151.3

Histórias e narrativas: dos sonhos juvenis em gramados imaginários ao Maracanã de Julinho Botelho

Felicce Fatarelli Fazzolari 4 de janeiro de 2022
Julinho Botelho
Obra: Julinho Botelho – Acrílica sobre Tela. São Paulo. Fonte: reprodução

Treze de maio é uma data que envolve diferentes histórias, significados e sentimentos. Em 13 de maio de 1888, a segunda filha do Imperador D. Pedro II, Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Orléans e Bragança, ou “Isabel do Brasil”, tornou-se a “redentora dos escravos”. Prestes a assinar a Lei que destruiria de vez os grilhões da escravidão, Princesa Isabel escreveu em seu punho que “seria um dos dias mais belos de sua vida”. Sua mão deveria tremular ao empunhar a pena para a assinatura e o silêncio envolto ao seu redor logo foram convertidos em belos aplausos que ecoaram além das paredes do Palácio Imperial. Estava assinada a Lei Áurea.

Vinte e nove anos depois da assinatura dessa Lei, no mesmo 13 de maio, mas dessa vez na cidade de Fátima, em Portugal, segundo a crença católica, acredita-se que Nossa Senhora apareceu para Francisco, Jacinta e Lúcia, três crianças de origem humilde. Ainda hoje, muitos católicos são divergentes quanto às narrativas sobre a aparição da Santa. Segundo o padre Anselmo Borges, “para ser um bom católico não é preciso acreditar em Fátima, por este fato não ser dogma, mas ser uma narrativa.” É sabido que toda criança tem a imaginação sem limites, cria inúmeras possiblidades, vislumbra mundos, tempos, e situações que sua cultura e formação inicial oferece. A imaginação também pode estar inserida a uma vida tediosa, vazia, como em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, em que a entediada Alice “estava cansando de ficar sentada na beira do lago, com a irmã, sem nada para fazer” (CARROL, 2007, p. 11).

Monteiro Lobato apresenta outro vazio de estímulos sobre a imaginação infantil por meio da personagem Narizinho, que fez parte do ambiente conhecido por reino das Águas Claras (Reinações de Narizinho, 1931) e por meio da aparição da personagem folclórica Saci, que também é muito presente na vida de Pedrinho. “Um leve tédio permite que a mente relaxe e divague, permite liberdade mental e solidão.” (EGAN, 1992, p. 158) A vida reclusa em uma casca de noz nos torna reis do espaço infinito? Os argumentos de Hamlet, convertidos a uma pergunta complexa, nos faz refletir sobre infinitudes de imaginações e pensamentos inseridos na mente de uma criança.

Já que estamos falando sobre imaginação e possibilidades, não podemos nos esquecer dos sonhos para então caminhar até o dia 13 de maio de 1959. “Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?” A pergunta feita por Samuel Rosa e Nando Reis, cantores e compositores de duas das maiores bandas da história da música brasileira, Skank e Titãs, respectivamente, publicada na bela canção É uma partida de Futebol, parece fazer parte dos sonhos de diversas crianças brasileiras de origem simples que querem ascensão social e estabilidade financeira, em alguns casos, a busca pela realização dos sonhos de seus avós, pais e, enfim, os seus.

Também tive o sonho de ser um jogador de futebol, porém, por “limitações físicas”, não o realizei. Em minha mente, o futebol sempre foi algo grandioso e inalcançável, mitológico, sagrado, épico, catártico, consequentemente levando-me sempre à estesia. Quando criança, amava os meus jogos de botão, todos, devidamente guardados, limpos e etiquetados. Cada adesivo com o escudo de diferentes clubes do futebol mundial colado em um botão representava a vida, a garra, o suor e a vontade de vencer de cada jogador. Os botões representando seleções mundiais eram mais robustos, requintados, dignos de serem condecorados pelos chefes de Estados dos seus respectivos países. Os botões que representavam a Fiorentina, clube italiano de Firenze, era o Santo Graal dos botões; eram maiores e mais bonitos, o escudo sendo maravilhosamente detalhado em uma pintura cuidadosa, além dos números de cada jogador.

