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Futebol na literatura alemã – parte VII: “Sob as chuteiras, a praia“, de Daniel Cohn-Bendit. Memórias futebolísticas de um revolucionário franco-alemão

Introdução

O presente texto constitui a 7ª contribuição para a série “O futebol na literatura alemã” e trata das memórias de Daniel Cohn-Bendit, político, jornalista, publicista, afinal uma das raras figuras do presente que ainda podem ser consideradas como “intelectuais” no sentido mais abrangente. Cohn-Bendit é filho de judeus fugitivos da Alemanha nazista, nasceu em 1945 na França, onde a família encontrou uma nova pátria. Cresceu e se formou em Paris, começou cedo com o ativismo político e virou um dos líderes mais importantes do movimento estudantil durante as protestas de maio de 1968 em Paris.

Daniel Cohn-Bendit
Daniel Cohn-Bendit em 1968. Fonte: Jack de Nijs, Wikipedia

Devido às suas atividades políticas, no mesmo ano ele foi extraditado da França (apesar de ter nascido no país, ele não tinha a nacionalidade francesa) e foi morar em Frankfurt, na Alemanha, onde participou de grupos esquerdistas na chamada cena “Sponti” – entre outros com Joschka Fischer, que em 1985 foi o primeiro representante do Partido Verde a virar ministro estadual e em 1998 assumiu o Ministério da Relações Exteriores no governo federal de Gerhard Schröder.

Desde o fim dos anos 1970, Cohn-Bendit se afastou dos grupos “revolucionários” e começou a atuar no incipiente movimento verde, assumiu várias funções na política municipal de Frankfurt e se engajou cada vez mais na política da Comunidade Europeia e depois União Europeia. Entre 1994 e 2014 foi deputado no Parlamento Europeu por diferentes partidos ou coligações ambientalistas.

Durante todos esses anos, Cohn-Bendit publicava livros, escrevia para jornais e revistas, fazia programas de rádio, aparecia regularmente na TV. Tanto na mídia quanto na política, ele atuava nos dois países que o formaram e que representam as suas pátrias, na Alemanha e na França.[1] Nesse sentido, com a sua biografia que junta as identidades alemã, francesa e judaica, com a sua presença midiática e uma obra escrita em francês e alemão, ele virou um dos símbolos mais expressivos da integração europeia e da amizade franco-alemã.

Em 2018 publicou as suas memórias, só que as declarou explicitamente não como memórias de um ativista ou publicista político e sim como as de um torcedor e amante do futebol. [2] Já o título do livro – em francês, Sous les crampons, la plage, a versão alemã foi publicada em 2020 como Unter den Stollen der Strand, ambos podendo ser traduzidos para o português como “sob as chuteiras, a praia” – faz uma alusão irónica e irreverente ao lema da revolução estudantil de maio de 1968 na França, que se originara da inscrição anônima, de cunho surrealista, num muro de Paris, “sous les pavés, la plage” (“sob a calçada, a praia”).

 Unter den Stollen der Strand
Capa do livro Unter den Stollen der Strand. Fonte: divulgação.

Na introdução Cohn-Bendit explica esse distanciamento irónico e a decisão de escrever sobre futebol:

Qualquer um é capaz de e está autorizado a dizer coisas inteligentes ou xingar sobre 1968. Este mito não é propriedade de ninguém. Mas eu tenho a impressão de que não posso contribuir nada novo ao tema.

Nesse sentido, foi um grande prazer, cinquenta anos depois, fazer algo que parece que ninguém esperava de mim: escrever um livro sobre futebol. Esse esporte, além do amor e da política, é a minha terceira paixão. (COHN-BENDIT, 2020, p. 17)[3]

Esta decisão surpreende, em primeiro lugar, porque Daniel Cohn-Bendit nunca atuou no âmbito político ou midiático do futebol, e também porque ainda hoje a intelectualidade da esquerda europeia mantém certo distanciamento a respeito do futebol e mostra uma dificuldade fundamental em harmonizar o pensamento revolucionários ou progressista com a paixão irracional do torcedor. Nesse respeito, Cohn-Bendit sempre foi uma exceção, junto com alguns poucos companheiros e amigos:

