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Futebol bruxo

José Paulo Florenzano 7 de junho de 2018

Desde a conquista do bicampeonato paulista, ocorrida em 1955 e 1956, o presidente Athié Jorge Coury canalizava todos os esforços para levar o Santos ao Velho Mundo. O fato de possuir uma boa equipe, no entanto, não parecia suficiente para abrir-lhe as portas do mercado europeu. Todas as tentativas tinham se revelado, até aquele momento, infrutíferas. No entanto, a consagração da Seleção Brasileira na Copa da Suécia viria operar uma mudança radical no caso em questão e isto por duas razões interligadas: em primeiro lugar, porque os times nacionais beneficiavam-se do prestígio alcançado pelo referido título; e, em segundo lugar, porque o Santos possuía no elenco atletas que direta ou indiretamente haviam participado da façanha histórica, em especial, o jovem Pelé, revelação do certame, sensação mundial, cuja aparição, afinal, escancarava as portas do cobiçado mercado.

Com efeito, na terça-feira, 5 de maio, em meio à disputa do Torneio Rio-São Paulo de 1959, reuniram-se na residência de Athié Jorge Coury vários conselheiros para tratar da excursão à Europa. A Tribuna também estava presente ao encontro na dupla condição de copatrocinadora da viagem e órgão encarregado da cobertura exclusiva da epopeia, designando para tal tarefa o jornalista esportivo Antonio Guenaga, acompanhado do repórter fotográfico José Dias Herrera. A direção do Santos esperava amealhar com os amistosos cerca de quatrocentos mil cruzeiros, “livres de quaisquer despesas” com passagens, hotéis e alimentação. A base para o cálculo residia no valor cobrado por cada partida do alvinegro: na Alemanha, dois mil e quinhentos dólares; nos demais países, dois mil e setecentos dólares.[1]

Feitos os cálculos, acertado os detalhes, a delegação do alvinegro foi para a Europa sob a chefia de Athié Jorge Coury, o qual pretendia “matar dois coelhos com uma só cajadada”, isto é, colher os frutos proporcionados pelo futebol do clube e fazer propaganda do produto de exportação do país, pois, além de presidente da agremiação de Vila Belmiro, ele também era “negociante de café na praça de Santos”.[2] Os interesses materiais se cruzavam, as portas do mundo se abriam, todos os ventos pareciam favoráveis à nau praiana, aguardada por um público ávido por fantasia.

Foi, portanto, em uma atmosfera de grande expectativa que a equipe santista realizou a tão esperada estreia na Europa, contra a Seleção B da Bulgária, em um gramado “completamente alagado” pelas chuvas torrenciais que caiam sobre a cidade de Sofia. Os cerca de cinquenta mil espectadores que enfrentaram a “fúria do mau tempo”, porém, foram plenamente recompensados por uma partida eletrizante, 3 a 3, dois gols de Pelé e um de Pepe. No dia seguinte, sem tempo para restaurar as energias do corpo, o Santos voltou a campo para o segundo jogo contra a Seleção da Bulgária, desta feita derrotada pelo placar de 2 a 0, gols de Pelé e Pagão.[3] A “recepção monstro” proporcionada em Sofia, registrava Antonio Guenaga, teve concentração de mais de cinco mil pessoas à porta do Hotel Balkan onde se hospedara a delegação alvinegra, assim como a “corrida atrás de Pelé para que assinasse autógrafo”, algo “impressionante”.[4] Isto sem contar o banquete oferecido aos santistas em um luxuoso hotel da capital, com “fino cardápio” e “vinhos especiais” no qual, acrescentava o correspondente brasileiro, “não faltou caviar”.[5]

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Pelé em ação na Europa. Foto: Reprodução.

