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Gérson, o desbravador da Copa do Brasil

Pedro Henrique Brandão 7 de março de 2021

Sobrinho-neto de craque, formado na base do Santos, goleador nato, foi artilheiro na recém criada Copa do Brasil em três das quatro primeiras edições e, ainda assim, desconhecido do grande público. Gérson fez uma carreira meteórica e morreu aos 28 anos, negando ter testado positivo para Aids.

Para contar a história de Gérson é preciso começar pela biografia de outro craque: Oswaldo Silva, que entrou para a história como Baltazar, o Cabecinha de Ouro, foi o segundo maior artilheiro com a camisa do Corinthians nos mais de 100 anos do clube. Exímio cabeceador, justificando o apelido, Baltazar anotou 267 gols em 402 jogos pelo Corinthians.

O início

Gérson da Silva, nasceu em 23 de setembro de 1965, em Santos, e herdou o talento para o futebol além do faro de gol do tio-avô craque. Logo foi descoberto pelo Santos e se destacou na Copa São Paulo de Juniores de 1984. No ano seguinte fez sucesso nas categorias de base da Seleção Brasileira, quando foi campeão sul-americano e mundial sub-20, em 1985.

No mesmo ano foi promovido ao profissional do time da Vila, fez boas atuações e rodou por clubes como Guarani e Atlético Mineiro antes de chegar ao Internacional, clube em que faria seu maior sucesso, em 1992.

No Galo, porém, teve o primeiro grande sucesso e surgiu no cenário nacional quando foi artilheiro da Copa do Brasil em duas temporadas. Logo na primeira edição da competição em 1989 e repetiu a dose em 1991. Na segunda oportunidade, anotou cinco gols em uma só partida no que é, até hoje, a maior goleada da história da competição: Atlético-MG 11 a 0 Caiçaras.

Do céu ao inferno no Colorado

As boas atuações e a fartura de gols não se refletiram em títulos e o ciclo de Gérson chegou ao fim no Galo. O Internacional foi o clube que lhe abriu as portas e se interessou por seu poder de finalização, assim, o centroavante desembarcou no Gigante da Beira-Rio, no início de 1992.

Com a camisa do Colorado, voltaram os gols e a boa fase, mas dessa vez, o título viria junto com a artilharia. As atuações ostentando extrema destreza para anotar gols e frieza para ser letal dentro da área adversária não davam pistas sobre a fase complicada que o jogador vivia fora dos gramados.

No dia 30 de março de 1992, horas antes do Internacional entrar no gramado da Vila Belmiro para o confronto contra o Santos, válido pelo Brasileirão daquele ano, a equipe médica do Colorado recebeu os resultados de exames de rotina dos jogadores. Entre os resultados, uma alteração no exame de Gérson deixou agitados os bastidores do Inter.

Gerson Internacional
Gerson quando atuava pelo Internacional. Arte: Ludopédio.

Romeu Masiero, dirigente do clube de Porto Alegre, veio a público dias depois para anunciar o afastamento, porém sem especificar o motivo, apenas que era algo de ordem médica. Os rumores aumentavam com o passar dos dias em que o artilheiro do clube estava afastado das atividades. A tensão entre os jogadores, comissão técnica e dirigentes era evidente no cotidiano do Internacional.

Não houve maneira de abafar a história que já circulava nos corredores do Beira-Rio e na imprensa gaúcha. Uma semana depois, Romeu Masiero confirmou que Gérson havia testado positivo para o vírus HIV.

O drama da doença e do preconceito 

A Aids assombrou o mundo nas décadas de 1980 e 1990. Muitas eram as figuras públicas que morreram em decorrência do vírus, de Freddie Mercury a Cazuza, a letalidade da doença era alta e o diagnóstico era quase uma sentença de morte.

Horas depois, Masiero negou o que ele próprio havia afirmado sobre os exames de Gérson, depois que o jogador deu entrevista afirmando que não tinha Aids, mas sim uma simples caxumba.

Fato era que Gérson estava afastado do clube e além de todo o burburinho de bastidores sobre sua doença, um dirigente havia confirmado que o centroavante era portador do HIV. Bem quisto no time, a notícia gerou um claro abatimento no elenco dirigido por Antônio Lopes.

