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Futebol e turismo: perfil e motivações dos torcedores turistas que frequentam o “novo” Mineirão

Erick Alan Moreira Ferreira 8 de dezembro de 2014

No cenário futebolístico brasileiro, o ano de 2014 tornou-se referência, pois o país sediou a segunda Copa do Mundo de sua história. Neste contexto, a temática do turismo manteve-se em voga, já que este megaevento além de se configurar como o segundo principal megaevento esportivo do planeta, também é considerado um dos principais megaeventos turístico do universo. Paradoxalmente a este interesse, o conhecimento turístico relacionado ao futebol de maneira mais ampla, resultante do fluxo turístico gerado através da temporada regular (competições regionais, nacionais e continentais) ainda tem instigado poucas reflexões.

Acredita-se que a prática do turismo futebolístico envolvendo competições de clubes tende a se desenvolver em decorrência das transformações acarretadas para o futebol brasileiro no ensejo da organização da Copa do Mundo, sobretudo, em razão da proliferação das arenas multiuso. De acordo com o pesquisador escocês Richard Giulianotti, nesta nova concepção de estádio o acesso ao futebol torna-se controlado por variáveis econômicas de seus torcedores, onde se busca consolidar um público mais rico para frequentar os jogos, em um processo sustentado pelas forças que o controlam através da reinvenção de suas relações sociais. Assim, o turismo futebolístico também recai sobre essa mesma égide, uma vez que se torna uma prática intrinsecamente associada as demanda do espetáculo e consumo esportivo, pois o turismo enquanto atividade promotora de lazer, entretenimento e fuga do cotidiano, envolve dividendos econômicos para usufruí-lo, assim como na atividade esportiva.

Diante deste preâmbulo, este texto propõe apresentar informações a respeito do perfil e das motivações do torcedor turista, expondo dados sobre a conjuntura da capital mineira, evidenciando-se o papel que o “novo” Mineirão assume na relação futebol e turismo. Ressalta-se que os dados que serão apresentados foram coletados na parte externa e interna do estádio, entre os meses de abril e setembro de 2014, abarcando um total de dez jogos transcorridos em cinco diferentes competições: Campeonato Mineiro (1), Campeonato Brasileiro (5), Copa do Brasil (1), Taça Libertadores da América (2) e Recopa (1), ou seja, as principais competições a nível estadual, nacional e continental.

Torcedores fantasiados durante partida do Brasil contra a Alemanha pela Copa do Mundo de 2014. Foto: Jefferson Bernardes – VIPCOMM.

Tratando-se inicialmente da questão de gênero, observou-se um público preponderantemente do sexo masculino (73%), pois de acordo com o pesquisador Arlei Damo (UFRGS), esta tendência tem-se reproduzido com o passar dos anos e confirma-se em quase todos os lugares nos quais o futebol foi adotado. Já em relação ao estado civil, percebe-se um predomínio de um público casado (57%), seguido dos solteiros (36%) e dos divorciados (7%).

Sobre a composição do grupo de viagem, grande parte viaja entre amigos (40%), seguido da companhia de filhos (27%), cônjuge/namorado(a) (21%), outros familiares (19%), e apenas (14 %) viajam sozinhos. Dessa maneira, apesar da viagem entre amigos ser a mais recorrente, destaca-se a presença da família entre os grupos de torcedores turistas, uma vez que, considerando aqueles que viajam acompanhados de filhos, cônjuge/namorado(a) e demais familiares, obtêm-se um resultado expressivo de (67%). Sobre esta variável, ressalta-se a possibilidade do sujeito estar acompanhando, por exemplo, de amigos e familiares, e ainda, por mais de um familiar.

Em relação à faixa etária, observa-se um público com idade mais avançada, pois os grupos entre 40 a 49 anos (27%), 50 a 59 anos (21%) e acima de 60 anos (6%), representam em conjunto (54%). No que se refere à formação escolar, também se observa um nível de escolarização mais elevada, uma vez que (54%) possuem ensino superior, e ainda, (34%) dos que têm formação superior também possuem formação em pós-graduação.

Torcedores do Atlético Mineiro durante a partida final da Copa do Brasil de 2014 contra o rival Cruzeiro realizada na Mineirão. Foto: Washington Alves – VIPCOMM.

