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Futebol e Antagonismo na política brasileira: por uma agenda democrática e popular

A realização da edição da Copa América de 2021 em solo brasileiro, depois da recusa de Argentina e Colômbia, ficou marcada não só pelo título argentino no Maracanã, superando um tabu de quase 20 anos sem conquistas, mas também pela sua realização em um contexto de pandemia e crise sanitária generalizada. À época, o Brasil somava mais de 480.000 mortes pela covid-19 e a cobertura vacinal ainda engatinhava, não chegando à 15% da população[1]. Entre críticas e protestos[2] de organizações e coletivos de torcedores, o governo do então presidente Jair Bolsonaro não recuou, e utilizou a competição como mais uma frente de promoção de sua agenda negacionista. 

Copa América 2001
Foto: Lucas Figueiredo/CBF/Fotos Públicas

Desde o início de seu governo, Bolsonaro buscou se aproveitar da ampla penetração do futebol no imaginário popular para construir sua imagem de “homem comum”. Embora não parecesse cultivar uma paixão genuína pelo jogo, frequentemente usava camisas falsificadas de times do Brasil inteiro em pronunciamentos e fotos em suas redes sociais, além de apelar, muitas vezes, a provocações e gozações difundidas na sociabilidade futebolística para se conectar com um público que tem o futebol como seu meio preferencial de lazer.

Mais do que isso, o futebol foi, fundamentalmente, um ponto privilegiado de Bolsonaro para reforçar a delimitação de uma fronteira antagônica[3] com a Rede Globo, emissora que, até aquele momento, detinha os direitos de transmissão das principais competições nacionais e internacionais do futebol brasileiro. Atacando o monopólio da empresa sobre os direitos de transmissão, Bolsonaro buscou mobilizar o sentimento difuso de antipatia que boa parte dos torcedores brasileiros sente pela emissora, colocando-se como defensor do “povo” em sua luta contra os poderosos.

Em certo sentido, o ex-presidente foi bem-sucedido em sua empreitada, emplacando algumas derrotas para a emissora, como a aprovação da Lei do Mandante – que enfraqueceu a posição monopolista da Globo na negociação dos direitos de transmissão –  e a compra dos direitos de transmissão da Copa América 2021 e das edições de 2020, 2021 e 2022 da Taça Libertadores da América pelo SBT[4]. Mais do que isso, em um momento em que seu governo era muito criticado pela condução da crise sanitária, Bolsonaro conseguiu pautar o debate sobre a realização da Copa América de 2021, desviando o foco da situação da pandemia para a suposta “dor de cotovelo” da Globo por não deter os direitos de transmissão do torneio.

Se o antagonismo mobilizado por Bolsonaro no contexto do futebol voltou-se para a questão dos direitos de transmissão, diversos movimentos de torcida – entre os quais podemos destacar desde torcidas organizadas sem um alinhamento político-ideológico definido até coletivos de torcedores antifascistas – buscaram traçar essa fronteira antagônica contra “os poderosos” a partir de um discurso sobre os efeitos nocivos do processo de “modernização” do futebol brasileiro.

Estádios elitizados, cerceamento das festas nas arquibancadas, criminalização das torcidas organizadas, entre outros, seriam sintomas do advento de uma nova sociabilidade encarnada na figura do torcedor-consumidor que, ao contrário do “torcedor raiz”, estaria mais interessado nas comodidades que o espetáculo oferece do que em viver ativamente a paixão pelo clube no estádio. Nesse contexto, motes como “ódio eterno ao futebol moderno”, “liberdade para torcer”, entre outros, expressam estratégias retóricas que fundamentam uma unidade contra um “outro” a ser rejeitado.

 Evidentemente, esse processo esteve longe de ser objeto de tematização por parte de Bolsonaro. Antes o contrário: considerando as declarações de seu ministro da Economia Paulo Guedes, tratava-se de algo perfeitamente compatível com o projeto de seu governo, já que lugar de pobre não é nem na Disney[5], e nem nos estádios de futebol. Estes devem ser exclusividade de uma elite abastada, disposta a gastar dinheiro sem ter que dividir espaço com presenças “indesejadas”. 

