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Galo e hip-hop: a quem interessa separar o inseparável?

Lucas Andrade, Vitória Diniz 11 de maio de 2021

O hip-hop no Brasil nasceu em São Paulo, nos anos 80. As pessoas que não se interessam pelos movimentos populares, pela arte, pela periferia e pelo levantamento de bandeiras, que lutem! Elas devem entender que o movimento sempre teve um lado desde o seu cerne: o lado do oprimido. Dessa forma, sua existência por si só incomoda. Justamente por incomodar, foi historicamente marginalizado, tendo como principal arma essa voz que quer ser calada.

Um dos maiores cantores e mais respeitados do segmento, Mano Brown, no comando da banda Racionais MCs, pautou o orgulho de ser pertencente à periferia em suas músicas, “periferia é periferia’’. Brown, que viveu o Negro Drama, não somente leu ou escutou sobre, disse “você sai do gueto, mas o gueto nunca sai de você”. O seu álbum “Sobrevivendo no Inferno’’ é uma verdadeira aula de como sobreviver estando à margem da sociedade construída às custas de exploração desse mesmo gueto. Assim sendo, pautas urgentes como o racismo e suas mazelas, a falta de oportunidades para os jovens negros, a exclusão e a marginalização, foram abordadas de forma genial e ilustrativa pelo olhar genuíno de quem sofreu na pele.

Racionais MC´s
Show do Racionais MC´s, em comemoração aos 30 anos da banda. Foto: Stephanie Hahne

Em um país racista, localizado no Sul global, na periferia do capitalismo, como o nosso, esses debates acabam por possuir ainda mais relevância. Isso se deve pelo fato desse sistema abranger todo tipo de opressão e exploração, de forma a atravessar as identidades sociais dos diferentes grupos excluídos do processo de cidadania.
As mulheres vêm conquistando progressivamente papel de destaque nesse universo, tomando um espaço que antes lhes fora negado e jamais lhes seria cedido. Mesmo assim, no hip-hop, no futebol e em tantas outras esferas, a misoginia e o sexismo ainda gritam. As mulheres, percebendo esse contexto, vêm para gritar ainda mais alto. Seguindo essa linha, a filósofa marxista Angela Davies disse: “Precisamos nos esforçar para ‘erguer-nos enquanto subimos’. Em outras palavras, devemos subir de modo a garantir que todas as nossas irmãs, irmãos, subam conosco.”

Outras importantes representantes da luta feminista, dessa vez diretamente ligadas ao mundo da música, são Áurea Carolina e MC Tamara Franklin. A deputada federal do PSOL-MG é uma mulher preta e uma das filhas desse movimento em Minas Gerais, ela constantemente expressa seu amor por essa bandeira. “A cultura hip hop foi minha primeira escola e me deu fundamento para estar aqui hoje defendendo as nossas lutas. Rap é compromisso!’’. Já a MC, atleticana, também mineira, é uma das rappers que levantam questões fundamentais como a cultura afro-brasileira e a luta contra o patriarcado. Em sua música ‘’Anônima’’, a rapper escreveu ‘’Mais uma preta marrenta, vinda das ruas barrentas / dos versos sujos e puros, melhor que as letra limpa e nojenta’’.

Tamara Franklin
Tamara Franklin. Foto: Neide Oliveira/Divulgação

A força desse movimento, ou melhor, estilo de vida, ganha espaço e força, criando sua própria identidade em Minas Gerais, sendo assim, palco de um dos maiores duelos mundiais de MC´s. Belo Horizonte, cada vez mais expande a arte da sua própria cena, abrindo espaço para novos (e novas) artistas. Na capital mineira, o Centro de Referência de Juventude (CRJ), localizado na rua Guaicurus, é um espaço especial que permite que essas juventudes se expressem artística e culturalmente. Ele conta com núcleos de direitos humanos, diversidade e participação social. É um elo fundamental que deve ser difundido e apoiado de forma a incentivar e dar voz a jovens que se envolvem com música, dança, escrita e demais expressões artísticas, além de coletivos, movimentos sociais, partidos políticos e outros pontos de convergência entre a arte e a luta.

Duelo de MCs
Duelo de MCs no Viaduto Santa Tereza, em Belo Horizonte. Foto: Reprodução Facebook / Pablo Bernardo / Família de Rua

Perante a esse cenário que urge das nossas ruas, a direção do Clube Atlético Mineiro, o nosso Galo, entendendo a força do rap e do hip-hop em BH e Região Metropolitana e a potência de MC´s atleticanos nessa cena, convidou dez artistas: Chris, Clara Lima, Djonga, Felipe Arco, FBC, Felipe Arco, Froid, Hot, Pedro Vuks e Thiago SKP, para comporem, juntos, um som em comemoração aos 111 anos do clube. “Contra o Vento”, remete à famosa frase do saudoso Roberto Drummond, foi o nome escolhido. A faixa “bombou” nas plataformas digitais, contando a história do Clube Atlético Mineiro, em forma de arte e pela ótica de quem também sofre, torce e se emociona nas arquibancadas.

''Contra o Vento'' Mineirão
Os artistas animando os atleticanos, com a música ”Contra o Vento”, no Mineirão. Foto: Pedro Souza / Atlético / Flickr

No ano de lançamento da música, em 2019, a festa da torcida começou um dia antes do aniversário de 111 anos do time. Houve shows de diferentes estilos musicais antes da partida contra o Tupynambás, pelas quartas de final do Mineiro, na esplanada do “salão de festas do Galo”, também conhecido como Mineirão. A seleção atleticana do rap/hip-hop, que tem destaque na cena nacional do movimento, cantou dentro dos gramados para toda a massa, levando os torcedores à loucura.

O sucesso foi tão estrondoso que agora, em 2021, uma nova canção em comemoração aos 113 anos da instituição intitulada ‘’Cento e Treze’’ foi lançada no canal do Youtube do time. Dessa vez, contando com a participação de três artistas: Felipe Arco, Pedro Vuks e Thiago SK, que haviam participado da primeira composição. A música foi além dos gramados, trazendo em seus versos a história de resistência e de luta, que marca a trajetória do alvinegro desde a sua criação até os dias atuais.

Futebol, política, música e arte em suas mais diversas expressões se misturam. Misturam-se nas mais diversas esferas, uma vez que a segmentação de assuntos é completamente utópica. O próprio futebol é arte. Arte é expressão, inclusive, política. Essa foi a mensagem passada pelo Galo quando optou por esses artistas. O hip-hop foi levado para o público que desconhecia o movimento e que acredita que o futebol não está interligado a esses meios, tendo assim a oportunidade de invadir casas, rotinas, famílias e multidões. E é justamente misturando as coisas que o futebol, a música, a arte, o hip-hop: resistem.

Campo de Futebol Sócrates Brasileiro na Escola Florestan Fernandes do MST
A inauguração do Campo de Futebol Sócrates Brasileiro na Escola Florestan Fernandes do MST, em Guararema. Foto: Ricardo Stuckert / Reprodução Twitter
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Como citar

ANDRADE, Lucas; DINIZ, Vitória. Galo e hip-hop: a quem interessa separar o inseparável?. Ludopédio, São Paulo, v. 143, n. 18, 2021.
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