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Futebol de Controle (I): arenização, leifertização e gameficação (ou das Copas do Mundo de 1994 a 2022)

Fabio Perina 2 de junho de 2022

Nessa nova série busco aprofundar algumas reflexões preliminares antes esboçadas no texto “Futebol de Controle” (inspirado no conceito “Sociedade de Controle” de Deleuze) que sintetizava a década de 2010 pela arenização dos estádios como uma ampla reforma dentro e fora de campo para tentar tornar o futebol um suposto “produto perfeito” isento de polêmicas e imprevistos. Como principais fontes, usarei uma mistura de artigos acadêmicos e não-acadêmicos junto de vários casos concretos para buscar evitar teorizações muito densas. Além disso, se o conceito geral foi formulado durante a ascensão do neoliberalismo, buscarei uma modesta contribuição de como situar o futebol atualmente diante de seu declínio.

Arenização

A progressiva composição entre os elementos tecnológicos e virtuais sendo inseridos nos estádios de futebol são a principal aproximação entre as Copas de 94 e 2022. O que chama ainda mais a atenção que fora de campo coincidiram as sedes serem países com muita riqueza, porém com nenhuma tradição no futebol. O que sugere as grandes oportunidades visualizadas pela FIFA visando muito mais o entretenimento do que o esporte. Inclusive a oportunidade de ser mais improvável encontrar resistências torcedoras a esses novos “laboratórios” de entretenimento.

Sem fazer aqui uma revisão exaustiva da rica e necessária bibliografia sobre megaeventos, chama a atenção que nas últimas sedes de Copas do Mundo (África do Sul em 2010, Brasil em 2014, Rússia em 2018 e agora em breve no Catar em 2022) possuem a maioria em comum um abismo. Um abismo entre ditadura para a própria população(ou estado de exceção, vide Lei Geral da Copa no Brasil) e entre a ostentação para turistas e investidores estrangeiros. Mobilizando verdadeiros exércitos governamentais e midiáticos com orçamentos milionários para salvaguardar o ‘produto’ futebol. Ou seja, o megaevento pontual como verdadeiro ‘laboratório’ para um processo mais amplo de aplicação nas partidas do dia a dia entre os clubes o mais rápido possível. Com isso facilitam uma assim chamada “acumulação primitiva” da FIFA e seus colaboradores com maiores lucros financeiros atropelando os efeitos colaterais sociais e ambientais. Sobre essa dinâmica político-econômica:

“O Estado tem papel central na produção do megaevento por meio do financiamento das obras que vão muito além da praça desportiva, flexibilizando normas urbanísticas e criando facilitações para convênios e consórcios com o capital privado. Por meio da criação de novos regimes legais, garantem os privilégios e isenções desses investidores, passando por cima da legislação local, instituindo um verdadeiro estado de exceção jurídico e político, com consequências drásticas, proporcionando uma série de violações dos direitos humanos básicos no ambiente urbano, como o causado pelas remoções e a privatização do espaço público” (SIMÕES, 2017, p 154).

Numa breve apresentação da monarquia teocrática do Catar, é preciso lembrar que a cerca de duas décadas já se destacava em esforços milionários por modernizar os mais diversos megaeventos. E até mesmo em um episódio nem tão recente, envolvendo o brasileiro Emerson “Sheik” dentre outros, chegou a incitar uma tentativa de ‘compra’ de nacionalidades de diversos atletas para turbinar algumas outras modalidades (e não somente o futebol) e assim obter um ganho de competitividade do dia para a noite! O recente patrocínio ao Barcelona e até mesmo a compra do PSG e do Manchester City são casos ainda mais evidentes da tentativa de modernizar sua fachada (como “estádios-palácios” reluzentes) enquanto oculta escândalos. Como acusações de financiamento de grupos extremistas islâmicos, de compra de votos para sua escolha como sede da Copa do Mundo de 2022 e principalmente de violação de direitos humanos, devido trabalho análogo à escravidão de refugiados, resultando até aqui em algumas milhares de mortes durante as construções. (Obs: apenas como esboço, é possível aproximar em algum sentido uma mesma lógica os megaeventos dos anos 2000/2010 aos dos anos 80/90. Pois em ambas etapas há uma “fachada” democrática da recente expansão de sedes como já houve com a expansão de participantes através do COI no reinado Samaranch e da FIFA no reinado Havelange).

