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Futebol na Literatura Alemã – Parte I: Die Toten Hosen e Campino, o punk e o futebol

Introdução

Hoje, será dado início a uma nova série como contribuição do Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes (FULIA), intitulada “Futebol na Literatura Alemã”.

Punk e futebol, na Alemanha, tradicionalmente constituíam dois mundos que se excluiam mutuamente. Nos anos 1980, o movimento punk era altamente politizado, e os torcedores de futebol tinham fama de retrógrados, racistas, violentos … Uma realidade ainda hoje existente, mas em grande parte contrabalançada pelas transformações profundas no contexto e nas torcidas do futebol “moderno”. Daí que hoje em dia, nos estádios alemães há uma presença bem forte de pessoas que se podem classificar como pertencentes ao âmbito alternativo e progressista, tanto nas torcidas organizadas, quanto no público geral nas arquibancadas. E entre eles não poucos devem ser fãs ou pelo menos gostar de Die Toten Hosen.

O nome da banda literalmente significa “as calças mortas”, uma variação da expressão coloquial “tote Hose” que oscila entre a referência à impotência sexual masculina (nada acontecendo dentro da “calça morta”) e a uma situação ou a um lugar onde reina o tédio. Desde a sua formação em 1982 na cidade de Düsseldorf, os Toten Hosen se posicionavam como rebeldes contra as normas vigentes na sociedade, mas também ocupavam o pólo mais lúdico e alegre do punk, ignorando as convenções internas e dogmáticas do movimento. Assim, nunca esconderam a sua paixão pelo futebol e o integravam continuamente na sua trajetória e obra, atuando como elemento integrativo das duas esferas e contribuindo muito para superar a separação entre o futebol e o punk.

Hoje em dia – tendo lançado 17 discos de estúdio e 8 ao vivo (cf. A discografia oficial) –, Die Toten Hosen ocupam um lugar destacado no cenário do rock alemão e são conhecidos também internacionalmente. Um detalhe fascinante é o status cult que “los Hosen” tem na Argentina, declarada a “segunda pátria” da banda. Esta ligação intensa se iniciou em 1992, e desde então houve apresentações em pequenos clubes e em estádios de futebol em Buenos Aires e outras cidades, chegando em 2018 ao ponto da banda organizar um festival de um dia na capital argentina, o “Hosen Fest” (com um curto documentário em vídeo). Ademais, lançaram edições especiais argentinas de seus discos e versões em espanhol de algumas músicas. O amor dos argentinos pela banda alemã se explica com a alta energia de seus shows e com o grande respeito que manifestam frente aos fãs no país, como podemos ler na sua biografia oficial:

Im Winter 2001 brach Argentinien wirtschaftlich zusammen. Der Peso war so gut wie nichts mehr wert, ausländische Bands kamen kaum noch, weil sie nichts mehr verdienen konnten. Die Toten Hosen fuhren unverdrossen in das gebeutelte Land und nahmen umgerechnet drei Euro Eintritt.

No inverno de 2001 a Argentina sofreu um colapso econômico. O peso já não valia praticamente nada, bandas estrangeiras quase não tocavam mais ali porque não tinha como ganhar dinheiro. Os Toten Hosen não deixaram de tocar no país agonizante e cobravam como entrada um valor correspondente a três euros. (OEHMKE, 2015, p. 374)

Campino durante um show no Teatro Colegiales de Buenos Aires (2009)
Campino durante um show no Teatro Colegiales de Buenos Aires (2009). Fonte: Wikipédia

Na história da banda existe também uma ligação com o Brasil, mesmo que mais tênue. Em 1991, passaram um tempo no Rio de Janeiro e gravaram duas músicas com Ronnie Biggs, o famigerado assaltante a um trem postal na Inglaterra, em 1963, que depois da sua fuga viveu 31 anos no Brasil. “No one is innocent” é um cover da música que em 1978 os Sex Pistols – já sem Johnny Rotten e Sid Vicious – haviam gravado com Biggs no Rio; a música “Carnival in Rio (Punk was)” é uma contribuição original dos Toten Hosen, acompanhada por um videoclipe gravado em Santa Teresa e na praia de Copacabana, em que os membros da banda exibem também uma pequena coleção de camisas do futebol brasileiro (no canal oficial da banda).

