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Futebol na Literatura Alemã – Parte III: A vida de Oskar Rohr em quadrinhos

Uma biografia em quadrinhos

Nesta terceira contribuição à série “Futebol na Literatura Alemã”, do Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes (FULIA), iremos apresentar e analisar a biografia em quadrinhos – mais exatamente em formato de romance gráfico – do jogador Oskar Rohr, publicada em 2019 por Julian Voloj (história) e Marcin Podolec (desenhos).

Oskar Rohr em 1937
Oskar Rohr em 1937, com a camisa do Racing Club de Strasbourg. Fonte: Wikipedia

Este livro fecha uma lacuna a respeito do “Robert Lewandowski” ou do “Gert Müller dos anos 1930” – como consta em algumas resenhas com referência aos dois maiores artilheiros do FC Bayern –, pois não existe até hoje uma biografia monográfica ou outra publicação de maior porte sobre Oskar Rohr. As informações sobre a vida e a carreira do melhor atacante alemão da sua época estão dispersas em diferentes fontes, normalmente contidas em obras coletivas e léxicos biográficos (p. ex. SAUTTER, 2015 e SCHWARZ-PICH, 2013). Ao optar pela narrativa gráfica, entra em cena a representação visual da vida de um jogador e, com isso, do jogo de futebol.

Não se trata de uma obra destinada explicitamente a um público infanto-juvenil, mas o livro ganhou, em 2020, o prêmio de literatura futebolística Lese-Kicker (“leitor-futebolista”) na categoria “juvenil” (na página do prêmio há vídeos com apresentações das obras finalistas).

O livro conta os momentos decisivos da vida e da carreira do atacante Oskar Rohr, nascido em 1912 na cidade de Mannheim (onde faleceu em 1988), marcadas pelo pioneirismo de um dos maiores artilheiros de seu tempo e pelas circunstâncias históricas do Nazismo e da Segunda Guerra Mundial. A biografia está dividida em duas partes. Na primeira parte, cenas da final do campeonato alemão de 1932 – disputada na cidade de Nuremberg entre o Eintracht Frankfurt e o FC Bayern de Munique – são intercaladas com momentos da infância e da adolescência de Oskar Rohr, reconstruindo a trajetória que o levou até àquela extraordinária partida. A segunda parte está dedicada à vida de Oskar Rohr entre 1933 e 1945, no exílio na Suíça e na França, e no front oriental.

Quando o Bayern ainda não era campeão cativo

No dia 12 de junho de 1932, na finalíssima do campeonato alemão daquela temporada, disputada entre o FC Bayern München e o Eintracht Frankfurt em Nuremberg, aos 36 minutos do primeiro tempo, o árbitro apita um pênalti para o FC Bayern. Oskar Rohr assume a responsabilidade e chuta…, há um pequeno desnível no gramado ou o chute não é executado com precisão perfeita…, o seu pé direito faz explodir uma nuvem branca da cal da marca de pênalti…, mesmo assim Rohr marca o gol…, o Bayern sai ganhando 1 a 0, o fundamento da vitória por 2 a 0 e do primeiro campeonato alemão na vida do clube bávaro.[1]

No dia 23 de abril de 2022, na 31ª jornada da Bundesliga – a primeira divisão do campeonato alemão – e três jornadas antes do fim da temporada, vencendo o segundo colocado Borussia Dortmund pelo placar de 3 a 1, o FC Bayern de Munique se consagrou campeão alemão pela décima vez consecutiva, e pela 32ª vez no total (o clube publicou uma página especial para comemorar o evento). No contexto do futebol alemão é difícil – e para muitos torcedores, bastante doloroso – lembrar as poucas exceções recentes que quebraram esta hegemonia, que se iniciou com o título conquistado pelos “bávaros” em 1972, e depois do qual o FC Bayern vem ganhando no mínimo três campeonatos por década.

