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Godard, França de 68 e o distópico futebol brasileiro

Rayne Oliveira 7 de julho de 2020

Dizem que 1968 é o ano que não terminou, por conta de diversos acontecimentos históricos e durante algumas semanas fiquei me questionando sobre o impacto destes acontecimentos dentro do futebol.

A principio, tirei uma semana para me dedicar as obras do grande cineasta franco-suíço, de Jean-Luc Godard, comecei por La Chinoiese e logo em seguida assisti Tout Va Bien ou, Tudo Vai Bem, onde simplesmente fui surpreendida, não somente pela fotografia e enquadramento impecável, mas sim como Godard conseguiu passar fielmente para a tela, os sentimentos dos franceses que estavam inseridos no contexto do ano de 1968.

Jean-Luc Godard em Berkeley, 1968. Fonte: Wikipédia

Temos como cenário a França com seus estudantes com tamanha sede de mudança, se rebelando contra um governo arcaico e conservador, estabelecido por Charles de Gaulle, disseminando suas ideias por todos os setores industriais. O filme não trata sobre o futebol, porém fui atrás de saber onde tal esporte estava inserido nessa França em ebulição e obviamente, jornalistas e jogadores estavam ali, ocupando a sede da Federação Futebolística Francesa, tendo como motivação o retorno do futebol para jogadores de futebol, retirando das mãos do capitalismo.

Pode parecer utópico o que estava sendo proposto, mas vale a pena destacarmos o livro de Quique Peinado, Futebolistas de esquerda, onde ele conta sobre a realidade dramática do futebol europeu na década de 60. “Se a situação de emprego dos jogadores de futebol na Europa era precária, na França quase forçou uma rebelião”, o ex-jogador de futebol André Merelle, acrescenta:

“nosso salário era uma ninharia, mas acima de tudo, nossas demandas visavam mudar o tipo de contrato que tínhamos. Era como um regime totalitário, você praticamente não conseguia decidir nada e se você discordava de algo, eles o consideravam um objetor de consciência e automaticamente lhe pagavam o salário mínimo.”

Para entendermos sobre o que Marelle estava dizendo, vale destacar que os contratos assinados por jogadores profissionais de futebol, estabeleciam que eles pertenciam ao clube até os 35 anos. A licença B previa que, caso um jogador de futebol decidisse mudar para outro time sem a permissão de seu antigo clube, ele só poderia obter permissão para jogar com a subsidiaria, porém tal licença não era cabível em uma França que estava buscando por liberdade. Fazendo uma pesquisa sobre o assunto, encontrei no Paneka, que por este motivo a revogação desta clausula foi um dos principais pontos programáticos da Union Nationale des Footballeurs Professionnels ( UNFP), onde Eugène N’Jo Léa e Just Fontaine criaram em 1961, para defender os direitos dos jogadores pisoteados.

Sendo assim, muitos jogadores se sentiram representados pelo UNFP, nesta época a revista publicada pelo editorial do partido comunista Francês, Miroir du Football, apoiou as ideias defendidas pelos jogadores, a retomada do futebol das mãos dos lideres de clubes que defendiam a mercantilização do esporte. No dia da ocupação, era notável uma grande bandeira vermelha e uma faixa com a seguinte frase: Futebol para jogadores de futebol. Logo em seguida foi distribuído pelas ruas de Paris um folheto, onde o comitê de ação dos jogadores de futebol, alegavam ter assumido a sede da Federação Futebolística Francesa, contendo o seguinte texto:

“Com objetivo de devolver aos 600.000 jogadores franceses e seus amigos o que lhes pertencia: o futebol. Os hierarcas da federação expropriam o futebol para usá-lo por simples interesse egoísta. Juntos, faremos o futebol a voltar ao que nunca deveria ter deixado de ser: o esporte da alegria, o esporte daquele amanhã que todos os trabalhadores começaram a construir. Todos no número 60 da l’Avenue d’Iéna!”

Este acontecimento foi há 52 anos e mesmo assim podemos notar que suas cicatrizes ainda não foram fechadas.  Prova disso é o momento distópico que estamos vivendo no Brasil e claro, no futebol também.

Enquanto estamos assistindo todos os dias os números de mortes só aumentando no País, a Ferj só quer assistir a bola rolando,para desta forma, ver o  dinheiro também rolar. Enquanto na noite de quinta-feira (18) nós tínhamos milhares de pessoas morrendo, do outro lado do estacionamento a bola voltava a rolar pela 4º rodada do campeonato carioca, entre Flamengo e Bangu. Enquanto torcedores se tornavam somente números, Arrascaeta marcava aos 17 minutos do primeiro tempo um golaço em cima do Bangu, fazendo com que os números na tabela também aumentassem para o Flamengo, que ganhou de 3×0.

Os jogadores que ocuparam a Federação Futebolística Francesa, naquele maio de 1968, tinham como visão que não eram somente jogadores, mas sim, trabalhadores,uma percepção que aparentemente não foi notada pelos jogadores brasileiros. Paulo Autuori, técnico do Botafogo,foi punido por 15 dias pelo TJD-RJ, logo após ter se referido a Ferj como “federação dos espertos”, sendo assim, é notável o abuso de poder, este que Merelle afirmou ter presenciado em seus tempos de jogador.

Espero que estejam conseguindo entender onde eu quero chegar. Espero que estejam conseguindo perceber como as cicatrizes estão expostas há anos, seja na França de 68 ou, no Brasil de 2020 e o futebol não fica de fora, jamais!

O país do futebol do século XX, como foi nomeado pela imprensa, podendo ser notado uma certa romantização, não é mais cabível com o futebol do século XXI e vale lembrar que a Copa do Mundo de 2014 só concretizou essa ideia,mostrando a má gestão no futebol. Atualmente temos o Flamengo como maior representante do futebol brasileiro, sendo assim,era de se esperar que o clube rubro-negro soubesse dialogar não somente com seus torcedores,mas com todos os apaixonados por futebol, a pandemia não tem nem previsão para terminar,porém podemos notar quanto o posicionamento dos clubes podem impactar seus torcedores, seja pré ou pós pandemia.

Neste contexto que estamos inseridos, a história não mente, ela está sendo escrita e registrada,por todos nós que somos O contexto. O torcedor. Quero concluir este texto com uma frase que é dita no final de Tout Va Bien: “Começar a se pensar em um contexto histórico. Que cada um possa ser história. Eu. Ser. Eu. Você. Próprio historiador.” Em tempos difíceis,vale a pena lembrar,como aqueles 60 franceses futebolistas e jornalistas,futebol é alegria. Futebol é do trabalhador. Futebol é do povo. Como Galeano certa vez escreveu em um de seus brilhantes textos:

“Você já entrou, alguma vez, num estádio vazio? Experimente. Pare no meio do campo, e escute. Não há nada menos vazio que um estádio vazio. Não há nada menos mudo que as arquibancadas sem ninguém.”

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Rayne Oliveira

Estudante de ciências sociais na UFF,que tenta enxergar o futebol além da bola.

Como citar

OLIVEIRA, Rayne. Godard, França de 68 e o distópico futebol brasileiro. Ludopédio, São Paulo, v. 133, n. 17, 2020.
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