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Jogos Políticos: a luta contra o apartheid

José Paulo Florenzano 5 de agosto de 2021

A Olimpíada de Tóquio de 1964 possui valor histórico por diversos motivos: foi a primeira a ser realizada no continente asiático; marcou a estreia do judô na competição e contou com a participação de dezoito novos países recém-emancipados do colonialismo europeu. Mas, principalmente, ela merece uma menção especial na história dos Jogos por se constituir no ponto de partida de um longo processo de luta contra os regimes políticos que praticavam abertamente a segregação racial, notadamente os da África do Sul e da Rodésia. 

O pano de fundo do combate travado dentro do movimento olímpico contra o racismo encontra-se caracterizado por uma série de processos convergentes, dentre os quais se destacam o avanço da descolonização no continente africano; a ascensão do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos; a radicalização da resistência negra na África do Sul, e, por último, mas não menos importante, o impacto simbólico da conquista da Copa do Mudo da Suécia, em 1958, por uma seleção brasileira composta por jogadores negros e brancos.[1] Em conjunto, tais processos desnaturalizavam a segregação racial nas equipes e competições, estabelecendo paulatinamente a antinomia entre esporte e racismo.

À luz do quadro acima esboçado, compreende-se, então, o vaivém das resoluções adotadas pela FIFA ao longo dos anos sessenta em relação à África do Sul: suspensa em 1961, ela viria a ser reintegrada dois anos depois, para, mais uma vez, acabar afastada em 1964, condição mantida até sua expulsão definitiva em 1976 no Congresso de Montreal.[2] Notemos a data inicial do processo. Ela está estreitamente ligada ao massacre de Sharpeville, ocorrido no dia 21 de março de 1960 em uma região localizada nos subúrbios de Joanesburgo. Durante uma manifestação pacífica contra a Lei do Passe, policiais abriram fogo contra homens e mulheres, ceifando a vida de mais de sessenta pessoas. A repercussão mundial ajuda-nos a compreender a mudança de postura do COI em relação ao apartheid (1948-1994).[3]

Se, nos Jogos de Roma, em 1960, a África do Sul se beneficiara da tolerância dos dirigentes da entidade para participar do evento esportivo, quatro anos depois sua presença já suscitava mal-estar e provocava questionamentos. À medida que as nações independentes do continente africano ingressavam nos Jogos Olímpicos, aumentava a pressão contra a participação dos países que inscreviam o racismo em suas constituições. Invocando, nesse sentido, o princípio olímpico que vedava a prática da discriminação por motivo de raça, credo religioso ou filiação política, em 1964 o presidente do COI era levado pelo novo contexto histórico a cobrar  o alinhamento da África do Sul e da Rodésia ao aludido princípio.

Mas enquanto a Rodésia submetia-se à exigência da entidade, incluindo em sua delegação negros simbólicos para driblar a ameaça de expulsão, a África do Sul assumia uma posição irredutível, recusando-se a enviar para Tóquio uma delegação mista.[4] Dessa maneira, sem outra alternativa, Avery Brundage via-se constrangido a retirar o contive ao “País do Homem Branco”, deixando-o de fora dos Jogos de Tóquio.[5]

Avery Brundage foi o quinto presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI).

Avery Brundage, no entanto, tomava a decisão a contragosto, praticamente se desculpando por adotá-la, uma vez que não se sentia tão distante assim da visão de mundo do apartheid. Não por acaso, quatro anos depois, ele tentaria reintegrar a África do Sul aos Jogos Olímpicos do México, sob o argumento capcioso segundo o qual não caberia ao COI interferir nos assuntos internos dos países membros. A reação do movimento antirracista foi imediata. O Comitê Americano pela África, de um lado, e o Conselho Superior para o Esporte na África, de outro lado, somaram esforços para barrar o reingresso da África do Sul, exigindo, ao mesmo tempo, a expulsão da Rodésia.[6] Os gestos simbólicos de Tommie Smith e John Carlos se inscrevem nessa moldura mais ampla, remetendo tanto ao embate interno contra o racismo nos Estados Unidos, quanto à solidariedade translocal com os “irmãos negros” na África.[7]

