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Há 16 anos, um dia de paz e futebol no Haiti

Lúcia Oliveira 30 de agosto de 2020

Há 16 anos, o mundo assistia ao “Jogo da Paz”, confronto entre Haiti e Brasil que marcou a história do futebol, por se tratar de um amistoso de caráter, acima de tudo, social. Quando a bola rolou no Sylvio Cator, aproximadamente 15 mil pessoas testemunharam àquela partida com ansiedade e entusiasmo.

Naquele 18 de agosto de 2004, o Haiti respirou um ar mais leve e o único barulho que ecoou no país foram os gritos de alegria da população, enquanto assista ao amistoso. No entanto, antes de viver aquele momento histórico, o país havia sido destroçado por um conflito armado. Muito além do futebol, a partida não possuiu outra finalidade que não fosse ajudar o povo a curar as feridas da guerra civil que acontecera no país.

Seleção brasileira e haitiana juntas, antes do amistoso. Foto: Reprodução/CBF/Nilton Santos

Contexto político

O ano de 2004 marcou uma revolta armada no Haiti. O país caribenho viveu inúmeros dias sangrentos devido à crise político-social desencadeada por acusações contra Jean-Bertrand Aristide, então presidente haitiano. Sob declarações de que sua eleição não fora justa – nem 10% população votou –, além de veementemente criticado pela oposição por não melhorar a economia local e não conter a corrupção, o movimento “anti-Aristide” começou no início daquele ano, quando ele passou a governar apenas a partir de decretos, uma vez que as eleições no fim de 2003 não aconteceram e a validade da maioria dos legisladores expirou.

Depois de rejeitar o pedido de renúncia direta feito pela oposição, o presidente viu vários motins se espalharem pelo país. Em fevereiro de 2004, Gonaveis, uma das ilhas haitianas, teve sua polícia expulsa, assim, rebeldes e milicianos a tomaram.

No dia 22 do mesmo mês, a segunda maior cidade do Haiti, Cap-Haitien, também foi invadida e dominada pelos revoltosos. Ainda nesse dia, diplomatas americanos, canadenses, franceses e das Bahamas se reuniram e apresentaram um plano que reduzia o poder de Aristide no governo e incluía mais partidos da oposição.

Pressionado, Aristide atendeu ao plano, porém, seus adversários não, por isso, estes continuaram a exigir sua renúncia. Muito sangue ainda foi derramado, até que o presidente renunciou em 29 de fevereiro, antes que as tropas dominassem completamente Porto Príncipe, capital haitiana. Estava dado o golpe de Estado.

A contribuição brasileira na missão de paz da ONU

O que veio em seguida foi uma crise em todos os setores do Haiti e depois de ceder à força das armas, o país ficou completamente arrasado. Com a proximidade da marca de 200 anos de independência, não havia sequer um pensamento de comemoração naquele país. Foi então que a Organização das Nações Unidas (ONU) entrou em ação.

Soldado brasileiro em missão no Haiti. Foto: Wikipédia

Em setembro de 2004, a ONU criou, por meio da resolução 1542, uma missão de paz que tinha o objetivo de reestruturar o país após a guerra civil. Quando o Brasil ofereceu ajuda à ONU e ao Haiti, Augusto Heleno Ribeiro Pereira, atual Ministro-Chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e então general de divisão das forças de paz, foi o brasileiro que comandou a missão até setembro de 2005.

Reconhecido mundialmente como o país do futebol, o Brasil lançou-se em uma empreitada militar de importância internacional, mesmo que outras nações ainda o enxergassem como uma pátria isolada e provinciana. Ao participar de uma missão de paz e, principalmente, ao estar à frente dela, o Brasil apresentou ao globo um status de responsabilidade que lhe proporcionou ganhos diplomáticos.

O apoio solidário brasileiro promoveu a normalidade institucional do país, o restabelecimento da ordem e da segurança, além do asseguramento dos direitos humanos da população. De casa, o governo recebia as notícias da missão, enquanto em Porto Príncipe, o povo, depois de ver sua nação definhar política, social e economicamente, enfim, pôde ter em seus ares a sensação de paz.

