É uma postura altiva. Garrincha está parado. Pernas eretas e afastadas uma da outra. Braços um pouco inclinados para trás. Tronco do corpo sutilmente projetado para frente para facilitar o momento exato em que a inércia momentânea será quebrada.

É, sem dúvida alguma, uma posição de ataque.  De enfrentamento. De quem, em algum momento incerto, vai dar o bote certeiro.

O adversário sabe disso. Ainda que não imagine em que microssegundo para frente isso acontecerá. Ainda que não saiba qual dos milhares de botes possíveis o outro vai escolher.

Indeciso, pois, o tal adversário se posiciona de forma defensiva a cerca de um metro de distância. Será dele o dever de conter aquele homem, de dar o primeiro combate, enfim. Mas a mão direita levemente erguida para a frente, como que tateasse o nada em busca de algum tipo de amparo, o denuncia. O rival está titubeante. Não aparenta saber bem o que deverá fazer para conseguir parar o imparável.

A descrição da cena é retirada de um videoteipe em preto e branco. O jogo é entre Botafogo e Flamengo. E ainda que eu não tenha certeza absoluta, minha suspeita é a de que seja a final do Campeonato Carioca de 1962.

Se isso for mesmo verdade, o impacto é ainda maior.

Porque o desorientado, o tolo que não sabia o que fazer, não é outro senão Gerson. Ainda jovem, é bem verdade, mas aquele que viria a ser tricampeão do mundo em 1970.

Aliás, o próprio Gerson já deu inúmeras entrevistas falando daquele dia em que foi um dos “Joãos” de Garrincha, o que reforça minha suspeita.

Mas, isso não importa tanto aqui.

Fato mesmo é que estão, frente a frente, Garrinha e João – chamemo-lo assim, afinal.

Garrincha veste calção negro. Camisa do Botafogo listrada em preta e branca, de mangas compridas, número 7 às costas.

João veste uma camisa escura, que é difícil de distinguir os detalhes. O calção é branco.

Estão no Maracanã. Lado direito do campo de jogo. Na imagem dá para ver a linha lateral à direita e os limites da grande área numa diagonal à esquerda. Pouco mais atrás, um segundo defensor (Jordan, um dos maiores nomes da história flamenguista, acaso minhas suspeitas estiverem corretas).

Uma cena épica está prestes a acontecer.

Garrincha e João se olham de frente, mas não chegam a se encarar. Têm as visões meio abaixadas, mirando as pernas um do outro.

Próximo ao pé de Mané, a bola, alvo de desejo dos dois.

O repertório de Garrincha é incalculável. E a paralisia de João mostra o respeito que tem ao rival.

É uma cena comovente, até. Poética. Rara. Engraçada também.

Por alguns segundos, parece que o jogo está suspenso.

Garrincha está imóvel. Não toca na bola. Como que convidando o outro para avançar inadvertidamente.

João não avança. Aguarda. Teme, acima de tudo.

Se nada mais acontecesse, o jogo acabaria ali mesmo. Garrincha convidando, João vacilando. Até o apito final do árbitro.

Mas, a poesia acontece.

Garrincha dá um impulso para a direita, numa cena que lembraria uma largada de 100 metros rasos, não fosse o detalhe de que ele dá apenas um passo e retorna exatamente para onde estava.

Foto: Divulgação

João, na certeza absoluta de que a corrida era para valer, tenta acompanhar o adversário, e somente muito atabalhoadamente percebe o blefe e consegue retornar para onde estava.

O que torna a cena única, contudo, é que, nos segundos seguintes, Garrincha vai repetir exatamente o mesmo movimento mais duas vezes, e em ambas as oportunidades vai conseguir ludibriar o adversário da mesma forma que a primeira.

Dá para entender?

Seis segundos, três dribles idênticos e bem sucedidos em cima do mesmo marcador, zero vezes a bola incomodada.

Até que Garrincha se cansa da brincadeira.

A impressão é que ele poderia repetir o movimento quantas vezes quisesse e em todas elas João cairia no engodo.

Mas ele se cansa, toca a bola de lado, deixa João zonzo sem saber bem o que danado aconteceu.

Os tolos vão dizer, talvez, que o lance não é tudo isso, visto que não levou a nenhum resultado mais efetivo.

Mas esses são o que são: tolos.

O lance, muito pelo contrário, representa toda a essência, toda a habilidade, toda a irreverência, toda a genialidade do homem que completaria 87 anos (28 de outubro) se estivesse vivo.

Parabéns, Garrincha.


Texto originalmente publicado no blog do LEME.


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Phelipe Caldas

Doutorando em Antropologia Social pela Universidade Federal de São Carlos, mestre em Antropologia pela Universidade Federal da Paraíba, graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela UFPB. É escritor e cronista, com quatro livros já publicados. Integra o Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade (LELuS/UFSCar) e o Grupo de Estudos e Pesquisas em Etnografias Urbanas (Guetu/UFPB). É membro-fundador da Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte (ReNEme).

Como citar

CALDAS, Phelipe. Garrincha. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 6, 2020.
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