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G’OLÉ! (O filme oficial da Copa de 1982 – Espanha)

Gole 1982

Hoje venho escrever sobre o filme oficial da Copa do Mundo de 1982, disputada na Espanha. Quem viveu se lembra. Impossível esquecer aquele que, provavelmente, foi o escrete nacional mais encantador, desde a década de 1970 (no meu caso, foi a segunda Copa que acompanhei e foi fascinante: frustrante e apaixonante). Pois bem, a Copa do Mundo da Espanha foi retratada direta ou indiretamente em algumas produções fílmicas. Conforme um levantamento próprio, que realizei para a produção de um capítulo em livro sobre o Mundial de 1982, três obras se destacam, a saber: G’Olé! Filme Oficial da Copa do Mundo FIFA de 1982 (RU, Tom Clegg,1983), Futebol Arte (RU, Richard Horne, 2014) e Corações de Campeões (Itália, Gianluca Fellini e Mechela Scolari, 2018). Hoje vou adiantar algumas observações sobre a primeira delas.

 “G’olé”, lançado em 1983, foi dirigido por Tom Clegg e produzido por Drummond Challis e Michael Samuelson. Tem como destaque especial a narração de Sean Connery e trilha sonora dirigida por Rick Wakeman (ex-tecladista do Yes[1]). Faz parte da coleção de registros cinematográficos da Federação Internacional de Futebol e pode ser acessado no site da FIFA (assim como os filmes disponíveis das demais Copas). Por ser obra encomendada pelos gestores internacionais do futebol e de sua realização maior (as Copas) parece razoável supor que essas produções podem ajudar a delinear o que a própria FIFA considerou mais relevante e destacável no megaevento em questão. Para tanto, a própria sinopse oficial já esclarece: 1982 teria sido a Copa “de um Diego Maradona de apenas 21 anos de idade”, expulso por agressão; dos “dribles e golaços de Falcão, Sócrates, Zico e Éder” e o torneio da “primeira disputa de pênaltis da história da competição”. Contou ainda com as “zebras da Argélia e Irlanda do Norte, uma intervenção real” e um “duro choque de Toni Schumacher com Patrick Battiston” (Disponível em: https://www.fifa.com/fifaplus/pt/watch/movie/ZU5G7eaVq1PNZNZWkSypT. Consultado em 26/02/23).

Para além das referências autoexplicativas, a disputa de pênaltis faz menção à eliminação da França pela Alemanha, nas semifinais, depois de um 3 x 3 em 120 minutos. As zebras dão conta da vitória da Argélia frente à mesma Alemanha (no jogo de estreia dos germânicos) e do 1 x 0 da Irlanda sobre a dona da Casa. A “intervenção real” trata da cobertura do inusitado evento da invasão de campo pelo Príncipe Fahad Al-Ahmed, do Kuwait, que conseguiu anular um gol da França[2]! No “choque” de Schumacher em Battiston (no mesmo jogo dos pênaltis) o atleta francês foi inapelavelmente nocauteado: perdeu três dentes, teve que ser levado ao hospital e chegou a entrar em coma. O juiz considerou o lance uma entrada normal de jogo[3].

Em termos fílmicos, temos um documentário tradicional. Uma história possível (a da Copa de 1982) é narrada por intermédio de uma sucessão de imagens de época, falas coetâneas, exposições circunstanciadas, depoimentos provocados, um roteiro específico. Se quiséssemos aproveitar a clássica categorização de Bill Nichols, a obra se situa como um modelo de não ficção que emprega uma narrativa histórica. Conta uma trajetória a partir de “uma interpretação ou perspectiva dos fatos” e é construída basicamente na combinação entre um “modo expositivo” (com amplo recurso ao voice over) e “participativo”, propondo a interação com os atores sociais diretamente envolvidos, com o uso intensivo de entrevistas (Introdução ao Documentário, 2016, pp. 159-161).

G’olé, com esse título estilístico (que faz um jogo explícito entre o tento e a interjeição espanhola “empregada para animar e aplaudir”[4]  – também ela apropriada pelo futebol) apresenta uma estrutura básica. Ela advém de uma proposição inicial. A voz over esclarece, logo aos dois minutos:

Sabíamos que, embora o futebol seja apenas um jogo, ele envolve uma certa quantidade de paixão”.

Esse mote básico vai reger a composição da montagem. De modo imediato e, inicialmente, intercalam-se cortes de menção lúdica e festiva a essa paixão: são cenas seguidas de comemorações eufóricas, fundamentalmente de gols marcados. Após esse conjunto, advém o outro lado da moeda, a paixão transformada em frustração, embate e violência: segue-se, assim, uma sequência de quedas, faltas, enfrentamentos. Esse vai e vem (entre confraternização e conflito) alterna-se duas vezes. É um enunciado que vaticina: vamos mostrar o espetáculo da paixão futebolística no show imagético das performances com a bola e das altercações em torno dela.

Estabelecido um fio condutor, os segmentos se descortinam. O documentário vai se iniciar acompanhando a Argentina até a expulsão de Maradona, a partir da qual, conclui: “O mundo deve esperar que seu novo rei atinja a maioridade”. Da Argentina, segue para o Brasil, que tem uma cobertura bastante significativa. Contundente e demasiadamente caricata, diga-se. Essa primeira parte, sul-americana, estanca na vitória nacional sobre os argentinos (3 x 1). Na continuidade, abre-se para a menção aos “peixes menores”: Honduras, El Salvador, Argélia, Nova Zelândia.

