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Futebol, Câmera e Ação

Anderton Taynan Rocha Fonseca 13 de maio de 2021

Entende-se a importância de apresentar o futebol na perspectiva da cultura corporal do movimento, ou seja, como conteúdo que deve ser abordado a partir da vivência prática do movimento, como também, refletido, contextualizado e redimensionado (SILVA; CORDEIRO; CAMPOS, 2016). Sendo assim, compreende-se que ao tratar sobre conteúdos esportivos, é possível ir muito mais além do que o ensino sobre as regras, técnicas e táticas. Contextualizar as práticas esportivas na realidade sociocultural em que se encontram, pode colaborar para a produção de conhecimentos de maneira ampla, crítica e transformadora, potencializando uma forma de aprendizado emancipatória (DAÓLIO, 1997).

Dessa maneira, o futebol deve ser entendido como uma forma de manifestação da cultura. Portanto, pode ser representado por meio da prática de um jogo, ou brincadeira popular e/ou um fenômeno esportivo. A sua presença é bastante notável nas mídias, no mercado de consumo, no lazer, nas políticas, nas artes e no comportamento dos indivíduos e grupos sociais. Dado o exposto, compreende-se que o futebol é capaz de intervir e promover o cruzamento entre várias áreas do conhecimento, trazendo à luz os temas transversais que permeiam esse fenômeno (ARAUJO; FILHO, 2016).

Futebol na TV
Futebol na TV. Foto: Sandro Vox

Desse modo, entende-se que o futebol enquanto prática cultural é capaz de influenciar diversas manifestações artísticas, e abordar o futebol a partir das artes também possibilita compreende-lo de forma mais abrangente, ou seja, para além das “quatro linhas” (ABRANTES; SILVA, 2016). É importante salientar que as manifestações artísticas certamente podem colaborar no desenvolvimento de características como criatividade, espontaneidade, improvisação, comunicação, integração social, concentração, imaginação, entre outras.

Decerto, variadas formas de arte podem retratar o futebol. Esse fenômeno pode ser representado por meio da pintura, escultura, gravura, cinema, poesia, literatura, colagem, fotografia, arte digital, entre outras manifestações. Também é interessante observar que uma jogada brilhante, um lance genial, ou um gol espetacular tal qual o gol de placa, são considerados por muitas pessoas envolvidas no universo futebolístico, como “verdadeiras obras de arte” (ARAUJO; FILHO, 2016).

Compreendendo as diversas potencialidades de aprendizado em abordar o futebol por meio das manifestações artísticas, algumas Educadoras do Museu Brasileiro do Futebol[2] desenvolveram a oficina “Futebol, Câmera e Ação”. Essa oficina explorou a prática futebolística e sua relação com a produção cinematográfica a partir da elaboração de um material audiovisual. Essa oficina consistiu em uma criação dramatúrgica improvisada com um grupo de 16 crianças que tinham entre 9 e 12 anos de idade.

A partir de elementos como roteiro, produção, direção, montagem e edição, as crianças que participaram dessa oficina exploraram de forma bastante criativa o diálogo entre o futebol e o cinema. A oficina “Futebol, Câmera e Ação” foi desenvolvida para o projeto “Estúdio MBF” que englobava uma série de atividades realizadas pelos Educadores do Museu que atendiam crianças no período das férias escolares. Para a participação dessas atividades era realizada uma inscrição prévia.

Anderton Rocha
Desenho produzido pelo autor desse texto. Fonte: Ilustração de Anderton Rocha

No dia da realização da oficina, após o acolhimento das 16 crianças, realizaram-se algumas brincadeiras para a interação do grupo. Tratava-se de alguns jogos de observação e improvisação, para estimular a comunicação e o conhecimento do grupo e do ambiente.

Depois de uma breve apresentação do grupo e do objetivo central da oficina, dentro de uma sala bastante espaçosa, os participantes tiveram um tempo para observar todo o local (os objetos, a estrutura, as cores, ou seja, todos os detalhes daquele lugar). Após isso, as crianças tiveram seus olhos vendados e a seguir foram desafiadas a responder algumas perguntas relativas ao espaço que observaram (por exemplo: “qual a cor da lixeira?”).

Depois dessa dinâmica, foi feita a “brincadeira do espelho”. Nessa brincadeira, o grupo foi dividido em duplas. Os integrantes das duplas ficavam um de frente para o outro. A dinâmica dessa brincadeira consistia em imitar todos os movimentos iniciados por um dos integrantes da dupla. De forma simultânea os movimentos deveriam ser reproduzidos, dos pés à cabeça, inclusive as expressões faciais.

E por fim, para esse momento inicial da oficina, foi feita a brincadeira da “história coletiva”. Nessa dinâmica os participantes ficaram em roda e uma das Educadoras iniciou uma história. A partir daí, a criança do lado direito da Educadora tinha o desafio de continuar a história de onde ela parou, e assim sucessivamente com os demais integrantes da roda.

