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Fórmula 1 e homossexualidade: a figura esquecida de Mike Beuttler

Em 29 de dezembro próximo completam-se 33 anos da morte de Michael Beuttler (ou apenas Mike Beuttler, como ficou conhecido), um piloto anglo-egípcio de Fórmula 1 (F1), que anunciou sua orientação homossexual aos 34 anos, em 1974. Até hoje Beuttler permanece uma figura esquecida, tanto pelo esporte, quanto pelos resultados dentro da própria modalidade.

Nascido no Cairo, em 1940, foi viver na Inglaterra, no seio de uma família que tinha condições de proporcionar-lhe vivências em esportes como os de corridas de carros. Piloto de testes, se aventurou pela Fórmula 3 (F3) inglesa e conseguiu contatos de empresários investidores, inclusive próximos do núcleo familiar, que contribuíram para sua ida à F1.

Apesar disso, Beuttler sempre correu por escuderias não-oficiais, que utilizavam carros da March Engineering, uma fabricante que se destacava mais na F3 e no CART do que na F1. De qualquer forma, permaneceu certo tempo dividindo grids com pilotos como o brasileiro Emerson Fittipaldi ou o austríaco Niki Lauda.

Aliás, nos anos em que esteve na F3 inglesa e depois na F1, Beuttler foi contemporâneo de pilotos brasileiros, como Emerson e Wilsinho Fittipaldi, José Carlos Pace e Carlos Frederico Jordan (o famoso Fritz Jordan), que participaram possivelmente da “primeira onda” de brasileiros a se aventurar pelas corridas de carro na Europa.

Mike Beuttler
Foto: reprodução redes sociais

Ele acabou participando da F1 por um período curto entre 1971 e 1973, totalizando 28 corridas, nas quais nenhum resultado muito expressivo foi conquistado (ao que consta em seu currículo, um 7º lugar no GP da Espanha, no ano de 1973). Um artigo interessante de Paulo Reis Mourao (2018) analisa como pilotos de F1 sem vitórias sobreviviam profissionalmente na modalidade, sendo que pouco ou nenhum resultado expressivo era fator de encurtamento do tempo de carreira neste esporte. Beuttler está entre os casos analisados por Mourao.

Há boatos de que havia um grupo de pilotos homossexuais na F1 nos tempos de Beuttler, mas sobre isso não há muitos dados. A modalidade segue sendo uma das mais inacessíveis para pesquisadores/as que desejam desenvolver investigações de maior profundidade, particularmente no que tange aos acontecimentos que envolvem os bastidores e/ou questões pessoais mais íntimas de pilotos.

Menções às sexualidades de tais profissionais, por exemplo, são escassas ou inexistentes. Um dos recentes livros em que encontrei algo sobre as performances de gênero de James Hunt, estrela britânica do automobilismo nos anos 1970, foi Corrida para a Glória (2013). Nele, em dado momento, Tom Rubython fala sobre o comportamento sexual desregrado de Hunt e cita, inclusive, um evento em que o atleta teria se envolvido num sexo oral com uma fã, minutos antes de uma largada. Outra obra, uma biografia de Ayrton Senna (1999), trata a suposta homossexualidade do piloto brasileiro via uma rusga entre ele e Nelson Piquet e, portanto, talvez um fato sem fundamento.

Embora algumas pessoas considerem esses temas mais frívolos ou menos importantes, de fato, para mim, eles são fundamentais, e cito vários motivos para sustentar meu argumento. Primeiro porque problematizam a estrutura heteronormativa (que se baseia em normas da heterossexualidade) sobre a qual o esporte está edificado. Segundo, atletas que se declaram gays desmistificam as grandes figuras masculinas do esporte, que sempre aparecem de modo incontestavelmente viris, aguerridas, inabaláveis e, sobretudo, representativas de uma “macheza” insuspeita e sobre a qual a “história oficial” é contada. E, terceiro, se tomamos o feminismo que diz que o “pessoal é político”, a homossexualidade interessa na medida em que mostra que politicamente há outras expressões sexuais (orientações e identidades) em movimento no campo esportivo.

Consta que Beuttler teria apresentado Anne Ries de Loen, uma amiga com quem andava, como namorada. Membros das equipes e mesmo jornalistas não chegavam a desconfiar, mesmo porque havia um proceder de atletas em desfilar com lindas e estonteantes mulheres, muitas delas modelos ou atrizes famosas, para despistar potenciais suspeitas de homossexualidade. Isso ocorria naqueles tempos e ainda ocorre hoje – basta se atentar o que faz alguns jogadores de futebol no bilionário mundo da bola.