Depois vem a anfitriã (Espanha) e a Inglaterra. O retorno ao Brasil e ao fatídico jogo com a Itália (aproximadamente aos 44 minutos) marca os segmentos de arremate para as semifinais e para a grande decisão, com a qual o documentário chega ao fim.

Conforme já havia antecipado, a representação do Brasil (do selecionado e do brasileiro) é bem caricata. As tomadas relativas ao Brasil sempre vêm embaladas musicalmente (muito frequentemente ao som de “Voa Canarinho, voa”)[1] e com imagens de torcedores constantemente em movimento pélvico (dançando). O texto narrado e a entonação dada sugerem pequenas entradas de apelo cômico.

Não obstante, as associações (cômicas ou não) vinculadas à seleção e aos brasileiros são sistematicamente relacionadas ao “carnaval”, à música, aos “tambores”, ao samba e ao nosso “futebol romântico”. Aliás, aqui temos uma chave ‘explicativa’ para a tragédia do Sarriá (tragédia para nós, festa nacional para os italianos): teria sido por conta do nosso tal romantismo futebolístico que, mesmo com a vantagem do empate, nos impeliu “ao ataque”. Quando Falcão empata o jogo, a narração evidencia que o 2 x 2 classificaria o Brasil: “Mas seus instintos naturais [do futebol brasileiro] os levariam adiante” [ao ataque]. Perdemos porque maior que a possibilidade de jogar com a regra o que se fez valer foi nosso impulso irrefreável ao jogo ofensivo…

Também me parece-me interessante destacar que os gols da Itália contra nossa seleção são associados a descuidos/falhas do Brasil (e, desse modo, menos ao mérito do adversário). O segundo sucesso de Paolo Rossi, no caso, é explicado como “outro lapso [que] permite” o tento do atacante.

Com a consecução do hat-trick de Rossi, no entanto, “a bateria brasileira silencia” e o nosso time, “favorito, campeão [!] do futebol romântico”, ficava “fora da Copa do Mundo”. O mais notável é que nesse ponto o documentário sofre uma inflexão narrativa que mais se assemelha a um pesar. É definido mesmo como um “anticlímax”. Isso porque, dada a eliminação do selecionado canarinho,

“A Espanha recupera o fôlego. Com o Brasil fora, uma sensação de anticlímax prevaleceu. A vida voltou ao normal e se esqueceu do futebol”.

Imageticamente isso implica uma sequência (sem fala) com várias cenas cotidianas: no campo, no trânsito, nas terrazas madrileñas, nas praias. Somente após esse interregno, e de forma lenta e quase relutantemente, é que o país se preparou para a primeira das semifinais: Polônia conta Itália.

A leitura elementar parece nos levar a crer que a saída do Brasil impacta negativamente o desenrolar da Copa (e do próprio documentário). A admissão da perda do clímax, antes mesmo das semifinais, chega a surpreender. Os jogos são cobertos, é claro, e méritos são reconhecidos à Azzurra, mas alguma coisa tinha ficado pelo caminho (sempre segundo o documentário). Chega a impressionar o destaque da seleção brasileira de 1982 que, mesmo eliminada na segunda fase, consegue imprimir um sentido de qualidade e espetáculo cuja ausência é sentida como o princípio do fim. Também é de se registrar como é pujante uma concepção de que o futebol brasileiro teria uma espécie de natureza própria, de cunho artístico, romântico (estético), vital (instintivo) e gingado (rítmico, tal como na permanente trilha sonora que lhe é constantemente associada). Para mais, esperemos o livro.


[1] Povo feliz ou Voa Canarinho, voa! Canção de 1982, de autoria de Memeco e Nonô do Jacarezinho e gravada pelo lateral da seleção, Júnior (Disponível em: https://globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2014/06/voa-canarinho-voa-junior-lanca-regravacao-para-sua-famosa-musica.html. Consultado em 27/02/23.


[1] Para alguns detalhes e curiosidades publicadas sobre esse documentário, ver SCHOTT, Ricardo. G’olé!: lembra que tinha um filme oficial da Copa de 1982? Disponível em: https://popfantasma.com.br/gole-rick-wakeman/ (20/06/2018). Consultado em 26/02/23 e “G’Olé”. Disponível em: https://opoderosochofer.wordpress.com/2014/06/27/gole-filme-oficial-da-copa-do-mundo-espanha-1982/. Consultado em 27/02/23.

[2] Ver uma instrutiva matéria em: COPA, Copa Além da. Histórias das Copas do Mundo: o sheik e a invasão de campo. Ludopédio, São Paulo, v. 159, n. 14, 2022. Disponível em: https://ludopedio.org.br/arquibancada/historias-das-copas-do-mundo-o-sheikh-e-a-invasao-de-campo/. Consultado em 26/02/23.

[3] Ver detalhes em: https://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2014/07/04/franca-x-alemanha-teve-o-lance-mais-violento-da-historia-das-copas.htm. Consultado em 26/02/23.

[4] Conforme a Real Academia Española. Disponível em: https://www.rae.es/dpd/olé. Consultado em 27/02/23.

Artigo publicado originalmente em História(s) do Sport.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Luiz Carlos Sant'ana

Professor, pesquisador do SPORT – Laboratório de História do Esporte – UFRJ/IFCS/PPGHC. Doutor em história comparada (UFRJ), com a tese O Futebol nas telas: um estudo sobre as relações entre filmes que tematizaram o futebol, duas ditaduras e promessas de modernidade, no Brasil e na Espanha – 1964/1975 (contato: caoargos@hotmail.com).

Como citar

SANT’ANA, Luiz Carlos. G’OLÉ! (O filme oficial da Copa de 1982 – Espanha). Ludopédio, São Paulo, v. 165, n. 26, 2023.
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