150.38

Globalização, futebol e os novos conglomerados esportivos

Introdução

City Football Group. Pacific Media Group. Suning Sports Club. Há poucos anos, nomes desse tipo não faziam parte do vocabulário dos torcedores de futebol, por conta de ser um momento no qual as empresas investiam em um único clube. No entanto, esse contexto tem mudado significativamente em todo o planeta, especialmente com a formação de conglomerados esportivos, cujo capital é suficiente para sustentar investimentos em vários clubes simultaneamente.

O principal exemplo destes conglomerados, é retratado pela presença da empresa Red Bull em diversos clubes ao redor do globo. Parafraseando o professor Ary José Rocco Júnior, da Universidade de São Paulo, a Red Bull é uma empresa de investimentos amplos no setor esportivo e que “por acaso também faz bebidas energéticas”. Somente no futebol, a companhia controla agremiações em Salzburg (Áustria), Nova Iorque (E. Unidos), Leipzig (Alemanha) e Bragança Paulista (Brasil), todos em primeira divisão em seus países. O City Football Group é formado pelo capital da gigante financeira Abu Dhabi Investiment Authority, controlada pelo xeique Mansour Bin Zayed Al Nahyan dos Emirados Árabes Unidos, tendo em sua lista de clubes o Manchester City (Inglaterra), assim como outros clubes da Ásia e das Américas. Há outros casos, como o do Pacific Media Group, presente também na área de comunicação, o que foge a uma especialização no setor econômico do esporte.

Por que definimos esses grupos como conglomerados esportivos? De modo a responder essa questão, trazemos aqui Celso Furtado (1975) e seu olhar sobre o fenômeno de conglomeração na economia estadunidense. Segundo o autor, a atuação das grandes empresas em diversos campos econômicos era uma característica estrutural da economia naquele país, o que gerou firmas controladoras de múltiplas atividades produtivas não relacionadas – os conglomerados. Ao observarmos os casos da Red Bull e do Pacific Media Group, elucidamos que são conglomerados cujas atividades estão no seio do campo esportivo atual. A nomenclatura também nos parece precisa ao City Football Group: primeiramente, o grupo é uma face do fundo soberano ADIA, com mais de 600 bilhões de dólares acumulados segundo o Sovereign Wealth Fund Institute (2021); segundo, porque há um desmembramento de atividades lucrativas distintas no futebol: compra e venda de jogadores, investimentos em marketing e propaganda, compra de equipes profissionais visando retornos relacionados ao consumo e ao rendimento esportivo.

Red Bull Leipzig
Centro de Treinamento do Red Bull Leipzig. Foto: Wikipédia

Mercantilização do futebol

O tempo do futebol como negócio através de bilheteria, premiações e patrocínio se foi há décadas. A partir dos anos 1990, vimos a implementação paulatina de um mercado especializado na transferência de jogadores de futebol. Além disso, devido aos novos objetos técnicos do período da Globalização, a transmissão de partidas de futebol alcançou os quatro cantos do planeta, aumentando o incentivo ao investimento de grupos de comunicação na transmissão esportiva. Essas novas circulações financeiras funcionam em circuito, formando uma rede cujos pontos alcançados são privilegiados em relação a outros de um mesmo território.

Por exemplo, os clubes de primeira divisão no Brasil, especialmente os do Centro-Sul, são os que negociam jogadores cujo “valor agregado” é maior, enquanto as transferências de outras divisões, quando ao exterior, normalmente envolvem valores monetários pouco significativos. Da mesma forma, a participação de clubes em competições organizadas pela FIFA ou pela Conmebol resulta em formas de captação de recursos não disponíveis aos clubes que se inserem apenas em competições estaduais ou nacionais. Segundo Milton Santos (2000)ii, a Globalização aumentou as desigualdades existentes, o que é verificado no caso do futebol.

