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Futebol, pós-colonialismo e racismo: uma análise da presença de jogadores negros e árabes na França

Na ocasião da Copa do Mundo de 2018, motivado pelo destaque dado à origem de muitos jogadores que participavam do certame, o primeiro autor desse artigo publicou um texto no site Trivela[1], no qual explorava algumas questões pertinentes ao trânsito de migrações e, como chamou naquela oportunidade, de “renaturalização” de alguns jogadores. O que chamava atenção naquele momento era a grande variedade étnica nos times dos selecionados de alguns países europeus, em paralelo à grande presença de jogadores nascidos na Europa relacionados por seleções de países da África.

O texto partia de um gráfico que ganhou as mídias sociais, produzido por um jornal indiano, que mostrava a presença de “imigrantes” nas seleções europeias. Ainda que se tratasse de uma perspectiva positiva sobre o tema da imigração, o conteúdo se baseava em um grave equívoco: desconsiderou que a origem de muitos desses jogadores, a despeito de serem negros e árabes, era europeia. Atletas que nasceram e se criaram em solo europeu, que talvez nunca tenham pisado no país de origem de seus pais ou avós – esses sim, migrantes. O principal destaque era dado à França, que diferente dos quase 18 jogadores listados como imigrantes (de um total de 23), apenas 3 realmente não haviam nascido no país.

Esse texto acabou servindo de base para outra publicação: um artigo que seria submetido ao 3º Simpósio Internacional de Estudos de Futebol, realizado em São Paulo em 2018.[2] Na ocasião, o segundo autor (desse artigo) se somou à empreitada, aprimorando certas discussões lançadas no texto original e dando ao texto maior qualidade teórica, com adendos importantes quanto aos sentidos da pós-colonialidade. Por já ter passado uma temporada na França, Vicente Magno acrescentou questões pertinentes ao sentimento de exclusão vivido por jovens negros e árabes franceses, boa parte deles ainda condenada a viver nos bairros periféricos das grandes cidades, nas chamadas ‘cités’.

Apesar de outros países contarem histórias dignas de uma análise mais apurada, a exemplo de Holanda e Bélgica, onde a presença de filhos de imigrantes também é alta, o enfoque se deu sobre a realidade francesa, tanto pelo volume, quanto pela dinâmica mais significativa para as discussões entre futebol, sociedade, pós-colonialismo e racismo na contemporaneidade.

Quase três anos depois, após convite feito por Roberta Pereira da Silva, Bárbara Gonçalves Mendes e Marina de Mattos Dantas, o artigo foi retomado para uma reavaliação e atualização. Se o propósito era contribuir para uma série sobre “racismo”, pareceu pertinente aproveitar a oportunidade para trazer uma discussão pouco conhecida no Brasil, como a questão do racismo contra árabes na Europa, agregando aos debates mais próximos da realidade brasileira, como o preconceito racial contra negros.

No campo do futebol esse debate se torna ainda mais complexo, dada as particularidades que o esporte mais popular do mundo apresenta. Assim como no Brasil, o futebol da França é hegemonicamente formado por atletas oriundos das classes baixas, o que acaba gerando um “cenário” étnico relativamente distinto do quadro demográfico francês. São atletas negros e árabes, a sua maioria nascidos em território francês, que calçam as chuteiras agora bicampeãs mundiais. São muitas as possibilidades de exploração dessa temática, ao mesmo tempo em que são vários os perigos de uma abordagem que falhe quanto à compreensão apurada do fenômeno do futebol francês.

Por isso esse artigo contou com a presença de um terceiro autor, o arquiteto Taha Chatouaki, natural do Marrocos, mas residente na França, que conhece mais de perto a realidade dos bairros periféricos de Paris, de onde saem muitos desses atletas negros e árabes. A idolatria local e global dessas estrelas esportivas destoa consideravelmente do cotidiano do jovem não-branco francês.

Sua experiência como imigrante marroquino contribuiu para amadurecer aquelas ideias, trazendo novas questões ao debate, principalmente com relação aos franceses de “origem magrebina”. Segundas e terceiras gerações de jovens árabes ainda carregam laços fortes com o lugar dos seus antepassados, mantêm práticas culturais e religiosas hereditárias e convivem com uma relação controversa com a sua condição francesa.

