernando relembrou o suplício daquele dia em 1970. “Passei pelo menos 48 horas com a cara na parede e as mãos na cabeça. Quando o braço descia de cansaço os soldados vinham com a baioneta e nos cutucavam, para erguermos o braço de novo”, relata o irmão de Zico.

Após esse pesadelo real, Nando foi solto. E todos os irmãos se surpreenderam com o modo que o ex-jogador ficou após dois dias no principal órgão de repressão militar. Em uma matéria especial do Esporte Espetacular, Zico comentou: “A única coisa que eu lembro desse episódio, foi no dia que o Nando chegou. Estava totalmente desfigurado. Ninguém reconhecia ele”, lembrou o maior ídolo do Flamengo.

Consequências

Apesar de todo esse embaraço político e social, Nando Antunes Coimbra não desistiu da carreira como jogador e tentou sua última cartada no futebol fora do país. Voltou para Portugal, atuou pelo Gil Vicente, devido às constantes contusões, principalmente distensões, somado ao fato de ter passado quase dois anos sem participar de um jogo e temendo maior repressão pelo seu modo de pensar, Nando resolveu encerrar a carreira precocemente e voltar para o Brasil. Em várias entrevistas, o ex-jogador comenta que a principal motivação foi para preservar a carreira dos irmãos.

Seu irmão Edu, foi artilheiro do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, com 14 gols, jogando pelo Alvirrubro carioca e foi considerado pela imprensa esportiva da época, em 1969, o melhor jogador sul-americano, desbancando Pelé e Tostão. No entanto, Edu Coimbra não foi para a Copa de 70.

Nando Antunes. Foto: Reprodução.

Seu irmão mais famoso, Zico, foi cortado da seleção olímpica de 1972, após ter sido essencial para a classificação do Brasil, no jogo contra a Argentina, em 1971, no pré olímpico que aconteceu em Bogotá. O Galinho de Quintino era o nome certo para os jogos Olímpicos de Munique. Mas não ficou na lista final.

Para Nando, o fato de ter sido preso, fichado e observado de perto pelo regime teve consequências negativas para seus dois irmãos mais famosos, como foi o caso de Edu e Zico, que deixaram de ser convocados para competições importantes.

Pós-Futebol

Em 1988, devido a promulgação da Constituição “Cidadã”, Fernando Antunes Coimbra conseguiu ser reintegrado ao serviço público, como professor. Em 2003, o ex jogador e professor iniciou um processo na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, sete anos depois foi considerado, pelo órgão, um perseguido político da ditadura. Com isso, tornou-se o primeiro jogador anistiado na história do futebol brasileiro.

Nando já foi pauta de muitas matérias sobre como a ditadura interferia na sociedade e se ramificou até mesmo no futebol. Sua sombria história pode ser lida no livro “Futebol e Ditadura”, do autor Antonio Pedroso Jr.

Esse fato corrobora com a ideia de que os dois principais pilares da malha social brasileira – futebol e política – andam de mãos dadas numa simbiose obrigatória.

De alguma forma, a política vai influenciar no futebol. Na ditadura militar brasileira, alguns jogadores sofreram com perseguições e até torturas, e o fato de ter o famoso sobrenome Antunes Coimbra não fez diferença para quem comandava o país naquela sombria época.


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Pedro Henrique Andrade Dias

Estudante de jornalismo, cinéfilo e amante de esportes

Como citar

DIAS, Pedro Henrique Andrade. Fernando Antunes Coimbra: o primeiro jogador brasileiro anistiado. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 24, 2020.
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