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Grandes personagens do futebol paraguaio

Fabio Perina 25 de março de 2021

Essa será uma trajetória de grandes estórias e grandes personagens (nem todos tão célebres) em que se cruzam bandidos e mocinhos, deixando a imaginação fluir junto de uma lenta música guarânia como em um faroeste no Chaco, no coração da América do Sul. Entre jogadores, treinadores, dirigentes ou políticos, são acontecimentos que se embaralham.

1953/54

Iniciamos em 1953, com o primeiro titulo sul-americano do Paraguai contra o Brasil tendo como treinador Fleitas “Brujo” Solich. Um ícone da transição do amadorismo ao profissionalismo tendo sido quase simultaneamente jogador e treinador nos anos 20 e 30, alternando entre o futebol paraguaio e argentino. Conterrâneo e contemporâneo do artilheiro máximo de todo o futebol argentino: Arsenio Erico. Um treinador que com esse título de 53 completava longa passagem de 6 anos na seleção paraguaia e logo depois viriam mais 6 longos anos no Flamengo. Dali por diante até o final da carreira de treinador, em cerca de 60 anos no total, ainda passaria por diversos clubes brasileiros. Simbolicamente sua trajetória pessoal coincide com a do país em uma ‘troca’ da dependência do Paraguai antes diante da Argentina e desde então diante do Brasil. Uma infeliz coincidência pela qual naquele ano o presidente Chavez se aproximava de Perón na Argentina, porém foi derrubado pelo golpe do General Alfredo Stroessner, em 54, tomando rumos geopolíticos opostos.

Fleitas Solich
Fleitas Solich e seu esquadrão de 53-55. Foto: Reprodução

1979

A próxima parada é duas décadas e meia depois, no ano épico de 1979, quando por clubes e pela seleção os paraguaios estiveram no topo do continente. No qual um alegre chamamé cortou décadas de tristes guarânias—dois ritmos musicais bem populares em estados brasileiros fronteiriços. A campanha na Libertadores pelo Olímpia teve uma importante paragem em uma batalha campal em Cochabamba contra o Jorge Wilsterman-BOL, parecendo reeditar por um instante a sangrenta Guerra do Chaco dos anos 30. Ali o jovem treinador uruguaio Cubilla (antes campeão como jogador pelos gigantes Peñarol e Nacional) enxergou o “batismo de fogo” que uniria a equipe para ser campeã! Na fase seguinte, o triangular semifinal, superou sem problemas o Palestino-CHI de Figueroa e o Guarani de Campinas de Careca. Já na final contra o Boca Juniors, atual bicampeão, o Olímpia venceu a primeira partida no Defensores del Chaco e depois segurou o empate na Bombonera. Curiosamente foi esse o provável episódio que se iniciou no futebol a discriminação até hoje pelos argentinos contra os paraguaios como “mortos de fome”. Ironicamente a forte migração de paraguaios para Buenos Aires fez com que muitos se tornassem torcedores justamente do Boca. Naquele momento, em quase duas décadas de Libertadores aquele título foi o primeiro por um clube de fora do trio do Atlântico: Uruguai, Argentina e Brasil. Pouco depois o Olimpia ainda alcançaria proeza ainda maior: ser o único clube sul-americano campeão da Copa Intercontinental fora do trio. Ao vencer as duas partidas (a última edição nesse sistema ida e volta) contra o Malmo da Suécia (diante da desistência do campeão europeu Nottinghan Forest–vide a frequente soberba inglesa de se recusar a vir jogar na América do Sul).