Paulo Guedes
Paulo Guedes, então ministro da Economia, com Jair Bolsonaro ao fundo. Foto: Fotos Públicas.

Considerando o engajamento de amplos setores dos movimentos de torcida nos acontecimentos políticos nacionais[6], o atual quadro se apresenta como uma boa janela de oportunidade para que o governo Lula se engaje melhor nesse debate. É preciso entender o futebol como um ponto de antagonismo contra a lógica neoliberal que nivela tudo e todos pela figura atomizada do consumidor. Para isso, urge a construção de uma agenda alternativa para o futebol. Uma agenda que volte a valorizá-lo como espaço democrático de convivência de todas as classes sociais, aberto às sociabilidades populares e suas apropriações coletivas do espaço público.

A interlocução franca e aberta com os movimentos e associações de torcedores é fundamental para que se articule as demandas que estão em jogo e se tenha um ponto de partida para o desenvolvimento de uma ampla gama de políticas públicas que atravessem diferentes pastas como esporte, educação, cultura, direitos humanos, justiça e segurança pública. Isso passa não só pelas estruturas de governo, mas também pela estrutura de mandatos parlamentares e de organizações partidárias, que também podem e devem se colocar à disposição da elaboração de projetos que consolidem essa alternativa democrática e popular para o futebol.

Amplos setores do povo brasileiro têm no futebol um meio de vida, um espaço no qual constroem identidades, vínculos afetivos, e até mesmo uma consciência cidadã, de pertencimento a uma coletividade. Nos momentos em que esteve à frente do governo federal, a esquerda, infelizmente, desprezou esse aspecto do esporte, se deixando pautar única e exclusivamente por promessas de modernidade que pouco trouxeram de benefício aos apaixonados por futebol. Ainda há tempo de reparar esses danos, desde que os quadros que atuam na política institucional deixem de ser pautados pela agenda de cartolas e autoridades policiais e passem a construir, em conjunto com os movimentos sociais, uma agenda própria que proteja os torcedores brasileiros da ganância de alguns e da sanha punitivista de outros.

Referência bibliográfica

LACLAU, Ernesto; MOUFFE, Chantal. Hegemonia e Estratégia Socialista: por uma política democrática radical. São Paulo: Intermeios; Brasília: CNPq, 2015.


[1] El País – Brasil sedia uma Copa América marcada pela pandemia, a ameaça de boicote e a polarização, 2021.

[2] Revista Fórum – “Copa da Morte”: torcidas protestam em estádios e federações de futebol contra Copa América no Brasil, 2021.

[3] LACLAU, Ernesto; MOUFFE, Chantal. Hegemonia e Estratégia Socialista: por uma política democrática radical. São Paulo: Intermeios; Brasília: CNPq, 2015.

[4] Na Telinha/UOL – SBT confirma transmissão da Copa América, 2021.

[5] O Globo – Guedes diz que dólar alto é bom: ‘empregada doméstica estava indo para Disney, uma festa danada’ , 2020.

[6] UOL – Torcidas organizadas se unem para furar bloqueio bolsonarista nas estradas, 2022.

 

Este texto foi originalmente publicado no Blog Comunicação, Esporte e Cultura.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Hugo Araújo

Mestre (2021) e Bacharel (2018) em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atua preferencialmente nas áreas da sociologia da cultura e sociologia política, com interesse especial nos seguintes temas: movimentos de torcida no futebol; identidades; cidadania; mediações; cultura política; neoliberalismo. 

Como citar

ARAúJO, Hugo; LUIZ, Jefferson. Futebol e Antagonismo na política brasileira: por uma agenda democrática e popular. Ludopédio, São Paulo, v. 179, n. 19, 2024.
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