Dia e noite fazíamos política, a semana toda, cada domingo, até nas férias. Permanentemente. Mas quando »o negócio era esporte«, queríamos que nos deixassem em paz. Sabíamos suportar a contradição interna que os nossos críticos ideologicamente dogmáticos acusavam como »comportamento de pequenos burgueses alienados«. De cabeça erguida e com um sorriso nos lábios saboreávamos a nossa deliciosa »alienação«. (COHN-BENDIT, 2020, p. 146)[4]

Memórias futebolísticas … e políticas

O fato mais intrigante e fascinante é, portanto, que Daniel Cohn-Bendit não optou por escrever sobre futebol em vez de escrever sobre a sua trajetória política ou sobre questões políticas do passado e presente, mas sim de utilizar o futebol – e a sua própria paixão de torcedor – como filtro e veículo para falar sobre a sua ideia de progressismo e ambientalismo.[5]

A esse respeito é bem interessante a sua descrição de uma noite no Waldstadion de Frankfurt, num jogo pelo campeonato alemão da temporada de 1972/73, assistindo a uma das raras vitórias do Eintracht contra o hegemônico Bayern de Munique (2 a 1). A euforia coletiva na tribuna faz o ativista político experimentar – no que ele chama de sua “epifania de Frankfurt” (“Frankfurter Erweckung”) – uma dimensão positiva e produtiva da força que a massa ou multitude pode gerar:

Aí eu compreendi que um time de futebol pode fazer surgir uma solidariedade que elimina todas as diferenças. E durante muitos anos até hoje, eu vejo como este sentimento tribal eleva as pessoas para cima de quaisquer questões »de classe«. (COHN-BENDIT, 2020, p. 220)[6]

Nos primeiros capítulos do livro, Cohn-Bendit apresenta algumas impressões da sua infância em uma família judaica refugiada na França no tempo do pós-guerra, relatando os momentos decisivos de seu contato com o futebol: enquanto jogador, as peladas jogadas no bairro e os treinos com o time juvenil, e enquanto torcedor, os partidos acompanhados ao vivo no estádio, na rádio, em frente ao aparelho de TV numa vitrina de loja, os clubes franceses que o inspiravam (primeiro o Racing Club de Paris, mais tarde o Stade Reims).

Nessas ocasiões, espelhado no futebol, surge um elemento crucial para a identidade de Daniel Cohn-Bendit: a rejeição da Alemanha pela culpa histórica do nazismo, e ao mesmo tempo a dificuldade de ativamente abraçar a França como nova pátria. Em vez de sofrer com esse conflito, ele se autodefine com certo prazer:

Sou na verdade um bastardo franco-alemão. E com orgulho! (“bin ich in Wahrheit ein deutsch-französischer Bastard. Und stolz darauf!”, COHN-BENDIT, 2020, p. 46).

Essa condição de “bastardo orgulhoso” se manifesta também no futebol, ou inclusive é no futebol onde o menino Daniel aprende a sua relação com as identidades nacionais. No jogo pelo terceiro lugar, entre Alemanha e França, durante a Copa do Mundo de 1958 na Suécia, ele se descobre torcendo contra a Alemanha:

No esporte, o meu »ódio inato contra os alemães« só se manifestaria mais tarde: é um fato interessante que não foi depois do triunfo da RFA em Berna em 1954, mas na Copa do Mundo de 1958 na Suécia. Eu tinha acabado de fazer treze anos e começava a compreender o peso da História.

De repente estava ali aquele sentimento. Surgiu quando a França enfrentou os alemães na chamada »pequena final« pelo terceiro lugar. Naquele dia, pela primeira vez, eu torcia antes de mais nada contra a Alemanha, e não a favor da França. E isso ficou assim até hoje! (COHN-BENDIT, 2020, p. 43)[7]

Portanto, não se trata de uma simples troca da pátria “original” de seus pais – a Alemanha – pela nova pátria – a França –, país onde nasceu e cresceu. A rejeição da Alemanha e a desconfiança a respeito da História e Sociedade do país sempre foram contrabalançadas pela consciência de não ser francês “de verdade” (só adquiriu a nacionalidade francesa em 2015). Essa posição entre as nações e a identidade fragmentada daí resultante se evidenciam na visão que Daniel Cohn-Bendit propaga do futebol e, através dele, do mundo globalizado dos séculos XX e XXI.

