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Imagens de Pelé na Literatura de Cordel

No universo do cordel, determinadas figuras míticas servem de inspiração para a composição poética de inúmeros folhetos. Pela própria origem e difusão da Literatura de Cordel, personagens do Nordeste são as que mais habitam tal universo, entre elas, Lampião e Maria Bonita, figuras proeminentes do cangaço, o Padre Cícero Romão Batista – o carismático Padim Ciço da devoção popular, Antônio Conselheiro, líder espiritual e fundador do arraial do Belo Monte, que ficou mais conhecido pelo topônimo de Canudos, e Luiz Gonzaga – o “Rei do Baião”.

Quando pesquisamos a presença do futebol na Literatura de Cordel, constatamos que, em maior ou menor grau, algo semelhante também ocorre com figuras de destaque do futebol brasileiro, especialmente em relação a dois astros da bola, que atuaram em clubes do Sudeste e também na Seleção Brasileira: Garrincha e Pelé. São vários os folhetos de cordel que trazem imagens desses dois craques, da “Era de Ouro” do futebol brasileiro, que, por assim dizer, também colaboram para sua cristalização, como figuras míticas. Neste breve estudo, apresentaremos cinco folhetos de cordel, nos quais imagens de Pelé, “Rei do Futebol”, são construídas em versos de poetas populares: Peleja de Garrincha com Pelé (1965), de Antônio Teodoro dos Santos; A discussão de Pelé com Roberto Carlos (197-) e A despedida de Pelé (1971), ambos de José Soares; A história do Rei Pelé (1979), de Elias Alves de Carvalho; O quebra-pau entre Pelé e Maradona (2011), de Zé do Jati.

Uma “peleja” entre dois astros do futebol brasileiro e mundial

Iniciaremos nossas conjecturas acerca da construção de imagens poéticas de Pelé na Literatura de Cordel com o folheto Peleja de Garrincha com Pelé (1965), do repentista e cordelista baiano Antônio Teodoro dos Santos (1916-1981), o “Poeta Garimpeiro”, original do município de Senhor do Bonfim, que se radicou em São Paulo nos anos 1950 e se tornou um dos principais escritores que publicavam suas obras pela Editora Prelúdio. Autor de diversos folhetos, entre outros, Lampião, o rei do cangaçoJoão Soldado: o valente que meteu o diabo em um sacoMaria Bonita, a mulher cangaço, e Vida e tragédia do Presidente Getúlio Vargas, Antônio Teodoro dos Santos foi um dos cordelistas de grande sucesso, merecendo até mesmo atenção de um dos maiores estudiosos da Literatura de Cordel, o francês Raymond Cantel (1914-1986), diretor do Instituto de Estudos Portugueses e Brasileiros da Sorbonne, detentor de uma vasta coleção particular de folhetos que, hoje, compõem o acervo de Literatura de Cordel, na Universidade de Poitiers, certamente, o maior acervo fora do Brasil.

O folheto de cordel Peleja de Garrincha com Pelé é bem longo, possui 119 estrofes em sextilhas, métrica em redondilha maior, de sete sílabas poéticas, e rima nos versos pares, como é o padrão em termos formais. Para termos uma ideia, os chamados “folhetos noticiosos” ou “folhetos de circunstâncias”, que costumam se originar de reportagens jornalísticas sobre eventos ou celebridades que ocupam a mídia, possuem, em geral, até 32 estrofes, correspondente a 08 páginas, de acordo com a dobradura do papel, enquanto o folheto Peleja de Garrincha com Pelé possui 32 páginas. Por isso, ele estaria mais próximo do gênero “romance”, conforme pensado no universo do cordel, em que se reserva um maior espaço para determinados temas e figuras.

Um primeiro aspecto a levarmos em consideração é o ano em que esse folheto foi lançado pela editora Prelúdio, de São Paulo: 1965. Podemos, portanto, considerar que ambos os protagonistas – Pelé e Garrincha – já eram nomes destacados no universo do futebol, tanto no cenário nacional como internacional. Ambos já haviam se sagrado campeões mundiais, o jovem Pelé protagonizara a conquista do Mundial de 1958, na Suécia, enquanto Garrincha fora o grande nome da conquista do bicampeonato mundial em 1962, no Chile, quando Pelé se lesionara logo na primeira partida do torneio e desfalcara a Seleção Brasileira.