Independentemente do tempo cronológico que eu vivia, o botão de número 7 sempre seria Julinho. Os goleiros eram figuras imponentes. Caixas de fósforos cheias de areia e revestidas com fitas isolantes, lembrando a camisa negra de Lev Yashin (1929-1990), goleiro Soviético conhecido como “Aranha Negra” devido a sua camisa negra e por seus belos saltos. Com 150 pênaltis defendidos, impossível não ter medo diante de tamanha “monstruosidade”. Campeonatos eram criados e com perfeição registrados em cadernos. Campeonatos Nacionais de Clubes, como o Campeonato Brasileiro, Italiano, Alemão e o Campeonato Argentino eram disputados pelos seus respectivos clubes. Eram classificatórios para os “Campeonatos Continentais”, a tão sonhada Libertadores da América e a então Copa dos Campeões da Europa. Os campeões dos torneios continentais enfrentavam-se na “batalha” mais esperada da temporada, o “Mundial Interclubes”. As seleções também disputavam torneios entre si; eram os mais esperados, visto que existia um calendário para a organização de cada torneio.
Assim como os clubes, as seleções também disputavam os torneios continentais, além do maior torneio de todos que eram organizados como a “Copa do Mundo”. Batalhas épicas eram travadas minuto a minuto, lance a lance, gol a gol. Nasciam Deuses, heróis e vilões, nasciam a tradição e o “peso da camisa”, nascia a história. Para Aristóteles, a tendência à imitação, à melodia e ao ritmo são naturais em nós, fazendo nascer improvisações e a poesia, portanto, os jogos eram narrados com a mesma maestria de Fiori Gigliotti (1928-2006)) e Fernando Solera (1932).

Bordões eram criados, táticas e jogadas eram comentadas com a destreza de alguém que entendia do assunto. “Nós estamos sobre os ombros de gigantes”. O nosso estilo é baseado em alguém. “É a forma e é o conteúdo, entrelaçados para formar a tessitura de toda arte e todo ofício – e também a história (…)”; “o estilo molda e é por sua vez moldado pelo conteúdo”. (GAY, 1990, p. 17). Afinal de contas, não eram simples torneios, eram os principais torneios do mundo.
Tantas batalhas e histórias que aconteceram em um pedaço de madeira com o desenho de um campo de futebol, com traves de plástico, botões com desenhos colados e cadernos com anotações, tudo isso sobre uma pequena cama. Ficava ajoelhado no chão controlando os botões e narrando os jogos, solitário em meu quarto, dentro da minha casca de noz. Vivi um período a que chamo de significativa ficção com inúmeras possibilidades que não se realizaram, mas estavam no meu horizonte. Tudo que era material se desfez com o passar dos anos, ficando apenas as narrativas, enfim, quem ler os registros das “incríveis batalhas campais” e ver o antigo quarto, local das pelejas, terá o mesmo sentimento, segundo Pierre Vidal-Naquet que, ao ir à colina Hissarlink para buscar a Tróia de Homero, encontraria “uma grande decepção”. Estava apenas em meus sonhos a possibilidade de ser um grande jogador de futebol, mesmo estando dentro das possibilidades das ações humanas. Até os dias de hoje vislumbro uma possível cobrança de pênalti em uma final de Copa do Mundo, o estádio lotado com pessoas de diferentes lugares do globo, alguns se contorcendo para soltar o grito de “é campeão”, outros, com o choro da derrota que jamais foi pensada, e tudo isso dependendo de apenas um chute, um chute para a glória eterna, ou para sumir na escuridão das trevas.

“Tá vendo esse campo? É o campo do Julinho”. Sempre que passeava com o meu pai, ele fazia questão de deslocar-se até as proximidades do Metrô Penha, na Zona Leste de São Paulo, para mostrar os campos de futebol onde foi muito feliz jogando em times da várzea paulistana. Sempre dizia sobre o campo de futebol do “Julinho” e de uma partida na qual teve a honra de enfrentar um dos maiores jogadores da história do futebol mundial. Sempre a mesma história, com tons dramáticos, meu pai narrava a sua derrota em campo. Entendo não ter sido uma simples derrota, afinal, sofrer uma, em uma partida contra um dos maiores jogadores do mundo, seria o ápice para um jogador de futebol da várzea. Até hoje, o máximo que consegui foi fazer um gol, em um pênalti “mandrake”, marcado por Carlos Botelho, filho de Julinho, em um jogo entre professores e alunos na quadra do Colégio que leva o nome do jogador. O que para alguns pode parecer uma pilhéria, o pênalti que converti em gol, é claro, estava carregado de sentimentos e histórias.