Beck (2012) assim sintetiza os atuais estádios pós-modernos (mais conhecidos como arenas multiuso): ausência de separações contundentes entre os setores e deles com o campo da partida como grades e alambrados (sob justificativa de prevenir os esmagamentos de outrora); multiplicação de um ‘olhar’ com detalhes tecnológicos por parte de todos, inclusive torcedores; diversificação de atividades comerciais oferecidas na arena em paralelo ao Jogo de futebol. A nova concepção de estádios pressupõe a formação de um novo tipo de torcida: neutra, pacificada e constantemente vigiada, convertida em consumidora.

Catar
Estádio Al Thumama, Catar 2022. Fonte: Md Nahid Islam Sumon/Wikipédia

Num sentido mais profundo, essa transição de estádios disciplinares para arenas de controle (vide o referencial de Foucault e Deleuze) é a primeira vez que estádios são construídos para objetivo oposto ao original de catarse popular coletiva. Além dessa descrição objetiva, intensamente aplicada no futebol brasileiro no início dos anos 2010, outros elementos subjetivos precisam ser mencionados de novos comportamentos que passam a ser naturalizados. Conforme esse importante artigo de Arlei Damo, os fanáticos foram se tornando fãs, como forma de dissipar suas emoções mais intensas. Algo que tem tudo a ver com a “sociedade de controle” aplicada nas novas arenas por ser a estimulação de consumos e comportamentos que antes não se pensava pudessem ser capitalizados no ato de torcer. Simulacro de mais visibilidade sob aparência de participação digital. Vide a nova arquitetura panóptica cada vez mais tecnológica dos estádios. Tanto em sua própria nova estrutura descrita acima como nos aparelhos celulares que expectadores trazem “acoplados” aos seus corpos (como se fossem profissionais de imprensa que não pudessem perder um único lance). O texto também afirma o selfie como um comportamento típico do “futebol de controle” e uma tecnologia ampla que dispersa o usuário. Afinal no mundo real se passa a ir aos estádios em grupos menores, porém no mundo virtual que se conecta com “audiências” maiores.
Acrescento que o selfie é um sintoma muito típico da “sociedade de controle” e do espetáculo, pois as imagens podem passar a ser produzidas e circuladas por qualquer um, ou seja, sem depender da mídia convencional monopolista, dando-lhe uma falsa sensação de autonomia diante de tanta visibilidade. Em suma, se já se afirmou que no futebol o pior cego é o que vê apenas a bola, o selfie é ver apenas o próprio ego, fazendo com que no “futebol de controle” tudo de supérfluo passe a ser prioridade em relação ao próprio futebol. Não mais o arrebatamento do Jogo dentro de campo à sua frente e de sua comunidade torcedora ao seu lado. Mas, em seu lugar, a distração e conexão com sua restrita rede digital.

Em um modesto esboço de articular questões atuais diversos, recupero uma breve menção ao movimento mundial “não ao futebol moderno”, cuja entrada no Brasil no início dos anos 2010 em que se formulou uma palavra-de-ordem local específica: “torcedor é quem vai ao estádio” (em contraposição a “modinhas”). Porém após a consolidação da arenização houve uma nítida transferência das classes populares para classes médias dentro dos estádios e uma transferência da determinação desse acesso conforme um critério de vontade para um critério de possibilidade: vai quem pode e não quem quer. O que diversos pesquisadores identificaram como a causa do aumento de manifestações discriminatórias racistas ou elitistas ao longo daquela década.

Concluindo esse item, uma consideração mais teórica contra essa infame narrativa de aproximar tanto o esporte do espetáculo (uma suposta “justificativa” para a arenização): pois mesmo que se compare sua apreciação estética e ‘improdutiva’, NUNCA que o esporte possa ser visto como um espetáculo como outro qualquer, pois “(…) não há, no teatro, disputa e sim uma simulação/representação enquanto nas apresentações desportivas o mais comum é a presença do enfrentamento, da disputa, de um final opondo vencedores e perdedores.”(GUILHON, 2017, p 79)

tiago leifert
Fonte: reprodução

Leifertização

Em um esboço de definição desse termo recente, embora com processo já não tão recente, é o de uma atualização do antigo “futebol e política não se misturam”. Uma ideologia “não-ideológica” na qual a função do futebol no contexto contemporâneo, como expôs o jornalista da Rede Globo Tiago Leifert, é a de suspender a realidade, ignorando as relações de disputa entre os sujeitos que o produzem. Só é possível aproveitar o futebol, a partir desta interpretação, se a alienação for completa, com o consumo de um produto dito inofensivo (GOMES, 2020, p 46). Em outros termos, garantir um futebol “higienizado”, um produto televisivo não perturbado por quaisquer distúrbios. Dessa forma, o consumidor se conecta por mais horas a um produto de entretenimento, embora siga cada vez mais alheio ao arrebatamento do Jogo. É um fim das fronteiras entre entretenimento e esporte e também entre entretenimento e jornalismo.