Pode servir como exemplo a sua avaliação crítica da França moderna, caraterizada pela imigração massiva de pessoas das antigas colónias e os problemas causados pela falta de vontade política a favor de sua integração. Dois momentos marcantes da Seleção Francesa – o primeiro campeonato mundial conquistado em 1998 e a vergonha das brigas internas em 2010 – esboçam, para Cohn-Bendit, a história do fracasso da política de integração na França nas últimas décadas. A Seleção campeã, composta por jogadores dos mais diversos grupos étnicos e migratórios, foi festejada e até mitificada como representação da França mestiça, integrativa e moderna. Só poucos anos mais tarde, o fator da mestiçagem serviu como argumento central para explicar o fracasso do time e também para declara o suposto fracasso da política de integração:

»98« devia ter iniciado um novo rumo. […] Mas infelizmente, os políticos não compreenderam quanta esperança residia naquele momento e que não se pode deixar escapar uma oportunidade desse porte, para consolidar e fortificar o que estava em vias de nascimento. Então teria sido possível oferecer um futuro comum a todos aqueles jovens que estavam ansiosos por se integrar na França do »black-blanc-beur«. (COHN-BENDIT, 2020, p. 155-156)[8]

Quanto à Seleção Alemã, Cohn-Bendit afirma que, apesar de se esforçar por superar o seu ceticismo e reconhecer os méritos do time, ainda não o consegue por completo, justamente porque no futebol é o seu lado irracional que domina tudo. Nem o campeonato mundial conquistado no Brasil em 2014 fica isento do seu olhar cético:

Ainda que a Seleção tenha mostrado o desempenho mais contínuo do torneio, ela nunca foi verdadeiramente extraordinária. Nem o banho que deu no Brasil na semifinal pode me convencer do contrário. Foi somente um acidente da História, que não se deveu ao desempenho extraordinário dos alemães.

[…] Mas a vitória teve um efeito perverso nos alemães. Interpretaram a vitória de maneira tao exagerada que partiram para a Eurocopa de 2016 e, particularmente, para a Copa do Mundo de 2018 bêbados de si mesmos. (COHN-BENDIT, 2020, p. 59)[9]

Nesse contexto é particularmente interessante que há uma única exceção em que Conhn-Bendit concede – também com uma justificativa bem expressiva – classe e grandiosidade a uma Seleção Alemã:

Em 1972 questionei pela primeira vez o meu posicionamento irracional a respeito do esporte alemão. A RFA tinha conquistado o campeonato europeu em Bruxelas com uma vitória contra a URSS. Aí comecei a duvidar. Porque aquele time tinha jogado de maneira extraordinária, mesmo que tivesse sido somente durante esse torneio, e os seus jogos me tinham dado um enorme prazer. Foi a Seleção Alemã mais brasileira de todos os tempos. Ganhou seus jogos com graça e elegância encantadoras. (COHN-BENDIT, 2020, p. 46)[10]

Depois dos primeiros capítulos dedicados à sua infância, Cohn-Bendit abandona a cronologia biográfica e estrutura a sua relação com o futebol por diferentes temas. Um capítulo é dedicado à dimensão europeia do futebol, consolidada particularmente pela Copa dos Campeões da UEFA a partir de 1955, e a sua contribuição para processo de unificação da Europa. Cohn-Bendit vê essa ideia subvertida pela comercialização massiva do futebol, simbolizada na criação da Liga dos Campeões em 1992.

O problema da perda de identidade do futebol em consequência da sua exploração comercial cada vez mais intensa é tratado em outro capítulo – inclusive alguns episódios dos bastidores do Parlamento Europeu quando o então presidente da UEFA, Michel Platini, pediu o apoio da EU para introduzir o regulamento do “financial faiplay” em 2012 – como também a questão da colaboração cada vez mais frequente de clubes, associações nacionais e, particularmente, a FIFA com investidores e regimes autocráticos e antidemocráticos como a Rússia e o Qatar, respectivamente, sedes das Copas do Mundo de 2018 e de 2022.

Na direção contrária, Cohn-Bendit vê sinais de esperança por outro modelo do futebol profissional e global no futebol jogado por mulheres, ao qual dedica também um capítulo. Ali, ele explica essa esperança sua e argumenta que a maior aceitação e relevância do futebol de mulheres também iria contribuir para importantes transformações sociais e políticas em geral.