Era uma segunda-feira chuvosa, do dia 29 de julho do ano de 1929, o senhor Francisco Botelho e Dona Maria Teixeira Botelho, um casal de origem portuguesa, estavam ansiosos, porém, cheios de felicidade, esperando o nascimento de seu quinto filho, Júlio. Entre diversos raios e trovões, que parecia ser uma mensagem do Deus Júpiter, Júlio veio ao mundo dos homens mortais e trouxe consigo a missão de disseminar o respeito, a moral, a humildade, a persistência e a perseverança. Coube ao bairro da Penha, em São Paulo, receber o presente de Deus.

Júlio cresceu em um ambiente saudável e familiar. Logo cedo, começou a trabalhar em uma mercearia fazendo entregas pelo bairro após o horário de suas aulas no grupo escolar. Seus pais esbanjavam cultura e cantarolavam belas canções após cumprir com suas obrigações. Seu pai trabalhava na construção de poços de água e seus irmãos trabalhavam como construtores de casas. Após o cumprimento de suas obrigações, Julinho aproveitava para jogar a tão esperada partida de futebol com seus amigos.

Na década de 1940, o futebol já era considerado um esporte popular no Brasil, e diversos campeonatos eram disputados entre os clubes, atraindo inúmeros espectadores aos jogos. Segundo Sevcenko (1994), esses espectadores se veem atraídos, dragados para a paixão futebolística que irmana estranhos, os faz comungarem ideias, objetivos e sonhos, consolida gigantescas famílias vestindo as mesmas cores.

Foi em 1942 que o clube Palestra Itália sofreu a mudança de nome para Sociedade Esportiva Palmeiras, clube esse que teria Julinho entre os seus maiores ídolos. Desde criança, o amor de Julinho pelo futebol era tão grande que bolas de meia eram feitas para jogar em casa e sempre após o horário das aulas e do trabalho treinava descalço com a sua bola caseira. Sua primeira chuteira foi calçada aos 12 anos de idade e utilizada por muitos nos campos de futebol de várzea do bairro da Penha. Jogou por diversos clubes locais até se profissionalizar e, aos 19 anos de idade, estava no Clube Alético Juventus, fundado por membros da colônia italiana no tradicional bairro da Mooca, clube este visto como um dos mais simpáticos da cidade de São Paulo. Julinho era alto, forte, e dono de uma genialidade fora do comum.

Da Rua Javari, Julinho migrou para o Canindé, em 1951, e estreou pela Portuguesa de Desportos. Sua genialidade era convertida em belos lances e inúmeros gols, o que o levou para a Seleção Brasileira de Futebol, sonho almejado por todo jogador. Sua primeira convocação foi em 1952 para o campeonato Pan-Americano; dois anos depois, veio a convocação para a Copa do Mundo, que seria disputada na Suíça e vivê-la foi sua consagração assim como é para qualquer jogador de futebol. Autor de dois belos gols, e um deles contra a poderosa seleção Húngara – dos craques Ferenc Puskás (1907-2006) que dá nome ao troféu entregue pela FIFA (Fédération Internationale de Football Association) ao autor do gol mais bonito do ano, e de Sándor Kocsis (1929-1979), artilheiro da Copa com 11 gols – , o futebol de Julinho chamou a atenção da Fiorentina, clube italiano da cidade de Firenze, berço do Renascimento e dos mestres da Arte. Em 1955, Firenze receberia um novo artista que expressava a sua genialidade e produzia a sua arte com os pés. Esse artista era Julinho.

Como todo grande artista, Julinho precisava de sua musa inspiradora. Após duros três meses, Tereza, a mulher que tanto amava, chegou a Firenze para completar o seu coração. Os certames eram memoráveis, com belos gols e dribles dignos de serem retratados por artistas renascentistas. Os italianos sucumbiram diante de tamanha genialidade, que trouxe em 1956 o primeiro “Scudetto” para o clube. No mesmo ano, em outro dia 13, mas do mês de julho, sua genialidade foi posta à prova por outro gênio dos gramados, o argentino Alfredo Di Stéfano (1926-2014), após a emocionante e contestada final da Copa dos Campeões da Europa.