Há, inclusive, uma diferença importante entre as pessoas oriundas do Marrocos, Tunísia ou da Argélia. Dessa última, principalmente, marcadas pela memória da guerra pela independência (1954-1962), cuja violência e fratricídio ainda ecoam politicamente, inclusive entre franco-argelinos. Em comum, a forte presença do islamismo e a formação de bairros etnicamente distintos – marcas mais evidentes da contradição da integração/exclusão dos imigrantes na França -, ainda mantém viva uma relação com o país “de origem”.

Apesar de relativamente distinta pelo próprio processo histórico das formações nacionais, esse sentimento também se estende a muitos jovens negros descendentes de imigrantes de países como Camarões, Costa do Marfim, Senegal e Togo, países colonizados pela França, em sua maioria, até a década de 1960. Como os fluxos migratórios também seguem uma lógica de familiaridade com a língua, a atração dessa mão de obra barata se repetiu nesses países em diferentes momentos históricos. 

França africana e futebol

Portanto, se falamos de jovens negros e árabes nascidos na França, estamos falando de deslocamentos populacionais produzidos por essa relação colonial. Estamos falando de filhos e netos de trabalhadores dos territórios que estiveram sob o controle da França até o início da segunda metade do século XXI, que migraram para a Europa buscando melhores condições de vida. Também estamos falando de segmentos sociais que ainda hoje estão designados a uma posição subalterna nessas localidades, ocupando os postos de trabalho menos valorizados, vivendo nos bairros do subúrbio e submetidos a tratamentos de cidadãos de menor valor para a “França branca e cristã”.

Portanto, tratam-se de dois “lugares” em destaque: o Norte da África, países predominantemente árabes (Marrocos, Argélia e Tunísia); e a África Subsaariana, cuja população é predominantemente negra (Camarões, Costa do Marfim, Senegal, Togo e Mali).

Se falamos de futebol, também estamos falando de um espaço muito específico dessa realidade: assim como no Brasil, trata-se de uma dos poucos ambientes onde a participação e a ascensão social desses jovens é possível. Uma vez que o futebol se mostrou ao longo das últimas décadas como um vetor de integração desses jovens negros e árabes, é natural que a incidência dessas duas matizes étnicas tenha fatalmente ultrapassado a de brancos. Sobretudo porque a indústria do futebol tende a ser menos restritiva a esses perfis étnicos do que outros espaços sociais como universidades, grandes empresas, cargos públicos e outras posições de destaque. No futebol o que importa, até certa medida, é saber jogar futebol.

O que convém afirmar aqui é que o futebol não deve ser visto como um “espelho” da sociedade. O futebol pode ser no máximo um sintoma do que vive determinada sociedade, uma vez que os elementos que a estruturam – dentre eles o racismo – também estarão presentes nesse campo. Entretanto, como é o caso da composição étnica de um time, não estamos falando de um contingente necessariamente volumoso para se fazer representativo o suficiente para a elaboração de conclusões gerais.

Enquanto indústria cultural, o futebol inclusive oferece aos seus envolvidos uma série de privilégios que os distanciam da realidade do jovem negro e árabe francês comum. Um episódio importante para entender essa questão é uma entrevista de Kylian Mbappé, filho de uma argelina com um camaronês, quando ainda era uma criança de 12 anos, afirmando que “os melhores jogadores da França sempre eram árabes e negros”, destacando, portanto, uma identidade complexa e apartada do seu lugar de “francês”. Mais de uma década depois, já estrela prestigiada do futebol, campeão do mundo pela França, Mbappé usa um tom muito mais confortável para se reivindicar “francês”. Um episódio que ilustra essa relação de distinção, que não pode ser descartada quando falamos da esfera do indivíduo.

Por outro lado, também convém perceber o potencial simbólico do futebol, que nunca deixa de ser objeto de disputa por grupos políticos dos mais diversos. Da mesma forma que o sucesso da seleção francesa, os Bleus, já foi utilizado por certos grupos políticos franceses como uma demonstração da capacidade civilizatória da França moderna em acolher seus imigrantes – em um discurso sem qualquer compromisso com o sentimento de exclusão que domina esses segmentos sociais, pela dificuldade de integração plena à sociedade francesa enquanto cidadãos plenos –; a seleção também já foi alvo de discursos da extrema-direita nacionalista francesa, que explorou as suas derrotas esportivas como forma promover ódio xenófobo e racista contra essas populações.