Além disso, Pelé e Garrincha eram os principais jogadores de seus clubes, o Santos Futebol Clube e, respectivamente, o Botafogo de Futebol e Regatas. Não é por acaso que a capa do folheto Peleja de Garrincha com Pelé exiba a figura dos dois, em uniforme de seus clubes, e cada um segura uma viola, enquanto colocam os pés sobre uma única bola (Fig. 1). “Peleja”, por assim dizer, forma um ciclo temático na Literatura do Cordel, em que pode aparecer na forma de “desafio”, “cantoria”, “disputa”, “duelo”, “encontro” ou “discussão”. E o futebol, em seu caráter agonístico, parece se ajustar bem a esse ciclo temático, basta vermos alguns títulos de folhetos: A discussão do corinthiano com o flamenguistaO duelo do galo e da raposaO quebra-pau entre Pelé e MaradonaDuelo violento Vasco x Flamengo, e A discussão do pó-de-arroz com o urubu. Por os craques estarem segurando violas na capa, nota-se que há uma influência dos duelos de violeiros e repentistas no cancioneiro popular.

Garrincha e Pelé
Fig. 1: capa do folheto Peleja de Garrincha com Pelé (disponível em: http://acervosdigitais.cnfcp.gov.br/Literatura_de_Cordel_C0001_a_C7176 )

 

Em Peleja de Garrincha com Pelé, o poeta se apresenta aos craques como aquele que os reverencia, e que seria “inábil” para a prática do futebol: “Licença reis do gramado/ Seu Garrincha e seu Pelé/ Perdão chutar de caneta/ Pois sou dormente do pé/ Mas o mundo é uma bola/ Todos sabemos que é” (SANTOS, 1965, p. 3). Trata-se, entretanto, de uma “peleja” “sem rivalidade” entre os craques: “Pretendo na minha trova/ Honrar a capacidade/ Dos dois craques brasileiros/ Dotados de qualidade/ Coroados, aplaudidos/ E não têm rivalidade” (SANTOS, 1965, p. 4). Trata-se, pois, de um folheto laudatório de um poeta “trovador” em homenagem a essas duas estrelas máximas do futebol: “Camões no alto poema/ O mundo sabe que é/ Em milagres só Jesus/ O astro de Nazaré/ Porém no chute da bola/ Só seu Garrincha e Pelé” (SANTOS, 1965, p. 4).

Quando o “Rei do Futebol” e o “Rei da Jovem Guarda” discutem

Nosso segundo exemplo da construção poética de imagens de Pelé na Literatura de Cordel é o folheto intitulado A discussão de Pelé com Roberto Carlos, do cordelista José Soares (1914-1981), publicado nos anos 1970. Auto intitulado como “Poeta Repórter”, José Soares é um dos cordelistas que mais colaboraram com seus folhetos para tratar do tema do futebol. Um de seus folhetos, aliás, intitulado Futebol no inferno (1975), tornou-se famoso e integra algumas antologias poéticas. Entre os vários títulos, figuram os seguintes: A carreira do Sport com medo do Santa CruzBrasil Campeão do Mundo 1970, e Chegou o Santa, a máquina de fazer gols.

Como o título do folheto já indica, trata-se de uma discussão entre duas personagens icônicas no cenário cultural brasileiro – o “Rei do Futebol” e o “Rei da Jovem Guarda”. Cada um a seu modo fez jus a esses epítetos. Em termos temáticos, essa discussão se estabelece como uma “batalha”, algo comum no gênero cordel, e também no âmbito da música, como no repente e na embolada, gêneros musicais que dialogam com a poesia popular. Há célebres títulos, como A batalha de Oliveiros com Ferrabráz, de Leandro Gomes de Barros, A peleja do cego Aderaldo com Zé Pretinho, de Firmino Teixeira do Amaral, A peleja do solteiro com o casado, de Antônio Carlos de Oliveira Barreto, A discussão do crente com o cachaceiro, de Vicente Vitorino de Melo, A discussão do carioca com o pau-de-arara, de Apolônio Alves dos Santos, e O quebra-pau de Pelé com Maradona, de Anchieta Dantas, o Zé do Jati.