Mesmo com o imbróglio em que a diretoria revelou a doença enquanto Gérson negou, duas semanas após o afastamento, o treinador decidiu readmitir o artilheiro ao grupo e usou o exemplo de Magic Johnson, que havia testado positivo para o vírus e estava em atividade, inclusive, acabara de vencer a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Barcelona com o Dream Team dos Estados Unidos.

Reintegrado, Gérson treinou bem e foi relacionado para a partida pelo Campeonato Brasileiro contra o Paysandu, em Belém. Era a volta por cima do artilheiro. 

A última glória 

A Copa do Brasil de 1992 começou em 7 de julho. Gérson parecia plenamente recuperado e teve um desempenho espetacular na competição em que se tornou especialista.

Com 9 gols em 10 jogos, metade dos 18 tentos do clube no torneio, foi um dos melhores jogadores do Inter na competição, aliás, foi o destaque do Internacional no primeiro título do clube na Copa do Brasil e novamente artilheiro.

A artilharia em mais uma edição, fez de Gérson o principal goleador da Copa do Brasil em três das quatro primeiras disputas. O desempenho é tão fantástico que mesmo hoje, disputadas mais de trinta edições, ninguém foi artilheiro em três temporadas. Pela importância no título de 1992, Gérson é figura destacada no hall de ídolos do Internacional e é celebrado como craque da Copa do Brasil.

Em razão do ótimo momento e da fase artilheira, Gérson chegou a ser cogitado para a Seleção Brasileira, que Parreira ainda montava para a Copa do Mundo. Havia o clamor entre os torcedores e até do próprio jogador por uma chance com a amarelinha.

Não aconteceu, talvez, porque no início de 1993 o declínio físico provocado pela doença começou a se manifestar e Gérson viu a boa fase e seu futebol se esvaírem. Depois de passar mal em um treino, o jogador foi internado e passou duas semanas longe do Internacional.

O começo do fim

De volta ao clube depois de ter alta, visivelmente mais magro e abatido, Gérson nunca mais vestiu a camisa do Internacional, pois a diretoria colorada decidiu liberar o jogador em setembro de 1993.

Sem clube, Gérson voltou para sua cidade natal no litoral paulista com a família e teve uma galopante piora em sua saúde. Em março de 1994, foi internado novamente no Hospital Santo Amaro, no Guarujá, oficialmente por conta de um tumor no cérebro, naquela que seria sua última internação.

O Santos, clube formador, organizou jogos em que a renda foi revertida para o tratamento, mas era tarde demais e Aids venceu Gérson em 17 de maio, fatidicamente, dias antes do início da Copa do Mundo na qual o artilheiro sonhou jogar.

A causa oficial da morte foi atestada como neurotoxoplasmose e a família, assim como Gérson, sempre negou que jogador tivesse o vírus HIV.

Não há aqui, a pretensão por esclarecer se Gérson morreu por Aids ou outra doença. Evidências da época apontam para o teste positivo e uma compreensível negação por parte do jogador. A família, mesmo após a morte do atleta, nunca admitiu a doença.

É importante reforçar a memória de Gérson, que deve ser sempre lembrado como um artilheiro nato, letal dentro da área, frio e com o faro de gol de um grande goleador, além de ter outros recursos como estatura para bola aérea e técnica apurada de cabeceio, velocidade e até como bom batedor de faltas.

Jogador completo e especialista na Copa do Brasil, marcou para sempre seu nome na competição em que fez história por Atlético Mineiro e Internacional, Gérson foi o desbravador de uma era inóspita do torneio que vai ter mais um campeão neste domingo.


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Pedro Henrique Brandão

Comentarista e repórter do Universidade do Esporte. Desde sempre apaixonado por esportes. Gosto da forma como o futebol se conecta com a sociedade de diversas maneiras e como ele é uma expressão popular, uma metáfora da vida. Não sou especialista em nada, mas escrevo daquilo que é especial pra mim.

Como citar

BRANDãO, Pedro Henrique. Gérson, o desbravador da Copa do Brasil. Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 13, 2021.
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