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Históricas cantadas ao Galo “QUI RI RI QUI QUI”

Djalma Oliveira de Souza 27 de janeiro de 2021

É notória a estreita relação entre a música e futebol no Brasil eventualmente se há música, o futebol de uma maneira ou de outra se apresenta em forma de gritos, sons, coros e dribles, o futebol parece ser regido por música. Segundo Gilberto Freyre (1971, p.97, apud Branco 2010, p.5), “O jogo brasileiro de ‘football’ é como se fosse dança” ou ainda, segundo Wisnik (2008, p.270), “como acontece na música popular com a combinação das rítmicas européia e africana, que lhe permite passar pelo espaço esperável no tempo inesperado.” Atrelado a isso, existe toda uma coreografia às vezes encenadas em campo, que ultrapassa as linhas retangulares da arena e chega às arquibancadas onde encontra os torcedores.

Dessa similitude entre música e futebol em que momentos da história do país podem ser evidenciados e catalogados de acordo com as suas peculiaridades, encontramos, entre várias possibilidades de manifestação musical, a presença da música no futebol representada em forma de hinos. E é com base nesse aspecto que discutiremos o ambiente histórico que circunscreve parte da história relacionada à adoção da modalidade musical pelos clubes de futebol e o tom épico das composições.

No tocante a hinos de clubes de futebol, Elcio Cornelsen concebe o tema da seguinte forma:

“O épico dos hinos de futebol se constitui, basicamente, a partir de quatro componentes: (1) a cena narrativa; (2) a espacialização; (3) feitos heróicos e conquistas e/ou virtudes; (4) identidade simbólica.” (CORNELSEN, 2012, p. 03).

Dessa forma, compreendendo que o tom épico ganha proporções e características que conseguem abarcar várias formas predispostas a um jogo de futebol, encaminharemos a análise sobre o hino do GEC a partir dos elementos que constituem sua composição, aliada ao fato de que, à época, 1969, a adoção de um hino que representasse um time de futebol era recorrente (idem, p.4). Fazia parte de um processo cultural peculiar aos anos trinta com a criação de vários concursos promovidos pelos meios radiofônicos do Rio de Janeiro, incentivando torcedores na criação de hinos e mascotes (FRANCO JÚNIOR, 2007).

Pelo que tudo indica, nas décadas subseqüentes aos anos 30, os hinos dos principais clubes de futebol brasileiro foram compostos a partir de uma mistura de dança, engodo e épico. A partir de certo momento da história dos clubes, foram inseridas figuras de prestígio do cenário da música, contratadas para fazerem composições para os clubes brasileiros. No meio destes, destacam-se Lamartine Babo (CORNELSEN, 2012) e Lupicínio Rodrigues (CAMPOS, 2015) que compuseram, respectivamente, hinos dos principais clubes do Rio de Janeiro e do Grêmio Porto Alegrense.

Ao que tudo indica, foi uma tendência bem recebida pelo meio, conforme podemos depreender a partir deste trecho:

“Não é por acaso que música e futebol se aliarão ao longo do século XX no Brasil, em parcerias muito felizes, envolvendo nomes como Ary Barroso, Lamartine Babo, Wilson Batista, Lupicínio Rodrigues, Tom Zé, Gonzaguinha, João Bosco, Jorge Ben Jor, Paulinho Nogueira, Aldir Blanc, Chico Buarque”. (CORNELSEN, 2014, p. 4)

Com isso, com a presença das figuras de renome da música popular brasileira daquela época, cremos que os hinos passaram a ser criados a partir de uma elaboração mais acurada, tanto no plano da composição textual, quanto da parte musical, muito embora os recursos das mesas de som da década de 1960 fossem ainda de quatro ou no máximo oito canais, limitadas, portanto, para a execução de recursos mais elaborados como observamos no contexto atual.

O hino do GEC teria sido composto e gravado por volva da década de 1960, conforme é possível crer. De todos os documentos pesquisados para esta dissertação, nossa única referência sobre como e quando o hino fora gravado é uma fotografia obtida pelo filho do ex-jogador Paulistano , o empresário e torcedor do Galo Goiano, Sérgio Jaime Canedo, que possui a cópia de um LP adquirido pelo pai nos anos de 1970. No disco encontram-se as seguintes informações: 1) A composição do hino foi feita pelo publicitário Victor Dagô (1969) sobre o qual José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, vulgo Boni, comenta: “foi um medalhão do jingle” (OLIVEIRA SOBRINHO, 2011, p.50); 2) A peça musical foi fabricada pela Radio Corporation of America (RCA), em São Paulo, e gravada em Goiânia pelas Gravadoras Reunidas LTDA. Empresa localizada, à época, à Avenida Anhanguera, esquina com Rua 208, nº 76; 3. O hino foi gravado no lado A do compact disc (CD), vulgo compacto, com duração de um minuto e trinta e oito segundos (01:38), enquanto que, no lado B do disco, encontra-se a música “Goiânia, marchando pra frente”, com mesma data, autor e duração de um minuto e cinquenta e sete segundos (01:57).

Fotografia Sérgio Jaime Canêdo (2018) LP, Com hino do GEC de 1969. Arquivo, Sérgio Jaime Canêdo.

O hino do Goiânia é composto de três estrofes, um quarteto e dois tercetos. Não há um esquema de rimas cadenciado, de modo que a parte rítmica constitui-se por algumas rimas de pé de verso, algumas repetições vocabulares, além de assonâncias e aliterações. Além disso, não há uma medida padrão do tamanho dos versos, indo de nove sílabas poéticas a 15 . Para a composição instrumental do hino, segundo o músico e jornalista Donizete Araújo, foram utilizados instrumentos de cordas (contrabaixo e guitarra) de percussão (bateria) e aerofones de teclas (órgão), acompanhando uma tendência muito utilizada na época do chamado Pop Rock anos 60.