O folheto de cordel A discussão de Pelé com Roberto Carlos é composto por 30 estrofes em sextilhas, com versos em redondilha maior, de sete sílabas poéticas. Em sua capa, figuram uma foto de Roberto Carlos tocando violão, dos tempos da Jovem Guarda, e outra de Pelé, envergando a camisa do Santos Futebol Clube, time que o consagrou para o Brasil e o mundo (Fig. 2).

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ig. 2: Capa do folheto A discussão de Pelé com Roberto Carlos (disponível em: http://acervosdigitais.cnfcp.gov.br/Literatura_de_Cordel_C0001_a_C7176 )

 

Logo de início, o poeta enuncia o encontro com os dois “Reis”: “Viajei para São Paulo/ Cheguei na Praça da Sé/ Entrei no Bar dos Artistas/ Para tomar um café/ Encontrei Roberto Carlos/ Discutindo com Pelé” (SOARES, s/d, p. 1). As duas personagens ilustres desse folheto estavam ali, no Bar dos Artistas, segundo os versos do poeta, “Pelé defendendo a bola/ E Roberto o iê iê iê” (SOARES, s/d, p. 1). Fazendo uso da liberdade ficcional, o poeta apresenta uma discussão inverossímil entre Pelé e Roberto Carlos, fazendo com que as duas personagens apresentem falas marcadas pelos mais diversos preconceitos, conforme os versos da seguinte estrofe: “No futebol hoje em dia/ Tem gente da alta roda/ Cabelo grande é nojeira/ Iê iê iê caiu da moda/ Você canta essa besteira/ O povo nem se incomoda” (SOARES, s/d, p. 4). Respondendo ao Rei do Futebol, o Rei da Jovem Guarda, assim replicaria nos versos de José Soares: “Roberto disse a Pelé/ Quando chego n’uma praça/ Moça bonita me beija/ Mulher casada me abraça/ No campo tu bota força/ E ainda joga de graça” (SOARES, s/d, p. 4).

Entretanto, a querela entre os dois toma um rumo de apaziguamento nas últimas três estrofes do folheto. A antepenúltima traz em seus versos a voz de Pelé: “Veja que eu viajei/ Em todo país mercantil/ Joguei e dei show de bola/ Só de gol fiz mais de mil/ Você é Rei eu sou Rei/ Viva nós e o Brasil!” (SOARES, s/d, p. 8). E na última estrofe, ao Rei da Jovem Guarda são reservadas pelo poeta as palavras finais, em que se instaura o jargão do futebol para decretar uma “peleja” sem vencedores: “Roberto Carlos lhe disse/ Aqui na Praça da Sé/ Comigo você não briga/ Briga de Rei não dá pé/ Nosso jogo foi empate/ Muito obrigado Pelé” (SOARES, s/d, p. 8).

O “Rei do Futebol” se despede da Seleção

Nosso terceiro exemplo da construção poética de imagens de Pelé na Literatura de Cordel é o folheto A despedida de Pelé (1971), também de autoria do cordelista paraibano José Soares, o “Poeta Repórter”. Ele é composto por 30 estrofes em sextilhas, com métrica em redondilha maior, de sete sílabas poéticas, e com rimas nos versos pares. O folheto apresenta em sua capa o nome do autor, o título com destaque em letras garrafais para a palavra “Pelé”, uma reprodução fotográfica do “Rei do Futebol”, aliás, o mesmo clichê da capa do folheto A discussão de Pelé com Roberto Carlos, envergando a camisa do Santos Futebol Clube, e a legenda contendo seu nome: Edson Arantes do Nascimento. Ao lado da fotografia, figura um desenho da Taça Jules Rimet flanqueada por ramos de louro, e cinco flores de cinco pétalas (Fig. 3).