Tenho a hipótese que passa a ocorrer um circuito fechado discursivo dentro da leifertização onde não se permite mais distinguir os jornalistas dos gestores e dos investidores diante da defesa de uma modernização que tenha como premissa a tão infame frase síntese: “o futebol é um negócio como outro qualquer”. Falaciosa simplesmente porque “Torcedores não abandonam o clube e os estádios quando essas mercadorias do futebol “perdem valor”, ou seja, não reagem como um cliente que opta por uma mercadoria semelhante de outra marca.” (SIMÕES, 2017, p 266). Além do que, jamais se verá acionistas protestando na sede de uma multinacional cobrando maior rendimento financeiro!
Ora, algo que também aproxima as Copas do Mundo de 94 e 2022 é a crescente punição a jogadores dentro de campo através de recurso de vídeo quando o árbitro não nota. O que hoje é feito rotineiramente pelo VAR, foi inaugurado em um primeiro ensaio em 94, que certamente passou batido pela maioria, através da agressão do italiano Tassoni ao espanhol Luis Enrique, e a sua posterior suspensão vinda apenas por tribunal através das imagens. Ou seja, o recurso virtual ao mesmo tempo que tenta alegar trazer mais “justiça” ao futebol não pode deixar de também vir junto com maior controle.

VAR no futebol
A sala do VAR. Foto: CBF.

O que também não é coincidência nos anos posteriores ser cunhado o termo “futebol leifertizado” (já em marcha há algum tempo, mas explicitada a partir de 2018) foi intensificar a perseguição à manifestação política de jogadores e torcedores dentro dos estádios. Enquanto, por contraste que exacerba essa dupla moral, dirigentes abriram as portas dos clubes e dos estádios para políticos transformá-los em palanque eleitoral, e mesmo assim não estarem fazendo política. A seguir uma importante descrição dessa dupla moral em que se esboçam os dominantes e os dominados na correlação de forças do futebol:

“Hipócrita, o futebol martela desde então que esporte e política não se misturam, enquanto regras proliferam limitando o espaço cívico para fora dos estádios. A ideia ganhou outros esportes e foi importada pelo COI aos seus eventos. Mas, curiosamente, essa é uma regra que vale apenas para dois grupos: esportistas e torcedores. Para os políticos e dirigentes esportivos, as leis são solenemente pisoteadas. (…) Não se pode fazer um gesto de defesa dos direitos humanos durante um evento esportivo. Mas se permite que aquele mesmo torneio seja manipulado para abafar crimes e abusos. Não se permite levantar o uniforme para mostrar uma mensagem de apoio à democracia. Mas se premia regimes autoritários no Catar e em tantos outros lugares com a concessão de direitos de sediar grandes eventos. Por alguns dias, aqueles líderes ilegítimos ganham uma chancela de legitimidade, entregam medalhas e sorriem para o mundo. Ou seria um deboche? (…) Com o argumento de se evitar a política no esporte, instituições e suas leis garantem que apenas quem está no poder possa politizar o esporte, o torcedor e a emoção. De forma consciente ou não, quem defende que atletas e torcedores não se manifestem politicamente está simplesmente prestando um enorme serviço para perpetuar essa manipulação”.

Como ressalva para entender tal processo é preciso mencionar que há dois recortes de sua manifestação desigual: ou seja, mais evidente na mídia monopolista televisiva e sobretudo paulistana. Embora a mídia esportiva no rádio e/ou de outros estados certamente ainda resiste a aderir a isso com a sua ainda intensa passionalidade. Vide narradores (ainda) “bairristas” como Pedro Ernesto Denardin na Rádio Gaúcha e Mario Henrique “Caixa” na Rádio Itatiaia de MG. Ou mesmo em SP a Rádio 105. Uma breve nota de descrição dessa categoria, dentre tantas possíveis, poderia ter a ver com os jogadores com o assim chamado fim da “geração vampeta”. Ou seja, o fim de grandes apelidos folclóricos na elite da boleiragem (embora ainda persistentes na sua base). Vide também casos pontuais do final dos anos 2000: diretoria do São Paulo orgulhosa da “vanguarda” de abolir apelidos desde as categorias de base (alegando facilitar transferências externas) e também o treinador Alexandre Gallo na categoria de base da seleção brasileira orgulhoso de impor cartilha disciplinar envolvendo até cortes de cabelo!