Desse modo, festejado nas ruas, refestelado em banquetes, o Santos despedia-se do socialismo real, dirigindo-se para a sociedade da abundância, próxima etapa da excursão. Depois de atuar em dois dias consecutivos na Bulgária, sábado e domingo, o alvinegro voltava a campo na terça-feira para enfrentar na cidade de Liège a equipe do Royal Standard. Dos dois lados da Cortina de Ferro o mesmo furor. A imprensa belga procurava interpretar o fenômeno futebolístico recorrendo à comparação com o fenômeno análogo deflagrado em menor escala no basquete norte-americano pelos Globetrotters, esquadra que, à semelhança da brasileira, percorria o mundo ignorando as fronteiras ideológicas, atravessando as diversidades culturais, fascinando as plateias mais heterogêneas do mundo. De fato, os órgãos de imprensa da Bélgica referiam-se aos jogadores alvinegros como os “globetrotters” do futebol.[6] O paralelo se baseava, de um lado, no caráter circense de que se revestia – aos olhos da referida imprensa – o espetáculo produzido pelos artistas da bola; e, de outro lado, na identidade negra atribuída a uma equipe de futebol que, não obstante, achava-se integrada também por jogadores brancos.

Os significados que a comparação encerrava iam se tornando mais nítidos à medida que a excursão avançava. Utilizando o amplo repertório de jogadas ofensivas, com incursões em alta velocidade, dribles estonteantes e tabelas rápidas, o Santos envolvera por completo o time do Hamburgo, infligindo-lhe uma goleada de 6 a 0, três gols de Coutinho, dois de Dorval e um de Pelé. O cronista do Bild, o jornal mais popular da Alemanha, colocava em manchete a prodigiosa impressão causada pela equipe brasileira: “Fantástico Futebol de Bruxaria”.[7] A crônica esportiva do Velho Mundo recorria a estereótipos milenares para captar os significados perturbadores dos eventos oníricos proporcionados pelo alvinegro praiano.

A próxima etapa da turnê santista previa a realização do sabá futebolístico na Península Ibérica. Mas ali forças poderosas se articulavam para exorcizar os “demônios” esportivos que assombravam os gramados europeus. Consoante um amplo consenso estabelecido na imprensa esportiva, do Novo e do Velho Mundo, tratava-se do confronto entre as duas melhores equipes do futebol global. Na quarta-feira, 17 de junho, o Santos adentrava o gramado do Santiago Bernabeu para medir forças com o Real Madrid, a aclamada esquadra de Di Stafano, quatro vezes campeã da Europa. Tratava-se, segundo a apreciação de A Tribuna, do “prélio máximo do ano”, transmitido para São Paulo através das rádios Pan-Americana e Bandeirantes, nas respectivas vozes de Fiori Gigliote e de Pedro Luiz.[8] Por certo, foi uma partida inesquecível, vencida pelos espanhóis pelo placar de 5 a 3, três gols de Mateo, um de Gento e outro de Puskas; e para os santistas, gols de Pelé, Pepe e Coutinho. Todavia, de acordo com a avaliação do correspondente de A Tribuna, Madrid não pode ver o “verdadeiro” time praiano.[9]

Avaliar a força do alvinegro diante das grandes esquadras europeias constitui imenso desafio à pesquisa histórica, dentre outros motivos, porque a excursão do Santos coincidia com o final da temporada no Velho Mundo quando elas já se achavam desmobilizadas, sem vários dos atletas titulares.[10] Isto, no entanto, não cancela o fato de que o renome alcançado pelo time brasileiro despertava nos adversários o sentimento de emulação, suscitava-lhes a mobilização necessária para prevalecer e desmistificar o poder atribuído ao rival. Por outro lado, se Madrid não pôde assistir ao “autêntico” futebol do Santos, a razão residia na sequência ininterrupta de amistosos e viagens determinada pela excursão.

A partida contra o Barcelona, nesse sentido, emerge como a síntese de todos os fatores acima apontados. No dia 28 de junho, no Camp Nou, o Santos derrotou o então campeão espanhol pelo elevado placar de 5 a 1, dois gols de Dorval, dois de Pelé e outro de Coutinho. Mas em que condições físicas se encontravam as duas equipes por ocasião do confronto? De acordo com o relato do jornalista Antonio Guenaga, foi um “jogo lento” no qual todos os atletas “se encontravam por demais fatigados”. Com efeito, ao longo das turnês mundiais o alvinegro praiano desenvolvera a técnica de “jogar parado”, mais uma das artimanhas do Futebol Bruxo, incompreendida, no entanto, pelo público da Catalunha, o qual dedicara ao espetáculo “demoradas vaias”.[11]

Galeão: Chegada da Delegação do Santos, 14 negativos 6x6 cm PB acetato
Chegada da Delegação do Santos. Foto: Demócrito/Arquivo Público do Estado de São Paulo.