O ano de 1958 foi do Brasil. A Copa do Mundo que aconteceria na Suécia colocaria a seleção canarinho no seleto grupo dos campeões mundiais, e apresentaria para o mundo jogadores talentosos e extraordinários, entre eles Mané Garrincha, jogador do Botafogo de Futebol e Regatas, da cidade do Rio de Janeiro, e um menino sob a alcunha de Pelé. No dia 15 de junho de 1958, o Brasil jogou contra a temida seleção da Rússia. Nelson Rodrigues, em sua crônica Descoberta de Garrincha, relata ao seu modo como foi a partida:

Só Garrincha poderia fazer isso. Porque Garrincha não acredita em ninguém e só acredita em si mesmo. Se tivesse jogado contra a Inglaterra, ele não teria dado a menor pelota para a rainha Vitoria, o Lord Nelson e a tradição naval do adversário. Absolutamente. Para ele, Pau Grande, que é a terra onde nasceu, vale mais do que toda a Comunidade Britânica. Com esse estado de alma, plantou-se na sua ponta para enfrentar os russos. (RODRIGUES, 1993, p. 54)

Para Nelson Rodrigues, o jogo foi decidido nos três primeiros minutos quando Garrincha resolveu driblar “até as barbas de Rasputin”. (RODRIGUES, 1993, p. 53) Em 1958, a seleção brasileira de futebol tinha a difícil missão de acabar com o “Complexo de vira-latas”, expressão criada por Nelson referindo-se ao trauma sofrido pelos brasileiros em 1950, quando a seleção brasileira foi derrotada pela seleção do Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950, diante de quase 200 mil pessoas no estádio do Maracanã:

Por “Complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: – e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: – porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos. (RODRIGUES, 1993, p. 51)

O antropólogo Roberto Da Matta acredita que este evento “é, talvez, a maior tragédia da história contemporânea do Brasil” e contextualiza as implicações daquele acontecimento:

Ocorreu no início de uma década na qual o Brasil buscava marcar o seu lugar como nação que tinha um grande destino a cumprir. O resultado foi uma busca incansável de explicações e responsabilidades para essa vergonhosa derrota. (DA MATTA apud MORAES NETO, 2000, p. 39)

Se para Nelson Rodrigues o brasileiro sofria do “complexo de vira-latas”, Julinho mostrava ao povo o seu caráter e respeito ao recusar a convocação para a Copa do Mundo de 1958, segundo a visão de Nassar:

É nesse momento que o homem Julinho se coloca acima do craque Julinho, em uma atitude sem paralelo na história do futebol. Ele manda uma carta ao presidente da CBD, João Havelange, dizendo que não aceitaria a convocação, pois não achava justo que um jogador que atuasse fora do Brasil tirasse a vaga de um atleta que estivesse jogando no futebol brasileiro. (NASSAR, 2010, p. 102)

“Caráter é aquilo que mostra a escolha numa situação dúbia: aceitação ou recusa”. (ARISTÓTELES, p. 26) Se Julinho não tivesse recusado a Seleção… A Seleção Brasileira sagrou-se campeã mundial de futebol, pondo fim ao “vira-latismo” dito por Nelson Rodrigues e tendo papel importante na formação da autoestima popular e na formação da identidade nacional.
Quase um ano após a conquista do mundial em 1958, o “scratch” brasileiro faria um jogo amistoso contra a Seleção Inglesa no mesmo palco da final do mundial de 1950, o Maracanã: “Julinho, no treino do “scratch” devorou a pelota. Empenhou-se como se estivesse disputando a final de uma Copa do Mundo”.

A notícia, publicada no dia 8 de maio de 1959, na coluna de esportes do jornal O Globo, já dava indícios de que Julinho seria o titular do certame que aconteceria no dia 13 de maio do mesmo ano. Garrincha era um dos principais destaques da Seleção e não poderia ficar de fora da partida.

Preparado para o certame, na manhã do dia 13 de maio de 1959, Julinho acordou com a disposição que tivera desde menino. Sempre sorridente e carismático, cumprimentou os seus amigos de equipe e com eles partiu para o estádio Mário Filho, o Maracanã. Os torcedores cariocas esperavam por mais um espetáculo de Garrincha, que havia se tornado costume. Era o jogo mais esperado do ano. Já pela tarde, mais de 130 mil pessoas estavam no estádio aguardando pela entrada do “scratch” canarinho. Os alto-faltantes do estádio começavam a anunciar os jogadores brasileiros: “Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando, Nilton Santos, Dino Sani, Didi, Pelé, Canhoteiro, Henrique, e….. silêncio… uma breve pausa… e o estouro de uma imensa vaia. Percebia-se que a vaia já havia sido programada pelos torcedores cariocas, vaia injusta, que destrói qualquer ser humano. Garrincha, amigo de Julinho, o desejou boa sorte e ainda sob vaias as duas Seleções perfiladas subiram as escadas para o gramado do Maracanã. Os demais jogadores sentiram-se magoados debaixo de tantas vaias. Julinho tropeça no último degrau, o goleiro inglês segurou-o pelo braço. Com o rosto cheio de lágrimas, Julinho disse ao amigo Djalma Santos: “Eles vão engolir. Essa torcida vai engolir a seco essas vaias”. Julinho estava concentrado e um filme veio a sua cabeça, lembrando desde a bola de meia que chutava nas ruas da Penha ao ápice na Fiorentina, pensava em sua família e em sua esposa, que sempre esteve ao seu lado. Machucado, mas com a força de um exército espartano, Julinho precisava e queria dar uma resposta instantânea ao torcedor presente.