 
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Fig. 3: Capa do folheto A despedida de Pelé. (disponível em: http://acervosdigitais.cnfcp.gov.br/Literatura_de_Cordel_C0001_a_C7176 )

Conforme pudemos observar, até o presente momento, em nosso estudo sobre Literatura de Cordel, é comum que cordelistas reajam a determinados eventos que ganham ampla divulgação nos meios de comunicação de massa. Esse é o caso do folheto A despedida de Pelé, que faz alusão à despedida do “Rei do Futebol” da Seleção Brasileira. Ela ocorreu em dois amistosos realizados em julho de 1971, um no Estádio do Morumbi em São Paulo, contra a Seleção da Áustria, e outro no Estádio do Maracanã no Rio de Janeiro, contra a Seleção da Iugoslávia. Na época, Pelé estava com 30 anos de idade, despedindo-se cedo da camisa amarelinha.

Em A despedida de Pelé, o poeta popular enaltece aquele que é considerado o “Atleta do Século”. Em tom humorado e, ao mesmo tempo, religioso, seus versos configuram-se por um discurso laudatório, como podemos constatar nas duas primeiras estrofes: “Soares, Pelé e Cristo/ Nasceram pra fazer o bem/ Entre o Pelé e o Cristo/ A diferença que tem/ Pelé nasceu no Brasil/ Cristo nasceu em Belém// Soares é um atolado/ Mais não pega no alheio/ Cristo é o papai do céu/ Pelé não tem aperreio/ Soares vendeu fiado/ Lascou-se de meio a meio” (SOARES, 1971, p. 1). Os espaços do profano e do sagrado marcam a distinção entre ambos, em uma relação corrente entre religião e futebol: “No céu o Cristo perdoa/ Aqui Pelé dá esmola/ Os dois são ídolos do povo/ Um combina outro controla/ No céu Cristo faz milagres/ Aqui Pelé joga bola” (SOARES, 1971, p. 1).

Em alguns versos de A despedida de Pelé, o próprio craque ganha voz para justificar a sua decisão: “Pelé deixa a Seleção/ Porque os tempos chegaram/ Motivos sobvieram/ Recaíram e demoraram/ A decisão que tomei/ Outros atletas tomaram// […] Vou deixar a Seleção/ Mais vou deixar sem querer/ Eu vivo muito ocupado/ Tenho muito o que fazer/ A torcida do Brasil/ Deve me compreender” (SOARES, 1971, p. 3).

Por fim, não faltam os apelos do poeta popular para que o “Rei do Futebol” reconsidere sua decisão de despedir-se da Seleção: “Veja bem o Brasileiro/ Da Copa do Mundo é Tri/ Volte para a seleção/ Quem quer é o povo aqui/ Um abraço pra você/ Qualquer coisa estou aqui// Pelé disse que já fez/ Promessa com São Moisés/ Para quando ele morrer/ Levar a bola nos pés/ E em cima do caixão/ Levar a camisa 10” (SOARES, 1971, p. 4-5).

Um craque fora de série que entra para a história do futebol brasileiro e mundial

O quarto exemplo da construção poética de imagens de Pelé na Literatura de Cordel é o folheto de cordel História do Rei Pelé (1979), do cordelista pernambucano Elias Alves de Carvalho (1918-198?), entre outros, autor de folhetos como O drama de um nordestino (1982), O monstruoso crime de Montes Claros (1983), Dadá e a morte de Corisco (1983), As divindades lendárias e a vida dos mortais (1984), e Tancredo – mensageiro da esperança (1985).

O folheto História do Rei Pelé, em termos formais, se assemelha ao gênero “romance” na Literatura de Cordel, o qual se diferencia dos folhetos de “circunstância” por sua dimensão, pois é quatro vezes mais longo, o que se reflete no número total de estrofes, 127, como septilhas, e métrica em redondilha maior, com sete sílabas poéticas. Em geral, um “romance” é destinado a tratar de casos memoráveis e de figuras míticas. Esse é o caso de Edson Arantes do Nascimento, Pelé, que se consagrou no universo do futebol como o maior jogador de todos os tempos, uma história de “vida e bravuras”, como indica o subtítulo do folheto (Fig. 4).