No que tange à renda média familiar, destacam-se os três grupos que recebem entre R$3.631,00 a R$7.240,00 (31%); R$7.241,00 a R$14.480,00 (17%) e mais de R$14.481,00 (13%), já que a sua soma representa (61%), caracterizando um perfil com renda familiar alta. Esses números são, inclusive, superiores à renda média familiar do turista brasileiro durante a Copa do Mundo. Dessa forma, o elevado nível da renda média familiar do torcedor turista condiz com a prática de ingressos mais caros utilizados como forma compensatória a diminuição da capacidade de público do “novo” Mineirão.

No que se refere ao gasto médio, grande parte (41%) desembolsa um montante acima de R$550,00 com toda a viagem. Dos principais gastos, a maioria gasta mais com o ingresso do jogo (55%), seguido de gastos com o transporte (25%), hospedagem (10%), visitação a demais atrativos turísticos na cidade (5%) e serviços de alimentos e bebidas (5%). O gasto principal com o ingresso, em certa medida justifica-se, pois o Campeonato Brasileiro é a competição nacional que tem o ingresso mais caro do mundo. Isso é o que aponta estudo realizado pela Pluri Consultoria. A análise comparou os preços relativos dos ingressos no Brasil com 12 dos mais importantes mercados do futebol mundial, considerando a renda per capita de cada país, o que permite mensurar adequadamente o preço em função do nível de renda da população.

Ainda dentro da lógica de transformação do futebol em negócio mercadológico, destaca-se o recente crescimento dos programas de sócio-torcedor. O programa de sócio-torcedor do Cruzeiro Esporte Clube pode ser utilizado como um exemplo da ascensão desta modalidade no país (no mês de novembro o Cruzeiro alcançou o expressivo número de 66.000 mil sócios), no entanto, os resultados da pesquisa destoam deste crescimento, uma vez que apenas (28%) dos torcedores turistas afirmam fazer parte de algum programa específico de sócio-torcedor.

Torcedores do Cruzeiro durante a partida da final da Copa do Brasil de 2014 contra o Atlético Mineiro no Mineirão. Foto: Gaulter Naves – VIPCOMM.

Logo, como a adesão desses torcedores ao programa sócio-torcedor do Cruzeiro ainda é baixa, a assiduidade desses torcedores ao estádio também tende a ser baixa (destaca-se o programa de sócio-torcedor do Cruzeiro, pois a equipe celeste joga todas suas partidas como mandante no Mineirão), já que considerando os torcedores que não foram nenhuma, uma ou duas vezes ao “novo” Mineirão no ano de 2013 obtêm-se (71%), resultado este bem próximo aos (72%) que não são sócio-torcedores. No que se refere à cidade de origem desses torcedores, grande parte é oriunda do interior do estado de Minas Gerais (60%). Em relação aos demais estados (40%), destaca-se a presença de torcedores do estado de São Paulo (18%).

Para (61%) desses torcedores, o principal motivo da viagem até Belo Horizonte é assistir exclusivamente uma partida de futebol no “novo” Mineirão. Para os demais (39%), destacam-se motivos como trabalho/estudo (44%); lazer/turismo (24%), visitar família/amigos na cidade (14%); compromissos sociais como aniversário, casamento e formatura (10%) e acompanhar a família no estádio (8%). Assim, corroborando com o estudo realizado pelo pesquisador Sérgio Paz (USP), confirma-se a possibilidade de se atrair para as praças futebolísticas, o chamado “turista circunstancial”, cuja viagem tenha tido um motivo que não o futebol.

Por fim, (65%) consideram a reforma do Mineirão como uma motivação para irem ao estádio. Neste sentido, foram mencionados fatores como conhecer o “novo” Mineirão, conhecer um estádio de Copa do Mundo, estética e arquitetura do estádio, segurança, organização, conforto, limpeza, melhoria na prestação de serviços, infraestrutura, visibilidade do campo e melhoria no comportamento do torcedor. Portanto, a partir das concepções dos próprios torcedores, o “novo” Mineirão tem-se tornado grande referência como atrativo turístico da capital mineira.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Erick Ferreira

Mestre em Estudos do Lazer (UFMG) Especialista em Gestão Pública (UFOP) Bacharel em Turismo (UFOP)

Como citar

FERREIRA, Erick Alan Moreira. Futebol e turismo: perfil e motivações dos torcedores turistas que frequentam o “novo” Mineirão. Ludopédio, São Paulo, v. 66, n. 3, 2014.
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