Para disputar a Copa América (naquela época jogada em ida e volta como a Libertadores) do mesmo ano obviamente a maioria dos jogadores do Olimpia formaram a base: Solalinde, Paredes, Torres, Kiese, Talavera, Isasi, Villalba e Aquino. O treinador Ranulfo Miranda se deu ao luxo de fazer uma troca no gol: tirar Hugo Almeida do Olimpia e escalar Roberto “Gato” Fernandez do Cerro Porteño. (Quem depois como veterano no início dos anos 90 teve passagens vitoriosas por Inter e Palmeiras. Assim como os torcedores jovens lembram da Libertadores de 2017 quando seu filho, Gatito, fez o Botafogo ganhar nos pênaltis justamente contra o rival Olímpia). O Cerro também reforçou a seleção com o capitão Florentín e o Libertad com Morel. A seleção paraguaia conseguiu eliminar o Brasil nas semifinais ao vencer por 2 a 1 no Defensores del Chaco e segurar o 2 a 2 no Maracanã com gol no final do jovem Romerito (naquele momento no Sportivo Luqueño mas que na década seguinte brilharia no Fluminense). Na final ‘alternativa’ da Copa América contra o Chile, uma vitória para cada lado. 3 a 0 para la “Albiroja” em Assunção e 1 a 0 para la “Roja” em Santiago. A partida desempate foi no estádio José Amalfitani, em Buenos Aires, e o Paraguai ganhou o bi-continental segurando o empate pela melhor campanha. (Curiosamente no mesmo campo em que uma década e meia depois o goleiro paraguaio José Luis Chilavert se consagraria pelo Velez Sarsfield com vários títulos e como um dos melhores goleiros do mundo em meados dos anos 90. Embora também chegar no futebol argentino foi um furacão, não somente pelos títulos mas também por declarações polêmicas contra vários referentes do futebol local de sua época. Um personagem que por si só já valeria uma crônica inteira recheadas de conquistas mas também de polêmicas, sejam estritamente futebolísticas contra rivais ou as mais recentes de cunho ideológico de apoio a políticos de direita. O fato é que revolucionou sua posição na década com uma onda de goleiros-goleadores e até mesmo uniformes irreverentes).

1989/90

Stroessner, no poder desde 54, somente foi deposto em 89. Como menção a um fato singular e surreal na América Latina: esse ditador foi o único derrubado por um golpe dado pelo mesmo partido (colorado) que antes usou para dar o golpe! Justamente na época de outra grande fase do Olimpia com 3 finais consecutivas de Libertadores. Primeiro, perdeu para o Atlético Nacional-COL. Depois, venceu o Barcelona-EQU. E por fim perdeu para o Colo Colo-CHI. Época em que contou com o veterano goleiro Almeida alcançando o recorde de ser o jogador com mais participações em todo o torneio continental. (Obs: curiosamente o destino do clube e do ditador se cruzaram ainda uma última vez em 2002: Stroessner morreu exilado em Brasília, pouco antes do Olimpia vencer nos pênaltis o São Caetano no Pacaembu para obter o Tri da Libertadores justamente no ano do centenário).

1999

No final dos anos 90 o Paraguai iniciava com sua seleção sua fase de sucesso mais duradoura com 4 participações mundialistas seguidas: 98, 2002, 2006 e 2010. Tirando o goleiro Chilavert no Vélez, era possível escalar o restante da sua defesa intransponível jogando no futebol brasileiro: Arce no Palmeiras, Rivarola no Grêmio, Gamarra no Corinthians e Enciso no Inter. Em 98, o Paraguai foi à França com a melhor defesa do mundo treinada pelo brasileiro Carpegiani e somente foi eliminada pelo gol de morte súbita pelos donos da casa. Em 99, o ano começou com muito agitado no chamado “marzo paraguayo” com o assassinato do vice-presidente Argaña e a renuncia do presidente Cubas Grau. No mesmo dia de forte pressão popular para evitar mais um golpe de estado coincidiu de um encontro pela Libertadores entre Olimpia e Corinthians pela fase de grupos—com torcedores-manifestantes comparecendo aos dois eventos: no Defensores del Chaco e depois no Congresso. O Olimpia contava como destaques como o treinador Cubilla (novamente assim como em 79), o goleiro Ricardo “Mono” Tavarelli e principalmente a jovem revelação Roque Santa Cruz. Quem pelas duas décadas seguintes se tornaria o maior artilheiro e estrela do futebol paraguaio—obviamente retornando para o clube que o revelou nos últimos anos. Ainda em 99 o Paraguai sediou pela única vez a Copa América. A fraca campanha do treinador Hugo Almeida o fez ser trocado pelo uruguaio Sergio Markarian, quem manteve uma forte equipe na defesa e ainda melhor agora no ataque, mesclando a juventude de Roque Santa Cruz com a experiência de José Saturnino Cardozo, e conseguiu logo depois mais uma classificação mundialista para 2002.