Gameficação

Para tratar de um esboço de periodização, certamente a década de 2020 venha sendo fértil na tendência à gameficação como desdobramento da leifertização, tendo em comum a ambos os processos privilegiar o consumidor de espetáculo virtual em detrimento do torcedor. Afinal é preciso considerar a ressalva que a leifertização tem vínculo intrínseco com a midiatização e com isso refém de valores bilionários de direitos de transmissão, portanto não é apenas um discurso que “paira no ar”, mas a face mais visível desse processo. Assim como em ambos os processos há a tendência a torcedores se tornarem consumidores em geral de vários esportes e não apenas torcedores de futebol.
É até curioso levantar como hipótese que, ao mesmo tempo que há a retórica de gestores por uma “profissionalização” do esporte que beneficia algumas funções, por contraste esses dois processos citados coincidem com a prática de jornalistas e jogadores de uma certa “des-profissionalização”, vide que qualquer “influenciador” pode tomar teus lugares no estúdio ou até no campo. Infelizmente nos últimos anos o entretenimento invade até mesmo dentro de campo com as aventuras de clubes pequenos que “contratam” youtubers e funkeiros para poucos minutos de exibição em partidas de campeonatos estaduais. Afinal, vale tudo em nome da “diversão” e da expansão de públicos mais amplos sobretudo jovens… (Como se já não bastasse tantos jogadores como jovens ricos mimados na vida real…). A seguir um importante desabafo:

“Não sei se vocês ficaram sabendo, mas o Resende, um clube que eu considerava sério, inscreveu entre os jogadores que participariam do Estadual um personagem conhecido como Cartolouco. Não faço ideia do que seja isso, mas se não é sindicalizado e se não é de fato um atleta a Federação Carioca deve tomar alguma providência. Pelo que entendi é mais um comediante, desses tantos que fazem do futebol o seu circo. Um outro clube, não sei qual, tentou inscrever o sósia do Gabigol. Isso é o retrato do picadeiro em que se transformou o futebol, uma tremenda palhaçada.”

A lógica de games e principalmente de apostas online parece diluir as tradições dos clubes em, respectivamente, meras plataformas transitórias (“vitrines”) aos “craques-celebridades” e, pior, meros algoritmos e estatísticas visando potenciais de ganhos! Como se já naturalizasse como irreversível o consumo virtual do futebol através de um celular inseparável da mão e dos olhos. Em suma, o Jogo real é cada vez mais invadido de elementos virtuais. (Vide a saudade de quando dava pra reclamar “apenas” da comemoração de gol de Cristiano Ronaldo olhando para si próprio em um telão do estádio!)

Há algumas evidências, que amarram os diversos processos descritos anteriormente, como reflexos de uma individualização extrema nos detalhes mais ínfimos do cotidiano: a-) o anti-clubismo de “torcer” por um rival para favorecer sua pontuação no ‘game’ Cartola FC; b-) o viralatismo de “torcer” para um jogador do próprio clube fechar transferência ao exterior (alegando benefício apenas a sua própria carreira e seu staff); c-) “torcer” para o próprio clube ter um ingresso mais caro e maior renda com bilheteria do que um rival como se isso fosse prova de grandeza (esse um caso bem paulistano); d-) e até mesmo o absurdo mais atual de “torcer” para algum bilionário comprar o próprio clube para assim se legitimar ao enchê-lo com “craques-celebridades”. O que tantos casos diários trazem em comum é não só tratar o torcedor como consumidor como também o absurdo de tratar um jogador como maior que um clube!

Ora, se em 2006 a “geração de Weggis” de craques-celebridades (contemporâneo ao reality show “Joga Bonito” para tratar da revelação de jovens talentos) foi um grande símbolo de ostentação e infantilização dentro da boleiragem, agora há a “geração TikTok”! Assim como naquela época já havia um grande número de adeptos da geração videogame, agora aposto que vem se somando a isso a geração de adeptos de sites de apostas e de pôquer com os incentivos de Neymar, Gabigol e outros! (vide serem alguns dos ramos mais recorrentes na atual publicidade esportiva nos intervalos das transmissões e muitas vezes também as interrompendo).

O texto a seguir trata da ampla adesão de jogadores famosos a esse ramo de publicidade e de dirigentes a esse ramo de patrocínio, assim como a permissividade da internet sustenta tais setores de complexa corrupção com proliferação mundial por contornarem legislações nacionais.