“Brésil, je t’aime … moi non plus”

O aspecto do livro que é de maior relevância e interesse para o contexto dado é o grande amor que Daniel Cohn-Bendit nutre pelo futebol brasileiro. Este amor tem várias origens. A primeira radica na sua infância, concretamente no ano de 1958, quando na Copa do Mundo na Suécia ele sofre com a derrota francesa de 2 a 5 contra a Seleção Brasileira, para logo se apaixonar pelo futebol do futuro campeão:

Muito já se tinha escrito sobre a façanhas dos Auriverdes, mas todos viram o gênio verdadeiro de Pelé, Vavá, Didi e Garrincha somente naquele jogo, que tinha uma só direção. Os meninos eram simplesmente fantásticos. Uma delícia! Desde então sou fã do futebol brasileiro. (COHN-BENDIT, 2020, p. 37)[11]

Consequentemente, no livro todo há referências ao futebol brasileiro, inclusive todo um capítulo exclusivamente dedicado ao “país do futebol”. Nessa extensa declaração de amor aparece também o argumento que constitui a segunda origem da paixão de Cohn-Bendit pelo futebol brasileiro: o “jogo bonito” como resistência à lógica racional e comercial do mundo capitalista. O maior símbolo desse modelo “idealista” de futebol é, para ele, a Seleção Brasileira tricampeã de 1970:

No fundo, durante sessenta anos houve somente um time que, numa Copa do Mundo, conseguiu manter o seu nível de jogo até o fim: o Brasil em 1970.

Além disso, a Copa do México é a mais bela de todas que que eu vivi. Só guardo momentos maravilhosos na memória. Essa Copa é uma doce exceção no mundo brutal que reinava desde o Mundial no Chile.

Muito contribuiu para isso o Rei Pelé. (COHN-BENDIT, 2020, p. 101)[12]

Com essa combinação de amor pelo jogo estético e apego aos ideais com ele associados, se articula a visão analítica e crítica de Cohn-Bendit que, a partir do futebol, abrange as dimensões da política e da ética. Nesse sentido, o torcedor-amante irracional continua fiel à imagem do “futebol-arte” brasileiro, enquanto o analista crítico lê a decadência na qualidade de jogo da Seleção Brasileira como sintoma da evolução social e política do país:

Confesso, sou adicto do futebol brasileiro, apesar de que, desde há mais de um quarto de século, não seja mais o futebol que me comoveu tão profundamente na Copa do Mundo de 1958. Mas, fora isso, a imagem estereotipada que eu venho cultivando desde os anos 1970 não perdeu o seu brilho. (COHN-BENDIT, 2020, p. 119)[13]

Apesar disso, o legado brasileiro na História do futebol ainda mantém viva a ideia de um futebol que escape do mero pragmatismo e da lógica dos resultados, de um jogo estético e tecnicamente ambicioso, marcado pelo gênio individual dos craques, um espaço onde ainda existe resistência contra as injustiças na vida real, na política, no capitalismo cada vez mais selvagem.

Nesse contexto há um momento verdadeiramente decisivo para a longa história de amor entre Daniel Cohn-Bendit e o futebol brasileiro. Em 1983, ele viaja para o Brasil com a namorada para passar umas prolongadas de férias (da política, da vida na Europa). No início de 1984, ele está em São Paulo quando estão acontecendo as grandes manifestações pelas „Diretas já!“ e entra em contato com os ativistas, encontra Lula e outros integrantes do PT recém-fundado. Também vai ao Estádio do Pacaembu para ver o Corinthians jogar e fica profundamente impressionado com os atos da Democracia Corinthiana, com o lema “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia” (COHN-BENDIT, 2020, p. 121). Pouco depois Cohn-Bendit consegue uma entrevista com Sócrates, quem aliás sabe muito bem que ele está falando com um dos míticos líderes do maio de 1968 em Paris. Cohn-Bendit lembra:

E aí Sócrates me diz no nosso primeiro encontro: »Em 68 você imaginou a revolução, Dany. Hoje nós a pomos em prática.« (COHN-BENDIT, 2020, p. 123)[14]

Daniel Cohn-Bendit entrevista Sócrates
Daniel Cohn-Bendit entrevista Sócrates em 1984. Fonte: reprodução/Documentário “On the road with Sócrates” (BOEKEN / JUDELEWICZ / LANDRON, 2014).