Este vídeo é um bom exemplo para a presença contínua e natural do futebol nas atuações dos Toten Hosen. Numa primeira tentativa de sistematização se poderia propor que o futebol se manifesta na trajetória da banda principalmente em três dimensões, que vão ser apresentadas a seguir: nas suas músicas; na sua atuação fora do palco e do estúdio; e, de forma particular, na vida do cantor Campino.

O futebol na música dos Toten Hosen

Com seu espírito irreverente, os Toten Hosen lançaram no ano 2000 a música “Bayern”, que imediatamente passou a ser um clássico para expressar o desprezo que a grande maioria dos torcedores alemães cultiva contra o hegemônico FC Bayern de Munique, que acumula 30 campeonatos nacionais e atualmente vem monopolizando este título desde a temporada de 2012/13 da Bundesliga.

Na letra da música, Campino se imagina um jovem jogador e declara que nunca iria assinar um contrato com “o Bayern”, por este ser “um clube de merda”. No refrão confirma e repete:

Es kann soviel passieren / Es kann soviel geschehen / Nur eins weiss ich hundertprozentig: / Nie im Leben würde ich zu Bayern gehen

Wir würden nie zum FC Bayern München gehen! / Niemals zu den Bayern gehen!

Tanta coisa pode acontecer / tanta coisa pode passar / mas de uma coisa eu tenho certeza absoluta / nunca na vida iria ir pro Bayern

A gente nunca iria pro FC Bayern de Munique! / Nunca iria pro Bayern!

(letra completa e amostra de áudio)

Uli Hoeness, o antigo presidente do FC Bayern e na época o seu gerente, reagiu com uma frase que virou famosa, declarando que os Toten Hosen seriam “o lixo que um dia irá sufocar a nossa sociedade” e contribuindo assim ainda mais para a alegria das torcidas adversárias.

Em 2002 foi lançado o álbum Auswärtsspiel (literalmente “jogo fora de casa”), contendo uma faixa com o mesmo título e com um refrão concebido para ser cantado no estádio. A letra (auto-)celebra a ideia romântica da torcida que acompanha o seu time em jogos fora de casa, mesmo que haja pouca ou nenhuma expectativa de ganhar.

Irgendwann kommt für jeden mal der Tag / an dem man sich entscheiden muss / auf welcher Seite man im Leben ist / auch wenn es noch so sehr weh tut //

Und wenn ihr lesen könnt, / dann seht euch an, / was auf unsern Fahnen steht / “Bis zum bitteren Ende” wollen wir den Weg mitgehen. //

Ole ole ole ola, egal, wer heute siegt! / Ole ole ole ola, es geht um mehr als nur ein Spiel!

Para cada um chega o dia / em que é preciso decidir / de que lado se está na vida / mesmo que doa demais //

E se vocês souberem ler / então prestem atenção / o que está escrito em nossas bandeiras / vamos continuar “até o fim amargo”. //

Ole ole ole ola, não importa quem ganha hoje! / Ole ole ole ola, está em jogo mais do que um jogo! (https://www.dietotenhosen.de/diskographie/songs/auswaertsspiel)

Em vez de ver vitórias, o propósito desses jogos fora de casa seria viver a paixão do futebol “autêntico” e vibrar com o time, por mais que este perca, o que se expressa no lema da própria banda “Bis zum bitteren Ende” – “até o fim amargo” ou, como propõem os Toten Hosen numa canção mais recente em tradução mais livre (2017), “Hasta la muerte” (https://www.dietotenhosen.de/diskographie/songs/wie-viele-jahre-hasta-la-muerte).

Várias canções dos Toten Hosen viraram clássicos da música popular alemã e se caracterizam pela capacidade de fazer estádios inteiros cantar, seja num show ao vivo, seja num jogo de futebol. A mais famosa entre elas é, sem dúvida, “Tage wie diese”, de 2012, que na Alemanha virou “a” música para momentos importantes e de festa, mesmo para pessoas que não compartem os valores representados pela banda: aniversários, casamentos, despedidas e, evidentemente, vitórias e conquistas no esporte, na vida, na política … (https://www.dietotenhosen.de/diskographie/songs/tage-wie-diese, no mesmo ano foi lançado uma versão em espanhol “Días como éstos”).

