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Football no Recife: modernidade e exclusão

Ordenamento e controle da cidade

Com um extenso programa de planos e obras, a cidade do Recife, nas primeiras décadas do século XX, atravessou um profundo processo de mudanças urbanas e sociais. Uma verdadeira revolução urbanística modernizadora estava em andamento.

Com o crescimento bastante expressivo da população se fazia necessário a reorganização dos serviços de luz elétrica, abertura e calçamento de ruas e avenidas, de transporte, de higiene e saúde públicas. É significativo o crescimento de vários serviços urbanos que contribuíram para modernizar a cidade. As palavras de ordem eram “urbanizar, civilizar e modernizar” (REZENDE, 2000, p.51).

Era patente se mostrar próximo e íntimo aos avanços tecnológicos e infraestruturais da época. As classes dominantes da capital pernambucana desejavam estar sintonizadas com as mudanças que ocorriam nas grandes cidades do mundo, promovendo reformas urbanas e sanitárias.

A elite urbana recifense composta, basicamente, das antigas famílias rurais, comerciantes, industriais e banqueiros defendia os mesmos valores seguindo as tendências e modismos da Capital Federal, o Rio de Janeiro, e da Europa de modo geral.

Toda a capital civilizada tem uma rua que é considerada como o expoente do seu adeantamento e por onde se pode aferir do grao de sua cultura. O Rio de Janeiro tem a Avenida Central e aliada a rua do Ouvidor nós temos a rua Nova. É o ponto de reunião dos elegantes e logar onde as nossas gentis patrícias vão exhibir as suas toilettes, a rua onde estão localizados os estabelecimentos de diversões, as principais casa de moda, os cafés e até as livrarias, onde os literários da terra fazem a sua estação. É a rua Nova a principal artéria do Recife, o centro de sua civilização. […] Muita cousa, porém ainda precisa fazer para que a rua Nova seja considerada o mais bello ponto do Recife moderno. Enquanto demorarem alli os velhos e anti hygienicos pardieiros que afetam sua esthetica, a rua Nova continuará com o seu bolorento aspecto colonial. […] Modernos já são os prédios da Casa Alemã (o mais importante dalli), do Cinema Royal, da Casa Ingleza, da Sapataria Ingleza e alguns outros. […] A maior parte, porém necessita de urgente remodelação: prédios baixos e feios, sobradinhos de edificação grostesca, ali estão a pedir a acção do martello e da picareta.[…] Era uma medida de que fazia juz aos maiores applausos. (O Recife Moderno: A rua Nova e os seus prédios, Jornal Pequeno, capa, 24 ago. 1915)

No bojo desse ambiente, no entanto, para se tornar “civilizado” não bastariam apenas as inovações físicas e/ou tecnológicas. Simultaneamente a elas havia o imperativo de se “reformar” também os costumes, hábitos, comportamentos e valores.

Desta forma, ocorreram também grandes transformações no dia-a-dia das pessoas. O espaço aberto antes ocupado pelas camadas mais humildes, para seu sustento e divertimento, era agora era um ambiente concorrido, paulatinamente usado por aqueles que o consideravam perigoso. Assim, as vias públicas passaram a ser frequentadas também pelas elites recifenses que viviam reclusas.

O cotidiano do Recife modificou-se e os divertimentos públicos[1] tomaram a cidade. Seus moradores frequentavam novos locais de lazer e entretenimento.

Não se pode deixar de destacar que boa parte dessas novidades nem sempre estavam acessíveis a toda a população indistintamente. Inicialmente, poucos foram o que experimentavam essas “comodidades” que chegavam ao Recife, embora o acesso a essas novidades não dependesse somente do poder aquisitivo pessoal, mas também das escolhas e opções de cada um. (COUCEIRO, 2003, p.62)

Recife, a noiva da exclusão

Na chamada República Velha (1889-1930) a estrutura de poder era rígida e os espaços de luta e participação eram bastante limitados, o que dificultava deveras qualquer alteração no quadro político. O sistema oligárquico era dominado, grosso modo, por fazendeiros, profissionais liberais, jornalistas, estudantes de cursos superiores e oficiais do exército. Em outras palavras, o regime republicano brasileiro deste período representava o alijamento da participação da maioria da população brasileira.