A dimensão política do futebol nas condições específicas do Brasil obriga o ativista europeu a modificar a sua visão das coisas, a aprender outra percepção das interações entre futebol e sociedade. Ele aprende que a ditadura militar, por um lado, foi capaz de aproveitar o tricampeonato da Seleção Brasileira em 1970 e, com ela, o ideal do “futebol-arte”, para melhorar a sua imagem no mundo, mas que isso, por outro lado, não conseguiu com isso afastar o população da “sua” Seleção, que, apesar da Seleção representar um Brasil autocrático, todo mundo – inclusive os esquerdistas – continuavam torcendo por ela:

Porém, antes de mais nada, existe uma linha, e seja ela vermelha de sangue, que nesse país [no Brasil] não pode ser ultrapassada: Não se vai em contra do futebol. Em muito menos quando se trata da Seleção. (COHN-BENDIT, 2020, p. 134)[15]

Com isso, Cohn-Bendit resume uma lição que contradiz, fundamentalmente, a sua própria rejeição da Seleção Alemã por ela representar um país com um legado e presente político inaceitáveis, e ao mesmo tempo confirma a possibilidade da exceção “irracional” nos momentos em que a beleza do jogo e a força simbólica do futebol superam considerações políticas e até as “corrigem” de certa forma.[16] Porém, também existe esse outro lado do futebol, o seu lado negativo onde o jogo e seus atores servem os interesses do poder econômico e político. As dimensões da corrupção e alienação que ficaram visíveis nos preparativos da Copa do Mundo de 2014 no Brasil e que causaram as manifestações contra a FIFA e governo durante a Copa das Confederações em 2013 tornaram o futebol num agente da profunda transformação e radicalização política no país:

Mas a loucura reside no fato de que, a partir do momento em que começou a ruptura na sociedade brasileira – por volta de 2013 e com isso dois anos antes da eleição de Dilma Rousseff, a irmã política de Lula, para Presidenta da República –, a memória coletiva do país foi deletada dentro de poucos meses. De um só golpe se desfizeram vinte anos de luta contra o fascismo e outros vintes anos de democracia. (COHN-BENDIT, 2020, p. 136-137)[17]

Cohn-Bendit segue os movimentos do pêndulo que constitui essa dinâmica entre futebol e política e percebe, nos efeitos sociais da derrota brasileira contra a Alemanha na semifinal de 2014 um indício da importância que o futebol (e expressamente aquele que ainda era “futebol-arte”) tinha nos anos anteriores para proporcionar alegria e esperança aos brasileiros:

Depois da Copa do Mundo, a humilhação sofrida através da Alemanha começou a penetrar na condição mental. Eu acredito que, com ela, algo chegou ao seu fim: a esperança, a fé, a alegria que ajudaram o Brasil durante mais de quarenta anos a viver e a sobreviver. Essa ruptura acelerou ainda mais a fragmentação social e política do país que levou à tomada do poder pelo fascista Jair Bolsonaro em outubro de 2018. (COHN-BENDIT, 2020, p. 141)[18]

Essa imagem deprimente de um país que parece ter perdido, inclusive desperdiçado os frutos de 40 anos de esforço democrático, se reduplicada, por sua vez, na condição deplorável que apresenta futebol brasileiro, seja na sua cultura de jogo decaída, seja na atuação repugnante dos “craques” do presente, no total na perda de sua força e relevância simbólicas e morais. Uma evolução que torna cada vez difícil amar o futebol brasileiro, o que Cohn-Bendit expressa em alusão à famosa música de Serge Gainsburg e Jane Birkin, de 1969:

Enquanto nos anos 1970 e 1980, Sócrates e o Corinthians como também alguns outros apoiaram o povo oprimido na resistência contra a ditadura militar, hoje as estrelas da Seleção contribuem aplicadamente para que o povo seja anestesiado e defraudado.

Às vezes me pergunto se »Brasil, mon amour«, está se transformando aos poucos para mim em »Brasil, je t’aime … moi non plus«. (COHN-BENDIT 2020, p. 144)[19]

Esse amor de décadas pelo futebol brasileiro, que vem sofrendo cada vez mais à causa dos descaminhos do capitalismos e do nacionalismo extremo que com ele se associam e que o transformam, é um símbolo central da problemática que um posicionamento crítico e progressista vive no momento em que se quer – ou não pode mais – torcer por um país representado pelo futebol. Contra esse mal dos nacionalismos e para finalizar estas reflexões, Daniel Cohn-Bendit formula uma ideia terrível e provocadora, que evidencia como seria a realidade se a lógica reinante no futebol global do presente fosse levada às suas últimas consequências.

