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Islamofobia

José Paulo Florenzano 16 de novembro de 2022

Em 1989 a queda do Muro de Berlim foi celebrada dos dois lados da “Cortina de Ferro” como o marco de uma nova era, isto é, o advento de um mundo sem fronteiras, aberto à livre circulação de ideias, pessoas e mercadorias, unificadas  sob o duplo programa da democracia liberal e da economia capitalista, destino inelutável de todas as sociedades unificadas pelo processo inexorável da globalização. Todavia, menos de trinta anos depois, a proposta de construção de um Muro na divisa entre Estados Unidos e México, anunciada em 2016 pelo então candidato do Partido Republicano às eleições presidenciais, Donald Trump, constituía-se no símbolo de uma inesperada reviravolta histórica, caracterizada pelo recuo em direção às fronteiras nacionais, erguidas com o propósito explícito de barrar a entrada dos estrangeiros considerados indesejados.     

A edificação de muros, cercas e barreiras se multiplicaram desde então na paisagem em ruínas do que até pouco tempo atrás ainda se denominava globalização, tornando-se um símbolo onipresente da cultura de intolerância que se difundia dos dois lados do Atlântico Norte. Tratava-se, com efeito, de conter as sucessivas ondas migratórias que se abatiam sobre os países ricos, compostas por pessoas que buscavam fugir da fome e da seca, dos conflitos armados, da guerra civil que se generalizava nas áreas periféricas de um mundo fragmentado.

Muro de Berlim – Novembro de 1989 – Wikipédia

Face ao deslocamento forçado de 100 milhões de pessoas que, pelos mais diversos motivos, viram-se obrigadas a abandonar suas casas, terras e tradições, os herdeiros do fascismo agiram com rapidez para capturar o imaginário social e povoá-lo de fantasmas, apresentando-se em seguida como a única alternativa para conter a “invasão”.[1]   

Embora seja importante atentar para as especificidades de cada contexto nacional, com suas respectivas tradições fascistas, podemos afirmar que de modo geral o discurso de extrema direita articula-se em torno de três pontos principais, a saber: 1) os estrangeiros vêm tomar o lugar dos nacionais no mercado de trabalho, agravando o problema do desemprego; 2) os estrangeiros constituem uma ameaça concreta aos cidadãos comuns, elevando as taxas de criminalidade; 3) os estrangeiros colocam em risco a identidade nacional, introduzindo no país hábitos e costumes bárbaros.

A falácia embutida na argumentação que converte o migrante/refugiado no inimigo público número um deveria ser evidente. De fato, o desemprego tem a ver com a reestruturação produtiva do capitalismo desencadeada pela atual Revolução Tecnológica; a criminalidade aumenta à medida que o modelo econômico do neoliberalismo acentua a desigualdade social tanto entre os países quanto no interior de cada país; e a identidade, seja a individual seja a coletiva, não se deixa fixar em uma suposta essência. Como discutido por inúmeros autores, as identidades são continuamente recriadas dentro do jogo das interações sociais, das trocas culturais e das lutas políticas.

Mas, se, como observado por Tzvetan Todorov, a xenofobia emerge como o denominador comum dos movimentos de extrema direita, no contexto atual, ela possui como alvo privilegiado uma velha figura da alteridade europeia: o “bárbaro” muçulmano.[2] Com efeito, a crise migratória de meados da década passada estava diretamente relacionada com o agravamento da guerra civil na Síria e com as ações do Estado Islâmico no Oriente Médio.[3] Em 2014, mais de 280 mil refugiados haviam ingressado na Europa; mas em 2015 o número saltara para mais de um milhão de pessoas. Ora, enquanto os conservadores ingleses promoviam o Brexit, concebido como uma saída estratégica para a retomada do “controle das fronteiras”,[4] nos demais países europeus diversos partidos anti-imigração ascendiam nas pesquisas eleitorais prometendo não somente impedir a entrada dos estrangeiros indesejáveis como, além disso, expulsar os que já se encontravam no interior das fronteiras nacionais. A recente eleição de Giorgia Meloni, na Itália, para o cargo de primeira-ministra, mostra-nos a força do discurso da intolerância. Antiga militante da seção juvenil do Movimento Social Italiano (MSI), partido fundado em 1946 com os remanescentes do fascismo, Giorgia Meloni disse ao longo da campanha que era preciso deter a qualquer preço o processo de “islamização da Europa”, se necessário, ao preço da organização de um “bloqueio naval” no Mediterrâneo.[5]

A islamofobia, no entanto, não se encontra desprovida de contradições. Ela se revela, no mínimo, seletiva, pois não consta que a “invasão” do capital financeiro no futebol europeu, promovida pelos países do Golfo Pérsico, tenha despertado protestos das torcidas dos clubes beneficiados com os investimentos. Embora as organizações de direitos humanos e órgãos de imprensa tenham denunciado a prática de “sportswashing” por trás das operações financeiras, os adeptos do Manchester City, do Paris Saint-Germain e do Newcastle United parecem bastante satisfeitos com o novo status esportivo adquirido com o aporte de recursos realizado pelo árabes e muçulmanos. Ou seja: enquanto o dinheiro proveniente dos fundos soberanos dos Emirados Árabes, do Qatar e da Arábia Saudita fortalece a identidade clubística das equipes europeias; o fluxo de migrantes e refugiados que buscam escapar das guerras civis da Síria, do Iraque e do Afeganistão, afigura-se como uma terrível ameaça às identidades nacionais e isto em todos os planos articulados pelo discurso da extrema direita: econômico (desemprego), social (criminalidade) e identitário (crenças e valores).