7 era o número de sua camisa, o número da magia, da força, da garra, o número que mais tarde seria transformado em nome de torcida, a Settebello, e queriam os deuses do futebol que o filho de Júpiter, após uma bela sequência de jogada de Canhoteiro, marcasse um gol aos 7 minutos. Algum tempo após o gol, Julinho, que estava jogando o fino da bola, fez uma jogada incrível, deixando três jogadores adversários perdidos, dando assistência para o gol de Henrique. “Toda a plateia do Maracanã passava a aplaudir de pé o velho ponta-direita. E os aplausos ensurdecedores comoviam a todos. A euforia tomava conta do Maracanã. (NASSAR, 2010, p. 203) O Brasil venceu a Inglaterra por 2 x 0 e o melhor jogador em campo foi Julinho:

Foi a vedete da tarde. Sua produção surpreendeu ao ponto de transformar vaias em palmas fartas. Deu um baile no zagueiro Flowers, seu opositor natural e em qualquer outro que se aventurou a combatê-lo. Nota 10. (Manchete Esportiva, 30 mai, 1959)

Após o jogo, Julinho estava em um canto do vestiário, e todos queriam abraçá-lo e ali, naquele local, pairava o pensamento: “vaiar-me, por quê? O público esquece depressa, de certo já não se lembrava de mim. Pois tudo que fiz contra os ingleses foi avivar a memória do público”, disse Julinho após o certame.

Toda sociedade que deixa registro está construindo a memorização. O mesmo Nelson Rodrigues, criador do termo “vira-latismo” curvou-se a Julinho. “Assim é o brasileiro de brio. Deem-lhe uma boa vaia e ele sai por aí, fazendo milagres, aos borbotões. Amigos, cada jogada de Julinho foi exatamente isto: um milagre.” (RODRIGUES, 1959)

Segundo Koselleck, o terror não só provoca sonhos; os próprios sonhos fazem parte dele” (2006). Anos depois, Julinho acordava durante a madrugada, ouvindo as incansáveis vaias, como se ainda estivesse dentro do vestiário do Maracanã. “Essas histórias sonhadas não só testemunham o terror e suas vítimas, podemos dizer que elas constituíam um presságio:

São sonhos de perseguidos, mas também de pessoas que se acomodaram, ou que desejaram acomodar-se, mas não puderam. Não conhecemos os sonhos dos partidários dos vencedores – também eles sonharam, mas ninguém sabe se o conteúdo de seus sonhos coincide com as visões dos que foram espremidos contra a parede pelos vencedores temporários. (KOSSELECK. 2006, p. 253)

Julinho ainda defendeu a Sociedade Esportiva Palmeiras (1958-1965), marcando 80 gols, e encerrou sua carreira em 1967, em um jogo de despedida contra a equipe do Náutico e nos deixou em 11 de janeiro de 2003 devido a uma parada cardiorrespiratória.

Os dias 13 de maio de 1888, 1917 e 1959 nos remete a diferentes prismas, e estilos sob diferentes óticas: a do público, do oprimido, do opressor, da história contada pelos “vencedores”, pelos “derrotados”, dos cronistas esportivos do jogador, e do pesquisador deste presente texto. Segundo Gay (1990, p. 17) “o crítico e o estudioso, o poeta lírico e o jornalista político empregam o estilo, a cada qual à sua maneira e para finalidades próprias. Assim como Napoleão, que de “Monstro Corso” passou a “Vossa Majestade Imperial”, os torcedores que podemos dizer que precedeu a “cultura do cancelamento”, substituiu as vaias para os aplausos.

Para KOSSELECK (2006) faz-se necessário o entendimento dos acontecimentos e textos do passado em diferentes extratos, isto é, tirá-los de seu contexto original e reuni-los progressivamente, pois sem esse movimento não avançaremos na interpretação da confusa realidade histórica.

