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Formas de torcer digitais: o clubismo como misoginia contra jornalistas

Mariana Mandelli 12 de abril de 2021

A série “Práticas torcedoras em territórios palmeirenses” é baseada na dissertação de mestrado de Mariana Mandelli, intitulada “Allianz Parque e Rua Palestra Itália: práticas torcedoras em uma arena multiuso” (Antropologia-USP, 2018). A pesquisa de campo foi realizada entre 2015 e 2017 nos arredores do Allianz Parque com o objetivo de investigar os efeitos da modernização do estádio da Sociedade Esportiva Palmeiras entre a torcida. Confira a série de textos aqui.

Mancha Verde Palmeiras
Foto: Mariana Mandelli

Assim que foi anunciada como nova setorista do Palmeiras na ESPN, a repórter Bibiana Bolson sofreu uma avalanche de ofensas em suas redes sociais. Uma foto antiga sua com camisa do Flamengo e um print em que fazia uma piada sobre o Mundial de Clubes foram usadas por torcedores palmeirenses no Twitter para legitimar as agressões. “Fraca”, “urubuzinha”, “péssima”, “sofrível”, “fdp”, “retardada”, “nojenta”, “desgraça” e “ameba” foram alguns dos xingamentos direcionados à jornalista que mal tinha assumido a posição. Todos publicados por homens.

Comentários sobre sua aparência física foram postados aos montes (“Bonita mas ordinária, babaca”), juntamente a ameaças veladas e diretas. Enquanto alguns diziam que a repórter iria “espionar” os treinos do clube, outros eram mais enfáticos, afirmando que “na primeira vacilada” ela iria se arrepender “de ter aceitado cobrir o Palmeiras” e que “deveria ser proibida de pisar na Academia de Futebol” (nome do centro de treinamento alviverde).

Bibiana Bolson
Bibiana Bolson. Fotos: Redes Sociais

Bibiana não foi a primeira profissional de imprensa a sofrer ataques virtuais da torcida do Palmeiras. “Eiii jumenta” foi um dos inúmeros insultos direcionados à jornalista Gabriela Ribeiro, da TV Globo, em resposta a uma postagem publicada no Twitter em 14 de fevereiro passado sobre o novo gramado sintético do Allianz Parque. No texto, a repórter havia apenas relatado as diferenças aparentes entre o modelo adotado pelo clube paulista e o que existe na Arena da Baixada, do Club Athletico Paranaense.

Ana Thais Matos, comentarista da mesma emissora, talvez tenha sido protagonista do caso mais emblemático desse tipo envolvendo palmeirenses e redes sociais. Em fevereiro de 2016, quando Ana era setorista da Rádio Globo, um torcedor e blogueiro resgatou postagens da época em que ela ainda não trabalhava como repórter. Nesses posts, ela assumia sua torcida pelo Corinthians e, consequentemente, tirava sarro do rival Palmeiras. A divulgação dessas mensagens causou um linchamento virtual que durou dias e provocou reações de diversos profissionais da área, que se manifestaram em defesa de Ana.

Esse tipo de ataque não é exclusividade da torcida palmeirense. Uma simples olhada na timeline do Twitter, rede social onde esse tipo de conduta lamentável é mais comum, revela uma infinidade de mensagens passivo-agressivas e ofensivas de torcedores a jornalistas e setoristas, aqueles que acompanham o dia a dia de um único clube. No fim do ano passado, por exemplo, quatro repórteres e apresentadores da Globo, dois homens e duas mulheres — Ana Thais entre elas — tiveram seus números de celular vazados entre a torcida do Santos. O motivo: os jornalistas haviam criticado a contratação de Robson de Souza, o Robinho, condenado por estupro pela justiça italiana.

Ana Thais Matos
Ana Thais Matos. Foto: Redes Sociais

A interação de torcidas e jornalistas esportivos nas plataformas digitais ainda é um tema pouco explorado na bibliografia dos estudos de comunicação e da sociologia e antropologia dos esportes. Também há pouca produção sobre aquilo que podemos chamar previamente aqui de práticas torcedoras digitais, já que a etnografia nesse meio ainda é pouco explorada nesse tipo de pesquisa. As formas que o clubismo assume nas redes sociais são infinitas, podendo ser criativas mas igualmente nefastas, e guardam um potencial difamatório e revisionista como nunca antes experienciado no universo do futebol, reflexo da chamada, por Manuel Castells e outros, era da informação.

Antes da pandemia impedir a presença do público nos jogos, o amplo uso do celular como uma extensão do corpo torcedor já vinha sendo debatido no âmbito acadêmico, mesmo que ainda em poucas abordagens. Em artigo sobre a Copa do Mundo de 2014, Toledo chamou a atenção para o manuseio do aparelho como uma maneira de sentir o jogo. Para ele, acoplar o torcer aos smartphones é sem dúvida uma nova forma ciborgue de fruir o jogo, pois amplia a cenografia do espetáculo e confere outro acabamento plástico e imagético às formas de interpelação entre uns e outros numa velocidade inimaginável há poucas décadas (2016, p. 34).

Mas as emoções performadas pelas redes sociais e as formas com que os clubes agenciam isso e exploram o clubismo ainda carecem de análises mais profundas. O que se pode dizer, por ora, é o óbvio — que precisa ser dito e repetido, ainda mais em tempos como esse que vivemos: se o futebol é um meio extremamente homofóbico, machista e misógino longe das mídias sociais, é claro que nelas todas essas estruturas excludentes também iriam se manifestar.