À vista disso, a jovem República estava diante de um dilema: o grande contingente de população negra após a abolição da escravidão. O país não desenvolveu política específica de integração dos negros recém-libertos, fortalecendo um processo de desigualdade social entre brancos e negros. Ao contrário, na passagem do século XIX para o XX, foi incentivada a imigração europeia em acordo com a política de Estado de embraquecimento da população consoante com as políticas eugenistas desenvolvidas na Europa do século XIX. A intenção era escapar do destino de país mestiço.

E foi no início do século XX, com a presença estrangeira, principalmente a inglesa, que emergiu o football no território recifense. Trazendo consigo modismos e ideias inerentes ao conceito de modernidade, associados ao progresso e ao cosmopolitismo, este novo esporte foi adotado pela burguesia da cidade como símbolo de sofisticação.

Os ingleses tiveram participação marcante no processo de modernização da cidade do Recife na primeira metade do século XX. Esses tinham espaço em diversos setores sociais no comércio, na indústria, nas concessionárias de serviços público, inclusive criando espaços de sociabilidades próprios como pensões, igrejas, cemitérios e clubes. […] Dentre todos esses espaços de sociabilidades nos deteremos em particular ao Pernambuco British Club fundado em 1906 na Avenida Ruy Barbosa onde hoje é localizado o museu de Pernambuco (LIMA, 2010, p.04)

Sport
Equipe do Sport composta por vários jogadores ingleses (Arquivo do Sport Club do Recife: Foto do autor)

Reforçando a composição de um novo estilo de vida que se construía no Recife, na virada do século, o que se via era a generalização das práticas esportivas entre os altos círculos sociais, tais como o turfe, o remo, o ciclismo, a esgrima e o futebol. Este último, revestido de caráter elitista, sob uma visão mais atenta, teve suas partidas transformadas em ambientes de sociabilidade da “nossa melhor sociedade”. E essa procura por novos espaços de convivência atingiu também o futebol.

[…] se notava considerável número de pessoas dando, como sempre, o tom de destaque: gentis mademoiselles que com seus risos constantes, emprestavam aquelle recanto sportivo maior graça e encanto. (Football. Diário de Pernambuco, p.03, 28 jul. 1915)

Aquelas tardes de futebol se tornaram verdadeiros eventos sociais com a presença de altas rodas da sociedade recifense que celebravam a novidade do Velho Mundo. Assim, a parcela rica e elegante do Recife incutia ao futebol status de elegância e refinamento.

No entanto os fields não estavam sendo tão “bem frequentados”, ficando claro o incômodo daqueles que se julgavam os agentes da modernidade com a presença de uma parte do público.

Por uma louvável negociação com a directoria do British Club, a Liga Sportiva Pernambucana vae terminar o seu campeonato no aprazível campo da Torre, que já está por demais conhecido do nosso público, como sendo um ponto distincto de diversões sportivas e festas compostas de caridade. Fugindo à promiscuidade e a intolerância de uma parte menos educada do publico que costumava assistir aos jogos do campeonato, no Derby, a directoria da Liga procurou salvaguardar os interesses e desenvolvimento do foot-ball, dando a seus clubs filliados, ensejo de jogarem os últimos matchs de desempate de seu campeonato, em um campo cercado, a coberto de invasões e distúrbios pouco recomendáveis a um meio civilizado. […] (British Club. Jornal Pequeno, p.02, 27 nov. 1915).

Esse afastamento físico e simbólico em relação incivilizados contou com o apoio de outro jornal. “Foi uma medida que se impunha pois o campeonato do Derby em vez de concorrer para o desenvolvimento do sport concorre para o seu descrédito tal a invasão que sempre se verifica por ocasião dos matchs” (Grande match de campeonato no Bristish Club. Jornal do Recife, p.04, 26 nov. 1915).