O GALO CARIJÓ
(autor: Victor Dagô/1969)

O galo carijó é professor.
O galo carijó é brigador.
O galo quando entra no rebolo
Pega a bola, faz o gol, esconde a bola e ninguém vê
Cadê a bola?, cadê cadê?
Goiânia Esporte Clube futebol é com você!
Com você!!Com você!!
Cadê a bola?, cadê cadê?
Goiânia Esporte Clube futebol é com você!
Com você!!Com você!!

Os versos do hino do Goiânia com suas peculiaridades seguem a linha tradicional das letras compostas dos hinos feitos para outros clubes e que antecederam a composição do hino do Galo. Ou seja, contém na letra da música uma forte presença de demonstração de força, destreza e capacidade de vencer seus oponentes. É possível destacar nos versos do hino do GEC a presença marcante da mascote do clube, o Galo Carijó, inclusive no título, onde a ave, além de ser boa de briga, é um craque de bola.

Os versos não contam a história, nem narram às aventuras e/ou desventuras do clube. Todo o texto é uma redundância à mascote e à capacidade do time em fazer gols. A este respeito, em entrevista realizada em 25/08/2018, o ex-jogador Silvinho faz o seguinte comentário:

“eles (pronome alude ao compositor e à equipe técnica) ficaram uma semana em Goiânia (1968). E eu me lembro que alguém comentou que eles estavam ali pra gravar o hino do clube.”

Então, analisando os dados e verificando que o time Goiânia tinha um saldo positivo de muitos gols durante sua história até aquele presente momento, é de se supor que a conversa entre o contratante e o contratado tenha se dado na direção de afirmar a imagem da mascote do clube como um vencedor, destacando a figura do galo como goleador.

No ano de 2014, cerca de 45 anos depois da criação do hino do Goiânia, surge uma segunda versão feita pelo jornalista, músico e torcedor do Galo, Donizete Araújo. Em uma entrevista concedida no dia 11de janeiro de 2019, Donny Araújo comenta que a primeira versão do hino o incomodava em duas situações, a primeira, por conta da composição e a segunda razão vinha da parte instrumental da música.

Disse-nos que, em principio, imaginou escrever uma nova versão (letra) do hino, mas,

“Concluí que a tradição é muito importante, especialmente em uma entidade tão emblemática quanto o Goiânia. E decidi que seria melhor manter a tradição e regravar o hino oficial, composto por Victor Dagô.”

Mesmo ressaltando essa tradicionalidade do hino, o jornalista fez algumas alterações, substituindo algumas palavras, e acrescentando uma estrofe com seis versos, no qual, demonstrando seu conhecimento histórico do clube, cita de forma precisa alguns componentes históricos do time atrelado a algumas possibilidades de rememorar alguns símbolos do GEC.

GALO CARIJÓ
(Donni e os Boa Nova, Versão de Donni Araújo, composição de Victor Dagô)

O Galo Carijó é professor
O Galo Carijó é brigador
O Galo quando entra para o jogo
Pega a bola e faz o gol
Esconde a bola e ninguém vê
Cadê a bola?
Cadê? Cadê?
Goiânia Esporte Clube
Futebol é com você
Cadê a bola?
Cadê? Cadê?Goiânia Esporte Clube
Seu destino é vencer
És forte, és valente em todos os esportes
Nas quadras, nas piscinas triunfas e dominas
De tantos corações tu és o campeão
E te cobrem tantos louros com razão
Goiânia, sua história de batalhas e vitórias
É estrada em preto e branco para a glória
(Fonte: www.donniaraujo.com.br/hino-do-goiania)

No novo texto verificamos que o autor falou das cores, dos títulos e dos outros esportes que por muito tempo o GEC também privilegiou. No quesito instrumental houve acréscimo de instrumentos (violões e piano), aliados às novas possibilidades de mixagem e produção. O ritmo da nova versão, segundo opinião colhida com o próprio autor seria uma representação mais atualizada do Rock.

A seguir, imagem abaixo, a representação visual dos motivos pelo qual o hino do GEC, após complemento textual, contribuiu sobremaneira à construção mais adequada da identidade do clube para aquela época.

Montagem idealizada por Djalma Oliveira de Souza a partir das seguintes fontes; Foto1. Vôlei feminino (p.88) foto2. torcida feminina (p.51) foto3. vôlei masculino (p.89) fonte revista Futebol Milionário nº3 (sem data) foto4. Modalidades esportivas (futebol de salão/natação/atletismo/ futebol infantil e juvenil) destacadas na Revista Goiânia 70. (1970) n.3. p.13.

 

Referências bibliográficas

BRANCO, Celso. “O Futebol e a música popular brasileira (1915-1990)“, Recorde: Revista de História do Esporte, v.3, n.1, Universidade Federal do Rio de Janeiro Rio de Janeiro, 2010.

CAMPOS, M. Almanaque do Lupi. Editora da Cidade/SMC, 2015.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. “Hinos de futebol nas Gerais: dos hinos marciais aos populares“, ALETRIA, n. 2, v. 22, Universidade Federal de Minas Gerais / CNPq / Fapemig. 2012.

FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Dança dos deuses: futebol, sociedade, cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

OLIVEIRA SOBRINHO, J. B. O livro do Boni. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011.

WISNIK, José Miguel. Veneno Remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.


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Djalma Oliveira

Professor da Rede Estadual em Goiás. Graduado e Mestre em História. Área de interesse; Futebol/Fotografia/Jornalismo/ Gênero/ Memórias/História de Goiás/Cinema

Como citar

SOUZA, Djalma Oliveira de. Históricas cantadas ao Galo “QUI RI RI QUI QUI”. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 50, 2021.
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