Isso me motiva a visar o impensável e de levar as minhas considerações até o extremo. Não me incomodaria se um dia um país seria representado numa Copa do Mundo pelos vinte e três melhores jogadores do seu campeonato – independentemente da sua nacionalidade. […] Admito, o meu coração iria sofrer, porque o Brasil certamente não se classificaria mais para a Copa do Mundo. Por outro lado, de repente a China iria ter um papel de peso, ou também os países do Golfo […]. E isso seria realmente puro horror. (COHN-BENDIT, 2020, p. 193-194)[20]

Notas

[1] Entre as obras mais relevantes de Cohn-Bendit se destacam coleções de artigos e entrevistas sobre o legado de 1968 como Le Grand Bazar (1975, edição alemã: Der große Basar, 1975), Nous l’avons tant aimée, la Révolution (1986, edição alemã: Wir haben sie so geliebt, die Revolution, 1987) – , ou mais tarde escritos sobre o processo da unificação europeia, como, junto com Guy Verhofstadt, Für Europa (2012).

[2] Daniel Cohn-Bendit é bilingue e escreve textos originários em francês e alemão. Para as suas memórias optou por escrever francês, a língua da sua primeira alfabetização e da sua socialização na luta política. Portanto, o livro aqui apresentado e analisado é a tradução para o alemão, da autoria de Frank Sievers. Porém, como Daniel Cohn-Bendit é um personagem-chave também da esquerda e do movimento ecologista na Alemanha – e não por último desde há mais de 50 anos torcedor do Eintracht Frankfurt –, é tratado aqui como representante da literatura alemã relacionada com aspectos futebolísticos.

[3] No original: “Jeder kann und darf zu 1968 intelligente Dinge von sich geben oder darauf schimpfen. Dieser Mythos ist niemandes Eigentum. Aber ich habe das Gefühl, dass ich nichts Neues mehr dazu beitragen kann. // Insofern war es mir ein großes Vergnügen, fünfzig Jahre danach etwas zu tun, was wohl niemand von mir erwartet hätte: ein Buch über Fußball zu schreiben. Dieser Sport ist neben der Liebe und der Politik meine dritte Leidenschaft.”

[4] No original: „Wir haben Tag und Nacht Politik gemacht, die ganze Woche, jeden Sonntag, selbst im Urlaub. Permanent. Aber wenn’s »um Sport ging«, wollten wir gefälligst in Ruhe gelassen werden. Den inneren Widerspruch, den uns unsere ideologisch bornierten Kritiker als »Verhalten entfremdeter Kleinbürger« vorhielten, konnten wir ertragen. Gehobenen Hauptes und mit einem Lächeln auf den Lippen genossen wir unsere köstliche »Entfremdung«.“

[5] Esse conflito tradicional entre posições políticas de esquerda e o mundo do futebol na Alemanha, é retratado a partir da perspectiva do futebol e do rock político no livro 71/72 – Die Saison der Träumer („71/72 – A temporada dos sonhadores“), analisado na parte V desta série para a Arquibancada.

[6] No original: “Da habe ich verstanden, dass eine Fußballmannschaft eine Solidarität bewirken kann, die alle Unterschiede auslöscht. Und über die Jahre hinweg bis heute sehe ich, wie dieses Stammesgefühl die Menschen über alle Fragen der »Klassenzugehörigkeit« erhebt.”

[7] No original: „Im Sport sollte sich mein »angeborener Deutschenhass« erst später zeigen: interessanterweise nicht nach dem Sieg der BRD 1954 in Bern, sondern bei der Weltmeisterschaft 1958 in Schweden. Ich war gerade dreizehn geworden und begann, das Gewicht der Geschichte zu begreifen. // Mit einem Mal war dieses Gefühl da. Es kam auf, als Frankreich im sogenannten »kleinen Finale« um den dritten Platz gegen die Deutschen antrat. An diesem Tag war ich zum ersten Mal vor allem gegen Deutschland und nicht für Frankreich. Und das ist bis heute so geblieben!“

