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Futebol e a mercadoria para poucos

Uma vez que se vive em um mundo neoliberal, não há setor da vida humana que não seja passível de ser apropriado pelas forças do mercado e se tornar um produto para ser vendido. Se o neoliberalismo é capaz de assolar até mesmo o que há de mais íntimo no ser humano (a sua subjetividade), o que não seria capaz de fazer com um fenômeno que é mais do que um simples esporte, mas uma ampla manifestação popular, como o futebol? Fazendo aquilo que os homens de negócio exaltam como sendo a mais distintiva capacidade humana, na selvageria competitiva do liberalismo econômico: transformando-o em muito dinheiro.

Quando os fazedores de negócio se apropriam do futebol, não é preciso um grande esforço imaginativo para saber que seus olhares sobre o esporte em nada têm a ver com o esporte, em si. Disputa pela bola, gols, mantos sagrados, torcidas fanáticas, grandes jogos e grandes jogadores deixam de existir, por si. O que existe – e essa é a lei irrefutável – é o potencial de lucro de cada um desses elementos. O jogador de futebol é menos o ídolo da torcida e mais o lucrativo garoto-propaganda da marca. O estádio é menos o espaço em que o povo vai ver seu time jogar, e mais uma arena acessível a um punhado de endinheirados. Não apenas matam, assim, a glória do futebol – não a glória pomposa dos jogos históricos, mas a glória cotidiana do(a) cidadão(a) que, nos fins de semana, tinha o alento de poder ir ao campo torcer pelo seu time. Matam, também, o drama. Daí os torcedores de selfie que, quando seus times sofrem gols, ao saberem que estão sendo filmados, se interessam mais pelo sorriso para a câmera do que pelo sofrimento legítimo. As arenas – mais uma cafonice de endinheirados do que, propriamente, estádios de futebol – transformam os torcedores em consumidores, e esta última condição é a que vai para a conta. As arenas não têm espaço para o carnaval das extintas gerais, mas amplos espaço higienizados para os camarotes privativos. Daí os públicos enxutos e as rendas milionárias dos jogos.

Os jogadores, no mundo em que o futebol deixa de ser um esporte de massas e passa a ser uma mercadoria para poucos, devem se preocupar com suas performances. Fora das quatro linhas, a preocupação deve ser com o silêncio, aconselhado pelos assessores, para que não contrariem os interesses dos seus patrocinadores. Quando digo “silêncio”, não falo em silêncio absoluto, é claro. Mas silêncio em relação a questões sensíveis e potencialmente contraditórias com os interesses políticos e comerciais de dirigentes, cartolas e daqueles que assinam o cheque. Daí as coletivas de imprensa burocráticas e as entrevistas enfadonhas de tantos e tantos jogadores – de clubes e, mais intensamente, da seleção brasileira -, que se limitam a repetir palavras perfeitamente treinadas para não desagradarem ninguém. Afinal, não se pode esquecer que aqueles que querem ouvir, em primeiro lugar, não são os torcedores, nem os jornalistas que fazem as perguntas, mas algo muito menos humano e muito mais condicionante: os clãs proprietários das logomarcas que estampam as coletivas de imprensa, na tela por trás das cadeiras em que os jogadores desaguam o previsível amontoar de palavras, até organizadas na forma, mas caducas e nada incisivas no conteúdo.

Fonte: Pixabay

Como quase toda generalização é incoerente, não se pode deixar de levar em consideração a presença de jogadores e figuras do futebol que são exceções importantes à regra. Que se manifestam, não apenas seguindo uma ou outra cartilha, mas que expressam suas posições minimamente autênticas. São, no entanto, exceções nesse universo.

O Brasil, esse planalto acidentado de desigualdade, vê o futebol se distanciar do povo. Inúmeros podem ser os motivos, mas, quando a última pesquisa Datafolha, de 2018, aponta que 41% de brasileiras e brasileiros não se interessam por futebol e que esse mesmo desinteresse é da ordem de 45% entre os mais pobres, cai por terra a folclórica ideia de que o Brasil é o “país do futebol”. Ora, se esse ente abstrato chamado “futebol” é aquilo que se pratica em estádios com ingressos cada vez mais caros, e exibido na TV, em sua maior parte, em canais fechados, como supor, senão por ingenuidade ou puro cinismo, que o Brasil pode ser o país do futebol? Quando uma camisa oficial de um time brasileiro custa 20%, 25% e até 30% de um salário mínimo, é até um desrespeito que um(a) torcedor(a) vista a camisa do seu time. Como um país tão desigual pode ser o país do futebol, se o futebol, cada ano mais, se torna uma mercadoria consumida por poucos?

