161.5

Figueirense Futebol Clube – entre as séries A e C

A tarde de 6 de abril de 2003, um domingo ensolarado, mas já com o ar mais frio de outono, marca em meu registro pessoal o retorno aos estádios de futebol, depois de duas décadas. Veio de meu irmão o convite para irmos ao Orlando Scarpelli, do Figueirense, para junto com amigos assistirmos à partida do time da casa contra o Corinthians Paulista. Era a segunda rodada do Campeonato Brasileiro e, depois de muita disputa, a peleja terminou em justa igualdade de 3 x 3.

Pouco antes de iniciar-se a partida, o capitão do Alvinegro do Estreito, Márcio Goiano, levantou a taça do certame estadual conquistado poucos dias antes. O jogador completava a sólida dupla de zaga com Cléber, o veterano que tivera grande destaque no Palmeiras e em outros clubes, tendo atuado, inclusive, pela seleção brasileira. No centro do ataque jogava Evair, destaque também do Palestra e vencedor da Libertadores com o Vasco, em 1997; na lateral-esquerda atuava um jovem que recém fora promovido das categorias de base, Filipe. No banco estava Junior, que cumprira a função de gerente de futebol e que viera para o campo para ser o treinador.

“Não é mole, não, o Filipe também é campeão”, bradava a Gaviões Alvinegros, principal organizada do Figueira, para saudar o garoto de 17 anos que puxou a fila de outros laterais-esquerdos de destaque que o sucederam no clube, como Michel Bastos e André Santos. Era Filipe Luís – que naquele tempo às vezes somava ao primeiro nome o sobrenome Karmirski –, ainda hoje um atleta atuando em bom nível no Flamengo, onde vai encerrando a excelente carreira desenvolvida em maior parte na Europa. A propósito, Junior – “É o Junior, é o Junior”, saudava a torcida – é o atual técnico, também no Rubro-negro Carioca, Dorival Junior.  

Filipe Luís é um marco daqueles anos de prosperidade do Figueirense, ele que antes de completar a segunda temporada pelo clube se transferiu para o Ajax de Amsterdã, onde não avançou muito, e logo depois para o Deportivo La Coruña, da Espanha, equipe em que iniciou seu caminho de sucesso naquele país. Seu ponto mais alto seria, no entanto, no Atlético de Madrid, sob a orientação de Diego Simeoni, quando se tornou um jogador mais completo, juntando capacidade técnica e leitura tática muito acimas da média.

O lateral não foi o único jogador que, já no final de sua formação, o clube de Florianópolis exportou para equipes europeias. O zagueiro Felipe Santana deixou a cidade para atuar no Borussia Dortmund, no qual ficou por sete anos, chegando a marcar um gol salvador para seu time nas quartas-de-final da Champions League de 2013; Roberto Firmino, depois de brilhar na campanha de acesso da Série B em 2010, foi para Hoffenheim, de onde depois partiria para formar uma das melhores versões do Liverpool de todos os tempos.

De uma equipe que preparava atletas e lucrava com eles, mesclando-os com bons jogadores – como o zagueiro Chicão, os meio-campistas Maicon e Rodrigo Souto, o goleiro Wilson, o atacante William (Bigode) – e veteranos em ação – a exemplo dos já citados Cléber e Evair, mas também Edmundo, Sérgio Manoel, César Prates e Marcos Assunção –, o Figueira foi definhando, caindo para a Série B e depois para a C, cujo torneio já disputou duas vezes e onde novamente estará em 2023. O último descenso foi em 2019, ano tão difícil quanto emblemático, quando os atletas realizaram uma greve em protesto contra o não pagamento de salários.

Estádio Orlando Scarpelli
Estádio Orlando Scarpelli. Fonte: Wikipédia

Administrações confusas, intentos econômicos malogrados, suspensão das categorias de base durante a pandemia do Covid-19, tudo foi ajudando a tornar a vida do Alvinegro difícil, culminando neste 2022 com a fraca participação no Campeonato Estadual, o fracasso na tentativa de acesso para a Série B, o fato de nem sequer ter chegado à final da Copa Santa Catarina, um torneio pequeno, mas que dá direito ao campeão de participar da Copa do Brasil do ano seguinte. Houve um momento que o artilheiro do time na Série C era o goleiro e ídolo Wilson, o que já mostra a dificuldade da coisa, mas é sintomático também que um mísero gol tenha faltado para o time ficar entre os quatro melhores e se classificar para o quadrangular final, com a decorrente promoção para a segunda divisão nacional.

No ano que vem o Figueirense completa 100 anos, secundando o arquirrival Avaí, cujo centenário foi alcançado em 2021. Teríamos dois clássicos no campeonato nacional, caso o Figueira tivesse alcançado o acesso, já que o Avaí será rebaixado neste ano. Repetiríamos, com isso, o glorioso ano de 2011, quando ambos se encontraram na Série A. Não, não é nossa realidade, são ambos clubes de Série B e está ótimo, já que potencialmente compõem o grupo dos 40 melhores do país. Oxalá o o clube da região continental de Floripa cumpra seu destino e volte, no ano de celebração que será 2023, para a divisão acima da que hoje se encontra. Torcerei por isso, comemorarei a conquista. Longa vida e muitas glórias ao Furacão do Estreito.

Ilha de Santa Catarina, novembro de 2022.

 

Seja um dos 12 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. Figueirense Futebol Clube – entre as séries A e C. Ludopédio, São Paulo, v. 161, n. 5, 2022.
Leia também:
  • 161.25

    Argentina x México na Copa do Mundo do Catar 2022

    Fabio Perina
  • 161.24

    A Amarelinha e a disputa entre os seus significados

    Vicente Magno Figueiredo Cardoso
  • 161.23

    A Copa do Mundo é nossa? Futebol e propaganda na Ditadura Civil Militar (1964-1985)

    Harian Pires Braga