É mesmo muito difícil imaginar que até o FC Bayern de Munique, clube fundado em 1900, tenha vivido longas décadas de jejum de títulos: levou 32 anos para conquistar o primeiro campeonato alemão da sua existência, e depois ainda mais – 37 anos – para repetir a façanha em 1969. O clube e a sua torcida, hoje em dia, não parecem mesmo compatíveis com essa dimensão de modéstia, sofrimento e paciência em termos futebolísticos.

Por isso, a vitória sobre o Eintracht Frankfurt é lembrada até hoje como início da história gloriosa do clube.[2] A conquista do primeiríssimo título nacional pelo FC Bayern está intimamente ligada à biografia e à carreira de Oskar “Ossi” (ou “Ossy”) Rohr. O jovem atacante contribui de forma substancial para este título, convertendo um pênalti para o 1 a 0, e se consagra como craque da época. Já antes do triunfo, em março de 1932, ele é convocado pela primeira vez para a seleção alemã e estreia na partida contra a Suíça. Seguem, em setembro do mesmo ano, jogos contra a Suécia, e em 1933, contra a Itália e a França. No total, são somente quatro atuações na seleção, com um saldo de cinco gols.

Oskar Rohr
Capa de Ein Leben für den Fußball. Die Geschichte von Oskar Rohr (Uma vida pelo futebol. A história de Oskar Rohr, VOLOJ/PODOLEC 2020), reproduzindo o pênalti lendário. Fonte: Editora Carlsen/divulgação

Depois do chute, o momento do gol. Impressões do segundo tempo (VOLOJ/PODOLEC 2020, p. 58-59). Legenda, p. 58: “Gol!” / “Goool! Ossi Rohr marca e o Bayern está vencendo 1 a 0!” // Legenda, p. 59: “No segundo tempo, o jogo tornou-se mais duro.” / (Dombi, o técnico:) “Vocês três tem que ficar trocando de posição o tempo todo. Formem um triângulo, sempre em movimento.” / “Passes rápidos e troca de posições confundiam o Eintracht.”

A chegada ao poder dos nazistas, em janeiro de 1933, significa o início de seu regime de perseguição, terror e extermínio. Oskar Rohr, que se considera um homem apolítico, sente esta pressão bem cedo, porque o novo regime desconfia profundamente do futebol – por ser um esporte “inglês” e “moderno” –, e propaga um amadorismo idealizado e patético em todos os esportes. Para poder  continuar no seu nível de jogo e avançar como jogador profissional, Ossi Rohr tem que ir para o estrangeiro e, em consequência, é considerado um “traidor da pátria” e nunca mais joga pela Alemanha.

Anos de exílio, anos de glória

Entre a primeira e a segunda parte, o romance gráfico realiza um salto de junho de 1932 para janeiro de 1933. Nas páginas 62 e 63, cada uma com um quadro só, está representada a passagem das inocentes comemorações do campeonato em frente à Prefeitura de Munique (como virou tradição do FC Bayern) no quadro à esquerda para a nefasta festa em Berlim pelo recém-nomeado chanceler Adolf Hitler à direita.

(VOLOJ / PODOLEC, 2020, p.62-63) Legenda: p. 62: “Podia ter sido o perfeito final feliz.” – p. 63: “Mas as coisas saíram de forma diferente.”

A segunda parte é composta por episódios mais curtos, livremente associados, que reconstroem a trajetória de Oskar Rohr entre 1933 e 1945, complementada por detalhes históricos relacionados com outros protagonistas do futebol alemão.

Rohr se sente cada vez menos à vontade na Alemanha nazista, também parece que o futebol no estrangeiro é mais aberto e moderno. Ainda em 1933, o técnico do time campeão, o austríaco e judeu Richard Dombi vai para a Suíça para assumir o posto no Grasshoopers de Zurique. Pouco tempo depois, Dombi segue para o FC Barcelona, mas antes convenceu Rohr a vir para Zurique. No Grasshoppers, Oskar Rohr permanece um ano e ganha a Copa da Suíça, marcando 23 gols durante a temporada.