Die Toten Hosen
Capa de “Die Toten Hosen. Am Anfang war der Lärm”, de Philipp Oehmke. Fonte: Editora Rowohlt, divulgação

Na biografia autorizada da banda Die Toten Hosen. Am Anfang war der Lärm [literalmente, “no começo era o barulho”], o primeiro capítulo é dedicado às contradições tanto hilárias quanto sérias que o sucesso da música foi originando (OEHMKE, 2015, p. 7-37). Um episódio envolve o líder da bancada democrata-cristã (formada pelos partidos conservadores CDU e CSU) no parlamento alemão, Volker Kauder, que na noite da vitória dos conservadores nas eleições nacionais de 2013 subiu no pódio e começou a cantar “Tage wie diese” – uma afronta para todo o campo progressista e esquerdista, incluindo a própria banda. Os Toten Hosen protestaram decididamente, e afinal a própria chanceler Angela Merkel, re-eleita e também presente no pódio durante a comprometedora apresentação daquela noite, pediu desculpas pela apropriação da música e a falta de respeito para com os valores defendidos pela banda (cf. a reportagem da emissora WELT).

Já em 2012, logo após o lançamento da música, a Confederação Alemã de Futebol (DFB) teve a ideia de utilizá-la no caso de a Alemanha ganhar a Eurocopa daquele ano. A banda reagiu hesitante e com medo de se ver envolvida numa comemoração nacional e patriótica, e “por sorte” a Alemanha perdeu a semifinal contra a Itália pelo placar de 1 x 2, eliminando com a perspectiva do campeonato europeu também este possível conflito de consciência. Mas na noite do tetra-campeonato da Alemanha em 2014 no Rio de Janeiro – justamente contra a Argentina! –, a música foi tocada no sistema de som do Maracanã e foi cantada pelos jogadores durante a sua comemoração no gramado, em transmissão televisiva ao vivo para o mundo inteiro. De novo, a DFB convidou a banda para tocar “Tage wie diese” na festa oficial em Berlim dois dias após a finalíssima, perante 400.000 mil pessoas e com a seleção campeã no palco. Na biografia, Philipp Oehmke descreve a problemática fundamental que esta situação implicava:

Sie werden umarmt von einer Welt, die ihnen im Grunde fremd ist: 400 000 Menschen, Deutschland-Fans, Fahnenmeer, Siegestaumel. Die Mehrheitsgesellschaft, die sich feiert. Gehören sie dahin? Als Staatsband? […] Andererseits: Deutschland ist Weltmeister. Ihr Lied läuft im Maracanã. Es wird von den Spielern gesungen. Und man fragt sie. Also, let’s go, worauf wartet ihr?

São abraçados por um mundo que no fundo lhes é estranho: 400.000 pessoas, torcedores da Alemanha, um mar de bandeiras, delírio triunfal. A sociedade majoritária que se auto-celebra. Será este o lugar deles? Atuando como banda nacional? […] Por outro lado: a Alemanha é campeã do mundo, a sua música é tocada no Maracanã, é cantada pelos jogadores. E eles são convidados. Então, let’s go, o que vocês estão esperando? (OEHMKE, 2015, p. 376)

A banda decidiu por unanimidade recusar o convite, pelo mesmo motivo que já pesou em 2012, de não se querer deixar apropriar pelo patriotismo alemão, ainda bastante suspeito e perigoso, apesar de ter desenvolvido uma cara mais simpática e alegre, a do chamado “patriotismo de evento” ou “de festa” (OEHMKE, 2015, p. 376-7).