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Fig. 4: Capa do folheto História do Rei Pelé
(disponível em: http://acervosdigitais.cnfcp.gov.br/Literatura_de_Cordel_C0001_a_C7176 )

 

A primeira estrofe de História do Rei Pelé indica certo tom religioso como procedimento inicial de construção de um discurso epidítico de louvor e enaltecimento à figura de Pelé: “Foi ao homem que o Senhor/ deu a sua semelhança,/ inteligência, razão,/ mente, amor, perseverança,/ alma e personalidade,/ em troca de humildade,/ de fé e de esperança” (CARVALHO, 1979, p. 1). Logo em seguida, o poeta se apresenta como aquele que assume para si o desafio de decantar em seus versos tão nobre figura, digna de superlativos: “Orgulhoso e confiante/ concentro a força mental/ prá descrever o valor/ dum ídolo internacional/ considerado em seus feitos/ um dos seres mais perfeitos/ do esporte mundial” (CARVALHO, 1979, p. 1).

Sem dúvida, trata-se de um grande desafio decantar em versos a trajetória daquele que ascendeu ao panteão dos grandes nomes do futebol brasileiro e mundial. Elias Alves de Carvalho assumiu para si tal desafio e procurou apresentar as principais estações na vida do craque do Santos Futebol Clube e da Seleção Brasileira, iniciando, cronologicamente, por seu nascimento: “Foi no ano de 40/ numa cidade mineira/ chamada Três Corações,/ que duma família ordeira/ nascia para o esporte/ o personagem mais forte/ da seleção brasileira” (CARVALHO, 1979, p. 2). Ao apresentar a origem de Pelé, o poeta não deixa de mencionar as agruras de seu pai, que também fora jogador e o iniciara no futebol: “Foi Dondinho, pai de Edson/ Arantes do Nascimento,/ um jogador que no campo/ não conseguiu seu intento./ Talvez por falta de sorte/ só logrou daquele esporte/ dissabor e sofrimento” (CARVALHO, 1979, p. 2).

Na infância, Pelé nutriria um verdadeiro amor pela bola, seu precioso e inseparável brinquedo, que, mais tarde, se tornaria sua eterna companheira nos gramados afora: “Pelé desde pequenino/ era um amante da bola./ Primeiro bola de meia/ dentro da sua sacola,/ aonde quer que estivesse,/ embora a mãe não quisesse/ levava até pra escola” (CARVALHO, 1979, p. 2).

E, assim, Dico, como era o primeiro apelido de Pelé, ia crescendo e jogando no time do bairro em Bauru, cidade do interior de São Paulo para onde a família se transferira quando o futuro “Rei do Futebol” ainda era criança de colo. Jogando pelo Sete de Setembro, Pelé chamaria à atenção de todos: “No fim do campeonato,/ no jogo de decisão,/ Pelé jogou como nunca/ e o time foi campeão./ Ganhou aplausos, louvores/ e dinheiro invés de flores/ no calor da aclamação” (CARVALHO, 1979, p. 6).

Entretanto, logo os terrenos baldios e os campinhos de Bauru ficariam pequenos para a exibição daquele virtuose com a bola nos pés. Descoberto pelo ex-jogador Waldemar de Brito (1913-1979), Dico deixaria a família e o clima do interior para ganhar o mundo: “Saiu de casa Pelé/ entre soluços e prantos,/ seguiu de trem com Dondinho/ levado pelos encantos./ Em São Paulo, ao chegar/ juntou-se com Valdemar/ dali seguiram pra Santos” (CARVALHO, 1979, p. 7). O resto é história de um mito…

A celebre questão: Quem é melhor, Pelé ou Maradona?