A concentração financeira é evidente em níveis internacionais quando observamos o “Financial analysis of the transfer market in the big-5 leagues (2010-2018)” do Observatório do Futebol e nos deparamos com aproximadamente 70% dos fluxos financeiros gerados por transferência de jogadores das cinco ligas de maior aporte financeiro (Alemanha, França, Espanha, Inglaterra e Itália) permanecendo entre essas mesmas ligas, com uma parcela de 34% destinada a clubes da mesma liga nacional. Em termos de valores gastos em transferências, em 2018 o total foi de 5, 85 bilhões de euros, sendo 70% desse montante aproximadamente 4,09 bilhões. Em termos comparativos ao Brasil, em uma série histórica de oito anos, de 2010 a 2018, apenas 568 milhões de euros destinaram-se a compras de jogadores em clubes brasileiros, pondo em evidência a concentração de fluxos financeiros entre as cinco grandes ligas da Europa, conforme observado pelo gráfico 1.

Economia
Gráfico 1: Principais fluxos monetários para transferências internacionais envolvendo clubes do Big-5, por liga (2010-2018). Fonte: Relatório Mensal CIES – nº37

Além dos fluxos de transferência, é interessante olhar os valores recebidos e gastos no âmbito dos direitos de transmissão televisiva. A Premier League, primeira divisão nacional da Inglaterra, arrecadou 12,9 bilhões de reais em 2018 somente em direitos televisivos, distribuindo esse valor entre os 20 clubes participantes. O faturamento total da liga inglesa em 2018 foi de aproximadamente 24 bilhões de reais, enquanto as ligas principais de Alemanha e Espanha arrecadaram R$13 bilhões cada, a liga italiana R$9 bilhões, a francesa R$7 bilhões e a brasileira apenas R$4 bilhões.[1] Assim, há uma sensível hierarquização das ligas através dos gastos em transferências e de valores arrecadados, por exemplo, em ganhos televisivos. Há outras searas como as quantias de patrocínios de valores arrecadados em patrocínios e venda de produtos que reforçam as mesmas desigualdades. A novidade do mercado do futebol é o surgimento dos conglomerados esportivos, cujos principais clubes estão dentro dessas cinco grandes ligas europeias.

Os conglomerados esportivos sob o prisma da divisão internacional do trabalho

Lênin (1985) nos dá um norte de modo a entender a formação desses novos mercados ligados ao futebol através da divisão social do trabalho. Ao autor, a divisão social do trabalho é a base de todo o desenvolvimento da economia capitalista através da formação de novos mercados conforme as modificações que ocorrem na divisão do trabalho. Em termos geográficos, o Prof. Milton Santos (2005) diz que o desenvolvimento das forças produtivas ao término da Segunda Guerra Mundial tornou sensível o papel da divisão internacional do trabalho na divisão social do trabalho interna de cada país. Cada fase da divisão internacional do trabalho, aponta Santos, traz consigo formas geográficas portadoras de inovações e carregadas com novas intencionalidades. Assim, cada lugar, região ou país a integra dentro de uma lógica seletiva dada pela produção, elucidando o caráter privilegiado dos lugares onde as redes globalizadas estão disponíveis.

Os conglomerados esportivos entram na divisão internacional do trabalho como concentração de capital e o estabelecimento de ordens e normas que saem de um lugar específico em direção a toda uma rede mundializada. Por isso, quando observadas as estruturas do Red Bull e do City Football Group, é sensível a existência de uma hierarquia entre os clubes conforme os países e ligas onde se inserem.

O Manchester City é o clube principal do conglomerado, pois é o clube que se insere nas ligas cujos valores de marketing, transferências e compras de direitos televisivos são maiores. Da mesma forma, o clube do norte inglês tem sido protagonista do torneio de maior expressão mundial entre clubes, a UEFA Champions League. Com isso, é impossível que outros clubes como o New York City (E. Unidos), o Melbourne City (Austrália) ou o Troyés (França) tenham os mesmos investimentos e sejam destinos de grandes contratações. A observação pela divisão internacional do trabalho nos aponta que cada clube tem sua função dentro dos mercados internos onde se inserem e dentro do mercado externo como fontes de jogadores e informações em escala global, podendo valorizar os jovens com maior potencial para uma venda futura ou prepará-los ao próprio Manchester City.

Portanto, esses grupos não visam uma homogeneização do futebol mundial via a compra de vários clubes em diferentes ligas, especialmente de países onde o futebol um dia já foi centralidade, caso da América do Sul. O Montevideo City Torque (Uruguai) e o Bolívar (Bolívia), esse agregado ao grupo sem ter havido a compra, têm importância dada pelas condições de suas ligas locais e das possibilidades de avanço nos torneios continentais sul-americanos, ficando assim em condições de desvantagem com os clubes do conglomerado no continente europeu.