O futebol na “vida real” dos Toten Hosen

Entretanto, quando o clube de casa dos Toten Hosen, o Fortuna 1895 Düsseldorf, disputou a repescagem para voltar à primeira divisão da Bundesliga em 2012, na véspera do decisivo jogo de volta contra o Hertha BSC de Berlim, a banda nem precisou pensar duas vezes e foi tocar “Tage wie diese” ao vivo no hotel do time. No dia seguinte, após um 2 a 2 muito intenso e uma invasão prematura do gramado pela torcida do Düsseldorf, a música virou o hino do triunfo e do acesso do clube. Ainda no mesmo ano, os cinco integrantes da banda foram declarados sócios honoríficos do Fortuna.

Durante toda a sua carreira, os Toten Hosen consideraram o Fortuna como a sua família. Já durante a turnê de 1988/89, a banda destinou um marco alemão de cada ingresso vendido para o clube – então recém-rebaixado para a segunda divisão – poder comprar um novo jogador “para o acesso”. Arrecadaram um total de 150.000 marcos que entraram no valor total pago para contratar o zagueiro Anthony Baffoe. De fato, o Fortuna conseguiu voltar à primeira divisão logo no ano seguinte, mas em 1993 caiu até para a terceira divisão. Naquele ano, a banda fez outra doação, desta vez de 80.000 marcos, para apoiar a criação do projeto dos torcedores do clube.

O Fortuna conseguiu voltar à primeira divisão em 1995 (com dois acessos seguidos), foi rebaixado de novo em 1997 e em 1999 acabou mais uma vez na terceirona. Nessa época sombria, os Toten Hosen salvaram o clube da iminente falência, assumindo o patrocínio principal nas temporadas de 2001 a 2003, através de um acordo com a fábrica local de cerveja Diebels, que por sua vez recebeu autorização para patrocinar a turnê da banda (cf. CAMPINO, 2020, p. 205 ss.). As camisas dessas duas temporadas, com o emblema da banda no peito – a caveira com a estrela vermelha –, hoje são cobiçadas peças de colecionador (https://www.kulttrikot.de/f95-x-dth/f95-x-toten-hosen-trikotsammlung/). Em 2019 – o Fortuna tinha voltado para a primeira divisão –, houve uma re-edição dessa camisa com patrocínio da banda para o jogo em casa contra o Bayern de Munique. O dinheiro das vendas foi destinado ao apoio para a construção do centro de formação do Fortuna (https://shop.dietotenhosen.de/index.php/n.137-F95-x-DTH/).

Hope Street: Campino e o Liverpool FC

Para além da paixão dos Toten Hosen pelo Fortuna 95, em campeonatos internacionais o cantor Campino – que na verdade se chama Andreas Frege – torce ostensivamente pela Inglaterra. A sua mãe era inglesa, e vibrar com o time da pátria dela seria, segundo Campino, uma forma de homenagem a ela. Mas, como ele mesmo continua explicando, a sua metade inglesa se expressa principalmente através do seu amor pelo Liverpool FC; um amor que deu origem ao seu livro Hope Street, publicado em 2020. Bem no início, Campino escreve:

Seit Jahren fahre ich zu allen Spielen, die ich irgendwie erreichen kann, quetsche sie zwischen Tourpläne, Studienaufnahmen und Restleben. Erst spät habe ich begriffen, dass ich da nicht nur zu Fußballspielen fahre. Unterbewusst habe ich auf diesen Reisen mein Englischsein ausgelebt, mein Bedürfnis, dazuzugehören und es fühlen zu können. Ich ziehe mir mein rotes Hemd an und bin in Sekunden verwandelt. Mit tausend anderen laufe ich durch die Straßen zum Stadion, singe dabei seltsame Lieder und bin glücklich. Das klappte damals, das klappt noch heute.

