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I Seminário Futebol nas Gerais

O futebol sob uma perspectiva multidisciplinar, essa foi a marca do I Seminário Futebol nas Gerais, que aconteceu no início de novembro, na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG. O evento, que reuniu professores, alunos e pesquisadores, de diversas regiões do país para debater e refletir o futebol e os diversos aspectos que o circunda, foi organizado pelo Grupo de Estudos Sobre Futebol e Torcidas, o GEFuT.

No primeiro dia do seminário, antes da abertura do evento, tivemos o Programa de Radio “Óbvio Ululante” realizado ao vivo na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG sob o embalo de um sensacional grupo de chorinho e com a participação das pessoas que vieram para o evento.

Óbvio Ululante. Foto: GEFUT.

A mesa de abertura, recebeu o Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Arlei Sander Damo que discutiu “O estudo do futebol na perspectiva das ciências humanas e sociais”. O pesquisador destacou que o futebol é a porta de entrada para a discussão do esporte como um todo, nas ciências sociais. Segundo ele, há três aspectos que devem ser destacados no momento atual do futebol: processo de mudança, fatores políticos e estéticos. “Estamos vivendo um processo de elitização do esporte, a ideia é disciplinar o público, disciplinando também para o consumo”, completou ele. Já a questão política envolve o afastamento das classes mais baixas dos espetáculos futebolísticos: “usamos dinheiro público, direta ou indiretamente, em estádios, que ficarão cada vez menos inclusivos”. E, como consequência disso, temos o empobrecimento estético já que com o processo de disciplinização do público perde-se parte importante da sociabilidade e a diversidade, características do esporte.

O segundo dia de Futebol nas Gerais, contou com discussões acerca da Copa do Mundo de 2014, Futebol e linguagem e Política e gestão pública do futebol. A mesa sobre a copa que o Brasil vai sediar, contou com a participação do Professores Martin Christoph (UFF) e Elias Santos e com o Chefe de Gabinete da Secopa e Gerente Estruturador da Copa de 2014, Eder Campos. O Professor Martin Christoph, utilizou de cinco pontos para expor suas ideias em torno do que representa o futebol e a realização da copa em determinado país. Segundo ele, as análises, devem ser feitas sob a perspectiva da globalização, mídia, financeiro, técnico e das ideias. Já o professor Elias trouxe a discussão para o viés da mídia, fazendo uma crítica ao distanciamento e ao desconhecimento, em relação aos processos de comunicação. “Fazendo parte do processo de comunicação, nos tornamos críticos melhores”, alertou Elias, que indagou ainda o papel da mídia nos megaeventos, como Copa do Mundo e Olimpíadas. Por fim, em meio a muita polêmica, o representante do comitê organizador da copa, destacou que a copa do mundo funciona como catalisadora das obras de infraestrutura pelas quais as cidades estão passando: “Os gastos com mobilidade, por exemplo, já existiriam, mas com a copa as coisas acontecem mais rápidas, o evento traz um senso de urgência”. A quem se diz contra a Copa do Mundo no país, devido aos gastos públicos que isso envolve, o Chefe de Gabinete, ressaltou que o objetivo da organização não é gastar é organizar da melhor forma, além disso, Eder, ressaltou que o planejamento feito não é o melhor existente, porém é o melhor que poderiam ter feito naquele momento.

Eder Campos. Foto: GEFUT.

Para discutir Futebol e linguagem, o Futebol nas Gerais, recebeu os professores da Faculdade de Letras da UFMG, Élcio Loureiro Cornelsen, Luciane Correa Ferreira e Marcelino Rodrigues da Silva, falaram sobre os ’Hinos no futebol das Gerais’, ‘Futebol e metáfora na mídia das gerais’ e sobre a rivalidade entre Cruzeiro e Atlético em ‘Picadinho de Raposa com ensopado de Galo’. Apesar de tratarem de estudos diferentes, os três trabalhos dizem respeito a imagem que se tem/cria dos clubes a partir da linguagem utilizada e como os símbolos contribuem para isso. O professor Marcelino Rodrigues afirmou que futebol é discurso e que serve para que a gente se constitua como sujeitos, por isso nos apropriamos de elementos, tais como hinos, metáforas e símbolos. A Professora Luciane Correa fez uma comparação em relação a forma como a imprensa alemã e brasileira tratam o futebol: a primeira fala do esporte como se fosse um espetáculo e os jogadores bailarinos, já a segunda, utiliza metáfora de guerra. Já o professor Élcio Cornelsen mostrou que os hinos são essenciais para a construção da imagem de um clube, e que há grandes diferenças entre a estrutura dos hinos de clubes tradicionais e clubes populares.

A mesa ‘Política e Gestão do futebol: retrospectiva e perspectivas’, que contou com a participação dos professores Fernando Mascarenhas, da Universidade de Brasília e Armindo do Santos de Sousa Teodósio, da PUC Minas, fechou o sábado. O professor Fernando Mascarenhas, destacou que junto com os Jogos Olímpicos, a Copa, tem um papel de reposicionamento do país diante do mundo e que na realização de um megaevento, o estado passa por três fases: financiador, investidor e social. Em relação ao chamado legado que um megaevento deixa para o país, o professor Armindo Teodósio, mostrou a situação dos dois últimos países que receberam as Copas de 2006 e 2010. Ao fim do evento a Alemanha ficou endividada, já a África do Sul, convive agora com diversos estádios sem utilidade, com a concentração de dinheiro nas grandes corporações, com a economia informal e com a gentificação.

No último dia de seminários, os participantes puderam conferir pela manhã, um Encontro de Professores Universitários de Futebol e em seguida, o Professor Victor Andrade de Melo (UFRJ) exibiu o Filme “Onda Nova” (1983), dirigido por José Antônio Garcia. O filme tem como pano de fundo a história de um grupo de garotas integrantes do Gaivotas FC, um time de futebol feminino e retrata principalmente a sociedade paulista na década de 1980, na qual os jovens sempre ocupavam a posição de vanguarda. Para encerrar o Seminário, os professores, Bernardo Buarque de Hollanda (FGV) e Silvio Ricardo da Silva (UFMG), fizeram um debate sobre o O Torcer no Futebol. O Professor Bernardo Buarque de Holanda falou sobre as torcidas organizadas do Rio de Janeiro, segundo ele, a arquibancada é um tulmuto de emoções e, a forma de organização das torcidas é uma questão de política. Já que se trata de uma forma dos torcedores participarem e influenciarem dentro do clube, “é uma busca por espaço e poder”, ressalta o professor. Por fim, o Professor Sílvio Ricardo da Silva, ressaltou a importância das torcidas nos estádios, levantou alguns pontos em que o pertencimento de um indivíduo em relação ao clube se dá: familiares, ídolos, local de moradia e momento pelo qual um time passa. Tal momento pode ser de vitória ou não, já que também nas derrotas, o pertencimento acontece, pois em determinado momento todos querem participar, principalmente da redenção do time.

Na avaliação dos organizadores, o I Seminário Futebol nas Gerais foi considerado um sucesso, atingindo os objetivos propostos.

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Silvio Ricardo da Silva

Coordenador do Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas (GEFuT) e professor do Departamento de Educação Fisica da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG.

Como citar

FERREIRA, Joana; SILVA, Silvio Ricardo da. I Seminário Futebol nas Gerais. Ludopédio, São Paulo, v. 30, n. 3, 2011.
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