É o que sempre ocorre quando os resultados são ruins, a exemplo de quando o baixo desempenho da equipe nas eliminatórias europeias para a Copa do Mundo de 2014 foi instrumentalizado pelo Front National, partido da extrema-direita nacionalista francesa. Marine Le Pen, líder do partido, tratou de atacar a existência de tantos “estrangeiros” na seleção francesa como motivo da sua decadência, estabelecendo paralelos com uma suposta decadência social e cultural da França “demasiadamente multicultural”.

Apesar de serem homens majoritariamente milionários e prestigiados dentro dessa indústria cultural, esses jogadores não estão isentos de serem atingidos pelo peso da intolerância e da ignorância.  Naquela ocasião, entretanto, a França acabou conquistando a vaga com gols marcados por Karim Benzema, filho de argelinos; e por Mamadou Sakho, filho de senegaleses. O último, acabou por se pronunciar após a conquista:

“Eu apenas gostaria de dizer que os jogadores desse time representam todas as pessoas na França, a sociedade multicultural da França. Quando nós representamos a França sabemos que estamos jogando pela nação multicultural francesa. Nós amamos a França e tudo que é França (…) França é feita de cultura árabe, cultura negra africana, cultura negra da índias ocidentais (Caribe) e cultura branca”.

A preponderância de negros e árabes na seleção francesa se dá principalmente pelo modo francês de produzir jogadores de futebol: nos últimos anos muitos deles foram formados no Centro Nacional de Futebol, o famoso complexo de Clairefontaine, criado e gerido pela própria Federação Francesa de Futebol. Essas instalações acabam por fortalecer e difundir ainda mais a formação de jogadores para além das tradicionais academias dos clubes, fazendo do futebol francês hoje um dos maiores “celeiros” de jogadores de alto nível do planeta – segundo dados CIES Football Observatory, há um bom tempo a França é o país que mais “exporta” jogadores para as maiores ligas europeias (isto é, de qualidade superior), superando Brasil e Argentina – mesmo já possuindo uma das cinco grandes ligas do mundo.

Sem acesso às melhores escolas, porque seus pais não tiveram acesso aos melhores empregos, é de se compreender o papel que o futebol ocupou na vida de muitos jovens negros e árabes franceses. Movimento histórico que se projeta na composição étnica da seleção local, mas não corresponde ao papel que estes ocupam na sociedade francesa em geral.

Seleção da França 2018
Seleção da França campeã da Copa do Mundo 2018. Foto: Wikipédia

Imigração, trabalho e futebol

Apesar dessas ressalvas, não menosprezamos como o momento atual tem dado lugar para debates num contexto pós-colonial, que vai encontrar no futebol um campo amplo para materializar questões como a multiculturalidade de jogadores e torcedores e a renaturalização de atletas, temas que perpassam a centralidade de culturas europeias e, por isso,  estão inseridas no racismo estrutural de cada país.

Não é raro encontrar imigrantes ou filhos de imigrantes em diversos países europeus. E isso se deu, num primeiro momento, pela utilização de mão de obra com origem na Polônia, Itália e Marrocos. Posteriormente, com a ação colonial de países como Inglaterra, França, Holanda, Bélgica, Espanha e Portugal notam-se outras ondas. Dentro da Europa, Portugal e Espanha também se tornaram países de emigração. Segundo Stéphane Beaud (2017), essas movimentações de populações, nesse caso causadas por guerras, também tocam a realidade de países que não foram igualmente agentes do colonialismo, como Suíça e Suécia, por exemplo. Em cada país, sujeitos binacionais terminam por figurar, em alguma medida ou outra, no cenário do futebol.

No caso francês, já se identifica a presença de imigrantes e filhos a partir de 1945, o que combinaria a utilização de força de trabalho estrangeira com a ancoragem do futebol na juventude dos filhos de trabalhadores. Na década de 1920 a chegada de poloneses para a indústria siderúrgica da região da Alsácia-Lorena propiciou toda uma geração que se notabilizou na Copa do Mundo de 1958, como Raymond Kopaszewski, o Kopa, meia atacante que também disputou as de 1954. Uma onda seguinte, no pós-guerra de 1940 a 1945, levou italianos e espanhóis que convergiram na geração de Michel Platini, das Copas de 1982 e 1986. A última onda, entre as décadas de 1960 e 1980, foi protagonizada pela chegada de imigrantes do Magreb e África subsaariana, cuja presença é notada desde a Copa do Mundo de 1998 até, por exemplo, 2018.