A vitória do movimento antirracista nos Jogos do México, no entanto, não encerrava a disputa inaugurada em Tóquio. A edição seguinte da Olimpíada, realizada em Munique, constituir-se-ia no capítulo mais espetacular da história dos boicotes esportivos. À esta altura, 1972, a África do Sul já era carta fora do baralho. No Congresso de Amsterdam, promovido dois anos antes, os membros do COI haviam decidido a sua expulsão do movimento olímpico.[8] Restava, porém, a questão da Rodésia. Em 1972, ela desembarcava em Munique com uma delegação formada por trinta e oito atletas brancos e oito atletas negros, reeditando a estratégia utilizada em Tóquio para camuflar o racismo no país. Porém, ninguém mais se deixava iludir pela camuflagem.

A seis dias do início dos Jogos, os comitês nacionais dos países africanos apresentaram um ultimatum ao COI: ou a expulsão da Rodésia ou o maior boicote da história do esporte, uma vez que a proposta contava com o apoio dos quarenta atletas afro-americanos da delegação dos Estados Unidos, além do respaldo dos países que integravam o bloco soviético.[9] Em uma reunião do Conselho Executivo organizada às pressas, e à revelia da posição defendida pelo presidente do COI, a retirada da Rodésia dos Jogos de Munique foi decidida por trinta e seis votos a favor, trinta e um votos contra e três abstenções.[10] “Puseram-nos um revólver na cabeça”, desabafava Avery Brundage, derrotado pelos novos rumos do movimento olímpico.[11] De fato, em 1975, no Congresso de Lausanne, os integrantes do COI consumaram a expulsão da Rodésia, enquanto em um concerto histórico, realizado pouco depois, Bob Marley exortava ao combate mais amplo, cantando para o público reunido no estádio Rufaro: “Africanos, libertem o Zimbabwe”.[12] 

Ora, a luta antirracista parecia concluída com êxito: o apartheid, tanto em sua versão sul-africana, quanto em sua versão rodesiana, estava definitivamente banido do evento esportivo. Sendo assim, como justificar, quatro anos depois, um novo movimento de boicote nas Olimpíadas? Em 1976, o Conselho Superior para o Esporte na África exigia a expulsão da Nova Zelândia dos Jogos de Montreal, sob o argumento de que o time de rugby do país – conhecido pelo epíteto de All Blacks – havia excursionado pela África do Sul para enfrentar o Springboks, seleção nacional composta, à época, apenas por atletas brancos.[13] O COI, no entanto, já sob a presidência de Lord Killanin, recusava-se a acatar a exigência dos países africanos com base no seguinte arrazoado: 1) a Nova Zelândia não praticava o apartheid; 2) o rugby não era então um esporte olímpico; 3) a federação de rugby da Nova Zelândia não era filiada ao comitê olímpico do país; 4) o COI já tinha determinado a expulsão tanto da Rodésia  quanto da África do Sul.[14]

Com efeito, ao contrário do que se verificara em Munique, não houve desta feita consenso em Montreal em torno da proposta, nem por parte dos países africanos, nem por parte dos atletas afro-americanos. De um modo geral, os pesquisadores interpretaram o boicote de 1976 como uma “reivindicação descabida”.[15] O veredicto, porém, não leva em consideração um fato importante para a análise da questão. Senão, vejamos.