Tido esse primeiro momento de interação, as crianças visitaram os bastidores do Estádio Mineirão, sobretudo as áreas destinadas para os profissionais da comunicação (sala de credenciamento, sala da coletiva de imprensa, zona mista e tribuna de imprensa). Essa visitação teve o intuito de familiarizar os participantes aos locais onde ocorreriam a maior parte das cenas que seriam produzidas.

A partir de um roteiro pré-estabelecido, todas as crianças, de forma coletiva, tiveram a liberdade de opinar e fazer algumas alterações na história que seria posteriormente encenada. O enredo girava em torno da expectativa gerada nos bastidores de um estádio de futebol minutos antes para o início de uma partida de Copa do Mundo. Durante as encenações os atores e atoras também tinham permissão e autonomia para improvisar.

Utilizando uma câmera, uma claquete, um tripé e alguns adereços para compor o cenário e os figurinos (uniformes esportivos, coletes, bolas, um microfone falso, entre outros), a brincadeira foi acontecendo e as crianças puderam explorar o futebol a partir de uma outra perspectiva para além da bola rolando. Ao final da oficina todos participantes tiveram acesso ao material final, o filme da oficina “Futebol, Câmera e Ação” do qual produziram coletivamente.

Certamente a possibilidade de aventurar-se na sétima arte “fazendo cinema”, ou seja, na escrita de roteiros, na produção de audiovisuais, na edição fílmica, possui o potencial de ampliar conhecimentos e experiências, aguçar sensibilidades, favorecer a apropriação coletiva e propiciar releituras éticas e estéticas de mundo (GOMES; GONÇALVES, 2019). Assim sendo, a oficina “Futebol, Câmera e Ação” foi uma rica experiência didática e educativa organizada pela equipe do Museu Brasileiro do Futebol.

 

Notas

[1] Sandro Vox é fotógrafo e cineasta. Estudou fotografia no Instituto Nacional de Ensino em 1998, e na escola Ateliê da Imagem em 2001 e 2002, e Cinema Documental na PUC – RIO, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. A fotografia “Futebol na TV” faz parte do projeto documental fotográfico (Chão de Barro O Sonho de Todos) que foi exibido no Carrousel du Louvre em Paris e no Musée dela Palmeraie em Marrakesh.

[2] Aberto ao público em 2013, o Museu Brasileiro do Futebol (MBF) apresenta-se como uma opção de lazer em Belo Horizonte. Sediado no Estádio Governador Magalhães Pinto (Mineirão), o MBF possui a potencialidade, a partir do seu Acervo, de proporcionar diversas experiências de aprendizado ao expor, pesquisar e preservar artefatos do futebol brasileiro.

 

Referências Bibliográficas

ABRANTES, F. V. P; SILVA, T. J. FUTEBOL E ARTES. In: SILVA, S. R.; CORDEIRO, L. B.; CAMPOS, P. A. F. (Orgs.). O Ensino do Futebol: para além da bola rolando. I ed. Rio de Janeiro. Jaguatirica, 2016.

ARAUJO, A. S.; FILHO, C. C. R. FUTEBOL E CULTURA. In: SILVA, S. R.; CORDEIRO, L. B.; CAMPOS, P. A. F. (Orgs.). O Ensino do Futebol: para além da bola rolando. I ed. Rio de Janeiro. Jaguatirica, 2016.

DAOLIO, J. CULTURA, EDUCAÇÃO FÍSICA E FUTEBOL. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997.

GOMES, C. L; GONÇALVES, M. M. “UMA CÂMERA NA MÃO E UMA IDEIA NA CABEÇA”: INSTIGANDO O OLHAR POR MEIO DO CINEMA. In: GOMES, C. L.; DEBORTOLI, J.A.O.; SILVA, L.P. (Orgs.). Lazer, Práticas Sociais e mediação Cultural. Campinas, 2019.

SILVA, S. R.; CORDEIRO, L. B.; CAMPOS, P. A. F. POR QUE ENSINAR FUTEBOL PARA ALÉM DA BOLA ROLANDO? In: SILVA, S. R.; CORDEIRO, L. B.; CAMPOS, P. A. F. (Orgs.). O Ensino do Futebol: para além da bola rolando. I ed. Rio de Janeiro. Jaguatirica, 2016.

 

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Anderton Taynan Rocha Fonseca

Licenciado em Educação Física pela Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais (2017). Foi membro do Programa Rede de Museus e espaços de ciência e cultura da UFMG, vinculado ao Centro de Memória da Educação Física, do Esporte e do Lazer, no período de 2015 a 2017. Foi integrante do Programa Educativo do Museu Brasileiro do Futebol de 2017 a 2019. Atua como professor da educação básica na Rede Estadual de Educação de Minas Gerais. Integrante do grupo de pesquisa FULIA - Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes. Mestrando do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer da UFMG.

Como citar

FONSECA, Anderton Taynan Rocha. Futebol, Câmera e Ação. Ludopédio, São Paulo, v. 143, n. 21, 2021.
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