Vide um caso na última virada de ano o Cruzeiro foi o palco do cruzamento desses processos: sai o ídolo goleiro Fabio pela porta dos fundos e entra o investidor Ronaldo comprando o clube ao aproveitar a recente aprovação da lei de SAF no Congresso Nacional. Fatos que também agitaram com um tema crescente de outros jogadores milionários comprando clubes! O que sugere um fim de fronteiras entre jogadores famosos a investidores e dirigentes. Texto que também ajuda a mapear os crescentes investimentos do agronegócio em clubes principalmente das regiões Sul e Centro-Oeste, se somando ao setor financeiro como atualmente os mais dinâmicas da economia brasileira em geral e investidores do futebol brasileiro (assim como a agressiva entrada na maioria dos clubes por sites de apostas já comentada).

Afinal, falando em sínteses de décadas para propor uma periodização, da mesma forma que nos anos 2010 as arenas foram esse “brinquedinho” das elites políticas, econômicas e midiáticas, agora nos anos 2020 o mesmo tende a passar com a compra dos clubes. Diante do caminho coincidente previsível de primeiro precarizar (através da administração estatal de arenas e associativa de clubes) para baratear a compra/concessão privada. Depois com a dívida aumentada essa parte privada tende a desistir do negócio e o devolver ao público ou associativo! A gameficação, literal ou metafórica, é tão ampla que sugere que bilionários comprando clubes seja esse novo “brinquedinho” até enjoar e depois jogar fora! Afinal os inúmeros casos de falências no futebol europeu revelam que o capital não tem compromissos com vínculos arraigados como comunidades torcedoras, podendo se mudar da noite para o dia sem constrangimentos (SIMÕES, 2017).

(Obs: também como esboço de periodização diante da política interna dos clubes brasileiros, é preciso lembrar um cenário de muito desalento diante de uma década de 2010 iniciada com modestos esforços de democratização dos direitos políticos de sócios com algumas vitórias pontuais para um final de década dessa ampla onda de entrada de investidores nos clubes com seu “salvacionismo”. Assim como mencionar como sinal de conjuntura desse início de 2022 a leifertização precisa fazer verdadeiras “ginásticas verbais” para seguir alegando que “futebol e política não se misturam” diante do decreto da FIFA de banimento da Rússia das competições por clubes e seleções alegando os conflitos na Ucrânia. O que escancara a dupla moral da entidade-empresa diante de casos anteriores de conflitos e/ou violações de direitos humanos fomentados por Arábia Saudita, Israel e sobretudo Estados Unidos e o Catar, justamente a próxima sede, em que foram tratados com um “silêncio ensurdecedor”!).

Por fim, se até aqui conforme se aproxima a Copa de 2022 as perspectivas são muito pouco animadoras, vários desses processos mencionados ao longo do texto tendem a ser ainda mais aprofundados diante da próxima Copa de 2026: justamente na terra do Mickey e justamente quando nos últimos anos a Disney vem investindo pesado no mercado de entretenimento esportivo através da monopolização de direitos de transmissão. Sobretudo pela mudança no número de participantes com a plastificação de 32 para 48. Conceito que tratarei de forma central na parte II. Em suma, são elementos que reforçam a hipótese que no futebol de controle se encontram evidências de APROFUNDAMENTO do neoliberalismo. Ou seja, diante do ditado popular que “quem paga a banca escolhe a música” as etapas anteriores parecem criar as bases para as próximas.

Leituras de Apoio

BECK, M. Estádios pós-modernos para um futebol hiper-real: análise comparativa das arenas para a Copa do Mundo de 2014. 2012. 18f. Monografia (Especialização em Jornalismo Esportivo), Faculdade de Biblioteconomia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012.

GOMES, V. A militância político-torcedora no campo futebolístico brasileiro. 2020. 138 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia), Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2020.

GUILHON, M. Sob a pena da lei: princípios constitucionais, o Estatuto do Torcedor e o cerco às torcidas organizadas no Brasil. In: B. B. B. Hollanda e. O. R. Aguilar. Torcidas organizadas na América Latina: estudos contemporâneos. Rio de janeiro: 7 Letras: 76-100. 2017.

SIMÕES, I. Clientes versus Rebeldes: novas culturas torcedoras nas arenas do futebol moderno. Rio de Janeiro: Editora Multifoco, 2017.

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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. Futebol de Controle (I): arenização, leifertização e gameficação (ou das Copas do Mundo de 1994 a 2022). Ludopédio, São Paulo, v. 156, n. 2, 2022.
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