Roque Santa Cruz
Roque Santa Cruz. Foto: Wikipédia

Década de 2010

Após a fraca campanha na Copa do Mundo 2006, na Alemanha, caindo na fase de grupos, era notória a necessidade de transição dos defensores veteranos de 98 e aproveitar os bons garotos da medalha de prata em Atenas 2004. O melhor ciclo quanto a resultado e desempenho foi iniciado logo em seguida pelo treinador argentino Gerardo Martino. Vide na Copa do Mundo 2010 esteve a pouco de eliminar a futura campeã Espanha nas quartas-de-final e na Copa América 2011 foi vice-campeã. A prova de que agora além da defesa o ataque também funcionava era que Salvador Cabañas foi pelo América do México e pela seleção paraguaia nas Eliminatórias um dos melhores atacantes do continente. Infelizmente no inicio de 2010 um assalto seguido de uma bala na cabeça o tirou da Copa do Mundo naquele ano em seu auge e quase tirou sua vida. A comoção popular foi tanto que cerca de 20 mil paraguaios fizeram uma vigília de fé no Defensores del Chaco torcendo por sua recuperação. Na época ficou marcada uma forte argentinização da seleção não somente pelo treinador, inclusive pelas naturalizações do meia Ortigoza e do atacante Barrios para substituir Cabañas na Copa 2010 (tendência seguida nos anos seguintes com o meia Fabbro e o atacante Iturbe).

O início da década de 2010 foi bastante agitado no país para a política e para o futebol. Usando a metáfora anterior, o breve “momento chamamé” na política paraguaia foi no mandato de Fernando Lugo (2008-2012), quando um programa eleitoral mais próximo de pautas progressistas finalmente venceu. Porém não governou. Naquele momento Lugo foi usado pelo Partido Blanco para vencer as eleições contra a hegemonia de décadas do Partido Colorado. Porém o líder logo foi isolado e descartado em um impeachment em que os dois partidos tradicionais fizeram um acordo de conveniência.

A coincidência disso para o futebol que ele caiu de um patamar alto para médio. Após as já citadas ótimas campanhas da seleção (em 2010 e 2011) a decadência foi intensa com o novato treinador Francisco Arce, ídolo do Grêmio e principalmente do Palmeiras como jogador, chegando a ser lanterna das Eliminatórias para 2014. As últimas grandes campanhas dos clubes grandes na Libertadores foram do Cerro Porteño (semifinal 2011) e do Olimpia (vice-campeão nos pênaltis 2013). Desde então não voltaram mais a disputar instâncias tão avançadas. Ironicamente nos últimos anos Arce rapidamente deu a volta por cima e chegou à proeza de ser o único treinador campeão pelos dois clubes grandes. Vale mencionar que ambos os clubes fazem um clássico bastante equilibrado em termos de vitórias, porém com ampla vantagem da “Franja” (Olimpia) sobre o “Ciclón” (Cerro Porteño) em títulos nacionais e sobretudo em títulos internacionais, o que o credencia a se declarar o “Rey de Copas” para o país guarani. Na falta de títulos, a hinchada cerrista menospreza o rival por ter um estádio menor e mais antigo e sobretudo pelos vínculos políticos, como veremos a seguir.