Desde há anos, vou para assistir a todos os jogos que consigo ver de alguma maneira, os enfio entre os calendários dos turnês, as gravações no estúdio e o resto da minha vida. Só bem tarde é que entendi que não são somente jogos de futebol. Inconscientemente, nessas viagens eu concretizei a minha essência inglesa, a minha necessidade de fazer parte e de poder senti-lo. Eu coloco a minha camisa vermelha e em segundos me transformo. Junto com milhares de pessoas caminho pelas ruas até o estádio, entôo canções estranhas e sou feliz. Isso funcionou no passado, isso funciona ainda hoje. (CAMPINO, 2020, p. 18)

Capa de "Hope Street", de Campino. Fonte: Editora Piper, divulgação
Capa de “Hope Street”, de Campino. Fonte: Editora Piper, divulgação

Este livro autobiográfico combina as memórias de um músico de punk rock entre a Alemanha e a Inglaterra nos anos 1970 e 1980 com a narração da temporada 2019/20 da Premier League inglesa vivida pelo torcedor doentio do Liverpool FC e coroada com o campeonato do clube (daí o subtítulo do livro “Wie ich einmal englischer Meister wurde” – “Como uma vez fui campeão inglês”).

Campino começa o seu relato com o dia em março de 2019 em que ele recebeu a nacionalidade britânica, decisão que ele apresenta como gesto para fechar o círculo da sua vida dividida entre dois países e duas culturas. Daí, ele evoca as férias de verão que a família – radicada na Alemanha –, costumava passar na região de Cornwall durante a sua infância, e onde ele no início dos anos 1970 escolheu o LFC como o seu time de coração. Também narra como ele ia acompanhar o jogos do clube apesar das reduzidas possibilidades técnicas e midiáticas daquela época durante a sua adolescência num subúrbio idílico de Düsseldorf.

Espalhados pelo livro, Campino narra vários episódios da sua paixão juvenil: o primeiro encontro com os torcedores do LFC, a “Red Army”, e o primeiro jogo visto no estádio, em ambos os casos por ocasião de jogos do LFC pela Copa dos Campeões contra o Borussia Mönchengladbach, o famoso clube rival e vizinho do Fortuna; tardes e noites passadas colado ao rádio, escutando a transmissão dos jogos da Premier League pela estação das forças armadas britânicas na Alemanha; como a música “You’ll never walk alone”, cantada pela multidão em Anfield, entrou para sempre na sua alma. Esta música de 1945, que na versão “Merseybeat” de Gerry and the Pacemakers, de 1963, e através da sua apropriação pela torcida dos “Reds”, virou hino e lema do Liverpool FC, também tem um lugar de honra na vida e obra dos Toten Hosen: a banda termina cada show com ela (https://www.dietotenhosen.de/diskographie/songs/youll-never-walk-alone) e em 2000 – justamente como lado B da canção “Bayern” – gravou no estúdio uma versão que também faz parte de uma compilação de maiores sucessos e raridades (“Reich & Sexy II”, de 2002).

No plano narrativo do livro situado no presente do autor, acompanhamos Campino nas suas viagens pelo mundo e nas mais diversas circunstâncias para assistir a jogos do LFC: desde a cadeira cativa em Anfield, passando por bares na Alemanha ou em Nova Iorque, até o streaming no celular numa plataforma deserta de uma estação de trem na província alemã… No cabeçalho dos capítulos relacionados com jogos ou jornadas, além do lugar onde os viu, Campino informa as datas, os resultados, a diferença de pontos para o segundo lugar e formula um curto balanço subjetivo do teor de “O que importa: 3 pontos” (CAMPINO, 2020, p. 210) ou “Bayern de merda, viva o LFC” (CAMPINO, 2020, p. 192).

Campino se revela como groundhopper compulsivo que viaja a cada jogo do LFC que o tempo disponível e a logística lhe permitem, seja em Liverpool, em outras cidades inglesas ou em qualquer lugar da Europa ou do mundo. Não importam nem a modalidade – pode ser a Champions ou a Premier League, pode ser uma das várias copas inglesas – nem o adversário, Campino assiste também a jogos do time B ou C do Liverpool na província inglesa contra clubes de divisões inferiores.