Há o entendimento que o time nacional do país já era desde as primeiras décadas do Século XX instrumento de divulgação de um patriotismo francês. Através do time construiu-se a representação de objetos e símbolos nacionais, uma estratégia utilizada por elites parisienses para disseminá-los foi justamente o futebol que, como será visto, era praticado e consumido por classes trabalhadoras (Beaud e Noiriel, 1990).

Pode-se afirmar que a presença de imigrantes no time nacional francês não é uma novidade, cada momento imigratório foi retratado na seleção francesa de sua época. Logo, também é possível vislumbrar o quanto a prática do esporte está ligada às classes trabalhadoras no país. O esporte, de origem aristocrática britânica, passou a ser praticado no âmbito dos operários franceses no entreguerras, onde os empregadores entendiam que estimulá-lo seria útil para educar e treinar seus funcionários em atividades em equipe, não individuais.

O fato de não ter havido uma ruptura social ligada à industrialização do país levou a uma desaceleração do êxodo rural para áreas urbanas até a década de 1950. Para resolver o problema da falta de mão de obra, as elites francesas se aproveitaram dos trabalhadores imigrantes para trabalhos pesados. Nesse período cria-se um modelo que chamam de cidade-fábrica. Na década seguinte, a onda de imigração com pessoas vindas da África fez com que novos locais de concentração proletárias surgissem, os subúrbios onde se encontram os chamados ‘quartiers’ ou ‘cités’ (Beaud, 1990).

O termo “integração de imigrantes”, segundo ponto de vista sociológico, aponta para as engrenagens da máquina social do mercado de trabalho em níveis informais de sociabilidade de bairros por meio das organizações do mundo político. E o futebol está dentro da lógica do sistema de “integração” francês, que englobou desde os imigrantes de outros países europeus até os representantes da onda iniciada nos anos 60. Dentro desse contexto, os clubes fundados nas áreas de subúrbios (quartiers) absorvem aqueles jogadores que se destacam e quando um deles chega até os Bleus torna-se motivo de orgulho para toda a localidade. O jogador serve como mediador num processo de identificação da sua comunidade de origem com a seleção nacional.

Observando casos de jogadores binacionais em atividade na época, a Fifa determinou em 1960 uma regra estabelecendo que jogadores não poderiam defender diferentes seleções. A partir do momento em que entra em campo para disputar uma partida (não importando se integral ou parcialmente), o atleta não mais poderia mudar de nacionalidade. A justificativa seria impedir uma prática existente em outros esportes. Com a ação, muitos jogadores africanos que optaram pela França tiveram sua mobilidade impedida, como observa Stéphane Beaud (2017).

Mais de meio século depois, em fevereiro de 2021, a mesma Fifa alterou a norma após anos de solicitação do jogador Munir Haddadi. Nascido na Espanha há 25 anos e filho de pai marroquino, Munir jogou 15 minutos de uma partida válida pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2018 contra a Macedônia, o que o impossibilitava de ser convocado pelo país de origem paterna. Ele havia recorrido duas vezes ao Tribunal Arbitral do Esporte, mas sem sucesso. A nova determinação da Fifa, apelando para a manutenção da segurança jurídica, entende que o atleta tinha menos de 21 anos quando participou da partida pela seleção espanhola e o liberou para defender a seleção de Marrocos.

Munir El Haddadi
Munir El Haddadi. Foto: Wikipédia

A nacionalidade tornou-se visivelmente uma questão política balizada pela relação entre os países do norte e os do sul. Entre 1945 e 1990 os países europeus tiraram proveito dos movimentos migratórios e da força de trabalho que chegava para, por exemplo, ajudar na construção do pós-guerra. Essa utilização da nacionalidade converge com o discurso governamental que mudou a maneira de ver e de lidar com os imigrantes.

Se a nacionalidade é um tópico complexo, a binacionalidade ainda permite outros desdobramentos. Quando jovens jogadores se destacam, são levados a escolher se defendem o país onde cresceram ou o país de onde vinculam sua identidade nacional e de origem dos pais. Uma opção seria seguir sua cultura original enquanto a outra poderia conferir maior possibilidade de melhores contratos e sucesso financeiro. Cada jogador tem seus próprios critérios para fazer sua escolha.