Se o Guarani pode ser considerado o ‘velho grande’, inclusive por nunca ter sido rebaixado assim como os gigantes Olimpia e Cerro, o ‘novo grande’ é o modesto Libertad. Pois nessa última década é o clube paraguaio que mais deu trabalho ao avançar com frequência ao mata-mata da Libertadores. Em contraste com essa trajetória positiva dentro de campo, a nota negativa que fica a esse clube fora de campo é que a ‘proeza’ de se vincular a 3 personagens nefastos do circuito fechado mais mafioso entre futebol e política. O ex-ditador durante 35 anos, Alfredo Stroessner, quem durante o regime batizou o acanhado estádio do clube. O ex-presidente da Conmebol durante 30 anos, Nicolas Leoz, quem atualmente batiza o estádio. E por último o ex-presidente, Horacio Cartes, quem aproveitou o golpe contra Lugo para governar de 2013 a 2018. Vide em um país de pequena população mas muita desigualdade a corrupção e os abusos de poder serem indistinguíveis de uma elite futebolística, política e econômica em um bloco quase sem fissuras. O ‘legado’ do stronismo no futebol é também popularmente atribuído aos maiores títulos do Olimpia justamente quando seu dirigente foi alguém bem próximo do ditador: Osvaldo Dominguez Dibb. O pai de Alejandro Dominguez, atual presidente da Conmebol.

Voltando para o dentro de campo, nessa década na Libertadores outros dois clubes médios e tradicionais não fizeram feio: o Guarani foi carrasco do Corinthians em 2015 (indo até a semifinal) e 2020. Já o Nacional foi vice-campeão em 2014 perdendo por pouco para o San Lorenzo-ARG. Vale registrar uma curiosidade que tal clube, além da identificação com os já citados ídolos do passado Arsenio Erico e Fleitas Solich, também comparte com o Cerro Porteño o mesmo Barrio Obrero e as mesmas cores azul e vermelho. Ambos fundados como uma simbólica ‘conciliação’ nacional entre os partidos tradicionais: blanco e colorado.

Mesmo diante de uma década de 2010 bem ruim para a seleção paraguaia, ficou algum alento tendo como parâmetro as principais partidas contra a seleção brasileira. Pois um capricho do destino reservou nessa década 3 encontros equilibrados justamente a cada 4 anos e que terminaram em 3 disputas por pênaltis em quartas-de-final de Copa América. 2011 em Córdoba-ARG. 2015 em Concepción-CHI. E 2019 em Porto Alegre-BRA. Com o Brasil vencendo apenas a última, quando o adversário teve novamente uma zaga ‘paulistana’ com Balbuena (ex-Corinthians) e Gomez (Palmeiras).

Por fim, até aqui o último ato desse enredo é do levante popular da sofrida população guarani no início desse mês, reeditando um novo “março paraguaio”! O povo reagiu em intensos protestos, inclusive se impondo diante da covarde polícia, que levou à renúncia de diversos ministros e principalmente exige a renuncia de Mario Abdo Benítez (um ‘marionete’ do milionário Horacio Cartes e um aliado de Bolsonaro). Por conta da negligência do governo diante da pandemia como contrabando e superfaturamento de medicamentos e demora das vacinas. Logo depois a reação de Abdo para tentar ganhar tempo negociando com parlamentares contra o impeachment foi decretar toque de recolher para esvaziar as ruas.

Paraguai protestos
Paraguai tem protestos por má gestão da pandemia. Foto: Reprodução Twitter

 

Referências

Para matar a saudade da Libertadores: Ever Almeida, lenda do Olimpia, recordista de jogos e algoz do Inter em 1989

O lado azulgrana da vida

Lado B: Paraguai completa 40 anos da conquista da Copa América dos dias de terror

Defensores del Chaco: O caldeirão histórico

El Gatito madrugada adentro: uma dinastia das luvas a serviço do Botafogo

El día que Chilavert le escupió a Roberto Carlos

Los argentinos que han jugado para Paraguay en los últimos años

Esquadrão Imortal – Olimpia 1978-1980

No Paraguai, protestos por impeachment do presidente Benitez já passam de uma semana


 

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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. Grandes personagens do futebol paraguaio. Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 52, 2021.
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