As incongruências da islamofobia desvelam-se também por intermédio da presença de atletas muçulmanos nas principais ligas europeias O caso mais evidente gira em torno da figura de Mohamed Salah. Segundo o New York Times, no período imediatamente anterior à chegada do atacante egípcio ao Liverpool, entre 2012 e 2016, os crimes de ódio em Merseyside, região onde se encontra sediado o clube, haviam crescido cerca de 75%.[6] Mas desde sua chegada a Premier League, em 2017, de acordo com a pesquisa desenvolvida nas universidades de Stanford, Yale e Colorado, houve uma queda de quase 20% no número de crimes de ódio na referida região. Ainda segundo a pesquisa, houve também uma queda pela metade nas postagens de cunho antimuçulmano feitas pelos torcedores do Liverpool.[7]

Sem necessariamente assumir uma postura militante, Mohamed Salah explicita a vinculação com o islã, curvando-se muitas vezes no gramado após a realização de cada gol assinalado para uma audiência planetária: Conforme ele próprio salienta, na reportagem acima citada: “É uma forma de orar e agradecer por tudo o que tenho”.

Mo Salah adulation, Liverpool – Kevin Walsh – Wikipédia

Não devemos, decerto, aguardar que a idolatria despertada em torno de Mohamed Salah, por si só, consiga fazer refluir a atual onda de islamofobia alimentada pela extrema direita. Mas, por outro lado, sabemos que o atacante egípcio não está sozinho nesta batalha pela desconstrução dos estereótipos e representações veiculados pelos agrupamentos de extrema direita. Ele integra uma constelação de atletas muçulmanos que nos últimos anos esteve em evidência na Premier League, ou, mesmo, nas principais ligas europeias:[8] Que ela continue a brilhar nos campos de jogo onde se trava a luta contra a islamofobia.

Notas

[1] De acordo com o Relatório Anual do ACNUR, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, Cátedra Sérgio Vieira de Mello, Brasília, setembro de 2022, o número de pessoas deslocadas à força atinge o recorde de 100 milhões. https://www.acnur.org/portugues/wp-content/uploads/2022/09/CSVM-Relato%CC%81rio-Anual-2022.pdf

[2] Todorov, Tzvetan. “O medo dos bárbaros: para além do choque de civilizações”, Petrópolis, RJ, Editora Vozes, 2010.

[3] Cf. “Um milhão de refugiados e migrantes fugiram para a Europa em 2015”, ACNUR, 22 de dezembro de 2015. https://www.acnur.org/portugues/2015/12/22/um-milhao-de-refugiados-e-migrantes-fugiram-para-a-europa-em-2015/

[4] Cf. “Candidatos no Reino Unido prometem linha dura contra imigração irregular”, Michele Oliveira, de Milão, Folha de S. Paulo, 1 de agosto de 2022.

[5] Cf. “Meloni nega, em 3 idiomas, ser risco à democracia na Itália”, Ivan Finotti, de Madri, Folha de S. Paulo, 12 de agosto de 2022.

[6] Cf. “Mo Salah of Liverpool, Breaks Down Cultural Barriers, One Goal at a Time”, Rory Smith, The New York Times, 2 de maio de 2018.

[7] Cf. “Sucesso de atletas reduz preconceito, diz estudo”, Luciano Trindade, Folha de S. Paulo, 25 de julho de 2022. “Can Exposure to Celebrities Reduce Prejudice? The Effect of Mohamed Salah on Islamophobic Behaviors and Attitudes”. Ala’Alrababa’h, William Marble, Salma Mousa and Alexandra Siegel. Stanford, Immigration Policy Lab, Working Paper Series, N. 19-04, 2021. https://osf.io/preprints/socarxiv/eq8ca/

[8] Cf. “Salah, Pogba, Özil…the Muslim heroes of English Football”, Nabila Ramdani, The Guardian, 25 de fevereiro de 2018. Alguns nomes citados pela reportagem: Paul Pogba, Ryad Mahrez, N’Golo Kanté, Mesut Özil, Yaya Touré, Mamadou Sakho.

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José Paulo Florenzano

Possui graduação em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1994), mestrado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (1997), doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (2003), e pós-doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Doutorado do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2012). Atualmente é coordenador do curso de Ciências Sociais e professor do departamento de antropologia da PUC-SP, membro do Conselho Consultivo, do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, em São Paulo, membro do Conselho Editorial das Edições Ludens, do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre o Futebol e Modalidades Lúdicas, da Universidade de São Paulo, e participa do Grupo de Estudos de Práticas Culturais Contemporâneas (GEPRACC), do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Tem experiência na área de Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia Urbana, Sociologia do Esporte e História Política do Futebol, campo interdisciplinar no qual analisa a trajetória dos jogadores rebeldes, o desenvolvimento das práticas de liberdade, a significação cultural dos times da diáspora.

Como citar

FLORENZANO, José Paulo. Islamofobia. Ludopédio, São Paulo, v. 161, n. 16, 2022.
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