As experiências nacionais são muito complexas, principalmente no caso dos magrebinos e subsaarianos. Até a terceira geração uma pessoa nascida na Argélia, por exemplo, pode se considerar argelina por não ser integrada à sociedade da França, mesmo sendo considerada pelo direito francês. A proximidade, efeito da lógica colonial, possibilita que muitos nascidos dentro do país europeu mantenham laços, identidade cultural, incluindo língua e religião, com os países de origem dos pais.

A Argélia precisou passar por momentos de derramamento de sangue para conquistar sua independência da metrópole europeia. Uma guerra que durou de 1954 a 1962 e deixou feridas ainda abertas no relacionamento dentro das fronteiras francesas. Nesse período, trabalhadores e refugiados cruzaram o Mar Mediterrâneo rumo ao norte. A relação é tão complexa dentro dessa herança cultural que existem descendentes que querem se integrar, ao passo que convivem com aqueles que odeiam o país onde vivem.

Quando os imigrantes passam a ser um ‘problema’

Embora o desemprego e a situação de vulnerabilidade em que jovens imigrantes se encontravam já fossem observadas na década de 1970, foi na década seguinte que a imigração ocupou com maior destaque questões ligadas à insegurança, violência e “delinquência”. A partir desse período os bairros em regiões mais sensíveis (os chamados ‘quartiers’ e ‘cités’) passaram a ser identificados como possíveis problemas (Paes, 2017).

Em 1981, o bairro de Minguettes, um lugar com grande concentração de imigrantes e próximo a Lyon, chamou atenção da mídia e políticos, quando jovens se confrontaram com a polícia, incendiando carros, erguendo barricadas e atirando coquetéis molotov. Em 1990, novos “incidentes”, desta vez em Vaulx-en-Velin, também nos arredores de Lyon. No ano seguinte, casos similares em Argenteuil, Sartrouville e Mantes-la-Jolie aconteceram. A pobreza passou a ser vinculada às pautas associadas à delinquência juvenil e à integração de populações imigrantes.

Na gestão do então presidente francês François Mitterrand (1981-1995) houve um deslocamento no entendimento do tema: a imigração deixa de ser entendida como mobilidade e passa a ser vista como integração de estrangeiros. Essa mudança incide em como os imigrantes passaram a ser vistos no país. Antes o enfoque pautava-se nas condições e questões sociais enfrentadas pelos trabalhadores imigrantes, a partir desse deslocamento, as falas sobre integração passaram a trazer junto questões sobre a clandestinidade desse grupo.

É esse caldeirão político efervescente que vai colocar o futebol como um “objeto” de atuação política de grande relevância na França contemporânea. A construção das representações nas décadas recentes, com a participação de governantes, sobre as pessoas de origem magrebina ou subsaariana, se materializa no cenário futebolístico em alguns momentos (Simon, 2014).

Houve a narrativa do sucesso da integração associada à seleção campeã do mundo de 1998, a ‘Black, blanc, beur’, que poderia servir em termos de representação conhecida no Brasil como algo comparável à teoria da Democracia Racial. No entanto,  uma matéria publicada na imprensa francesa em 2011 tornou pública uma reunião promovida na Federação Francesa de Futebol (FFF), pela Direção Técnica Nacional (DTN) em que as falas dos envolvidos, inclusive o técnico do selecionado local na época, que havia sido um dos jogadores campeões de 98, Laurent Blanc. 

Nesse encontro, originalmente voltado para discutir políticas desportivas para o futebol do país, toma-se uma auditoria que aponta a grande presença de jogadores binacionais e que atuariam por seleções de outros países antes de atuarem pela seleção local. Tema já discutido anteriormente naquele mesmo ambiente.  O tema foi abordado, entretanto, a partir de falas negativas voltadas para esses jogadores (Simon, 2014).

As conversas, gravadas durante a reunião, falam da super-representação de jogadores negros na seleção. Além disso, pela constituição física desses jogadores de origem subsaariana, o estilo de jogo francês, segundo o dito, estaria levando a uma alteração da maneira da seleção praticar o esporte. Os protagonistas do encontro falam então em limitar a presença desses jogadores binacionais.