Por fim, nosso quinto e exemplo da construção poética de imagens de Pelé na Literatura de Cordel é o folheto O quebra-pau entre Pelé e Maradona (2011), do cordelista José Anchieta Dantas Araújo, conhecido pelo nome artístico de Zé do Jati. Natural de Jati, no Estado do Ceará, Zé do Jati destacou-se, primeiramente, em um programa de humor, na TV Diário em Fortaleza. Irreverente, o poeta levaria o humor e a sátira também para seus versos, registrados em inúmeros folhetos, entre outros, A guerra contra o mosquito da dengueCoxinha: a autarquia da falsidadeO homem animal e a geografia da mulher, e Seu Lunga, o campeão da ignorância.

Nas capas de seus folhetos, sempre há uma mensagem que alude ao humor e ao riso: “Rir ainda é o melhor remédio!”, “Pense em rir algumas horas” e “Pense em rir até umas horas!” são algumas dessas expressões que marcam o tom de seus versos. Na capa de O quebra-pau entre Pelé e Maradona há um desenho de autoria de Cláudio Bezerra, em que estão retratados, de maneira caricata, os dois protagonistas: Enquanto o “rei do futebol” sorri e exibe uma coroa em sua cabeça, o craque argentino apresenta uma expressão de desapontamento, como se tivesse sido derrotado no duelo da bola (Fig. 5). Como era de se esperar, esse folheto pauta-se justamente sobre uma questão recorrente no mundo do futebol: Quem seria melhor, Pelé ou Maradona? Aliás, essa questão foi ampliada em 2022, integrando também o craque argentino Lionel Messi.

 
Pelé
Fig. 5: Capa do folheto O quebra-pau entre Pelé e Maradona (ARAÚJO, 2011, p. 94)

Em O quebra-pau entre Pelé e Maradona, inicialmente, o espaço da disputa se daria na Internet, em uma enquête realizada: “Mas Maradona contratou/ Com a sua assessoria/ Gente boa da internet/ Que usa de mutretaria/ Para tirar de Pelé/ De rodão de rapa-pé/ O título que ele continha” (ARAÚJO, 2011, p. 96). Aliás, conforme podemos notar nesses versos, esse folheto é composto por estrofes em septilhas, métrica em redondilha maior, com sete sílabas poéticas, e rimas alternadas no 2º, no 4º e no 7º verso, e rimas paralelas no 5º e no 6º verso.

A cena inicial de O quebra-pau entre Pelé e Maradona marca, justamente, uma suposta falcatrua realizada na internet, que teria decretado um empate entre os dois na enquete. O poeta, então, se apresenta aos leitores como testemunha que iria esclarecer o ocorrido: “E o título foi dividido/ Na maior insensatez/ Mas, para o mundo, é sabido/ O que um e outro fez/ E na entrega do troféu/ Tudo o que aconteceu/ Eu vou contar pra vocês” (ARAÚJO, 2011, p. 97).

Por assim dizer, a suposta rivalidade entre Brasil e Argentina, pelo menos no futebol, se concretiza de modo acirrado nessas duas personagens, poeticamente construídas nesse folheto de cordel. Ambas as personagens são constituídas a partir de determinados atributos, sendo que o discurso epidítico elogioso é reservado a Pelé, enquanto o discurso epidítico de rebaixamento é atribuído à figura de Maradona, com expressões de preconceito mutuo. O folheto se estrutura feito um repente, em que as duas personagens duelam verbalmente, conforme podemos verificar nas seguintes estrofes que aludem ao famoso gol de mão – “la mano de dios” – marcado pelo craque argentino na Copa de 1986, em partida disputada entre as seleções da Argentina e da Inglaterra: “Maradona inconformado/ Falou pra Pelé então:/ ― Tu fez gols tão diferentes/ Que causam grande impressão/ Mas num relato profundo/ Valendo Copa do mundo/ Tu não fez um gol de mão// […] Pelé disse: ― Maradona/ Pra que tanta vibração? ― Por isso é que tua fama/ É de má reputação/ Aquela cena chocou/ E a imprensa confirmou:/ Isso é coisa de ladrão” (ARAÚJO, 2011, p. 99).

