Johnson Macaba: o futebol como ponte entre a guerra e o sonho
Imagine que você tem 8 anos e a guerra civil assola o seu país. A vida fica mais difícil, os dias tornam-se mais complexos que as “peladas” nas ruas de terra batida que você joga com seus amigos, e a conclusão é de que o seu lugar, que é a sua própria terra natal, não é mais segura. Johnson Monteiro Pinto Macaba, Viveu essa experiência na própria pele.
Nova casa, o bullying e a ponte para o sonho
Angola vivia tempos difíceis e a guerra civil, que começou em 1975 e durou até 2002, trouxe o jovem Johnson e sua família para o Brasil em janeiro de 1987. A família estabeleceu-se em São Bernardo, no ABC Paulista, onde viveu a maior parte da sua infância. Além da saudade, Johnson conviveu com o bullying pelo fato de ser gago.
Todo o cenário de horror e as dificuldades, não tiraram do jovem o sonho de voltar ao seu país natal e ser um jogador dos Palancas Negras.
O futebol foi a ponte para que Johnson Macaba voltasse à sua terra novamente e se tornasse um exemplo para muitos jovens no Brasil e em Angola.
O início e o sonho
Johnson passou por 13 clubes brasileiros além da Portuguesa. A história do atacante no futebol brasileiro começou no Esporte Clube São Bernardo, em 1998, quando se profissionalizou.
Ali ele dava o primeiro passo para realizar o sonho de voltar ao seu país e representar a seleção angolana. Porém, antes de realizar o seu sonho, Johnson tornou-se personagem de uma das histórias mais inusitadas do futebol brasileiro.
Atacante (infelizmente) “matador”
Em 2000, o atacante angolano era jogador do Londrina. O “Tubarão” vivia uma fase muito ruim no Campeonato Brasileiro, ao qual não pontuava há 4 partidas. É nesse cenário que Johnson Macaba recebeu uma oportunidade e marcou o gol que encerrou aquele jejum do clube paranaense.
O inusitado da história é que, na arquibancada, um diretor do clube acompanhava a partida e no momento do gol do nosso personagem o mesmo teve um mal súbito e faleceu.
Esse gol tornou Johnson conhecido e o colocou no radar de outros clubes do Brasil e ainda mais próximo do seu objetivo.
O passaporte na camisa
Em 2001, Macaba chega ao União Barbarense para a disputa do Campeonato Paulista.
A transferência para São Paulo era estratégica, pois o que acontecia ali era transmitido para o mundo inteiro.
Naquele Paulistão de 2001, o Palmeiras passou impiedosamente pelo time de Johnson. 5 a 1, fácil e inapelável. Esse “1” no placar, o gol do União Barbarense, parece sem valor, inútil até. Mas esse foi o gol que carimbou a chegada de Johnson Macaba à seleção angolana.
O atacante marcou o gol de honra de seu time e, na comemoração, ele foi para a câmera, levantou a camisa do clube, e mostrou a camisa que tinha por baixo, onde estava uma bandeira da Angola.

A imagem da comemoração correu o mundo e não demorou muito para que o atacante fosse chamado para representar os Palancas Negras nas Eliminatórias para o Campeonato Africano das Nações e a Copa do Mundo.
A história de Johnson Macaba na seleção inclui a disputa dos CANs de 2006 e 2010. Ele esteve na pré-lista do grupo que jogou a única Copa do Mundo disputada por Angola, em 2006, na Alemanha, mas foi cortado pelo técnico Oliveira Gonçalves.
Portuguesa, Girabola
Johnson peregrinou por todo o Brasil, mas talvez o seu momento mais marcante foi na Portuguesa. Lá ele formou um ataque que contava com Leandro Amaral e Celsinho. Aquela Lusa quase subiu para primeira divisão na série B de 2005 do Campeonato Brasileiro.

Em 2009, um momento especial. Johnson teve a oportunidade de jogar o Girabola. Ele teve uma curta passagem pelo Recreativo do Libolo que seria vice-campeão angolano naquele ano. A sua estreia foi com gol. Definindo uma partida contra o Santos FC aos 82 minutos da peleja.
Fim de carreira, negócios e palestras
Depois disso, Johnson continuou sua peregrinação pelo Brasil e o mundo. Antes de encerrar sua carreira, ele jogou no futebol chinês entre 2011 e 2012. Lugar onde já havia sido artilheiro em 2008.
Johnson encerrou sua carreira aos 34 anos no Atlético Sorocaba e hoje em dia tem negócios em Angola e faz palestras para jovens no Brasil. Ele mostra que sonhos são possíveis até mesmo para refugiados de uma guerra civil.

Do menino que tinha na cabeça a história do Santos de Pelé que parou uma guerra no Congo, até o adulto jogador da seleção de Angola, Johnson percorreu um caminho longo, um caminho de paixão e ousadia, que lhe rendeu um legado.