Independente da condenação por racismo, a situação deixou clara uma relação racialista no seio do futebol francês. Ou seja, a partir da origem e/ou ascendência dos indivíduos se explicaria dados comportamentais: 1) negros e árabes viriam de realidades sociais e disposições físicas e comportamentais que os colocariam em posição favorável no acesso ao futebol de alto nível; 2) essas disposições, quase inatas, favoreceriam sua forte representação, feita em detrimento de jogadores brancos que seriam dotados de outros atributos; 3) as características dos jogadores brancos (menos habilidosos, porém que teriam um jogo mais coletivo e inteligente) não seriam priorizadas nos critérios de recrutamento da época; 4) esses mesmos critérios, preteridos, teriam construído o estilo de jogo francês que se desenvolveu em torno de um quadro ‘black-beur’ (estilo que os levou ao “desastre da Copa do Mundo de 2010”); 5) a ligação entre a presença de negros e árabes nas seleções nacionais e o fracasso do jogo “francês” passa a ser estabelecida num nexo de causalidade; 6) para mudar o jogo francês (tema do encontro) era preciso trocar os “tipos” de jogadores, entendidos do ponto de vista esportivo, ou seja, pelo critério étnico-racial. 

Com a publicação da matéria, acusações de racismo ganharam espaço, assim como sua defesa que alegou ter havido um mal-entendido (estratégia usada não só na França, como no Brasil, para tergiversar situações de preconceito étnico-racial). Uma investigação interna inocentou os protagonistas de intenções racistas e as “cotas” não foram postas em prática. No entanto, o responsável pela gravação que vazou, Mohammed Belkacemi, foi penalizado por despertar o que seriam interpretações equivocadas (Simon, 2014).

Renaturalizações

Um dos pontos chaves dessa fatídica reunião é aquilo que aqui chamaremos de “renaturalização”: quando jogadores nascidos na Europa optam por atuar pelos países africanos de seus antepassados. Para além da carga afetiva e cultural que já tratamos anteriormente, convém também explorar outra questão pertinente à própria indústria do futebol na atualidade.

Em levantamento feito em 2018 – quadro que pode se alterar para a Copa do Mundo de 2022 –, nota-se uma grande participação de jogadores franceses em seleções africanas, em uma proporção maior do que vindo de países como Inglaterra, Holanda e Alemanha.[3] 

Como se pode observar, apenas nas três últimas Copas o movimento de “renaturalização” de jogadores franceses foi significativo ao ponto de chamar a atenção da comunidade internacional do futebol. Como há grande variação entre os países africanos classificados para o Mundial, é difícil mensurar se o processo se iniciou de fato em 2010 ou apenas em 2018. No quadro acima há uma distinção entre os países da África Ocidental e os países da África do Norte, que apresentam números muito díspares.

Apesar da ausência da Argélia, país que “renaturalizou” 17 franceses em 2010 e 16 franceses em 2014 (portanto, cerca de 70% dos jogadores relacionados), Marrocos e Tunísia mostraram que a tendência está sendo seguida nos países do Magreb, convocando 8 e 9 jogadores respectivamente.

Já na África Ocidental, a “renaturalização” de 7 franceses por Senegal (considerando que muitos deles são jogadores de primeiro escalão do futebol global), destoou da média anterior dos países da região, onde Togo, Costa do Marfim e Camarões – ausentes em 2018 -, relacionaram de 2 a 4 franceses ao longo de três edições de Copa do Mundo consecutivas.

Embora as questões de ordem pessoal, cultural e de identificações possam influir nesse movimento – algo que pesa tanto para árabes, quanto para negros –, não se pode perder de vista que a possibilidade de atuar por uma seleção africana, sendo um jogador formado nos sofisticados centro de treinamento franceses, que serve a alguns jogadores como uma oportunidade de ascensão. Considerando que a carreira de um jogador de futebol é muito instável, propensa a lesões e queda de rendimento, as escolhas tendem a ser guiadas pelo que o momento propicia. Também não há porque descartar que essas duas dimensões – as identificações por ancestralidade ou território e a lógica profissional – podem conviver ao longo de toda essa trajetória.

Outro agravante é a altíssima competitividade por uma vaga na seleção francesa, o que faz atletas de renome internacional perderem a vaga por circunstâncias comuns ao futebol: o desempenho do momento da convocação, as disputas de bastidores entre empresários e treinadores, a visibilidade por estar em um clube de maior projeção, dentre outras muitas variáveis que afetam essa questão. Se uma seleção pode ir para uma Copa do Mundo com 23 jogadores, apenas quatro vagas estão disponíveis para zagueiros, apenas duas para um lateral-esquerdo ou para um atacante de área.