Com a saída da Alemanha e o contrato na Suíça, Rohr vai contra o amadorismo propagado pela Associação Alemã de Futebol (DFB) e pelo regime nazista. Quando em 1934, ele se transfere para Estrasburgo e assina um contrato com o Racing Club de Strasbourg, Rohr vira o primeiro jogador profissional alemão da história e recebe definitivamente o rótulo de “traidor” na Alemanha. Ele joga cinco temporadas no Racing, vira artilheiro da liga francesa e lenda do clube que até hoje é lembrada e celebrada na região da Alsácia (cf. GALINAT 2018 e GALLENNE 2020) Inclusive, o romance gráfico aqui analisado, saiu em tradução francesa (por Marie Giudicelli) em 2019, no mesmo ano e ainda um pouco antes que o original alemão (VOLOJ / PODOLEC, 2019)

Oskar Rohr
Oskar Rohr em ação, com a camisa do Racing Club de Strasbourg, em 1934, contra o eterno rival FC Sochaux. Fonte: Wikipedia

No seu retrato biográfico, Bernd Sautter escreve sobre os anos de Rohr no Racing:

A liga francesa ganhou uma nova super-estrela internacional. Ossy Rohr de Mannheim. Somente cinco anos foram suficientes para Rohr se tornar imortal no Racing. Com seus 118 gols na primeira liga, figura até hoje como melhor artilheiro do clube. […] Lembrança especial se guarda de seus 37 gols na temporada de 36/37. Tornaram-no artilheiro do campeonato – com muita folga. (SAUTTER, 2015, p. 269)[3]

O romance gráfico acompanha vários momentos de Rohr em Zurique e em Estrasburgo, entre eles um jogo do Racing em Munique contra o FC Bayern, em que Rohr compreende que já não faz parte daquela Alemanha, daquela Munique, daquele povo que o despreza ou odeia. Em 1941, após a ocupação de parte da França pela Alemanha nazista, Rohr foge para o sul, onde passa a jogar pelo FC Sète e pouco depois é preso pela polícia francesa por “subversão” e entregue à polícia alemã.[4]

O romance gráfico conta também outros episódios daqueles anos que mostram como a Alemanha nazista destruiu o futebol que se havia construído e desenvolvido e – principalmente – modernizado no país até 1933, expulsando e matando seus representantes judeus e os que ousavam resistir abertamente. Ao longo da história, Kurt Landauer aparece repetidas vezes. Primeiro como presidente de FC Bayern que traz o técnico Dombi e Oskar Rohr de Mannheim a Munique, depois como arquiteto do primeiro campeonato da história do clube, também no momento de sua demissão “voluntária” em março de 1933 – para proteger o clube das consequências políticas de ter um presidente judeu –, e finalmente como prisioneiro no famigerado campo de concentração de Dachau, junto com outros membros da comunidade judaica de Munique e arredores, todos presos após a nefasta “Noite dos Cristais”, do 9 para o 10 de novembro de 1938.[5]

Patric Seibel, numa resenha do romance gráfico publicada no jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ), escreve:

De vez em quando se inserem personagens do contexto histórico, de Walter Bensemann, o fundador judeu da revista esportiva “Kicker” até o americano Varian Fey, que ajudou muitos intelectuais alemães a fugirem. Isso constitui o ponto forte e a densidade dessa narrativa, que transmite de forma intensa como estão interligados o esporte e a política, ainda que e, justamente, quando alguém era, no fundo, um apolítico e “queria somente jogar futebol e nada mais”, como o próprio Voloj avalia o seu protagonista. (SEIBEL, 2020, p. 32)[6]

Na sequência reproduzida, os autores reúnem Landauer e Walther Bensemann[7], o maior pioneiro do futebol na Alemanha e fundador da mais importante revista futebolística do país, Der Kicker, em 1920, quando Dombi e Rohr estavam em Munique em 1931 (p. 33).