No dia 16 de junho, um mês antes do início da Olimpíada de Montreal, estudantes do ensino médio do Soweto saíram às ruas para protestar contra a política educacional do apartheid. Enquanto os helicópteros sobrevoavam a multidão, os agentes da ordem lançavam gás lacrimogênio e, logo em seguida, disparavam armas de fogo, assassinando mais de vinte manifestantes, dentre os quais Hector Petersen, jovem adolescente de treze anos cuja imagem converter-se-ia no símbolo da barbárie racial no “País do Homem Branco”.[16]

A foto do corpo de Hector Petersen, carregado já sem vida nos braços de um companheiro de escola, viajaria o mundo, causando indignação por toda parte, inclusive em Montreal onde as delegações africanas se preparavam para o evento esportivo. Porém, face à imagem icônica do jovem abatido pela aparato repressivo do regime racista, impunha-se uma resposta de repúdio, imediata e veemente. Nesse sentido, nada mais apropriado do que utilizar a audiência global proporcionada pelos Jogos Olímpicos. Vista sob a perspectiva do Levanto do Soweto, a proposta do boicote de 1976 adquire inteligibilidade política, justificativa moral e significado histórico. Não se tratava de mero capricho dos comitês nacionais liderados pelo Conselho Superior para o Esporte na África, porquanto, sem dúvida, possamos discutir se a estratégia adotada era de fato a mais indicada para responder à violência perpetrada pela polícia do apartheid.

A luta antirracista não foi travada sem equívocos e sacrifícios. Basta pensarmos nos atletas africanos que já se achavam alojados na Vila Olímpica de Montreal e que não tiveram outra alternativa senão abandonar os sonhos pessoais em nome de uma causa com a qual, de resto, concordavam plenamente. Impossível escapar as contradições. Todavia, para além dos equívocos, sacrifícios e incongruências, devemos reconhecer o valor histórico do movimento político iniciado em 1964, em Tóquio, e concluído em Montreal, em 1976, período ao longo do qual os regimes segregacionistas da Rodésia e da África do Sul foram contestados e expulsos dos Jogos Olímpicos.


[1] Em outubro de 1964, os valores morais defendidos pelo movimento dos direitos civis adquiriam projeção internacional ainda maior com a escolha de Martin Luther King para o Prêmio Nobel da Paz. Cf. “Martin Luther King Wins the Nobel Prize for Peace”, The New York Times, 15 de outubro de 1964. Internamente, interligado à luta do referido movimento, avançava a integração racial nas modalidades esportivas dos Estados Unidos, iniciada em 1947 com a presença do atleta negro de beisebol, Jackie Robinson no Brooklyn Dodgers. Cf. “Jackie Robinson: ´a Love Negro`in Major League Baseball”, Jules Tygiel. In: “Sport and the color line: Black Athletes and Race Relations in Twentieth-Century America.” Edited by Patrick B. Miller & David K. Wiggins. New York and London: Routledge, 2004.

[2] Bolsmann, Chris. “White Football in South Africa: empire, apartheid and change, 1892-1977”. In: “South Africa and the Global Game: Football, Apartheid and Beyond”. Edited by Peter Alegi and Chris Bolsmann, New York. Rutledge, 2010.

[3] Cf. Florenzano, José Paulo. “Brasil e África do Sul: o futebol-arte no campo do apartheid”. In: “Futebol objeto das Ciências Humanas”. Organizadores: Flávio de Campos e Daniela Alfonsi. São Paulo, Leya, 2014.

[4] A rigor, em Tóquio, participavam a Rodésia do Norte, capital Lusaka, e a Rodésia do Sul, capital Salisbury. Ainda durante a Olímpiada, a primeira selava a transição política negociada com a Inglaterra, renascendo como República da Zâmbia. A partir daí, haveria apenas uma Rodésia, a liderada por Ian Smith, que declarava, em 1965, a independência da Inglaterra como forma de manter a dominação da minoria branca, cujos interesses ele representava.

[5] Cf. “Olympics Rebuff South Africans”, The New York Times, 28 de janeiro de 1964.

[6] O Comitê Americano para a África foi organizado pelos atletas afro-americanos em solidariedade à luta contra o apartheid. Cf. Roos, Alexandre.Les athlètes africains-américans et les mouvements pour l`égalité raciale.” Paris, L´Harmattan, 2006.