Benoît Assou-Ekotto
Benoît Assou-Ekotto com a seleção de Camarões. Foto: Wikipédia

O lateral Benoit Assou-Ekotto iniciou sua carreira como profissional em 2004 e se recusou algumas vezes a aceitar um convite da seleção de Camarões, aguardando uma chance de jogar pela França. Em 2009, quando já tinha 25 anos – idade auge de um atleta –, atuando pelo Tottenham, da Inglaterra, Assou-Ekotto finalmente aceitou o convite da seleção africana e disputou a Copa do Mundo de 2010 e 2014. Em uma entrevista, deixou bem claro o pragmatismo da sua decisão: “É apenas um trabalho. Ok, é um bom trabalho e eu não digo que odeio futebol, mas não é minha paixão”.

Já o zagueiro Mehdi Benatia encontrou na “renaturalização” o caminho para uma projeção inédita na sua carreira. Apesar de formado pelo Olympique de Marseille, um dos principais clubes franceses, aos 21 anos estava atuando pelo modesto Clermont Foot, clube da segunda divisão nacional. A sua experiência internacional pela seleção profissional de Marrocos, a partir de 2008, lhe garantiu uma proposta da Udinese, da Itália. De lá, Benatia escalou a pirâmide do futebol até ser comprado pelo Bayern de Munique, maior clube alemão, e posteriormente pela Juventus, maior clube italiano. Mehdi Benatia, inclusive, atuou pela seleção sub-19 da França antes de fazer o movimento de “renaturalização”.

Medhi Benatia
Medhi Benatia com a seleção do Marrocos na Copa do Mundo 2018. Foto: Wikipédia

Outro zagueiro, por sua vez, Carl Medjani, revelou que escolheu jogar pela Argélia graças a um pedido do pai, que sonhava em ver o filho atuando pela seleção do seu país de origem. Medjani jogou basicamente em todas as categorias de base da seleção francesa até 2006, mas foi em 2010, aos 25 anos, que escolheu a seleção profissional da Argélia, pela qual pode ir à Copa do Mundo de 2010 (apesar de não ter jogado) e 2014. Entre a escolha tomada pelo desejo do pai, ou pela oportunidade de finalmente jogar o principal torneio esportivo do mundo, a escolha de Medjani não destoa das muitas outras histórias que explicam o movimento dos atletas binacionais do futebol atual.

Como destacamos anteriormente, não se pode perder de vista que jogadores de futebol são trabalhadores envolvidos em circunstâncias muito particulares: carreiras breves, escolhas estratégicas guiadas por agentes de carreiras, ambiente de alta concorrência e, caso se trate de um atleta de alto nível, a possibilidade de fazer verdadeiras fortunas em um curto espaço de tempo, coisa impensável em qualquer outro ambiente de trabalho. Tais questões são cruciais para que análises como a que propomos aqui não percam a capacidade de entender que não é possível fazer uma correlação direta, proporcional ou imediata entre futebol e sociedade, ainda que esse esporte tenha um potencial exploratório significativo para o pensamento social.

Carl Medjani
Carl Medjani em jogo da Argélia contra a Bélgica na Copa do Mundo 2014. Foto: Wikipédia

Considerações finais

A presença de imigrantes no futebol francês não é novidade visto que é um país com alguma centralidade e extensão na Europa ocidental. A combinação entre a necessidade de mão-de-obra para trabalhos pesados e a ação colonial em países africanos abriu as portas para diferentes ondas de imigração, todas elas identificáveis nas convocações do selecionado francês. No entanto, as últimas ondas trouxeram novos elementos étnicos e culturais que têm sido usados para, além da diversidade, afirmar as diferenças dentro do país. E o futebol materializa os sintomas dessa sociedade pós-colonial diante dos olhos de quem observa mais atentamente.

Esses imigrantes se estabeleceram ao longo do tempo dentro das classes trabalhadoras francesas. A despeito dos obstáculos culturais para serem absorvidos pela sociedade local, como acontece com os descendentes de ondas migratórias, a vulnerabilidade social acaba por se somar a esse processo de exclusão.