Oskar Rohr
VOLOJ / PODOLEC, 2020, p. 33: A chegada de Oskar Rohr em Munique, em 1931, encontro com o presidente do FC Bayern, Kurt Landauer (de terno preto) e Walther Bensemann (de terno marrom). Legenda: [Landauer:] “Investimos muito dinheiro em nossa divisão juvenil! A juventude é o futuro.” // [Landauer:] “Ao contrário de muitos dos meus colegas, eu sou um defensor do futebol profissional. Como jogador, você é empregado de um clube e deve ser pago adequadamente.” // [Bensemann:] “É esse o novo menino maravilha, Kurt?” – [Landauer:] “Walther, que bom te ver.” // [Landauer:] “Oskar, te apresento a Walther Bensemann.” – [Rohr:] “O Walther Bensemann?” // [Bensemann:] “Será que existe mais que um?” – [Rohr:] “O fundador e redator-chefe da ‘Kicker’?” // [Bensemann:] “Em pessoa, sim.” – [Rohr:] “É uma honra para mim.”

Depois de ter sido entregue à polícia alemã, Oskar Rohr é levado de volta para a Alemanha, passa um tempo na prisão, é posto em liberdade e logo em seguida mandado como soldado para o front oriental, para combater na Rússia. Na sequência final da biografia em quadrinhos, é narrado o episódio histórico como um oficial de Munique o reconhece como o artilheiro do time do FC Bayern campeão de 1932 e arruma um lugar para ele no último helicóptero que sai do front. Rohr regressa para uma Alemanha em ruínas, caminha pelas ruas destruídas, cogitando onde seria melhor recomeçar a vida, na Alemanha ou na França. Ele encontra uma pelada, apanha a bola e a devolve num chute que o quadro propõe como referência ou reminiscência do pênalti na final de 1932. Com o chute, Oskar Rohr decide ficar na Alemanha.

Os anos posteriores a 1945 não figuram mais dentro do romance gráfico, mas no anexo histórico do livro constam as informações a respeito da carreira de Oskar Rohr depois de seu retorno para a Alemanha. De janeiro a setembro de 1946, ele joga no Schwaben Augsburg, então é preso pelas autoridades estadunidenses para esclarecer o seu papel na França ocupada pelos nazistas a partir de 1940. É liberado pouco depois e volta para a sua cidade natal e para o primeiro clube da sua carreira, o VfR Mannheim. Depois, passa dois anos no FK Pirmasens e, finalmente, de 1948 a 1949 no SV Waldhof Mannheim. Na resenha já citada, Patric Seibel resume:

Na vida real, ele continuou jogando futebol durante alguns anos, conseguindo, por exemplo, como técnico-jogador do FK Pirmasens, o acesso à Oberliga Südwest – na época o grupo regional sudoeste da mais alta liga alemã ainda não unificada —, onde o clube do oeste do Palatinado chegou a ser, no final do anos 1950, o grande rival do 1. FC Kaiserslautern. Ossi se casou com Josefine, encontrou trabalho na Prefeitura de Mannheim e viveu rodeado da sua grande família futebolística até 1988. (SEIBEL, 2020, p. 32)[8]

A biografia futebolística “em quadrinhos” nos faz lembrar dimensões e discussões bem atuais sobre a relação entre futebol e política. O futebol não quer nem precisa ser explicitamente “político” na sua postura e nos seus gestos, mas ele é – inevitavelmente – político na medida em que possui uma extraordinária significância social e cultural e exerce uma influência fundamental na vida privada de multidões e, com isso, na sociedade. Nesse sentido, a trajetória de um jogador alemão declaradamente “apolítico”, primeiro no exílio voluntário durante o nazismo, depois fugitivo da ocupação alemã na França, em seguida prisioneiro do regime e liberado só para combater e – supostamente – morrer no pior front da Segunda Guerra Mundial, e finalmente ser salvo por um antigo torcedor …, tudo isso representa como o futebol forma parte integrante da história, e como os seus agentes não tem como escapar às suas implicações e consequências. E que o esquecimento ou silenciamento das vítimas e dos culpados também é um ato político, e muito mais ainda o combate para que os culpados e os perseguidos sejam recuperados para a memória coletiva atual. Nesse sentido, Ein Leben für den Fußball – a biografia em hq de Oskar Rohr – é um livro de grande valor histórico, além de representar um excelente trabalho estético.