[7] Cf. “Rhodesia Issue Studied as Ethiopians Set Flight Home”, The New York Times, 21 de agosto de 1972.

[8] Cf. “South African Teams Expelled from all Olympic Competition”, The New York Times, Michael Katz, 16 de maio de 1970. Tratava-se do 69º Congresso do COI realizado na cidade de Amsterdam. Conforme observava o correspondente do jornal estadunidense: “Essa é a primeira vez que uma nação foi expulsa do movimento olímpico desde que o Barão Pierre de Coubertin reviveu os jogos em 1896”. 

[9] Os atletas afro-americanos publicaram um manifesto no qual constava a seguinte declaração: “Nós denunciamos a participação da Rodésia. E firmamos uma posição ao lado dos nosso irmãos africanos”. Cf. “Negros norte-americanos aderem ao boicote africano”, Jornal do Brasil, 19 e agosto de 1972. Como nos mostra a pesquisa de Sérgio Giglio, os atletas brasileiros também foram procurados pelos jornalistas sobre a questão rodesiana, mas receberam a ordem do supervisor militar, Luís Carlos Calomino, de “calar” sobre o assunto. “A História  Política do Futebol Olímpico (1894-1988)”. Giglio, Sérgio Settani. São Paulo, Fapesp/Intermeios, 218, p.294

[10] Cf. “Rhodesia Out of Olympics After a Dispute on Racism”, The New York Times, Neil Amdur, 23 de agosto de 1972. Avery Brundage defendia a permanência da Rodésia com base no mesmo argumento utilizado em 1968 em favor da África do Sul: “não se deve misturar esporte com política”. Já por ocasião de sua chegada à Munique, ao ser interpelado sobre a organização do boicote, foi taxativo: “Isto é política, pura política e nós não tratamos disso”. Cf. “Brundage repele boicote africano”, Jornal do Brasil, 16 de agosto de 1972.

[11] Cf. “Avery, a tristeza na despedida”, Jornal do Brasil, 24 de agosto de 1972.

[12] Bob Marley & The Wailers, música “Zimbabwe” do Álbum “Survival”, 1979. A festa de independência do Zimbabwe, em 1980, foi marcada por vários eventos, como, precisamente, o show de Bob Marley no estádio Rufaro, na capital Harare. 

[13] Cf. “22 African Countries Boycott Opening Ceremony of Olympic Games”, The New York Times, Steve Cady, 18 de julho de 1976.

[14] Sérgio Settani Giglio, op. cit., p.306.

[15] Cardoso, Maurício. “Os arquivos das Olimpíadas”. São Paulo, Editora Panda, 2000, p.327.

[16] Korr, Chuck with Close, Marvin. “More Than Just a Game. Soccer vs. Apartheid: The Most Important Soccer Story Ever Told”. New York, St. Martin`s Press, 2010, p.227.

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José Paulo Florenzano

Possui graduação em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1994), mestrado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (1997), doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (2003), e pós-doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Doutorado do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2012). Atualmente é coordenador do curso de Ciências Sociais e professor do departamento de antropologia da PUC-SP, membro do Conselho Consultivo, do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, em São Paulo, membro do Conselho Editorial das Edições Ludens, do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre o Futebol e Modalidades Lúdicas, da Universidade de São Paulo, e participa do Grupo de Estudos de Práticas Culturais Contemporâneas (GEPRACC), do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Tem experiência na área de Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia Urbana, Sociologia do Esporte e História Política do Futebol, campo interdisciplinar no qual analisa a trajetória dos jogadores rebeldes, o desenvolvimento das práticas de liberdade, a significação cultural dos times da diáspora.

Como citar

FLORENZANO, José Paulo. Jogos Políticos: a luta contra o apartheid. Ludopédio, São Paulo, v. 146, n. 10, 2021.
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