Soma-se a isso o suposto conforto que o anonimato no ambiente digital proporciona e o mau uso da liberdade de expressão e temos como resultado o clubismo sendo exercido da maneira mais rasa e tóxica possível, com jornalistas sendo linchadas quase diariamente por divulgarem informações ou comentarem um gol, uma substituição, um pênalti mal batido, uma campanha de título.

É claro que há, sim, incompreensão sobre o trabalho da imprensa. Entre qualquer torcida, há quem ainda pense que os jornalistas devem torcer para o time que cobrem diariamente. Também há quem encare qualquer crítica ao seu time do coração como uma crítica a si próprio. E há aqueles que não dissociam fato de opinião e embarcam em quaisquer teorias conspiratórias. Vivemos um momento em que, apesar de uma pandemia ter matado mais de 350 mil brasileiros e brasileiras, as autoridades públicas, caso do próprio presidente, elegeram a imprensa como o verdadeiro algoz do que sobrou da nação. E há quem concorde com essa visão.

Esse antagonismo entre torcidas e jornalistas pode ser compreendido na chave do clubismo. Para o antropólogo Arlei Damo, o clubismo pode ser definido como “um sistema de representação estruturado, de forma que o indivíduo, ao tornar-se torcedor, é capturado por códigos que orientam seu comportamento e moldam a sensibilidade” (2014b, p. 39). Segundo ele, esse sentimento de pertencimento “articula um sistema que movimenta as emoções a partir da relação pendular entre identidades (nós) e alteridades (eles/outros)” (DAMO, 2014a, p. 50).

Tal definição, que costuma ser usada para explicar rivalidades futebolísticas, também pode ser acionada para lermos as reações de torcedores à imprensa esportiva, como se o embate nós x eles se configurasse em um contexto onde o profissional jornalístico fosse sempre uma espécie de inimigo a ser combativo e derrotado.

É claro que tudo isso não anula a existência do jornalismo esportivo de má qualidade, que desrespeita instituições, técnicos e atletas. Existem sim comentaristas que parecem usar de sua posição privilegiada para exaltarem determinados clubes em detrimento de outros, sugerindo pautas vazias e discussões inúteis em mesas-redondas onde homens brancos de meia-idade falam bem de certos times enquanto despejam rancor sobre outros. Todo torcedor ou torcedora já se deparou com algum comentário absurdo nesse tipo de programa.

Mas esses jornalistas, quando criticados, não sofrem com injúrias sexistas. Não são ofendidos por serem homens. Ao contrário: isso nunca está em discussão, porque eles ocupam o espaço que lhes parece de direito. Eles já estão ali e são criticados e achincalhados apenas por suas opiniões.

No caso das mulheres, não funciona assim. A dicotomia nós x eles acaba atravessada por misoginia, gerando uma profusão de ofensas de gênero contra as profissionais. Não se trata de questionar ou criticar a qualidade da cobertura jornalística. Trata-se do uso do clubismo como argumento legitimador da perseguição e violência contra mulheres. O caso de Bibiana é emblemático: ela nem havia começado a trabalhar quando foi sistematicamente agredida. Ela ainda não tinha emitido qualquer opinião e já estava sendo “vetada” por torcedores.

Não é à toa que o coletivo Deixa Ela Trabalhar teve de ser criado em 2018. Ele surgiu como uma forma de manifesto das profissionais de imprensa pelo direito de trabalhar em paz, sem serem insultadas ou se sentirem intrusas por estarem em um ambiente majoritariamente masculino.

Entre os xingamentos direcionados à Bibiana — e eu li todos para escrever este texto, o que me deixou triste e enojada — um deles dizia: “Mais uma que vai falar bosta e quando confrontada vai vir com ~machismo~”. É exatamente disso que se trata: homens não suportam que mulheres saibam mais ou discordem deles. Não suportam mulheres em lugares onde outrora elas não estavam (lembrando que Bibiana assumiu o lugar de um colega homem). E, no fundo, eles sabem disso. Sabem exatamente o que os incomoda.

O caminho é longo e os passos, lentos. A histeria misógina não vai cessar tão cedo e é por isso que é preciso que mais Bibianas, Gabrielas e Anas assumam a cobertura dos maiores clubes do País, sob críticas justas e não como alvos de violência daqueles que manipulam seu clubismo da pior maneira possível. Mulheres não são rivais. Jornalistas não são inimigas.

 

Referências

DAMO, Arlei Sander. Futebol, engajamento e emoção.  In: HELAL, Ronaldo. AMARO, Fausto. Esporte e mídia: novas perspectivas. A influência da obra de Hans Ulrich Gumbrecht. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2014a, p.49-94.

DAMO, Arlei Sander. O espetáculo das identidades e das alteridades – As lutas pelo reconhecimento no espectro do clubismo brasileiro. In: CAMPOS, Flavio de; ALFONSI, Daniela. (Orgs.). Futebol objeto das ciências humanas. São Paulo: Leya, 2014b, p. 23-55.

TOLEDO, Luiz Henrique de. De olhos bem abertos ou o que se viu e ouviu na Copa do Mundo de 2014: ensaio de antropologia das emoções esportivas. Entre Jogos e Copas: reflexões de uma década esportiva. SPAGGIARI, E.; MACHADO, G. M. C.; GIGLIO, S. S. (Orgs.). São Paulo: Intermeios, FAPESP, 2016. p. 33-54.

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Mariana Mandelli

Jornalista graduada na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e cientista social graduada na Universidade de São Paulo (USP) com mestrado em Antropologia Social na USP.

Como citar

MANDELLI, Mariana. Formas de torcer digitais: o clubismo como misoginia contra jornalistas. Ludopédio, São Paulo, v. 142, n. 24, 2021.
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