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Futebol Chileno(I): O caso Rojas e a anatomia de uma farsa

Fabio Perina 9 de outubro de 2020

“Revelado o escândalo que todos suspeitavam…” Esse é um meme bem conhecido atualmente na internet para tratar de farsas e esquemas. Apesar dessa brincadeira, pretendo desenvolver um texto com profundidade: tratar o futebol como drama para uma leitura da sociedade. Antes disso, mais uma vez como defendo em meus textos: os partidazos nunca são partidas isoladas. O contexto prévio ao famoso Brasil x Chile de 3 de setembro de 89 por si só já é prenhe de significados. Dois países que tinham em comum naquele final de década o retorno das eleições diretas no Brasil e o plebiscito para revogar a ditadura no Chile. Um grito coletivo e simultâneo de “nunca mais”. Um final de década com a hegemonia continental para uruguaios e mundial para argentinos. Porém, brasileiros e chilenos fizeram sem dúvida os confrontos mais quentes. Um ponto fora da curva, pois raramente houve motivo de atritos políticos ou futebolísticos, vide a ampla freguesia do Brasil sobre o Chile em partidas de Copa do Mundo.

Falar do Brasil x Chile de 89 exige lembrar também do ali recente Brasil x Chile de 87. Pela Copa América, na Argentina, ambos os países caíram no grupo com sede em Córdoba e venceram a Venezuela sem problemas. Como apenas o líder do triangular passava de fase, faziam uma partida equilibrada até que a balança ia pesando a favor do país andino com os milagres do goleiro Roberto “Condor” Rojas e o oportunismo de Letelier e Basay (2 gols para cada) diante de falhas bizarras da zaga brasileira sempre em bola aérea. O resultado foi o vexame de uma goleada por 4 a 0 com o Brasil eliminado e o Chile avançando até vencer a semifinal contra a Colômbia e perder a final contra o Uruguai. Conhecemos treinadores de todos os tipos, mas certamente nenhum foi mais provocador do que o chileno Orlando Aravena desde essa partida para desestabilizar o adversário.

Indo para o ano de 89, em julho a equipe de Lazaroni pôde ter um pouco menos de pressão ao conquistar a Copa América no Maracanã. Porém tudo iria por água abaixo se nas semanas seguintes não confirmasse a vaga na Copa de 90. Por coincidência, o triangular era contra Chile e Venezuela novamente. Sem surpresas na disputa entre Brasil e Chile pela vaga direta. A primeira partida no Nacional de Santiago foi em clima de guerra e teve de tudo um pouco: a rápida expulsão de Romário ao ceder a provocações, gol contra chileno por nervosismo entre seus defensores em um bate-rebate e gol de empate chileno em um polêmico sobre-passo (uma regra que nem existe mais) de Taffarel. Nos minutos finais ficou uma partida totalmente aberta para os dois lados, atacavam “como índios” como se diz na gíria, porém não se mexeu mais no placar. Após a “Batalha de Santiago”, entre mortos e feridos o prejuízo para o Brasil foi pequeno, pois decidiria a vaga no Maracanã com vantagem do empate devido ao melhor saldo de gols. Já o Chile estava ainda mais enfurecido pois perdeu o mando de campo contra a Venezuela de Santiago para Mendoza, na Argentina, devido às confusões entre jogadores e comissões técnicas.

“Se vocês soubessem o que aconteceu ficariam enojados…” (outra vez o meme!) Se na partida no Maracanã o primeiro tempo já foi suficientemente tenso, no segundo não faltou emoção logo no início após belo passe de Bebeto entre os zagueiros chilenos que encontrou o oportunista Careca para abrir o placar. Depois veio o fato insólito que eternizou essa partida: desde a arquibancada foi disparado um foguete que invadiu o campo ao lado de Rojas. O que as câmeras de transmissão registraram foi o goleiro caído ao lado de muita fumaça e com o rosto ensangüentado. (O que poderia faltar em um ritual com fogo e sangue?!). A equipe do Chile se retirou para os vestiários na expectativa de uma remarcação ou até uma anulação da partida para ficar com a vaga. Em poucos dias surgiram as fotografias precisas para que a tragédia fosse esclarecida como farsa junto do desfecho do caso. Rojas usou uma navalha que trazia em sua luva. É forte a hipótese que ele assim como parte do elenco chileno não entrou na ‘pilha’ do treinador Aravena de provocação, pois acreditavam que sem um ‘fato novo’ não poderiam vencer o Brasil só na bola. Para o Brasil o desfecho foi um alívio de não ter mais ameaçada a sua vaga na Copa de 90. Enquanto chilenos pagaram pesado pelo episódio: o banimento de Rojas e a suspensão de outros jogadores e membros da comissão técnica por 5 anos. O mesmo prazo do banimento da seleção chilena de disputar as Eliminatórias para a Copa de 94. A meu ver generalizada e, portanto, exagerada.

