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Jock Stein, o protestante que se tornou “Deus” entre os católicos

Dyego Lima Universidade do Esporte 22 de agosto de 2020

A rivalidade entre duas equipes é, provavelmente, o principal motor dos esportes. Para os aficionados por futebol, é evidente que o duelo entre Celtic e Rangers, apelidado de The Old Firm, é um dos mais notórios. A razão do antagonismo entre os dois clubes, iniciado em 1888, é uma das mais simbólicas do mundo da bola.

Os celtas possuem uma associação histórica com os irlandeses e os escoceses com ascendência irlandesa que, por sua vez, têm um viés religioso ligado ao catolicismo romano e uma visão política que apoia o republicanismo. Do outro lado, os fãs do Rangers vêm de origem protestante – presbiterianos ou calvinistas – vinculada à Escócia e à Irlanda do Norte, além de serem apoiadores do sindicalismo britânico. Por esses motivos, o clássico é tido como o de maior ódio recíproco.

Nascido na cidade escocesa de Hamilton no dia 05 de outubro de 1922, John “Jock” Stein não sabia, obviamente, que, anos mais tarde, se tornaria personagem principal nessa histórica rivalidade. Enquanto jogador, Stein foi formado pelo Blantyre Victoria, mas fez sua primeira partida como profissional pelo Albion Rovers, no dia 14 de novembro de 1942. Um 4 a 4, justamente contra o Celtic. Ele foi um zagueiro esforçado, mas as persistentes lesões no tornozelo – se tornou incapaz até de flexionar a articulação – o forçaram a se aposentar em 1957.

Em seus 16 anos como atleta, passou pelo Llanelli Town, de Gales, e pelo Celtic, onde conquistou seus principais títulos: o campeonato nacional, a Copa da Escócia e a Copa da Coroação, todos na temporada 1953-54. Além disso, atuou em uma partida pela seleção de seu país. No total, foram 245 jogos e 11 gols. Ele conciliava a carreira com um emprego de minerador de carvão. Só pôde se tornar jogador em tempo integral quando foi para o País de Gales, onde passou a receber 12 libras por semana.

Jock Stein. Foto: Wikipédia

Ao encerrar sua trajetória dentro dos gramados, Stein iniciou seu primeiro trabalho como técnico em julho de 1957, sendo apontado como treinador do time reserva do Celtic. Ele possuía uma ideia de jogo bem definida: ao acreditar que os escoceses eram capazes de trabalhar com a bola no pé, apostava num jogo rápido e muito ofensivo. Em suas mãos passaram atletas como Billy McNeill, Bobby Murdoch e John Clark, que, posteriormente, se tornariam importantes na equipe principal. Na sua primeira temporada, ele conduziu o time ao título da Reserve Cup, que incluiu um placar agregado de 8 a 2 contra o arquirrival Rangers. Entretanto, apesar do repentino sucesso, a jornada não durou muito. O presidente do clube à época, Robert Kelly, descobriu que Stein era protestante, e decidiu demiti-lo.

Após um pequeno período de inatividade, em 14 de março de 1960, Jock Stein assumiu o Dunfermline Athletic para o seu primeiro trabalho como técnico principal, onde permaneceu até 1964. Antes de sua chegada, a equipe não vencia um jogo há 4 meses, estando apenas dois pontos à frente do último colocado do campeonato. Sob sua tutela, o time venceu as primeiras seis partidas e encerrou o torneio na 13° colocação.

Na temporada seguinte, ele conquistaria seu primeiro título como técnico, justamente contra o Celtic. Uma vitória por 2 a 0 na final da Copa da Escócia. Após o duelo, Stein recebeu uma proposta do Newcastle, e apesar de ser um sonho particular treinar na Inglaterra, ele a rejeitou de prontidão. Em 30 de março de 1964, dois dias depois de o Dunfermline perder para o Rangers na semifinal da Copa da Escócia, o técnico anunciou que estava de saída para assumir o comando do Hibernian, de Edimburgo.

Uma vez na nova casa, ele permaneceu por apenas um ano. Foi o bastante para que ele levasse a equipe ao título da Summer Cup, o primeiro do time em 10 anos. Seu prestígio no Hibs, que já não era pequeno, aumentou ainda mais após uma vitória por 2 a 0 sobre o Real Madrid no início da temporada 1964-65. Stein receberia nova oferta da Inglaterra, dessa vez do Wolverhampton. Ele ficou balançado entre aceitar o cargo ou permanecer em Edimburgo e esperar por uma proposta do Celtic, sua eterna casa e grande anseio profissional. Após longa reflexão, ele decidiu ficar. E acabou sendo recompensado por isso.