Agradeço à Isabel, ao Francisco, à Jacinta, à Lucia, ao Nelson e ao Julinho, por estarem presentes nos fatos históricos e nas narrativas ficcionais, pois, segundo Buffon, a história não pode ser uma ciência, e deve ser uma arte – um embate subjetivo entre um homem de letras e o passado, o qual ele remodela com sua visão pessoal e relata daquela maneira idiossincrática a que damos o nome de estilo. (GAY apud BUFFON, 1990, p.30).

Referências

ARISTÓTELES. Arte Poética. In: ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A Poética Clássica. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1981, p. 19-52.

CARROLL, L. Aventuras de Alice no País das Maravilhas. Trad. Jorge Furtado e Liziane Kugland. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, 166 p.

DINIZ, Ana Carolinna Paiva. O futebol como epopeia: análise das crônicas de Nelson Rodrigues sobre a Copa do Mundo de Futebol de 1958. Ciências Humanas em Revista, v. 7, n. 2, São Luis, MA, 2009. Disponível em . Acesso em 09 mai. 2021.

EGAN, K. Por que a imaginação é importante na educação? In: FRITZEN, Celdon; CABRAL, G. S. (Org.). Infância: imaginação e educação em debate. Campinas: Papirus, 2007, 139 p.

Estadão. Infográficos. História das Copas do Mundo 1950. Acesso em 10 mai. 2021.

Estado de Minas. Internacional. Cem anos depois, duas das três crianças pastoras de Fátima serão canonizadas. 20 abr. 2017. Acesso em 13 mai. 2021.

GAY, Peter. Introdução: O estilo, da maneira à matéria. In: ______. O Estilo na História. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

GIRARDELLO, Gilka. Imaginação: arte e ciência na infância. Pro-Posições, Campinas, v. 22, n. 2 (65), p. 75-92, maio/ago. 2011. Acesso em 13 mai. 2021.

KOSELLECK, Reinhart. Terror e sonho – anotações metodológicas para as experiências do tempo no Terceiro Reich. In: ________. Futuro Passado – contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto/PUC-RJ, 2006, p. 245-265.

MORAES NETO, Geneton. Dossiê 50: Os Onze jogadores revelam os segredos da maior tragédia do futebol brasileiro. Rio de Janeiro: Edição do autor, 2000. Acesso em 14 mai. 2021.

NASSAR, Ubirajara Luciano. Julinho Botelho: Um herói brasileiro. São Paulo, Editora Expressão e Arte. 2010.

O minuto trágico de Julinho. Rio de Janeiro, O GLOBO, 8 mai. 1959, Matutino.

SEVCENKO, Nicolau. Futebol, metrópoles e desatinosRevista USP. São Paulo, n. 22, p. 30-37, 1994. Acesso em 14 mai. 2021.

Skank. É uma partida de futebol. Sony Music. Brasil, 1997.

SILVA, Eliazar João da. A Seleção Brasileira de Futebol nos jogos da Copa do Mundo entre 1930 e 1958: o esporte como um dos símbolos de identidade nacional. 2004. 335 f. Tese (doutorado) – Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras de Assis, 2004. Acesso em 10 mai. 2021.

UEFA. Champions League. Acesso em 10 mai. 2021.

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Felicce Fatarelli Fazzolari

Graduado em História pela Universidade Guarulhos (2003), Filosofia pela Universidade Camilo Castelo Branco (2007) , pós-graduado em Sociologia pela Escola de Formação e Aperfeiçoamento de Professores do Estado de São Paulo Paulo Renato Costa Souza (2012), Pedagogia pela FALC (Faculdade Aldeia de Carapicuíba) e Mestrando pela Univesidade Presbiteriana Mackenzie no Centro de Educação, Filosofia e Teologia, no Programa de Educação, Arte e História da Cultura. Fui Professor Coordenador do Ensino Fundamental e Médio da Rede Estadual de São Paulo. Professor de História, Filosofia, Sociologia, disciplinas Eletivas, Tecnológicas e Projeto de Vida para os ensinos Fundamental, Médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA)

Como citar

FAZZOLARI, Felicce Fatarelli. Histórias e narrativas: dos sonhos juvenis em gramados imaginários ao Maracanã de Julinho Botelho. Ludopédio, São Paulo, v. 151, n. 3, 2022.
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