[8] No original: „»98« hätte die Wende sein müssen. […] Aber leider haben die Politiker nicht begriffen, wie viel Hoffnung in diesem Moment lag und dass man eine solche Gelegenheit nicht verpassen darf, um zu festigen und zu zementieren, was da gerade im Begriff war zu entstehen. Jetzt hätte man all den jungen Leuten, die darauf brannten, sich in das Frankreich des »black-blanc-beur« zu integrieren, eine gemeinsame Zukunft eröffnen können.“

[9] No original: „Mochte die Mannschaft auch die kontinuierlichste Turnierleistung erbracht haben, wirklich überragend war sie nie. Nicht einmal die Klatsche gegen Brasilien im Halbfinale kann mich vom Gegenteil überzeugen. Das war nur ein Unfall der Geschichte, der nicht auf die überragende Leistung der Deutschen zurückzuführen war. // […] Aber dieser Erfolg hatte eine perverse Wirkung auf die Deutschen. Sie haben ihren Erfolg derart überinterpretiert, dass sie besoffen von sich selbst in die Euro 2016 und vor allem in die WM 2018 gegangen sind.“

[10] No original: „1972 habe ich dann zum ersten Mal meine irrationale Haltung zum deutschen Sport infrage gestellt. Die BRD war in Brüssel durch einen Sieg gegen die UdSSR Europameister geworden. Da kam ich ins Grübeln. Denn diese Mannschaft hatte, obgleich nur während dieses einen Turniers, großartig gespielt, und ihre Auftritte hatten mir das allergrößte Vergnügen bereitet. Es war die brasilianischste deutsche Mannschaft aller Zeiten. Sie gewann ihre Spiele mit einer betörenden Anmut und Eleganz.“

[11] No original: „Viel war schon über die Heldentaten der Auriverdes geschrieben worden, aber das wahre Genie von Pelé, Vavá, Didi und Garrincha sahen alle erst in diesem Spiel, das ausschließlich in eine Richtung ging. DIe Jungs waren einfach fantastisch. Ein Genuss! Seitdem bin ich Fan des brasilianischen Fußballs.“

[12] No original: „Im Grunde gab es in über sechzig Jahren eine einzige Mannschaft, die bei einer WM bis zum Ende ihr Niveau halten konnte: Brasilien 1970. // Abgesehen davon ist die Weltmeisterschaft in Mexiko die schönste, die ich je erlebt habe. Ich habe ausschließlich wunderbare Momente in Erinnerung. Diese WM ist eine süße Ausnahme in einer brutalen Welt, wie sie seit der Mundial in Chile herrschte. // Großen Anteil daran hatte König Pelé.“

[13] No original: „Ich gebe es zu, ich bin süchtig nach brasilianischem Fußball, obwohl er seit über einem Vierteljahrhundert nicht mehr der Fußball ist, der mich bei der Weltmeisterschaft 1958 so tief bewegt hat. Aber ansonsten ist das Klischeebild, das ich mir in den 1970er Jahren angeeignet habe, nicht vergilbt.“

[14] No original: „Und dann sagt mir Sócrates bei unserer ersten Begegnung: »68 hast du die Revolution erdacht, Dany. Heute tun wir es.«“

[15] No original: „Vor allem aber gibt es eine Linie, und sei sie blutrot, die in diesem Land nicht überschritten werden darf: Man stellt sich nicht gegen den Fußball. Schon gar nicht, wenn es sich um die Nationalelf handelt.“

[16] Cohn-Bendit explora essa entrada com o projeto de um documentário para acompanhar a Copa do Mundo no Brasil em 2014. Já em 2007, quando a FIFA publicada a decisão de que o Brasil iria sediar a Copa do Mundo sete anos mais tarde, Cohn-Bendit contata Sócrates para lhe expor a sua ideia de percorrer o país durante o torneio em busca das dimensões políticas e do futebol-arte fora dos estádios e dos “padrões FIFA”. Mas Sócrates falece em dezembro de 2011 e Cohn-Bendit precisa reformular o projeto, que então vira uma viagem solitária numa van (uma VW Bulli) em homenagem ao companheiro e amigo morto, documentada no longa-metragem On the road with Sócrates (Boeken / Judelewicz / Landron, 2014).