Enquanto a seleção nacional de futebol serve como uma ferramenta de afirmação do nacionalismo no país, ela faz com que atletas sirvam como um tipo de mediadores, pois os colocam na condição de nacionais. Mas, conforme apresentado, há uma dubiedade no lidar da sociedade francesa sobre essa condição de imigrante, principalmente a partir dos governos de François Mitterrand e Nikolas Sarkozy, presidentes franceses que mudaram o entendimento de políticas públicas voltadas para essas pessoas.

Concomitantemente, os jogadores que figuram entre aqueles com visibilidade passam por um momento particular em que precisam decidir qual país defender, haja visto a questão da binacionalidade. Essa escolha perpassa questões individuais que vão desde questões culturais até a projeção de contratos profissionais que possam ser mais rentáveis ao longo da breve vida de atleta.

Entre idas e vindas, o futebol permite identificar dentro da sociedade francesa algo que está longe dos holofotes, embora sejam ‘dores’ do país presentes no cotidiano.  Enquanto isso, o Brasil vive questões diferentes, um outro modelo de racismo estrutural. Aqui, o mito da Democracia Racial está em vias de desconstrução e certamente investigações seguirão por esse caminho.

É oportuno que os estudos sobre futebol brasileiro observem e desconstruam padrões de racialização que existem dentro do universo do país. É improvável que um gatilho como as ‘cotas para imigrantes’, como na França em 2011, aconteça no Brasil. O que nem é necessário, devido ao ainda recente fim da escravidão e desdobramentos disso como a situação de vulnerabilidade de negros e descendentes que, em grande maioria, compõem o universo de praticantes brasileiros do esporte.

 

Notas

[1] SIMÕES, Irlan. Negros e árabes na Copa do Mundo. Trivela, 2018.

[2] SANTOS, I.S.; CARDOSO, V. M. F.; Negros e Árabes na Copa do Mundo FIFA: futebol-negócio, pós-colonialismo e multiterritorialidade. Anais Anais do III Simpósio Internacional de Estudos sobre Futebol – Políticas, Diversidades e Intolerâncias, 2018.

[3] Uma exceção digna de nota é a seleção do Marrocos na Copa do Mundo de 2018, competição que o país não disputava desde 1998. Na ocasião, cinco jogadores holandeses, dois espanhóis, um belga e um canadense foram convocados pela seleção marroquina. Como observa Taha Chatouaki, a quantidade de jogadores nascidos na Holanda se explica pela existência de uma grande comunidade berbere marroquina – portanto, não tratam-se de jogadores com a mesma identidade árabe que estamos abordando aqui.

 

Referências

Beaud, Stéphane. Les équipes européennes de football au prisme de l’immigration et des enjeux de nationalité, juridique et sportive. ARPoS | « Pôle Sud » 2017/2 n° 47 | pages 79 à 94

Beaud, Stéphane e Noiriel Gérard. L’immigration dans le football. In: Vingtième Siècle, revue d’histoire, n°26, avril-juin 1990. Le football, sport du siècle. pp. 83-96;

Paes, Paula de Souza. Imigração e identidade nacional francesa: conflitualidades na esfera pública. Mosaico, n.13, 2017

Simon, Patrick. Le foot français, les noirs et les arabes. La Découverte | « Mouvements » 2014/2 n° 78 | pages 81 à 89

SIMÕES, Irlan. Negros e árabes na Copa do Mundo. Trivela, 2018. 

SANTOS, I.S.; CARDOSO, V. M. F.. Negros e Árabes na Copa do Mundo FIFA: futebol-negócio, pós-colonialismo e multiterritorialidade. Anais do III Simpósio Internacional de Estudos sobre Futebol – Políticas, Diversidades e Intolerâncias, 2018.

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Irlan Simões da C. Santos

Jornalista e pesquisador do futebol. Doutorando em Comunicação (PPGCom/UERJ). Autor do livro "Clientes versus Rebeldes: novas culturas torcedoras nas arenas do futebol moderno".    

Vicente Magno

Um jornalista que leva seu bairro de origem, Bangu, do subúrbio carioca para todos os cantos. Além de ser um devotado amante do futebol e do samba. Já andou no universo torcedor de França e Estados Unidos, além do brasileiro.

Como citar

SANTOS, Irlan Simões da Cruz; CARDOSO, Vicente Magno Figueiredo; CHATOUAKI, Taha. Futebol, pós-colonialismo e racismo: uma análise da presença de jogadores negros e árabes na França. Ludopédio, São Paulo, v. 142, n. 61, 2021.
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