Vale a pena destacar que a narração dessas excursões “exóticas” e fora da rotina origina os momentos mais interessantes e prazerosos do livro. Na província, Campino aparece como torcedor “romântico”, que nem liga para o desempenho ruim do seu time no gramado, porque no estádio pequeno e decaído a cerveja é mais gostosa, a atmosfera mais intensa e o público mais “autêntico”. Nesse contexto, ele formula a sua visão da experiência no estádio:

Fußballspiele gehören zu den letzten kollektiven Analog-Erlebnissen, die wir alle miteinander teilen können, ähnlich wie Theatervorführungen oder Livemusik. […] Manche Momente im Stadion hinterlassen ein bleibendes Gefühl, das noch Jahre später abrufbar ist. Dieses »Warst du auch dabei?« nach bewegenden Spielen ist Gold wert. Nur das gemeinsam Erlebte ist wirklich geschehen, der Rest ist auf Dauer wertlos.

Jogos de futebol fazem parte das últimas vivências análogas que todos nós podemos compartilhar, similares a apresentações de teatro ou à música ao vivo. […] Alguns momentos no estádio deixam um sentimento permanente que anos mais tarde ainda pode ser revivido. Este »você também esteve lá?« depois de jogos comoventes vale ouro. Somente o que se vive juntos aconteceu de verdade, o resto, em longo prazo, não tem valor. (CAMPINO, 2020, p. 85-86)

Em contrapartida, as viagens para os jogos da Champions League – não poucas vezes em avião, com shuttle entre aeroporto, hotel e arena pós-moderna –, se lêem mais como entradas obrigatórias no diário de um turista apressado, e pouco transmitem de uma possível vivacidade do futebol e do torcer nessas esferas.

De certa maneira, os momentos fora da “Disneylândia” do futebol moderno (CAMPINO, 2020, p. 255) interagem muito bem com as memórias da infância e adolescência e com alguns momentos de busca das próprias raízes na Inglaterra que Campino retraça no seu texto. Entre os capítulos mais interessantes consta a sua visita à cidade de Burnley, em casa de uma tia nonagenária, onde ele tenta reconstruir as condições de vida da família de sua mãe e a experiência dela ao emigrar para a Alemanha por causa do amor, somente 20 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial (CAMPINO, 2020, p. 95-104).

No domínio futebolístico, Campino quer manter viva a sua visão do LFC como uma “família”, como um clube tradicional e autêntico apesar de saber que se trata também de uma empresa global pós-moderna.

Anfield liegt inmitten des gleichnamigen Wohngebiets, das zu den ärmeren Vierteln Liverpools gehört. […] Für mich die perfekte Umgebung – hier gehört der Fußball hin, hier ist er noch nicht zu einem Musical verkommen. Es ist eine Arbeitergegend, und sie ist fest in die DNA des Vereins eingeschrieben. Der Charme liegt ja in Bodenständigkeit und Bescheidenheit der Leute, und egal, wie erfolgreich der LFC ist, wird diese Haltung auch von ihm erwartet.

Anfield está situada no meio do bairro residencial do mesmo nome, que é um dos bairros pobres de Liverpool. […] Para mim é o entorno perfeito – aqui o futebol tem o seu lugar, aqui ainda não degenerou em musical. É um bairro operário, e está impregnado fortemente na DNA do clube. Pois o charme reside na simplicidade e humildade das pessoas, e não importa o sucesso do LFC, elas reivindicam também dele essa postura. (CAMPINO, 2020, p. 158)

Seus relatos do pré-jogo ou pós-jogo em Anfield e em Hope Street – rua que leva ao estádio e que inspira o título do livro – se esforçam por transmitir uma imagem da torcida local se encontrando nos pubs a caminho do estádio, de um idílio futebolístico saudosista, mas não há como ignorar a presença cada vez maior de visitantes e turistas internacionais que vão transformando os jogos em casa em eventos do entretenimento globalizado. Mas também ali, na fronteira entre “Disneylândia” e “autenticidade”, ainda são possíveis os momentos fascinantes, como, por exemplo, o encontro de Campino com George Sephton, locutor em Anfield desde 1971 (CAMPINO, 2020, p. 281-294). Eles conversam num pub em Liverpool, falam de futebol e música, do LFC e dos Toten Hosen, inevitavelmente de “You’ll never walk alone”, mas também dos Beatles, da academia de música LIPA, fundada por Paul McCartney, e finalmente de John Peel, o famoso DJ e radialista que exerceu um papel tão decisivo na divulgação da música pop desde os anos 1970. Essa conversa é uma verdadeira lição em história cultural a partir do contexto local, sobre a contribuição da cidade de Liverpool para a cultura popular global, não somente no campo futebolístico.