O futebol como arma brasileira numa missão militar e diplomática

Em 18 de agosto de 2004, o Haiti se iluminava com um sol intenso, que parecia querer dar ênfase ao que aconteceria naquela data. As ruas, que antes temiam massacres, naquele dia, abrigaram o povo haitiano que tinha um único rumo: o estádio Sylvio Cator.

Seleção recepcionada pelo povo haitiano. Foto: Reprodução/CBF/Nilton Santos

Aquela quarta-feira de agosto tinha apenas um confronto na programação do país: o amistoso entre a seleção da casa e o Brasil. A equipe de Carlos Alberto Parreira desembarcou duas horas antes do apito inicial e para chegar até o estádio, uma cena épica: jogadores e comissão técnica percorreram cerca de cinco quilômetros, em carros tanques blindados, com escolta da ONU e dos vários haitianos que os acompanharam no caminho.

Com o objetivo de iniciar a campanha do desarmamento, naquele dia, o futebol assumiu seu papel de agente social. As quase 15 mil pessoas que lotaram as arquibancadas do Sylvio Cator sorriram novamente, depois de tantos dias sufocadas pela dor e pelo luto.

Sob o comando de Carlo Marzelin, a seleção do Haiti foi escalada com Gabart, Thélamour, Richard Bruny, Jean-Jacques Pierre, Dorcélus, Ricardo Pierre Louis, Hérold Gracien, Ulcénat, Chéry, Romulus e Guillaume. Naquela época, especificamente em agosto, de acordo com o histórico da FIFA, o Haiti ocupava a 95ª posição no ranking da entidade.

Do lado verde e amarelo, Júlio César; Belletti, Juan, Roque Júnior, Roberto Carlos; Renato, Gilberto Silva, Edu, Juninho Pernambucano, Ronaldinho e Ronaldo. Os comandados de Carlos Alberto Parreira representavam o futebol arte do Brasil, que, naquele jogo, só tinha um objetivo: dar alegria aos haitianos.

Nem a temperatura de quase 40ºC daquela tarde foi capaz de impedir o sucesso da partida. O calor apenas representou o quanto eufórica estava a torcida no Sylvio Cator, principalmente depois que o jogo começou.

O grande responsável pela agitação do torcedor haitiano. Foto: Reprodução/CBF/Nilton Santos

Entre os mais belos passes, os toques de bola da Seleção Canarinho encantavam a todos. Os haitianos, que sempre foram amantes declarados do futebol brasileiro, iam à loucura nas arquibancadas. Dos seis gols feitos pelo Brasil na partida, três foram de Ronaldinho Gaúcho, o principal responsável pela agitação da torcida. Digamos que em um dia inspirado, o camisa 7 fez a alegria tomar conta do estádio, quando se livrou de três marcadores e do goleiro adversário, balançou as redes e fez dancinha para comemorar.

“Se alguém ainda tinha dúvida em relação à validade desta viagem, deve ter se convencido diante dessas imagens (…) Na próxima vez que um de vocês (jornalistas) me perguntar qual a emoção mais forte que vivi no futebol, direi foi esta. E olha que todos sabem que já vivi muitas”, declarou o técnico Parreira à Revista Istoé, ao fim do jogo.

É verdade que a seleção do Haiti foi facilmente batida pela brasileira, porém, nem de longe era superioridade técnica e tática que estava em questão. O futebol que o público viu tinha lances de solidariedade, ataques de alegria e compaixão, além da defesa dos direitos humanos de cada indivíduo.

Há 16 anos, o jogo da paz, como ficou conhecido o amisto épico, mostrou ao globo o que o futebol é capaz de fazer. Muito além das quatro linhas, o poder do futebol pode unir pessoas, evidenciar problemas sociais e, principalmente, denunciá-los. Durante mais que 90 minutos, uma partida do esporte do povo pode ter relevância por toda uma vida.


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Lúcia Oliveira

Amante da comunicação, da escrita, da fotografia, do futebol, da literatura, do jornalismo, entre outras coisas. Escrevo para eternizar e vivo para escrever.

Como citar

OLIVEIRA, Lúcia. Há 16 anos, um dia de paz e futebol no Haiti. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 65, 2020.
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