Momentos icônicos da posterioridade

Na sua totalidade, o romance gráfico não elabora com grande intensidade a dinâmica do futebol enquanto jogo em movimento. Para o trabalho gráfico, o mais importante parece ser captar o momento, o instante histórico, muitas vezes de forma facilmente reconhecível a partir de modelos conhecidos, sejam esses fotografias, gravações cinematográficas, desenhos ou pinturas da época.

Como já mencionei, aparecem numerosos protagonistas históricos do futebol alemão dos anos 1930, sempre retratados de forma inequívoca e fiel aos retratos existentes e mais conhecidos. É o caso da diferentes aparições de Kurt Landauer, presidente do FC Bayern, também dos momentos em que aparecem Walther Bensemann, pioneiro do futebol na Alemanha e fundador da revista Der Kicker, ou o técnico Richard Dombi, ligado a Oskar Rohr em Mannheim, Munique e Zurique. Os autores também inserem retratos mais “discretos” de outros jogadores conhecidos da época ou de colegas no contexto da presidência do FC Bayern. Num anexo se complementam os retratos desenhados (tirados do romance gráfico) com resumos biográficos de um total de 17 personagens históricos. Com este recurso, o romance gráfico monta um mosaico que atravessa a narrativa como um segundo plano, representando o pano de fundo histórico de uma vida individual de jogador de futebol.

Outro recurso visual bem nítido é a captação de momentos decisivos antes não visualizados. Trata-se de cenas conhecidas dos relatos biográficos sobre Oskar Rohr ou outros personagens históricos, que somente possuem transmissão narrada, sem documentação visual. Por sua vez, os desenhos trabalham conscientemente com uma estética mais estática, rígida, composta por olhares, instantes captados, momentos imaginados / lembrados que – em seu conjunto – compõem o significado da cena ou do episódio em questão. Um exemplo marcante é a curta relação da prisão de Kurt Landauer no campo de concentração de Dachau, onde aparece também como prisioneiro, mas sem indicação do nome, o seu colega Otto Albert Speer, técnico dos times juvenis do FC Bayern, mais tarde assassinado pelos nazistas. A sua identificação é possibilitada através do anexo biográfico mencionado. A sequência não “narra” a prisão em sentido concreto, ela a representa e eleva ao plano simbólico dos acontecimentos do ano de 1938.

Oskar Rohr
(VOLOJ / PODOLEC, 2015, p. 101) Kurt Landauer é preso no campo de concentração de Dachau após a “Noite dos Cristais”, em novembro de 1938. Legenda: Os nazistas prenderam e encarceraram 30.000 pessoas em campos de concentração. [Soldado:] “Nome?” // [Landauer:] “Landauer, Kurt.” – [Soldado:] “Prisioneiro número 20009. Prôximo.”

Outro exemplo é a única sequência dedicada ao tempo em que Oskar Rohr passou no front oriental. Acompanhamos os últimos minutos dele na guerra, em 7 páginas e 35 painéis é narrado o episódio de como ele conseguiu sair da Rússia com um dos últimos helicópteros, onde ele obteve o último lugar porque o oficial responsável o reconheceu como jogador do FC Bayern, do qual era torcedor. O romance gráfico acrescenta ainda um detalhe fictício, de que o ofical – ainda criança — teria falado com Rohr antes da final de 1932, profetizando um gol do seu ídolo. Essas páginas captam uma visão e experiência universal dos horrores da guerra, não se trata de representar um combate ou alguma evolução pessoal, simplesmente há um encontro absurdo dentro de um contexto ainda mais absurdo, mas que na sua combinação tão improvável acaba possibilitando a salvação.

