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Guarani 2022 – Confie no Processo

André Bergara 16 de março de 2022

O Guarani começa o ano de 2022 com uma missão difícil, atrelada a expectativas construídas pela grande Série B realizada no ano anterior. O plantel do ano passado, liderado por Régis e Bruno Sávio, impressionou pelo volume ofensivo e organização do meio pra frente, mas falhou em jogos decisivos e viu o tão sonhado acesso fugir em um confronto direto contra o Goiás no Brinco de Ouro. Após o baque, o gosto na boca da torcida bugrina era agridoce: triste pelo objetivo não alcançado, mas contente com o nítido processo de reestruturação do Clube, que mostrava resultados palpáveis dentro das quatro linhas. O trabalho da diretoria para equilibrar as contas do Clube vem se mostrando bem sucedido, com déficits controlados, salários em dia e receitas em crescente. Nada mal para um clube que chegou perto de fechar as portas em 2014 e, num ato de vida ou morte, se viu obrigado a leiloar seu próprio estádio para continuar existindo. Com esse passado recente traumático, apenas por não brigar contra o rebaixamento, a torcida bugrina já conseguiu respirar fundo, diferente dos últimos anos na segunda divisão. O desafio agora era outro: como manter a qualidade e buscar o mesmo objetivo do ano anterior? Para preparar o terreno pro ano que viria, Daniel Paulista teria a pré temporada e a janela de transferências pela frente. O que nos esperava?

Times que chamam a atenção na segunda divisão, principalmente com peças individuais em destaque, são alvo dos olhos gordos dos times da Série A. A concorrência é, na maioria absoluta das vezes, implacável, e o desmonte foi inevitável e avassalador: praticamente todas as peças da espinha dorsal do time de Daniel Paulista saíram: o lateral esquerdo Bidu, o armador Régis, o meia Andrigo e o atacante Bruno Sávio. Peças substitutas como Matheus Pereira na ala esquerda, Giovanni Augusto na armação e Yago no ataque foram contratadas. Peças que, de cara, não sentimos o mesmo peso dos seus originais, mas que podem dar conta do recado. Supostamente, a qualidade que Daniel mostrou na Série B do ano passado daria um jeito de colocar os novos jogadores em um bom rendimento. Mas será que isso está mesmo acontecendo?

Esse texto está sendo escrito em um momento que o Guarani ainda não sabe se irá se classificar para a segunda fase do Paulista, faltando apenas um jogo para as quartas. Até agora, o time passou por altos e baixos e definitivamente não está em compasso com o futebol apresentado em 2021. O futebol do bugre é inconstante e instável, com jogos muito bons (como contra o São Paulo, na primeira rodada, e o empate contra o Santos, na quarta rodada), e jogos com rendimento pífio (contra o Ituano, Botafogo e Santo André). Salta como ponto fora da curva (e assim deve ser tratado, como um campeonato à parte) o Dérbi contra a péssima Ponte Preta de 2022, em um jogo muito mais marcado pela falta de capacidade da equipe alvinegra do que por jogadas entrosadas e envolvimento bugrino. Não nos iludamos com o 3 a 0, mas é inegável que uma vitória desse calibre contra nossa maior rival lava a alma e a tranquiliza. Fomos à faculdade e ao trabalho com um sorriso na boca e uma piada na ponta da língua. Momentos que só quem é campineiro (de berço ou de alma) e respira esse clássico podem sentir.

Mesmo com um futebol medíocre, o Guarani está contando com algumas surpresas positivas nesse início de temporada. A principal delas é, sem dúvida, o desempenho de Lucão do Break como centroavante da equipe. Jogador de jogo grande, Lucão cresceu aos olhos da torcida após a reta final da série B do ano passado e está correspondendo muito bem à titularidade que lhe foi conferida com a saída de Bruno Sávio. Marcou contra o Maricá na primeira fase da Copa do Brasil e carimbou o passaporte para a fase seguinte após mais de dez anos ausente dessa etapa da competição, foi fundamental contra a Ponte Preta no Dérbi e fez aquele que provavelmente foi o chute mais bonito do campeonato com o São Paulo. Lucão se mostra em casa e confortável com a camisa 99, e a torcida agradece. Aquele que já é um dos grandes jogadores folclóricos do futebol brasuca dos últimos anos pelo seu carisma e irreverência pode estar escrevendo uma linda página na história do Guarani. Assim esperemos.

