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A hipocrisia do time do povo

Adriano Lopes de Souza 20 de janeiro de 2016

No longínquo abril de 1921, no antigo Campo do Prado Mineiro, houvera o primeiro embate entre o Club Athletico Mineiro e a recém criada Societá Sportiva Palestra Itália, atuais Atlético e Cruzeiro, respectivamente. De lá pra cá, ambas as instituições tornaram-se duas das mais importantes agremiações do nosso futebol. Concomitantemente a esse crescimento, houvera também o surgimento de uma rivalidade que hoje está entre as maiores do Brasil. A divergência sobre quem tem mais títulos ou quem tem a maior torcida é só algumas entre as inúmeras disputas envolvendo esses dois tradicionais clubes.

Em 2015, essa disputa ganhou mais um ingrediente. Após um clássico envolvendo os dois times, válido pelo segundo turno do campeonato brasileiro – terminado em 1 a 1 – no Estádio do Mineirão, uma conversa “vazada” do aplicativo WhatsApp do vice-presidente de futebol do Cruzeiro, Bruno Vicintin, estampou o noticiário esportivo. De acordo com Vicintin, “Este negócio de time do povo dói dentro da alma deles, porque eles sempre foram clube de elite, tanto que eles estão em Lourdes, né? E o Cruzeiro no Barro Preto. E o Cruzeiro foi um time de imigrante, um time de operários, e a gente tem que abraçar este negócio de time do povo também. Vou começar a falar isso”.

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Cruzeiro, o time do povo desde 1921. Foto: Cruzeiro / Google Plus (reprodução).

Não demorou muito tempo e esse discurso caiu no gosto do torcedor cruzeirense que “comprou” a ideia. Rapidamente espalhou-se pelas redes sociais uma campanha por meio da hashtag “O time do povo” que também foi abraçada pelo clube. Além de estampar a frase em seu site, o Cruzeiro lançou uma nova categoria de sócio torcedor, chamada “time do povo”. Obviamente que, por meio das redes sociais, os atleticanos respondiam a essa idéia apresentada pelo rival, já que para os alvinegros, se existe um time popular em Belo Horizonte, este seria o próprio Atlético.

Na fala do dirigente cruzeirense, percebe-se uma intenção de afirmar que o Cruzeiro surgiu do povo e o Atlético é oriundo das elites. Diante disso, faremos um recorte temporal, partindo da introdução do futebol em Belo Horizonte até o surgimento dessas duas agremiações, verificando o contexto no qual ambos foram fundados e analisar até que ponto houve uma efetiva participação popular. Para auxiliar na discussão dessa temática, sugiro a leitura de dois trabalhos que abordam os primórdios do futebol na capital das Minas Gerais.

O Primeiro, intitulado como: A bola em meio a ruas alinhadas e a uma poeira infernal: Os primeiros anos do futebol em Belo Horizonte (1904-1921), escrito por Raphael Rajão Ribeiro e o segundo, intitulado como A invenção do torcer em Bello Horizonte: Da Assistência ao Pertencimento Clubístico (1904-1930), desenvolvido por Georgino Jorge de Souza Neto.

Nesse contexto, retornamos ao finalzinho do século XIX e inicio do século XX. À época, o Brasil passava por uma transição de monarquia para um Estado Republicano. As principais cidades do nosso país passavam por mudanças físicas, sociais e culturais tendo como referência de modernidade o continente europeu. É nesse cenário de mudança que nasce a nova capital das Minas Gerais, já que a antiga capital, Vila Rica – atual Ouro Preto – representava o atraso veiculado ao período monárquico. Sendo assim, em 1897, é fundada a planejada cidade de Bello Horizonte.

Nos primórdios da recente cidade, não havia tradição da prática de exercícios ao ar livre. Em outras cidades, como no Rio de Janeiro, a prática de atividades como o turfe e o remo já eram difundidos. É nesse cenário que o futebol tentar dar seus primeiros chutes em Belo Horizonte, com a criação do Sport Club, em 1904. O principal incentivador do futebol na cidade foi Victor Serpa, estudante de Direito, que retornava dos seus estudos no continente europeu, mais precisamente na Suíça, onde ele teve contato com o esporte. Além de Serpa, outras importantes personalidades no cenário local participaram da fundação e constituição do clube.

A partir do Sport Club, diversas outras agremiações surgiram até meados de 1906. O perfil dos praticantes do futebol se assemelhava já que normalmente eram adultos em sua maioria, pertencentes às famílias mais abastadas que gozavam de certo prestigio na cidade. Para adentrar aos clubes, não bastava apenas pagar o altíssimo valor da taxa de admissão – “jóia” – mas também deveria haver indicação de algum membro do clube. Ou seja, naquele momento o futebol na cidade era restrito a uma reduzida e seleta parte da população. Porém, com a morte de Serpa em 1905, a prática futebolística perdeu força e aquela “mania de football” noticiada pelos jornais à época parecia ter sucumbido diante de uma sociedade que ainda não estava habituada com as práticas esportivas.