Oskar Rohr
(VOLOJ / PODOLEC, 2015, p. 128) Oskar Rohr ganha a última vaga no voo que sai do front por ser reconhecido por um oficial torcedor do FC Bayern. Legenda: [Oficial:] “Não temos mais vaga.” // “Bayern de Munique?”

Com essa estratégia de reproduzir, gráfica e visualmente, momentos históricos importantes, conhecidos ou famosos, o livro consegue montar um mosaico da interligação e interação entre o pano de fundo da História da Alemanha e do futebol alemão, por um lado, e a vida individual de um jogador de futebol até então injustamente abandonado para o esquecimento.

Notas

[1] Há uma gravação cinematográfica do pênalti, incluída no resumo do jogo da final aqui indicado e dispónível no canal de youtube da revista futebolística Der Kicker. A capa e um desenho de uma página inteira reproduzem esse momento “para a eternidade” no romance gráfico.

[2] Antes da introdução da Bundesliga como única divisão do campeonato alemão com o sistema de pontos corridos em 1963, o campeão era decidido numa fase eliminatória disputada entre os campeões regionais. No dia 12 de junho de 1932 aconteceu em Nuremberg a finalíssima do FC Bayern München contra o Eintracht Frankfurt. Para comemorar o 120° aniversário do primeiro campeonato e para homenagear o seu arquiteto, o então presidente Kurt Landauer, o FC Bayern lançou uma versão “retro”da camisa de 1932, que o time usou na partida contra o FC Augsburg, em 8 de março deste ano (https://fcbayern.com/shop/de/fc-bayern-jubilaeumstrikot-120-jahre/259120001/)

[3] No original: “Die französische Liga hatte einen neuen internationalen Superstar. Ossy Rohr aus Mannheim. Fünf Jahre reichten Rohr, um sich bei Racing unsterblich zu machen. Mit seinen 118 Erstligatreffern führt er bis heute die Torjägerliste des Clubs an. […] In Erinnerung blieben besonders die 37 Treffer in der Saison 36/37. Sie machten ihn zum Torschützenkönig- und zwar mit weitem Abstand.”

[4] Aqui, o romance gráfico opta por uma de várias versões que circulam sobre os anos depois da fuga de Estrasburgo. Outras fontes afirmam que Rohr ficou preso num campo de concentração francês por mais de dois anos antes de ser entregue aos alemães e que nunca chegou a jogar pelo FC Sète. Outras contam que ele entrou na Legião Estrangeira para escapar da prisão, passou algum tempo na Algéria, voltou para o sul da França e foi preso (cf. GALLENNE 2020).

[5] A vida e obra de Kurt Landauer como pioneiro do futebol na Alemanha e presidente do FC Bayern de Munique também ficaram esquecidas durante muito tempo. Hoje em dia, a torcida organizada Schickeria München e o próprio clube vem enchendo essa lacuna e trabalham de forma intensa na recuperação e documentação da história do FC Bayern durante o Nazismo (https://schickeria-muenchen.org/pico/blog/150_News). Cabe completar que o FC Bayern resistiu muito à pressão política de demitir o seu presidente judeu, expulsar os sócios judeus e a se harmonizar com a linha do regime nazista. Só em 1943, os nazistas conseguiram impor um dos seus como presidente do clube (cf. KÄMPER, 2016).