Na última estrofe de O quebra-pau entre Pelé e Maradona, para se eximir de qualquer crítica a respeito, o poeta popular se vale de um testemunho para ratificar a veracidade (inverossímil) do “quebra-pau”: “Me contou um jornalista/ Quem merece muita fé/ Que essa discussão se deu/ Com Maradona e Pelé/ E tudo aqui é verdade/ Digo com honestidade/ Acredite se quiser…” (ARAÚJO, 2011, p. 104).

Construção poética de imagens de Pelé na Literatura de Cordel – a guisa de conclusão

Neste breve estudo, trouxemos apenas cinco exemplos, dentre vários outros que poderiam servir igualmente de base para a análise da construção poética de imagens de Pelé na Literatura de Cordel. Entretanto, consideramos que esse conjunto é exemplar, pois evidenciam alguns padrões em tal construção. Em três deles – A peleja de Garrincha com Pelé (1965), A discussão de Pelé e Roberto Carlos (197-) e, respectivamente, O quebra-pau entre Pelé e Maradona (2011) –, o “Rei do Futebol” é confrontado com outras célebres personagens do futebol – Garrincha e Maradona – e com outro “Rei”, o da Jovem Guarda, que ocupava (e ainda ocupa) a mídia – Roberto Carlos. Todavia, a relação entre tais figuras se estabelece de maneira distinta, embora se configurem como enfrentamentos verbais de cunho poético, típicos da Literatura de Cordel e do cancioneiro popular: “peleja”, “discussão” e “quebra-pau”. Nesses encontros inverossímeis, frutos da inspiração dos poetas, Pelé se defronta amistosamente com seu companheiro de Seleção Brasileira e do panteão do futebol, Manoel Francisco dos Santos (1933-1983), o Mané Garrincha, mas discute de modo veemente e preconceituoso com o cantor e compositor Roberto Carlos (1941*), chegando à discussão acalorada – o “quebra-pau” – com Diego Armando Maradona (1960-2020), em torno da célebre questão sobre o direito de usar a coroa de “Rei do Futebol”.

Por sua vez, os outros dois exemplos – A despedida de Pelé (1971) e História do Rei Pelé (1979) – focam muito mais em questões biográficas, em dois momentos específicos da carreira de Edson Arantes do Nascimento (1940-2022): sua despedida da Seleção Brasileira em 1971 e, respectivamente, dos gramados, após ter deixado o clube norte-americano New York Cosmos em 1977. Sem dúvida, alguns desses folhetos se originaram de eventos específicos e expressam certo viés jornalístico no tratamento poético dos temas. Um Mestre nesse assunto foi José Soares, Patrono da Cadeira nº 37 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), que não recebeu a alcunha de “Poeta Repórter” por acaso. Já Zé do Jati é um Mestre do humor na Literatura de Cordel. Todos, a sua maneira, dedicaram versos àquele que permanece como um dos maiores atletas brasileiros de todos os tempos, senão o maior, uma figura mítica, decantada em verso, prosa, canção e imagem, que ocupa o seleto panteão do futebol.

Referências bibliográficas

ARAÚJO, José Anchieta Dantas [Zé do Jati]. O quebra-pau entre Pelé e Maradona (2011). In: ARAÚJO, José Anchieta Dantas [Zé do Jati]. Seu Lunga, o campeão do mau humor e outras histórias divertidas. São Paulo: Editora Clio, 2012, p. 93-104.

CARVALHO, Elias Alves de. História do Rei Pelé. Petrópolis, RJ: Ed. do Autor, 1979.

SANTOS, Antônio Teodoro dos. A peleja de Garrincha com Pelé. São Paulo: Ed. Prelúdio, 1965.

SOARES, José. A despedida de Pelé. Recife, PE: Ed. do Autor, 1971.

SOARES, José. A discussão de Pelé e Roberto Carlos. s/l: Ed. do Autor, s/d.

 

Artigo publicado originalmente em História(s) do Sport.

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Elcio Loureiro Cornelsen

Membro Pesquisador do FULIA - Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes, da UFMG.

Como citar

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Imagens de Pelé na Literatura de Cordel. Ludopédio, São Paulo, v. 180, n. 9, 2024.
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