Celso Furtado descreveu os conglomerados estadunidenses como uma das formas de entendimento da hegemonia econômica do país em relação aos latino-americanos. Em grosso modo, entendemos que a formação de conglomerados esportivos visa reforçar a existência da hegemonia da Europa Ocidental dentro do futebol em relação aos demais lugares, ampliando as desigualdades já existentes. Aliás, isso é um fator a ser levado em consideração no momento em que o Projeto de Lei 5516/2019 é aprovado e clubes começam o processo de transição ao modelo jurídico de sociedades anônimas desportivas.

Os conglomerados esportivos no futebol brasileiro

Até meados da década de 1990 é possível dizermos que a liga nacional do Brasil era uma das mais fortes do planeta. Por aqui desfilaram grandes esquadrões, cujas escalações eram consenso de brigarem em pé de igualdade, senão de superioridade, com qualquer agremiação do planeta. Não nos surpreende o desejo dos torcedores em verem seus clubes de volta a esse papel de protagonistas no esporte mundial, com poder financeiro para manter seus principais jogadores sem se preocupar com investidas de clubes estrangeiros. No entanto, a realidade dos clubes brasileiros aponta o endividamento crescente dos chamados “grandes clubes”, assim como a dependência de uma parcela expressiva do orçamento das vendas de jogadores jovens. Observando os casos do Paris-Saint Germain (França), do Chelsea (Inglaterra) e mais recentemente do Newcastle United (Inglaterra), a solução mais simples parece ser a transformação do clube em uma sociedade anônima desportiva atraindo a atenção de um conglomerado ou um investidor de grande porte financeiro.

Essa venda seria realmente um resgate ao passado glorioso dos clubes de primeira divisão? Com certeza, não. Primeiramente, torcedores perderiam qualquer possibilidade de influência em decidir o futuro de sua equipe, acabando com as frágeis democracias existentes para dar poder a um CEO ou cargo equivalente colocado ali pelo novo dono. Para além dessa discussão, que caberia em um texto próprio, é possível analisarmos o papel dos clubes brasileiros através da divisão internacional do trabalho existente.

Como já dissemos, os clubes do Brasil dependem parcialmente da venda de jogadores ao exterior, cujos valores pagos aqui nunca são os mesmos pagos nas grandes ligas europeias. Dentro de uma hierarquia mundial, os principais clubes brasileiros se colocam como fornecedores de jogadores (mapa 1), porém com uma acumulação insuficiente para competir com os clubes europeus. No entanto, a liga brasileira é dotada de maior poder de investimento se comparada com as ligas dos demais países sul-americanos, despontando assim como uma liga de força regional. Não à toa, as finais continentais da Copa Sul-Americana e da Copa Libertadores da América de 2021 serão com quatro times brasileiros, sendo que a final da Libertadores do ano anterior já havia sido entre Santos e Palmeiras. Assim como as redes globalizadas privilegiam alguns clubes europeus em relação aos clubes do Brasil, também há o privilégio destes em relação aos concorrentes da América do Sul.                  

Migração Futebol
Mapa 1: Principais rotas migratórias para jogadores Brasileiros (2019). Fonte: Relatório CIES Nº45

É necessário ressaltar que o Red Bull Bragantino e o Red Bull Brasil são os primeiros casos de equipes pertencentes a conglomerados esportivos no Brasil. Apesar da força financeira, o Red Bull Brasil nunca conseguiu sair dos limites do estado de São Paulo e despontar como uma equipe de importância nacional. Para tal, a companhia austríaca necessitou comprar o Bragantino, clube cujos donos eram a família Chedid, ainda na Série B do Campeonato Brasileiro. Atualmente, o clube está entre os líderes da Série A e enfrenta o Athlético Paranaense pelo título da Sul-Americana. Esse é um ponto fundamental sobre conglomerados: a compra de empresas já existentes de modo a maximizar o lucro e reduzir as perdas. O Red Bull Brasil não estava dando certo? Pois bem, compraram outro clube de porte maior de modo a obterem de maneira mais rápida o acesso à Primeira Divisão. A primeira grande venda do conglomerado foi Claudinho, vendido ao Zenit São Petersburgo por 15 milhões de euros e 20% de uma venda futura, segundo a ESPN. Notemos que se trata de um modelo de negócio que visa estabelecer o Red Bull Bragantino como um clube protagonista no cenário nacional e com potencial de geração de lucro através da transferência de jogadores, lógica semelhante aos demais clubes nacionais.