[6] No original: „Immer wieder werden Personen der Zeitgeschichte integriert, von Walter Bensemann, dem jüdischen Gründer des Sportmagazins “Kicker”, bis zum amerikanischen Fluchthelfer für viele deutsche Intellektuelle Varian Frey. Das macht die Stärke und Dichte dieser Erzählung aus, die eindringlich vermittelt, wie Sport und Politik zusammenhängen, auch und gerade, wenn einer eigentlich unpolitisch war und ‚nur Fußball spielen wollte und sonst nichts‘, wie Voloj selbst seinen Protagonisten beurteilt.“

[7] Bensemann foi batizado „Walter”, mas já como adolescente adotou a grafia “Walther”.

[8] No original: „Im wahren Leben hat er noch einige Jahre Fußball gespielt, schaffte als Spielertrainer unter anderem mit dem FK Pirmasens die Rückkehr in die Oberliga Südwest, in der der Club aus der Westpfalz gegen Ende der fünfziger Jahre zum großen Rivalen des 1. FC Kaiserslautern werden konnte. Ossi heiratete Josefine, fand einen Job bei der Mannheimer Stadtverwaltung und lebte im Kreis der fußballerischen Großfamilie bis 1988.“

Bibliografia

GALINAT, Arnaud (2018): Oskar Rohr, le Bomber oublié. In: Les Cahiers du football. Disponível em: https://www.cahiersdufootball.net/article/oskar-rohr-le-bomber-oublie-7104.

GALLENNE, Antoine (2020): Oskar Rohr : l’histoire du footballeur aux mille vies. In: Le Corner. Disponível em: https://lecorner.org/oskar-rohr-lhistoire-du-footballeur-aux-mille-vies/.

KÄMPER, Dirk (2016): Kurt Landauer, der Mann, der den FC Bayern erfand. Munique: dtv.

SAUTTER, Bernd (2015): Allez les Rohrs. In: Heimspiele Baden-Württemberg. Wahre Fußball-Geschichten, die unter die Grasnarbe gehen. Tübingen: Silberburg, pp. 267–269.

SCHWARZ-PICH, Karl-Heinz (2013): Oskar Rohr. In: Kommission für geschichtliche Landeskunde in Baden-Württemberg (org.): Baden-Württembergische Biographien. Vol. 5. Stuttgart: Kohlhammer, pp. 315–316. Disponível em: https://www.leo-bw.de/detail/-/Detail/details/PERSON/kgl_biographien/1047270137/Rohr+Ossy.

SCHULZE, Ludger (2015): Die Rothosen. Erste Meisterschaft des FC Bayern. In: Süddeutsche Zeitung, 22.05.2015. Disponível em: https://www.sueddeutsche.de/sport/erste-meisterschaft-des-fc-bayern-die-rothosen-1.2490694.

SEIBEL, Patric (2020): “Er war ein toller Typ”. In: Frankfurter Allgemeine Zeitung, 22.02.2020, p. 32.

VOLOJ, Julian; PODOLEC, Marcin (2019): Ossi. Une vie pour le foot. Traduction de Julie Giudicelli. Paris: Steinkis.

VOLOJ, Julian; PODOLEC, Marcin (2020): Ein Leben für den Fußball. Die Geschichte von Oskar Rohr. Hamburg: Carlsen.

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Marcel Vejmelka

Professor do Departamento de Espanhol e Português na Faculdade 06 "Tradução, Linguística e Estudos Culturais" (FTSK), da Universidade Johannes Gutenberg de Mainz, em Germersheim, Alemanha. Doutorado em Estudos Latino-americanos/Brasileiros - Freie Universität Berlin (2004); graduação em Tradução Português/Espanhol - Humboldt-Universität zu Berlin (2000). Tem experiência na área de Literatura, Cultura e Tradução, com ênfase em Literatura brasileira e hispano-americana, atuando principalmente nos seguintes temas: tradução literária, literatura brasileira e hispanoamericana, tópicos da cultura popular (futebol, música e hq).

Como citar

VEJMELKA, Marcel. Futebol na Literatura Alemã – Parte III: A vida de Oskar Rohr em quadrinhos. Ludopédio, São Paulo, v. 156, n. 24, 2022.
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