Há uma máxima que diz que o capitalismo tende a ser hegemônico, pelo menos desde o fim da União Soviética. Essa hegemonia, no entanto, tem efeitos profundamente distintos, a depender do país a que se pretende impor. Não é o caso, aqui, de dissecar a lógica imutável de concentração de capital em países de capitalismo avançado, desde o fim do último século. Mas isso não impede de perguntar: com exceção de ver jovens brasileiros (normalmente, de origem pobre) mudarem suas vidas, se tornando milionários como jogadores em clubes europeus, qual foi o verdadeiro benefício, ao futebol brasileiro, da debandada, cada vez mais precoce, de jovens talentos brasileiros para fora? Não apenas isso não serviu (o que seria positivo) para internalizarmos com qualidade os conceitos táticos mais avançados da Europa – os desempenhos da seleção brasileira, em Copas do Mundo, depois do título de 2002, estão aí para provar, além do nível geral do futebol brasileiro -, como abrimos mão, por completo, do resquício de identidade do próprio futebol brasileiro, tornando o nosso futebol uma coisa híbrida, irritante aos que assistiram às décadas de ouro do futebol nacional, e incompetente para os mais modernizados que acompanham com mais afinco as pelejas da Europa.

É claro que a mudança de patamar (para baixo) do futebol brasileiro, nas últimas décadas, é um fenômeno mais complexo, mas não é à toa que a capacidade de improvisação e até certo grau de magia dos jogadores brasileiros tenha dado lugar a operários de planos táticos, mais preocupados com o percentual de eficiência do passe – o passe, sempre o passe – do que com os dribles e os gols. De um país de seleções e jogadores entre os melhores da história do futebol a mero exportador de mão-de-obra – ou “pé-de-obra”, como assinala o jornalista Juca Kfouri – para o mercado internacional. Pergunte, nos bastidores da CBF, a quem a seleção brasileira pertence. Quando a seleção dá uma banana ao povo brasileiro indo jogar, quase que o tempo todo, amistosos com exclusivo interesse comercial no além-mar, em razão dos negócios da Pitch Internacional, como exigir que povo se identifique com a camisa amarela? Devolvendo-lhe a mesma frieza e indiferença com a qual a seleção joga. Quando a seleção joga, no Brasil, uma Copa América, como a de 2019, com preços obscenos dos ingressos, o que realmente se espera nas arquibancadas? No campo, jogadores globais que, por acaso, estão ali usando uma camisa verde-e-amarela.

Alguém mais ranzinza poderá ler estas palavras condenando um apego ao romantismo. Mas, se não houver o romantismo no futebol, ainda que um resquício dele, do que, então, estaremos falando? O futebol será – como parece estar sendo, cada vez mais – números, estatísticas e cifras. Será tudo, menos futebol.

Trata-se, então, de reconhecer – com o alarme e o desalento que esse reconhecimento envolve – que a elitização do futebol não é um fenômeno abstrato e uma consequência natural do tempo. É um processo. Marcado, substancialmente, pela injeção do dinheiro como máxima inescapável do futebol. E que a sua compreensão apenas como um negócio tem vencedores: os que ganham financeiramente com isso. E inúmeros perdedores: especialmente, aqueles que viram surrupiarem o direito básico, humano e quase primitivo de torcerem pelo seu time. O que nos resta é estimar que, como todo processo político – da mistura inegável entre política e futebol -, ele ainda está em disputa, na torcida para que o futebol saia vencedor.

Referências

FOLHA DE S. PAULO. Cresce desinteresse do brasileiro por futebol, aponta Datafolha. Acesso em 30 de junho de 2020.

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André Lucena

Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) Doutorando em Ciências Sociais na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) Escritor. Autor do livro "Um Par de Horas" (Editora Multifoco, 2019)

Como citar

LUCENA, André. Futebol e a mercadoria para poucos. Ludopédio, São Paulo, v. 133, n. 21, 2020.
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