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Fiz as pazes com o futebol

Leandro Marçal 10 de setembro de 2020

Quando percebi, não dava nem uma simples zapeada pelos portais esportivos para saber os resultados da rodada. Se me deparava com a tevê ligada na transmissão de uma partida, não sabia o nome do goleiro do meu time. Parecia outra pessoa, não aquele moleque que juntava dinheiro para ir às bancas comprar guias do Paulistão, do Brasileirão, da Libertadores, das Copas do Mundo.

Foi um processo lento, um desgaste capaz de abalar o relacionamento de uma vida com o futebol. Aos poucos, fui me enchendo dos mesmos discursos pós-rodada, do resultadismo demitindo técnicos, dos programas esportivos dando espaço a barraqueiros sem profissionalismo, dos salários pornográficos de quem nem joga tanto assim. Minha paciência foi parar na UTI com os mais exaltados em grupos de WhatsApp, foi morrendo a vontade de estar nas arquibancadas esperando o jogo começar.

Quando percebi, o futebol foi ficando de lado, sendo esquecido, dando lugar para um bom filme na mesma hora das finais de campeonatos importantes. E eu já não sabia quem era quem, de onde veio este atacante, em que time apareceu esse lateral, com quem comparar aquele meia tão clássico como os antigos. Porque não existe futebol sem saudosismo e esse não é um esporte feito para se conformar com o presente.

Lá pelo meio da pandemia, quando ela ainda era levada a sério, fiz uma chamada de vídeo com meus pais, isolados no apartamento pequeno e aconchegante. Meu pai perguntou o que eu achava da volta precipitada dos jogos e precisei me inspirar no Cirque du Soleil para fazer um malabarismo. Eu não tinha opinião formada porque não estava bem informado. Ele estranhou e perguntou se estava tudo bem com o filho sempre atento ao horário dos jogos, às transmissões no meio de semana, ao preço do pay per view, às histórias de duelos clássicos.

Estádio Maracanã. Foto: Divulgação.

Quando percebi, meu esporte de coração sentia falta de me ver em frente à tevê, xingando, gritando, dando risadas ou discordando dos comentaristas. Gostar dessa mera desculpa para bons papos em família, churrascos e bares não faz de mim um cúmplice das mazelas envolvendo o futebol. Não é porque eu vivo no planeta Terra que compactuo com todos os feitos da humanidade. Lembrei que mesmo sem coordenação motora para ser o último dos últimos a ser escolhido na quadra da escola, o futebol me deu muita coisa.

Me apresentou gente muito bacana, sonhando em seguir uma carreira no tempo em que eu acreditava em sonhos. Me deu a oportunidade de escrever e ser lido, até mesmo ser levado a sério, mesmo por quem não sabe que eu só sei correr errado. Me fez perceber que o campo é uma grande metáfora da vida fora das quatro linhas, entre habilidades e conquistas, derrotas e superação, maracutaias e injustiças, do choro à vontade de mandar todo mundo para a puta que pariu quando nada dá certo.

Quando percebi, fiz as pazes com o futebol. Mesmo sem concordar com a volta precipitada dos jogos no Brasil, mesmo sem a presença da torcida como razão de ser do esporte dos esportes, mesmo sem os guias comprados nas bancas de jornal, mesmo sem o rádio como em outros tempos, mesmo com a demora do VAR, mesmo com a fila de títulos do meu time, mesmo que esse retorno seja nas minhas condições e mesmo que eu esqueça essas condições já na próxima rodada.

Foi neste tempo de isolamento que eu percebi, o futebol ainda tem algo a falar para mim. E isso me faz insistir nele, escrevendo com ele e sobre ele. Quando percebi, tive a ideia de escrever outra crônica sobre futebol, mas não só sobre futebol.


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Leandro Marçal Pereira

Escritor, careca e ansioso. Olha o futebol de fora das quadras e campos. Autor de dois livros: De Letra - O Futebol é só um Detalhe, crônicas com o esporte como pano de fundo publicado (Selo drible de letra); No caminho do nada, um romance sobre a busca de identidade (Kazuá). Dono do blog Tirei da Gaveta.

Como citar

MARçAL, Leandro. Fiz as pazes com o futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 25, 2020.
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