Mike Beuttler
Foto: Wikipédia

De qualquer forma, e particularmente logo quando chegava o tempo em que resultados não vinham e a aposentadoria das pistas era eminente, Beuttler assumiu-se homossexual e logo se mudou para os Estados Unidos. Lá, na década de 1980, tomou contato com o efervescente “estilo de vida gay”, como fez referência Martin Levine (1998), e acabou se contaminando com o vírus HIV. Infelizmente morreu de complicações relacionadas a AIDS em 1988.

O mundo teve uma chance para reparar os preconceitos disparados contra portadores do HIV nas últimas décadas. Quem sobreviveu a tudo isso e viveu naqueles tempos, conseguiu contar outra história. Hurley Haywood, um bem-sucedido piloto estadunidense de Porsches, saiu do armário em recente autobiografia, escrita ele e por Sean Cridland (2018). O mais curioso da obra não são apenas as magníficas fotos esportivas do acervo pessoal de Haywood, mas sua revisitação aos fatos do passado relativos à homossexualidade não assumida. O ex-piloto recebeu manifestações agradecendo o registro de tal tema em livro, principalmente por parte de pais que não sabem tratar o assunto perante seus filhos – Steven Smith (2018) conta isso numa matéria interessante.

Assim como em outros esportes, novas gerações de pilotos surgem com baixa tolerância ao armário da sexualidade. Jovens atletas, por todo o campo esportivo, anunciam suas orientações sexuais ainda durante a construção da carreira, algo inusitado se comparado com gerações mais antigas. Foi o caso do espanhol Jaime Alguersuari, que recentemente deixou a F1 para ser DJ, e do agora aposentado de Danny Watts, piloto das 24 horas da Le Mans, uma das mais tradicionais corridas automobilísticas do mundo.

Mike Beuttler foi o caso que acionei para falar sobre problemáticas de gênero e sexualidade dentro da F1, uma temática que participa de “zero” interesse da comunidade brasileira de pesquisadores/as sociólogos/as, antropólogos/as ou historiadores/as do esporte. Como digo, a questão nunca é apenas de o desvelar se tal ou qual atleta se identifica com outras expressões de gênero que não a cisheteronormatividade, mas sim quais as implicações disso para os estudos sociais sobre esportes. Fica a dica!

Algumas leituras para quem se interessar pela temática:

HAYWOOD, Hurley; CRIDLAND, Sean. Hurley: from the beginning. Miami/New York: Visions of Power Press, 2018.

LEVINE, Martin. P. ‘Y.M.C.A.’: the social organization of gay male life. In: Gay macho: the life and death of homosexual clone. New York: New York University, 1998. p. 30-54.

MOURAO, Paulo Reis. Surviving in the shadows – an economic and empirical discussion about the survival of the non-winning F1 drivers. Economic Analysis and Policy, v. 59, set. 2018, p. 54-68.

RUBYTHON, Tom. Corrida para a glória: Niki Lauda versus James Hunt – a história do maior duelo da fórmula 1. Trad. Beatriz Velloso. São Paulo: Bemvirá, 2013.

SANTOS, Francisco. Ayrton Senna – Saudade. São Paulo: Edipromo/Talento, 1999.

SMITH, Steve Cole. Hurley Haywood: ‘If my voice is strong enough to help one kid …’. Autoweek.com. 06/02/2018. Acesso em 04 dez 2021.

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Wagner Xavier de Camargo

Antropólogo que se dedica a pesquisar corpos, gêneros e sexualidades nas áreas de Educação Física e Esportes. Tem pós-doutorado em Antropologia Social pela UFSCar, Doutorado em Ciências Humanas pela UFSC e estágio doutoral na Freie Universität von Berlin (Universidade Livre de Berlim), na Alemanha. Fluente em alemão, inglês e espanhol, adora esportes. Já foi atleta de atletismo, fez ciclismo em tandem com atletas cegos, praticou ginástica artística e trampolim acrobático, jogou amadoramente frisbee e futebol americano. Sua última aventura esportiva se deu na modalidade tiro com arco.

Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. Fórmula 1 e homossexualidade: a figura esquecida de Mike Beuttler. Ludopédio, São Paulo, v. 150, n. 6, 2021.
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