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“Era uma vez o futebol… lutando pela democracia”

Allef Souza 9 de julho de 2020

Nasci na década de 1990, em meio a uma democracia que começava a engatinhar rumo a uma reestruturação. O engraçado é que eu só iria entender o significado dessa palavra, “democracia”, algum tempo depois, embora tenha nascido em meio a ela e usado desde o berço as cores que a defenderam.

Como disse, nossa democracia estava se reestruturando, após ser vitimada por longos anos, vítima de um golpe desleal. Adentramos os anos 90 com o primeiro presidente escolhido por voto direto após esses duros anos, mas que durou apenas dois anos e alguns dias. Sofrera impeachment (algo que se tornaria bem comum em nossa jovem democracia).

O início da década de 1990 também tem um gosto a mais para nós, Fiéis. Liderados por Neto, o Corinthians sagrava – se campeão brasileiro pela primeira vez. Hoje, ainda ouço “conhecedores do futebol”, dizendo que o Corinthians passou a existir a partir de 1990… Vá lá que eu me dou o trabalho de argumentar com esse tipo de gente, não conhecem a beleza que havia nos campeonatos regionais, não compreendem a história. Além do mais, como pode um time que só via a torcida crescer, ser fundado em 1990? Como pode um time que combateu a ditadura, que trouxe em sua camisa a frase “Dia 15 vote”, que comandados por Casagrande, Wladimir e o doutor Sócrates, fez democracia em meio a um período escuro de nosso país (talvez o único até hoje na história do esporte bretão), ter sido fundado só em 1990?

Tem gente que nega os fatos, por burrice ou por cegueira. Há até quem diga que não existiu ditadura, ou que ela foi boa para o país… Pior ainda, esse tipo de gente hoje governa nosso país. Esse tipo de gente exalta torturador. Esse tipo de gente acha que as coisas se resolvem na bala, quando nós, resolvemos na bola. Esse tipo de gente arrasta atrás de si uma multidão de apoiadores (leia – se canalhas), mesmo não tendo feito nada, absolutamente nada no período de 27 anos como deputado, e ainda hoje. Quer dizer, fez e faz, quer desmoralizar a democracia. Eu disse que demorei a entender o que era democracia, mas entendi. Não precisei de mais de 27 anos vivendo de dinheiro público apenas para dizer cretinices, nem de colocar meus filhos a sugarem da mesma teta que ele mesmo quer matar. Até porque não tenho filhos.

Foto: Trecho do filme “Democracia em Preto e Branco”/Reprodução.

O nosso presidente, nada mais é do que o personagem Coringa (não o vilão do Batman, não que não seja vilão, mas sem o carisma e inteligência do outro), o Coringa em questão é o personagem do filme “Boleiros, era uma vez o futebol”, com os saudosos Rogério Cardoso e Flávio Migliaccio.

Esse Coringa que digo (que agora me falta o nome do ator, mas peço desculpa pela comparação), é um jogadorzinho perna de pau que se gaba por ser craque, que joga num time de come e dorme (mais uma comparação cabível). Quando o seu time tem um pênalti inventado, assinalado por um juiz comprado (olha ai, nessa história temos um juiz parcial também, Morô?), este se apresenta para a cobrança, mas na hora do “vamô vê”, não resolve na primeira, juiz manda voltar. Não resolve na segunda, juiz manda voltar e manda que troque o cobrador pra que o pênalti seja convertido.

Será que vamos ter que trocar o cobrador? Será que se o juiz do filme tivesse deixado o Coringa continuar batendo, ele iria demorar mais que 27 anos pra conseguir fazer?

Hoje vejo mais uma vez a nossa democracia “na corda bamba de sombrinha”, como bem disseram nosso saudoso Aldir e o grande João Bosco. Vejo a história querendo se repetir apoiada por gente que não conhece a história. Mas vejo também que as vozes que gritavam no estádio, gritarem nas ruas, as camisas em preto e branco, defendidas e amadas, defenderem e amarem a democracia.

Em mais de 27 anos, NADA. Do outro lado, em mais de 20 anos de ditadura e ainda hoje, a cara a tapa, os ideais, o grito e os punhos cerrados a favor da democracia.

O clube que é do Brasil, o mais brasileiro, é, não apenas por suas conquistas, mas também por sua história, maior que qualquer político desmiolado, ainda que presidente. Aliás, a faixa de presidente lhe cai tão mal, quanto a jaqueta com o brasão de nosso clube, lhe pediria pra para ter vergonha por isso, mas o senhor já tem muito com o que se envergonhar.

O time do povo não lhe aprova.

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Allef Eduardo de Souza

Graduado em Letras - Inglês pela UENP, cronista , amante do futebol, da literatura, fã declarado da gigante Inter de Milão e que não dispensa uma mesa de bar. Corinthiano, maloqueiro e sofredor!

Como citar

SOUZA, Allef. “Era uma vez o futebol… lutando pela democracia”. Ludopédio, São Paulo, v. 133, n. 20, 2020.
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