Outro tópico importante do livro é a amizade de Campino com Jürgen Klopp, desde outubro de 2015 técnico do LFC e arquiteto do triunfo na Liga dos Campeões em 2019 e do campeonato inglês em 2020, amizade documentada já numa entrevista que os dois concederam à revista alemã de cultura futebolística 11FREUNDE em maio de 2016 (BIERMANN, 2016 – versão online). No livro, Campino conta como se originou esta amizade pouco depois da transferência de Klopp do Borussia Dortmund para o Liverpool, e em outra entrevista com a mesma revista – em 2020 por ocasião do lançamento de Hope Street – ilustra com ela a sua preferência pela Inglaterra no campo futebolístico: À pergunta se ele iria começar a torcer pela seleção alemã caso Klopp virasse técnico dela, ele responde que no máximo iria simpatizar um pouco mais com o time, mas com exceção categórica para jogos da Alemanha contra a Inglaterra (BIERMANN, 2020, p. 91).

Jürgen Klopp no desfile para comemorar o triunfo na Champions League em 2019. Fonte: Wikipédia

No contexto dessa amizade, Campino relata vários momentos nos bastidores do cotidiano futebolístico: alguns encontros com a família e amigos na casa de Klopp, encontros com ex-jogadores e outros representantes do LFC em volta dos jogos, e particularmente uma grande proximidade do time durante o Mundial de Clubes em dezembro de 2019 no Qatar, onde o LFC se consagra campeão mundial na final contra o Flamengo. Ao mesmo tempo, os respectivos trechos no livro contam momentos em que a já mencionada “Disneylândia” do futebol global contemporâneo se evidencia de maneira perturbadora, até para o próprio autor. Antes do Mundial de Clubes, Campino pondera os argumentos a favor e contra a viagem:

Meine liebe Frau sagt, ich sei bescheuert, überhaupt nur daran zu denken, dorthin zu fliegen – Menschenrechte mit Füßen getreten, sinnlose Umweltverschmutzung in Zeiten der Klimakatastrophe, Unterdrückung von Frauen. Außerdem weiß sie, dass dieser Wettbewerb sportlich ohne große Bedeutung ist.

Der besorgte Bürger in mir bedenkt alle Einwände gründlich – aber der Fan beschließt zu fliegen.

Minha querida esposa diz que sou louco de só pensar em viajar – direitos humanos desrespeitados, poluição ambiental sem sentido em tempos do colapso climático, repressão das mulheres. Além disso, ela sabe que em termos esportivos este torneio tem pouca importância.

O cidadão preocupado dentro de mim considera detidamente todos esses argumentos – mas o torcedor decide pegar o avião. (CAMPINO, 2020, p. 221)

É uma viagem de luxo para um lugar tão problemático como o Qatar na qual o torcedor VIP goza do direito de assistir aos treinos do time e de participar da festa da vitória. Campino tenta contrabalançar esta contradição com a subversão e irreverência do antigo punk, que dribla a proibição do álcool com festas privadas no hotel internacional no final do dia.

O livro está estreitamente ligado à época em que foi escrito e em que os acontecimentos narrados tiveram lugar – a temporada 2019/20 da Premier League. Por esta mesma razão e sem que isto tenha sido intencionado, Hope Street documenta de forma expressiva o momento que divide o mundo – o mundo em geral e particularmente o do futebol – em um “antes da pandemia” e um “durante a pandemia” (e ninguém sabe ainda como será um possível “depois da pandemia”).

O momento mais angustiante no livro se dá quando Campino e Andi (o baixista dos Toten Hosen) decidem viajar de Düsseldorf a Liverpool, para ver o jogo de volta das oitavas de final da Champions League contra o Atlético Madrid, no dia 11 de março de 2020 …, justamente na véspera do primeiro grande lockdown na Europa, um dia antes de a Espanha fechar todas as escolas e universidades …, um momento histórico que se revela somente na retrospectiva, como Campino repete várias vezes no seu relato.