Foto: Wikipedia

O olhar que costumo ter da sociologia do esporte facilmente identificaria dois temas no episódio. Primeiro, a pirotecnia, até então comum nos estádios, porém desde então com consenso de sua proibição nas legislações de segurança. Um tema de importância atual considerável pois a manipulação midiática faz muitas pessoas confundirem os inofensivos sinalizadores de tipo ‘pisca-pisca’ com foguetes, rojões, morteiros e mísseis como se estivesse tudo no mesmo balaio que devesse ser proibido. Segundo, a tão polêmica, porém demagógica, hipótese de incitação à violência em um fio contínuo entre treinadores, jogadores e torcedores.

Quando reivindico olhar esse caso como drama para compreender outros elementos da sociedade mais amplos que se refletem no futebol, pretendo uma modesta reflexão quanto à antropologia. E também uma reflexão mais modesta ainda quanto à criminologia. O que será que dá essa mistura? No primeiro aspecto, a loucura de Rojas foi um auto-sacrifício como uma aposta de risco de bagunçar o regulamento das Eliminatórias e ganhar a vaga na marra. Como se ele assumisse ser o bode expiatório de si próprio. E o vínculo com o segundo aspecto surge com a punição da FIFA a Rojas e à seleção chilena também ter essa pretensão de bode expiatório para dizer um ‘nunca mais’ a casos assim. No que pesa aos julgadores o fato da farsa (na intenção de alterar um resultado) se revelou mais grave que o fato do foguete em campo.

E mais, esses dias conferindo a retrospectiva do episódio para formular essa crônica evidente que em minha cabeça fiz comparações com o ano de 2020 que estamos em que reina a chamada ‘pós-verdade’—que tem a sua ponta do iceberg mais famosa nas fake news. No sentido que me peguei a imaginar que mais surreal do que todo o episódio de 89 seria se algo parecido ocorresse em nossos dias e a viralização de campanhas negacionistas! Embora com provas audiovisuais ainda mais instantâneas e convincentes do que o caso de 89. Em outras palavras, nesse cenário imaginário é como se o delírio coletivo a que padecemos escolhesse a Verdade como bode expiatório para ser incendiado e assim criar como farsa a sua Vontade. Assim como em dias atuais o linchamento virtual a Rojas tornaria muito mais improvável sua anistia pela FIFA cerca de uma década depois. (Na vida real as coisas tampouco foram fáceis para Rojas no seu país, vagando como um condor solitário pelo estigma de ter sido o maior culpado dessa farsa. Ironicamente foi justo no futebol brasileiro que obteve sua nova chance: contratado pelo São Paulo como treinador de goleiros, em 97, exatamente 10 anos depois de quando foi contratado pelo mesmo clube como goleiro quando estava em seu auge).

Ficou como balanço geral a decepção que a equipe chilena, diante da lembrança de 87, mostrou que tinha futebol suficiente para poder vencer sem apelar à farsa. Inclusive a decepção quanto ao goleiro Rojas por naquele momento ser experiente e um dos melhores do mundo. A tragédia foi metaforicamente um efeito pirotécnico: foi embora tão rápido quanto veio. O que ficou de lembrança mesmo foi a farsa. Pirotécnica mesmo foi a fama da outra personagem da cena do foguete: Rosenery Mello (que por ironia ia para o estádio pela primeira vez!) indo parar na capa da revista Playboy e com isso indo parar no lado folclórico desse episódio. Não costumo lidar muito em minhas reflexões com o elemento ‘espetáculo’, mas vale aqui pelo menos uma menção que na lembrança de muitos torcedores o episódio todo ficou mais conhecida pela ‘fogueteira do Maracanã’ do que pelo goleiro chileno!

Eis que apenas esses dias pesquisando o tema descobri outro lado menos folclórico e menos célebre do episódio diante de uma fantástica teoria da conspiração: a de que pilotos derrubaram um avião na Amazônia por supostamente estarem ouvindo a transmissão da partida no rádio! A réplica de um dos pilotos foi didática: por sorte estivessem com comunicação suficiente para ligar o rádio e com isso poderiam evitar a fatalidade. Ora, como se sabe o futebol é prenhe de teorias conspiratórias mirabolantes: como um dos grandes ‘causos’ do Tetra de 94 com a bolada do lateral Branco que supostamente matou um repórter atrás do gol! A isso eu atribuo que ele é um cenário farto do elemento místico/imaginário e ao mesmo tempo pouco convidativo ao elemento racional—com fake news ou não. Que mais uma vez não fique dúvida que o futebol é o esporte onde tudo pode acontecer!

Referências

https://trivela.com.br/a-confusao-que-virou-farsa-e-e-lembrada-como-folclore-os-30-anos-do-brasil-x-chile-de-1989/
https://www.uol.com.br/esporte/reportagens-especiais/as-historias-por-tras-de-brasil-x-chile-de-1989-/index.htm#cover


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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. Futebol Chileno(I): O caso Rojas e a anatomia de uma farsa. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 23, 2020.
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