Dia desses, num ponto de vacinação contra o Coronavírus para crianças, ouvi um pai dizer ao pequeno filho no momento da fatídica injeção: “seja homem… é só uma agulhada”. Por mais que tal pai não seja negacionista (afinal, levou o filho para vacinar), reproduz uma máxima silenciosa, tão perniciosa quanto o atual vírus da pandemia.

Homens se suicidam, matam uns aos outros, cometem feminicídio; se entregam ao crime, às drogas e ao álcool por não sustentarem a exigência social do que é “ser homem”. Se o pai cobra tamanha performance de um ser que ainda nem bem sabe ler, escrever e se expressar, o que lhe dirá frente a outros desafios futuros?

Como se posicionará se o menino não quiser jogar futebol, ou escolher uma profissão que ele não aprova, ou ainda se envolver em um relacionamento homoafetivo? “Ser homem o suficiente” é um fardo muito pesado para uma criança que tem por volta de 6 anos. Aliás, talvez seja muito pesado para o próprio pai que fala.

Na sociedade brasileira há lugares de produção e perpetuação de uma masculinidade irreal, ilusória, fantasiosa, que atravessa classes sociais e mesmo gerações. Ela reúne noções estereotipadas do que é “ser homem” e de como deve ser a performance do sujeito que assim é designado.

Um desses lugares é o esporte – além da casa, da escola, da rua, da religião e de outros. Como nação colonizada, recebemos o esporte como produto da modernidade europeia (de herança inglesa), que chegou aqui via futebol e trouxe jeitos e modos de acontecer já cristalizados.

Pensando no futebol e nas transformações que sofreu no país, seus campinhos (de várzea), que ainda resistem, são mais democráticos e inclusivos do que a escola. No encontro de meninos de idades e tamanhos variados, no rolar a bola para fazer “o gol” entre chinelas, cabe tudo: gordinhos, aleijados, mancos, afeminados.

Mas na Educação Física escolar, sob supervisão do “olheiro de ocasião” (o/a professor/a de Educação Física) tudo se transforma: particularmente se ele/ela não desenvolver uma abordagem de acolhimento da diversidade na interseccionalidade. A Educação Física escolar, mais do que qualquer outra disciplina curricular, ainda é o vértice mais agudo de construção de uma masculinidade obrigatória e idealizada.

Essa masculinidade nasce tímida e vai se hipertrofiando, tornando-se mais agressiva e tóxica com o passar do tempo. É por ela que se definem quem é ou não masculino, quem fica ou sai, quem participa ou não, quem é e quem não é valorizado. É no contraponto a essa masculinidade que nascem a própria feminilidade e outras masculinidades, identidades ou orientações.

Se a escola generifica sujeitos, classificando-os, apartando-os, especializando-os segundo prerrogativas instituídas de gênero, a Educação Física tende não apenas a validar, como a coroar este processo.

Educação Física
Foto: Divulgação/Rosimar Aparecida Leonardeli/Secom – Governo de Rondônia

Por mais que tenhamos mudanças em curso dentro da atuação da Educação Física escolar, crianças continuarão a superdimensionar e supervalorizar seus/suas professores e professoras. E, infelizmente, esses/essas ainda reproduzem brincadeiras, sarcasmos, estereótipos, gozações e mesmo o menosprezo a pessoas, culturas ou situações, e isso impacta fortemente na formação daquelas.

Desnecessário dizer que a discussão de gênero importa desde os mais tenros anos de vida de uma pessoa. E isso também é verdade quando falamos sobre sua formação escolar e esportiva. Uma educação seminal sobre corpo e sexualidade/gênero transformaria a Educação Física, oferecida desde a educação básica. Potencializaria sujeitos para práticas esportivas mais saudáveis, nas quais masculinidade/feminilidade não estivessem no centro de suas considerações.

Com isso, corpos desnudos pouco importariam em lugares que ainda apresentam tabus, como nos banheiros escolares, nos vestiários esportivos, nos salões de dança ou ainda nas piscinas. Particularmente a desintegração de uma “agenda” orientada para a masculinidade tóxica desierarquizaria valores de gênero, trazendo conforto para se poder trabalhar as experiências corporais de sujeitos – tanto entre si e com outros, quanto nas atividades esportivas.

Porém, o problema sempre persistirá: não adianta uma agenda ampla, democrática, política, plural, generificada e afins se quando o garoto deixa os espaços em que pode “não ser garoto” (se quiser), ele acaba sendo cobrado por outros agentes sociais acerca de papeis que deve obrigatoriamente cumprir. Triste constatar que ele não pode habitar a incerteza do ser homem, nem quando joga futebol na Educação Física, nem quando toma uma dose de vacina.

Por isso, ao pai que (com sorte) me lê: seu filho não precisa “ser homem” para tomar a tal agulhada da vacina contra o Coronavírus. Ele precisa ser criança, que naquele momento deve ser estimulada a ter conhecimento de práticas de cura e de cuidado, que adultos desenvolvem em relação a crianças. E um corpo vacinado, quando adulto, estará pronto para o esporte; nem mais, nem menos masculino/feminino.

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Wagner Xavier de Camargo

Antropólogo que se dedica a pesquisar corpos, gêneros e sexualidades nas áreas de Educação Física e Esportes. Tem pós-doutorado em Antropologia Social pela UFSCar, Doutorado em Ciências Humanas pela UFSC e estágio doutoral na Freie Universität von Berlin (Universidade Livre de Berlim), na Alemanha. Fluente em alemão, inglês e espanhol, adora esportes. Já foi atleta de atletismo, fez ciclismo em tandem com atletas cegos, praticou ginástica artística e trampolim acrobático, jogou amadoramente frisbee e futebol americano. Sua última aventura esportiva se deu na modalidade tiro com arco.

Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. Infância, esporte e masculinidade. Ludopédio, São Paulo, v. 151, n. 29, 2022.
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