[17] No original: „Das Verrückte aber ist, dass von dem Moment an, in dem die brasilianische Gesellschaft auseinanderzubrechen begann – etwa 2013 und damit zwei Jahre vor der Wahl Dilma Rousseff, Lulas politischer Schwester, zur Präsidentin der Republik -, das kollektive Gedächtnis des Landes in wenigen Monaten ausgelöscht wurde. Im Handstreich waren zwanzig Jahre Kampf gegen den Faschismus und zwanzig Folgejahre Demokratie vom Tisch gefegt.“

[18] No original: „Nach der WM begann sich die durch Deutschland erlittene Demütigung in die Gemüter einzugraben. Ich glaube, mit ihr ist etwas an ein Ende gekommen: die Hoffnung, der Glaube, die Freude, die Brasilien über vierzig Jahre lang geholfen haben, zu leben und zu überleben. Dieser Bruch hat das gesellschaftliche und politische Auseinanderdriften des Landes noch beschleunigt, das in die Machtergreifung des Faschisten Jair Bolsonaro im Oktober 2018 mündete.“

[19] No original: „Während in den 1970er und 1980er Jahren Sócrates und seine Corinthians wie auch einige andere Leute dem unterdrückten Volk im Widerstand gegen die Militärdiktatur beistanden, helfen die Stars der Seleção heute eifrig mit, dass das Volk betäubt und betrogen wird. // Manchmal frage ich mich, ob »Brasilien, mon amour« für mich langsam zu »Brasilien, je t’aime … moi non plus« wird.“

[20] No original: „Das führt mich dazu, das Undenkbare anzuvisieren und meine Überlegungen zu Ende zu denken. Mich würde es nicht stören, wenn eines Tages ein Land bei einer Weltmeisterschaft von den dreiundzwanzig besten Spielern seiner Meisterschaft vertreten würde – unabhängig von ihrer Nationalität. […] Zugegeben, mein Herz würde bluten, weil sich Brasilien sicher nicht mehr für die WM qualifizieren würde. Dagegen würde China plötzlich eine gewichtige Rolle spielen oder auch die Golfstaaten […]. Und das wäre wirklich eine Horrorvorstellung.“

Bibliografia

Boeken, Ludi / Judelewicz, Pascal / Landron, Franck (2014) (prod.). On the road with Sócrates. Roteiro: Daniel Cohn-Bendit, direção: Ludi Boeken, Niko Apel (86 min.).

Cohn-Bendit, Daniel (1975). Le Grand Bazar. Paris: Denoël.

Cohn-Bendit, Daniel (1975). Der große Basar: Gespräche mit Michel Lévy, Jean-Marc Salmon, Maren Sell. Tradução do francês: Thomas Hartmann. Munique: Trikont-Verlag.

Cohn-Bendit, Daniel (1986). Nous l’avons tant aimée, la révolution. Paris: Barrault.

Cohn-Bendit, Daniel (1987). Wir haben sie so geliebt, die Revolution. Tradução do francês: Wolfgang Geiger e Hermann Jäger. Frankfurt do Meno: Athenäum.

Cohn-Bendit, Daniel (2018). Sous les carmpons… la plage. Foot et politique, mes deux passions. Paris: Laffont.

Cohn-Bendit, Daniel (2020). Unter den Stollen der Strand. Fußball und Politik – mein Leben. Tradução do francês por Frank Sievers. Colónia: Kiepenheuer & Witsch.

Cohn-Bendit, Daniel / Verhofstadt, Guy (2012). Für Europa! Ein Manifest. Munique: Hanser.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Marcel Vejmelka

Professor do Departamento de Espanhol e Português na Faculdade 06 "Tradução, Linguística e Estudos Culturais" (FTSK), da Universidade Johannes Gutenberg de Mainz, em Germersheim, Alemanha. Doutorado em Estudos Latino-americanos/Brasileiros - Freie Universität Berlin (2004); graduação em Tradução Português/Espanhol - Humboldt-Universität zu Berlin (2000). Tem experiência na área de Literatura, Cultura e Tradução, com ênfase em Literatura brasileira e hispano-americana, atuando principalmente nos seguintes temas: tradução literária, literatura brasileira e hispanoamericana, tópicos da cultura popular (futebol, música e hq).

Como citar

VEJMELKA, Marcel. Futebol na literatura alemã – parte VII: “Sob as chuteiras, a praia“, de Daniel Cohn-Bendit. Memórias futebolísticas de um revolucionário franco-alemão. Ludopédio, São Paulo, v. 165, n. 6, 2023.
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