Esta reprovação ao comportamento de uma parte menos educada do público é a reprodução social da cidade do Recife. Tendo em vista que a região onde acontecia os jogos de futebol, localizava-se numa zona central da cidade, com a mudança de local, agora quem desejava assistir as partidas de futebol, além de pagar pelo ingresso, deveria pagar também as passagens de bonde para ir e voltar, visto que o British Club ficava bem afastado do centro do Recife em relação ao campo do Derby.

Não sabemos ao certo quem eram aqueles “mal-educados”, mas fica subentendido que estes são membros de grupos “sociais perigosos” da massa urbana recifense, visto que sua presença não era bem-vinda. Desta forma, o comparecimento destes bárbaros (em oposição aos civilizados) não interessavam à aura de distinção construída em torno do futebol. Mais do que retórica, o público “ordeiro” e “familiar” não deseja se misturar com eles e passou a realizar suas tardes de football no British Club.

[…] diante de uma assistência numerosa onde a parda elegância sadia dos nossos rapazes, estava a garruda alacridade das nossas patrícias dar nos o riso delicioso de sua juventude. Já nos serve de consolo assistirmos, como hontem, as expansões de enthusiasmo de um grupo de jovens conterrâneas que torciam a valer. Isso vem provar que o sport entre nós progride, agora que o Recife deita ao lado o jaleco burguez de annos passados e surge, ainda com a cara de somno a vestir, estremunhado, a casaca do progresso.[…] A nós outros que batalhamos pelo desenvolvimento do sport resta-nos a gloria de patentearmos que um passo já está dado na ascenção para um futuro de louros” (O Flamengo bate o Torre pelo significativo score de 3 x 1 e consegue título de campeão. Jornal do Recife, p.03, 14 dez. 1915).

Notas

[1] Essa expressão, usada por autoridades da época em documentos oficiais, englobavam desde festas de igrejas, bailes públicos, comemorações em datas cívicas, até os eventos esportivos como o futebol e o remo.

Bibliografia

COUCEIRO, Sylvia Costa. Artes de viver a cidade: conflitos e convivências nos espaços de diversão e prazer no Recife nos anos 1920. Tese. Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 2003.

LIMA, Eduardo José. Silva. Futebol e Modernidade no Recife dos primórdios do século XX. In: XIV Encontro Regional de História – ANPUH-Rio – Memória e Patrimônio, 2010, Rio de Janeiro. Anais do XIV Encontro Regional de História – ANPUH-Rio – Memória e Patrimônio. Rio de Janeiro: NUMEM, 2010.

LIMA, Rodrigo Carrapatoso de. Aves de arribação: o processo de “importação” de jogadores na cidade do Recife: conquistando glórias a preço de ouro (1915-1920). Dissertação de Mestrado em História, Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 2013.

MARANHÃO, Tiago Jorge de Albuquerque de. “Para o melhoramento da raça”. Eugenia e segregação no futebol do Recife. Monografia de bacharelado em História, Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 2004.

__________________. Inferiores e degenerados: “raça” e futebol no Recife do início do século XX. Disponível em http://www.facol.com/gestus/artigos/artigo5-completo.htm. Acesso em 06/9/2022.

REZENDE, Antonio Paulo. O Recife. Histórias de uma cidade. Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 2000.

SOARES, Thiago Nunes; PINA, Silvânia de Jesus (Orgs.). História de Pernambuco: novas abordagens -Volume II: República. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2021. Disponível em: https://www.editorafi.org/303pernambuco. Acesso em 06/9/2022.

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Rodrigo Carrapatoso de Lima

Possui graduação em História (2008), especialização em História do Século XX (2010) e mestrado em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2013). Atualmente é doutorando na Universidade de Coimbra (UC) e Técnico em Assuntos Educacionais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Membro da Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte (ReNEme) e Pesquisador das temáticas ligadas a ditadura e futebol.

Como citar

LIMA, Rodrigo Carrapatoso de. Football no Recife: modernidade e exclusão. Ludopédio, São Paulo, v. 159, n. 10, 2022.
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