Com outros clubes aderindo ao modelo de clube-empresa, ou S.A.D., há uma possibilidade de novas aquisições pelo capital estrangeiro de agremiações nacionais. No entanto, nos parece claro que a conformação do Brasil como um mercado secundário mundial nos leva a uma limitação de gastos e investimentos nesse lado do mundo, sem que haja competição de fato com o futebol de ponta da Europa. Algumas estruturas internas podem se modificar, como a ascensão de clubes sem tanta tradição no cenário nacional, caso do Bragantino, e o aumento dos valores de jogadores ao mercado interno, uma vez que clubes de maior poder de investimento pagam maiores salários e podem investir em transferências mais caras, forçando outros clubes a competir ou serem relegados a um papel secundário.

A conclusão que tiramos é a possibilidade do aumento das desigualdades existentes com a chegada dos grandes conglomerados esportivos ao país. Essas desigualdades foram construídas pelo processo de formação social e econômica do país e acentuadas pela globalização. No Brasil e no mundo, a formação desses conglomerados esportivos nos aponta uma nova fase do futebol como negócio e que trarão novas consequências que talvez só as enxerguemos daqui uma ou duas décadas.

Notas

[1] Fonte: Relatório “Impacto do Futebol Brasileiro na Economia” da CBF (2018).

Referências Bibliográficas

FURTADO, Celso. A hegemonia dos Estados unidos e o subdesenvolvimento da América Latina. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1975, exemplar 3418.

LENIN, Vladimir. O desenvolvimento do capitalismo na Rússia: o processo de formação do mercado interno para a grande indústria. São Paulo: Nova Cultural, 2 edição, 1985.

POLI, Raffaele; RAVANEL, Löic; BESSON, Roger. Financial analysis of the transfer market in the big-5 leagues (2010-2018). 2018. Acesso em: 08 nov. 2021.

POLI, Raffaele; RAVENEL, Loïc; BESSON, Roger. World football expatriates: global study 2019. 2019. Acesso em: 08 nov. 2021.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único a consciência universal. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000, 2ª edição.

SANTOS, Milton. Da totalidade ao lugar. São Paulo: Edusp, 2005.

Seja um dos 26 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Leandro Luís Lino dos Santos

Bacharel e Licenciado em Geografia pela na Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho - Câmpus de Rio Claro. Atualmente desenvolve pesquisa no nível de Mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGG) da mesma universidade. Desde 2019 investiga o futebol a partir de um prisma geográfico de interpretação, tendo desenvolvido a monografia sob esta relação. É componente do Grupo de Estudos: Mundo Dentro e Fora das 4 Linhas que, no ano de 2020 migrou suas reuniões para o modelo remoto, abarcando discentes de universidades como USP, UFMG, UFTM, e UNESP – Câmpus de Presidente Prudente, em suas reuniões. Na metade do ano de 2020, iniciou a atividade divulgador científico, por intermédio do perfil do grupo de estudos nas mídias sociais, com recente publicação no periódico Le Monde Diplomatique Brasil.

Como citar

ALMEIDA, Rodrigo Accioli; SANTOS, Leandro Luís Lino dos. Globalização, futebol e os novos conglomerados esportivos. Ludopédio, São Paulo, v. 150, n. 38, 2021.
Leia também:
  • 150.41

    Encarnar e “encarnar”: O torcer e a espiritualidade

    Felipe Damasceno
  • 150.40

    A nova diretriz do COI para inclusão e elegibilidade de atletas transgêneros. Nada diferente do previsto, mas quais as suas problemáticas? 

    Igor Gabriel Krüger Poteriko
  • 150.39

    O ano que não terminou

    Marcos Teixeira