O futebol retornaria em 1908 com o surgimento do Athletico Mineiro Football Club e do Sport Club Mineiro. Nesse retorno, jovens estudantes acadêmicos e ginasiais compunham, em sua maioria, as novas agremiações futebolísticas em detrimentos dos adultos de antes. Contudo, o extrato social desse público era o mesmo, sendo uma prática ainda veiculada a elite belo-horizontina. A partir da experiência adquirida na primeira tentativa de inserção do futebol naquela sociedade e ciente dos problemas que proporcionaram o “fim” do esporte na cidade, foi necessário estabelecer algumas normas a fim de evitar um novo fracasso do futebol em Belo Horizonte. Dessa forma, a preocupação não seria só em angariar mais pessoas interessadas na prática, mas também comprometidas com os clubes. Nessa perspectiva, comparando com os primeiros times que surgiram entre 1904 e 1906, as “jóias” para adentrar aos clubes sofreram redução em seus valores. Além disso, foi estabelecida aplicação de multas àqueles que não se apresentassem quando convocados para os jogos ou treinos.

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Torcida do Atlético Mineiro. Foto: Bruno Cantini / Clube Atlético Mineiro.

Ao longo da década de 1910, assim como em outros centros do país, o futebol em Belo Horizonte passou por um processo no qual as camadas mais populares começam a se apropriar do futebol. Um bom exemplo é a criação do Yale Athletic Club em 1910. Clube oriundo do bairro do Barro Preto que era uma localidade onde vivia o proletariado da cidade. Nessa década também houve a criação de ligas como a Liga Mineira de Sports Athleticos (LMSA) e, posteriormente, a Liga Mineira de Desportes Terrestres (LMDT). A realização dos primeiros campeonatos locais como a disputa de 1914 da Taça Bueno Brandão e do Campeonato Mineiro em 1915. Houve também um maior incentivo público por meio de concessões de espaços aos clubes para construção de seus campos. A imprensa passa a dar mais espaço ao futebol, inclusive, com a criação de periódicos destinados especificamente a modalidade.

Nesse contexto de popularização, surge em 1921, um clube esportivo proveniente da colônia italiana denominado Società Sportiva Palestra Itália. Formado por italianos, o clube nasceu forte justamente pelo apoio de comerciantes e industriários da colônia. Embora os imigrantes não se enquadrassem como um grupo pertencente as elites locais, haviam aqueles com uma boa condição financeira, sendo fundamental, no caso do palestra, no seu sucesso inicial. Esse apoio dos imigrantes italianos mais abastados e a experiência de seus jogadores – oriundos em sua maioria do Yale – foi fundamental para consolidação do Palestra como uma equipe competitiva, capaz de ameaçar a hegemonia local que há anos estava sendo disputada pelo Atlético e pelo América Foot-Ball Club, que havia sido fundado em 1912.

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Torcida do Cruzeiro. Foto: Washington Alves / VIPCOMM.

Até o nascimento do Palestra, a trajetória do futebol em Belo Horizonte foi similar a de muitas cidades no Brasil. Inicialmente, apropriado por um grupo especifico que era detentor do conhecimento das normas técnicas da modalidade, o futebol foi difundido e incorporado por outros grupos sociais ao longo dos anos. No caso da capital mineira, essa característica influenciou diretamente na fundação do Atlético e do Cruzeiro. No caso do alvinegro, suas origens estão ligadas a um seleto grupo da capital mineira. Levando em consideração o seu ano de fundação – 1908 – e as características daquela sociedade, dificilmente haveria uma influência dos extratos mais populares.

O surgimento do Cruzeiro, diferentemente do seu rival, ocorreu em meio a um processo de disseminação do esporte que também já era forte em algumas cidades brasileiras. Em 1921, ano de sua fundação, já havia ligas e campeonatos na capital mineira. Além disso, as camadas mais populares tinham acesso à prática futebolística, fato este verificado por meio do surgimento de algumas agremiações pertencentes a bairros mais humildes como no caso do Yale. Porém, o Cruzeiro era uma instituição que só aceitava italianos em seu rol de sócios e contava com representantes em meio a alta sociedade local. Diante do contexto apresentado, é notória a ausência de uma participação mais popular na formação do Atlético e do Cruzeiro. Naqueles primeiros anos, o surgimento dessas agremiações ocorreu em decorrência da movimentação de determinados grupos específicos que tinham interesse na prática futebolística. Falar que uma ou outra agremiação emanou do povo não condiz com a verdade ou, pelo menos, com o início do esporte dentro desses rivais.

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Como citar

SOUZA, Adriano Lopes de. A hipocrisia do time do povo. Ludopédio, São Paulo, v. 79, n. 9, 2016.
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