Os dois amigos decidem viajar apesar da situação cada vez mais preocupante, mas as multidões e aglomerações já estão começando a causar receios e angústia. Depois do jogo perdido e a eliminação da Champions League, Campino e Andi entram clandestinamente nos bastidores do estádio, porque oficialmente isso já não é permitido, e por isso levam uma bronca de Jürgen Klopp. Depois os três amigos alemães conversam mais um pouco, e é mesmo o prenúncio de uma nova era que se iniciará pouco tempo depois: a era dos campeonatos nacionais e internacionais suspensos, depois dos jogos sem público, do futebol como símbolo eminente das discussões e dos conflitos que vão marcando as sociedades … (CAMPINO, 2020, p. 329-340).

Campino escreve pouco sobre o próprio lockdown na Alemanha, só ficamos sabendo que tenta contrabalançar o jejum do futebol suspenso com a reativação dos campeonatos de Tipp-Kick (jogo de mesa de parentesco remoto com o futebol de botão no Brasil, cf. CORNELSEN, 2018) em família. Quando seis meses mais tarde a Premier League volta a jogar, em estádios vazios, Campino resume o seu relato com os últimos jogos que faltam para confirmar o campeonato do Liverpool. Mas o respectivo capítulo se lê já como um epílogo, a dramaturgia culminou em março de 2020, agora falta somente terminar a temporada que serve como base e estrutura para o livro e que leva ao título.

Com tudo isto, com os seus momentos fortes e fracos, este plano narrativo do livro em alguns anos poderá servir como testemunha de um passado que então será difícil de imaginar e de entender, de maneira semelhante como o passado ainda mais distante da sua biografia e das coisas em volta, que Campino lembra e conta dentro do livro a partir do eixo temporal da temporada de 2019/20. Com tudo isso, Hope Street articula o futebol como eixo central da evolução sócio-cultural e política em geral, como espelho e reflexo da sociedade e das suas transformações.

Além disso, o livro constitui uma contribuição enriquecedora e muito simpática para a nossa visão e compreensão da cultura popular – principalmente do punk e do futebol – dos últimos 40 anos. Pois é, em 2022 Die Toten Hosen comemoram 40 anos de existência, parabéns e muito obrigado!

Bibliografia

Biermann, Christoph (2016): “Wenn nicht ich hier Trainer sein darf, dann bitte du!”. Interview des Monats. Liverpool-Fan Campino trifft Coach Jürgen Klopp. In: 11 Freunde (174), S. 26–34.

Biermann, Christoph (2020): „Klopp als Bundestrainer? Das will ich mir nicht ausmalen!“ Interview mit Campino. In: 11 Freunde (228), S. 88–91.

Campino (2020): Hope Street. Wie ich einmal englischer Meister wurde. München: Piper.

Cornelsen, Elcio Loureiro (2018): Futebol como simulacro. Tipp-Kick, um jogo alemão. FuLiA / UFMG, vol. 3, no. 3, p. 67-92 (DOI: https://doi.org/10.17851/2526-4494.3.3.67-92).

Oehmke, Philipp (2015): Die Toten Hosen. Am Anfang war der Lärm. Reinbek bei Hamburg: Rowohlt.

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Marcel Vejmelka

Professor do Departamento de Espanhol e Português na Faculdade 06 "Tradução, Linguística e Estudos Culturais" (FTSK), da Universidade Johannes Gutenberg de Mainz, em Germersheim, Alemanha. Doutorado em Estudos Latino-americanos/Brasileiros - Freie Universität Berlin (2004); graduação em Tradução Português/Espanhol - Humboldt-Universität zu Berlin (2000). Tem experiência na área de Literatura, Cultura e Tradução, com ênfase em Literatura brasileira e hispano-americana, atuando principalmente nos seguintes temas: tradução literária, literatura brasileira e hispanoamericana, tópicos da cultura popular (futebol, música e hq).

Como citar

VEJMELKA, Marcel. Futebol na Literatura Alemã – Parte I: Die Toten Hosen e Campino, o punk e o futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 153, n. 9, 2022.
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