O “jogar parado” consistia em consumir o tempo através da simples troca de passes, com o mínimo de esforço possível, mera estratégia de sobrevivência dos corpos esgotados. De fato, a voracidade financeira dos dirigentes e empresários comprometia o cartaz da equipe, a qualidade do jogo, o futuro do mercado recém-aberto à agremiação brasileira. As vaias colhidas nas cidades espanholas deveriam servir de alerta aos “mentores” da Vila Belmiro a respeito das consequências de enviar a campo jogadores absolutamente saturados, tanto do ponto de vista físico, quanto do ponto de vista mental. De fato, do dia 23 de maio, quando se dera a estreia na Bulgária, até 5 de julho, quando se realizara a despedida na Espanha, o Santos contabilizara vinte e dois jogos, média de uma partida a cada dois dias, sem contar os constantes deslocamentos por nove países do Velho Mundo.

Os aplausos, no entanto, se alternavam aos apupos, encobrindo os problemas provocados pela maratona, e os adversários desfalcados contribuíam para manter em alta a imagem da equipe, a despeito dos percalços, então esporádicos, verificados ao longo da turnê.

Na terça-feira, 7 de julho, a delegação aterrissou no aeroporto de Congonhas, seguindo de ônibus para Santos a fim de empreender o desfile triunfal em carro aberto pelas ruas da cidade. A excursão havia sido um sucesso. Na bagagem do alvinegro praiano constavam troféus, dólares e prestígio, combinação ideal para redimensionar o valor simbólico do clube, descortinando a perspectiva de voos ainda mais altos. O céu então era o limite e a Europa, ao menos nos campos de futebol, voltara a acreditar em bruxaria.


[1] Cf. “Embarca amanhã a delegação do Santos”, A Tribuna, 17 de maio de 1959.

[2] Cf. “Athié Jorge Coury executará na Europa e no O.Médio ativa propaganda do café”, A Tribuna, 17 de maio de 1959.

[3] Cf. “Resultado aceitável à estréia do Santos em Sofia”, 24 de maio de 1959; “Agigantou-se o Santos na 2ª peleja em Sofia”, 25 de maio de 1959; “Partida [de] estréia do Santos na Europa”, 28 de maio de 1959; todas as matérias publicadas em A Tribuna.

[4] Cf. “Apontamentos durante a excursão do Santos”, A Tribuna, 10 de julho de 1959.

[5] Cf. “Cortesia das autoridades búlgaras”, A Tribuna, 29 de maio de 1959.

[6] Cf. “´Globe-trotters` do futebol”, A Tribuna, 4 de junho de 1959.

[7] Cf. “Fantástico Futebol de Bruxaria…” A Tribuna, 21 de junho de 1959.

[8] Cf. “Na capital espanhola, hoje, o prélio máximo do ano: Real Madrid x Santos”, A Tribuna, 17 de junho de 1959.

[9] Cf. “Madrid não viu o verdadeiro Santos”, A Tribuna, 20 de junho de 1959.

[10] Cf. “Jogando aquém de suas possibilidades o Santos ´goleou` o Barcelona”, A Tribuna, 30 de junho de 1959.

[11] Cf. “Nem só os campeões da Bélgica e da Holanda baquearam…” A Tribuna, 9 de julho de 1959. Cf. “Vibraram também os equatorianos com a clássica exibição do Santos”, A Tribuna, 13 de janeiro de 1959.

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José Paulo Florenzano

Possui graduação em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1994), mestrado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (1997), doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (2003), e pós-doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Doutorado do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2012). Atualmente é coordenador do curso de Ciências Sociais e professor do departamento de antropologia da PUC-SP, membro do Conselho Consultivo, do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, em São Paulo, membro do Conselho Editorial das Edições Ludens, do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre o Futebol e Modalidades Lúdicas, da Universidade de São Paulo, e participa do Grupo de Estudos de Práticas Culturais Contemporâneas (GEPRACC), do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Tem experiência na área de Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia Urbana, Sociologia do Esporte e História Política do Futebol, campo interdisciplinar no qual analisa a trajetória dos jogadores rebeldes, o desenvolvimento das práticas de liberdade, a significação cultural dos times da diáspora.

Como citar

FLORENZANO, José Paulo. Futebol bruxo. Ludopédio, São Paulo, v. 108, n. 7, 2018.
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