A chance de treinar a principal equipe do país apareceu em 31 de janeiro de 1965. Stein ainda permaneceria no Hibernian por mais dois meses, só indo embora depois que encontrou em Bob Shankly o seu substituto perfeito. Quando ele partiu, o Hibs se encontrava no G-4 do Campeonato Escocês e na semifinal da Copa da Escócia, porém, sem ele, a equipe acabou não vencendo nenhuma das duas competições.

Pelo menos ao que se tem conhecimento, Stein acabou se tornando o primeiro técnico principal de religião protestante da história do Celtic. Logo após sua chegada, a equipe acabou conquistando a Copa da Escócia contra o Dunfermline, que havia derrotado o seu também ex-clube Hibernian na semifinal. Foi a 1° Copa vencida pelos celtas desde 1954. A passagem do técnico durou por 14 anos, que acabaram resultando em 31 títulos conquistados. Dentre eles seis Copas da Liga, oito Copas da Escócia e dez Campeonatos Escoceses, sendo nove de maneira consecutiva entre 1966 e 1974. No entanto, o ápice da carreira de Stein e da história do Celtic ficou reservado para a temporada 1966-67.

Após eliminar Zurich, Nantes, Vojvodina, da antiga Iugoslávia, e Dukla Praga, da então Tchecoslováquia, o Celtic chegou à final da Copa dos Campeões da Europa contra a poderosa Internazionale de Helenio Herrera, que havia vencido o torneio duas vezes nas últimas três temporadas. De virada, os escoceses venceram por 2 a 1, com gols de Tommy Gemmell e Stevie Chalmers, e conquistaram o título, naquele que foi o início do fim do catenaccio italiano. Clube e técnico se tornaram os primeiros britânicos a conquistar a competição continental. A equipe que entrou em campo contra a Inter, que depois ficaria conhecida como Leões de Lisboa, era composta por: Ronnie Simpson; Jim Craig e Billy McNeill; Tommy Gemmell, John Clark e Bertie Auld; Jimmy Johnstone, Bobby Murdoch, William Wallace, Bobby Lennox e Stevie Chalmers.

Estátua de Jock Stein no Celtic Park. Foto: Wikipédia

É bem verdade que esse time acabou sendo derrotado pelos argentinos do Racing na decisão do Intercontinental, mas isso não tirou o brilho daquela equipe e em nada abalou o trabalho que se seguiria dali em diante. Duas temporadas após a conquista europeia, o Celtic de Stein alcançou novamente a final do torneio, mas acabaram sendo derrotados, em Milão, pelos holandeses do Feyenoord, de virada, por 2 a 1. Logo após o confronto, o técnico recebeu nova proposta do futebol inglês, dessa vez do poderoso Manchester United. Eles observaram o ótimo trabalho que o escocês vinha desenvolvendo e acreditavam que ele podia replicá-lo na terra da Rainha. Eles só não contavam que o técnico fosse rejeitar a oferta. Mais tarde, Stein confessaria a Alex Ferguson que essa foi uma das decisões que ele mais se arrependeu.

A saída do treinador do clube celta, depois de tudo que ele fez por lá, acabou acontecendo de maneira conturbada. Após uma temporada de 1977-78 bem abaixo do que vinha ocorrendo nos últimos anos – 5° lugar na Liga, eliminação nas oitavas da Copa da Escócia e vice da Copa da Liga -, a diretoria propôs um negócio ao técnico: ele deixaria o comando da equipe e viria trabalhar na parte administrativa. Stein acreditava que iria ocupar o cargo de diretor de futebol, mas o que lhe esperava era uma posição no setor de loterias do time. Sendo esse um lugar que ele não desejava e acreditando que ainda tinha o que oferecer ao futebol, o escocês optou por ir embora.

Poucos dias após deixar o Celtic, Jock Stein assumiu o Leeds United, nesse que é o episódio mais curioso de sua carreira. Apesar de que treinar uma equipe inglesa fosse um grande sonho seu, a passagem por lá durou apenas 44 dias. Enquanto fazia um trabalho apenas regular, o técnico viu que Ally MacLeod, então comandante da seleção escocesa, abdicou da posição. Stein, então, jogou uma isca: em conversa com o comentarista Archie Macpherson, o fez acreditar que estava interessado no cargo, tudo para que ele mencionasse isso nos programas esportivos. Enquanto dava entrevistas dizendo que tudo aquilo não passava de rumores, a Federação Escocesa, que até então não o cogitava para a função, “mordeu o anzol” e passou a vê-lo como o nome ideal para a função.