Outra surpresa boa sai das atuações consistentes de uma das posições mais carentes do Guarani nos últimos anos: o goleiro. Maurício Kozlinski chegou no começo da temporada e está entregando ótimos resultados, passando a segurança que seus antepassados, Rafael Martins e Gabriel Mesquita, não conseguiram entregar. Sim, o sistema defensivo do Guarani ainda é aquém do necessário para se almejar grandes conquistas, mas pelo menos estamos de acordo com a velha máxima: um bom time começa com um bom goleiro.

Guarani
Foto: Divulgação/Guarani

Do lado negativo, alguns pontos saltam os olhos: a supracitada (falta de) capacidade defensiva do Guarani é uma deficiência que se mostra presente há algumas temporadas, com ênfase especial na bola aérea. No ano passado parecia que havíamos melhorado, mas a atual temporada tem provado que essa questão permanece viva com o miolo de zaga de Ronaldo Alves, Derlan e Ernando. No meio, a queda de desempenho do volante Rodrigo Andrade é igualmente surpreendente e decepcionante. Visto como um dos melhores jogadores do plantel de 2021, Rodrigo não está conseguindo mais fazer a função de segundo volante como fazia no ano passado. O capitão Bruno Silva também parece ter caído um pouco de rendimento, mas ainda merece a titularidade. Das peças contratadas para a função, Vitinho destoa negativamente e não correspondeu às oportunidades dadas até agora. Por fim, o setor ofensivo tenta respirar em função de Lucão do Break, mas não está a par do apresentado no ano passado. Giovanni Augusto tem qualidade no passe, mas não se movimenta como Régis o fazia. Yago está se mostrando ser um reforço de qualidade, principalmente com dribles e velocidade, e Júlio César vem visivelmente se esforçando e entregou boas jogadas e profundidade nas pontas.

A perspectiva do ano vem de encontro com a realidade. E você, que não torce para o Bugre, precisa entender o peso da realidade com nosso time durante as últimas décadas. Depois de anos na Série C, temporadas na Série A2 do Paulista e sem nem competir na Copa do Brasil, o cenário de 2022 é de tranquilidade relativa, sempre com referência ao inferno que passamos na maior parte da década anterior. O torcedor bugrino precisa entender que o período é de estabilizar e reconstruir, e a Diretoria tem feito um ótimo trabalho até então, quitando dívidas, procurando novas fontes de receita e investindo na melhor base do interior do Brasil. Concomitantemente, os bastidores se movimentam para viabilizar a construção do novo estádio, em uma novela que já demora anos e não tem horizontes de acabar em breve (não tenho pressa para me despedir do Brinco…). Por fim, a previsão é de um ano digno, sem sustos e sem grandes conquistas. Espero que eu esteja errado.

Em suma, faço um apelo, torcedor bugrino: respire fundo. Lembre onde estávamos em 2014. Mentalize o plantel e a situação do clube naquela época. Agora abra os olhos e veja o caminho que percorremos desde então. Veja os dérbis vencidos, os salários pagos em dia e o crescimento da marca. A reconstrução de um grande time de futebol não acontece do dia pra noite e o caminho é tortuoso e com altos e baixos. Mas respire e pense a longo prazo – eu sei que é difícil, ainda mais na mentalidade do futebol brasileiro. Mas espere e verás: em um passo de cada vez, vamos voltando. Sinta o progresso e confie no processo. Hoje e sempre Guarani!

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Como citar

BERGARA, André. Guarani 2022 – Confie no Processo. Ludopédio, São Paulo, v. 153, n. 19, 2022.
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