E foi o que aconteceu. Stein foi confirmado como novo técnico da seleção escocesa no fim de setembro de 1978. No entanto, é válido ressaltar que essa não seria sua primeira experiência no selecionado do país. Ela aconteceu ainda em 1965. Ele assumiu o cargo interinamente, sem abandonar o Celtic, para tentar conduzir a Escócia à Copa do Mundo de 1966. Com o fracasso, acabou pedindo para sair com o pretexto de que desejava se concentrar apenas em seu trabalho no clube celta.

Sua estreia no comando da seleção aconteceu em 05 de outubro, dia do seu aniversário de 56 anos. Uma vitória por 3 a 2 sobre a Noruega diante de quase 66 mil torcedores acabou sendo o presente perfeito. Stein falhou na tentativa de classificar o país à Eurocopa de 1980, e com isso, voltou suas atenções às Eliminatórias para o Mundial de 1982. E obteve êxito. A Escócia se classificou no primeiro lugar de um grupo que contava com Irlanda do Norte, Suécia, Portugal e Israel. Uma vez na Espanha, entretanto, os escoceses acabaram desclassificados ainda na primeira fase, vencendo Nova Zelândia, perdendo para o Brasil e empatando com a União Soviética, encerrando sua participação no 15° lugar geral.

Os anos passaram, e o momento de Jock Stein sair da vida para entrar na história, chegou. Ele já havia “nascido de novo” em 1975, quando se envolveu num acidente de carro que o deixou gravemente ferido. Passou a temporada quase toda sem poder trabalhar, sendo seu assistente Sean Fallon o responsável por dirigir a equipe.

No dia 10 de setembro de 1985, a Escócia jogava em Cardiff, contra Gales, em partida que valia uma vaga na repescagem para a Copa do Mundo do ano seguinte. Stein, que já estava com uma saúde fragilizada, passava por uma forte pressão pela classificação. Sua atuação durante o confronto já chamava atenção. Estava muito calado e pouco gesticulava para seus atletas. A Escócia, que perdia o jogo por 1 a 0 e, consequentemente, a vaga, contou com um pênalti convertido por David Cooper nos minutos finais para confirmar o avanço, o qual Stein sequer comemorou.

Após o apito final, ele se dirigia ao banco de Gales para cumprimentar seus adversários. Foi quando caiu no gramado, vítima de um ataque cardíaco. Stein acabaria morrendo 30 minutos depois. Seu sucessor no cargo de técnico da seleção acabou sendo seu assistente, um ainda promissor Alex Ferguson. Sob seu comando, o selecionado bateu a Austrália na repescagem e garantiu um lugar no Mundial do México.

Jock Stein, Bill Shankly, Sir Matt Busby e Sir Alex Ferguson formam o quarteto mágico de técnicos escoceses. Entre outros vários títulos, eles conquistaram 36 campeonatos nacionais e quatro Champions League. Como não poderia ser diferente, Stein foi muito homenageado pelo clube celta, sua eterna casa. Além de dar nome a um dos setores do Celtic Park, em 2011 foi inaugurada, em frente ao estádio, uma enorme estátua de bronze em que o ex-técnico segura a taça da Copa dos Campeões de 1967. Em lista produzida pela France Football em 2019, ocupou o 34° lugar dentre os 50 maiores técnicos de todos os tempos.

Stein deve, por muito tempo, ter se considerado um “intruso” dentro do clube escocês por conta de sua religião. Entretanto, o que ele nunca escondeu foi o seu amor pela instituição. Em 1955, quando ainda era jogador da equipe e capitão, inclusive, falou o seguinte em uma reunião com os torcedores:

“Ao contrário de muitos outros celtas, eu não posso dizer que o Celtic foi o meu primeiro amor. Mas posso garantir que será o meu último”.


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Dyego Lima

Jornalista formado pela UFRN. Aficionado por esportes. Futebol principalmente, mas não somente. Made in Universidade do Esporte!  

Como citar

LIMA, Dyego. Jock Stein, o protestante que se tornou “Deus” entre os católicos. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 49, 2020.
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