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Justin Fashanu e o exercício de escrita política: “para fazer com que o amanhã não seja o ontem”

Situar-se contra o mundo, tramar o seu fim para que outros mundos possam vir a ser possíveis. A necessidade de que esse mundo acabe como condição para o fim das violências do racismo e da homofobia, por vezes nos atravessa de modo a sentirmos que o que deve acabar somos nós mesmo. A morte entra pela soleira de nossas portas e pousa em nosso peito, dando-nos a sensação de que morrer seria o melhor remédio. Cada uma de nós cria as suas próprias estratégias para o diálogo com a vontade de morrer, algumas de nós sucumbem a essa vontade e se entregam. A vontade de morrer não é nossa, é desse mundo. É o mundo branco que deseja nossa morte, que deseja perpetuar-se por meio do privilégio de poucos em detrimento de muitos (VEIGA, 2019, p. 91).

Algumas pessoas insistem em acreditar que nada acontece por acaso. De forma despropositada o texto que se propõe a tratar da intersecção entre raça e sexualidade, sem esquecer os demais marcadores sociais da diferença, foi escrito no mês do Orgulho LGBTI+ e prontamente publicado. Assim, constitui-se como uma tentativa de continuar debates tão fundamentais. E que responsabilidade colocar em pauta grandes tabus do mundo futebolístico.

Apontar questões étnico-raciais, classistas, de diversidade sexual e de gênero entrelaçadas ao futebol, segue não sendo confortável para quem se dedica a construir-discutir o tema. Ainda que haja uma crescente nas abordagens que buscam contemplar as experiências que partem dessas articulações, como pluralidades que não cabem nesse singular universalizante do futebol. Essa encrenca parece acontecer porque, apesar das disputas, as versões oficiais que se perpetuam são elaboradas por sujeitos que pouco representam a maioria da população da “Pátria de Chuteiras”. E, por não ignorar que esses conflitos podem recolocar as noções outrora legitimadas, seguimos abordando os temas “espinhosos”. Tendo em vista, inclusive, nesse caso, a dificuldade de tratar as interseccionalidades sem partir de uma somatória de categorias, como costumeiramente se faz para amenizar a culpa(!).  

Poderíamos nos limitar à lógica de seguir traçando panoramas dos racismos e LGBTIfobias que aparecem por vezes articulados nesse contexto, sem pensar na importância das pessoas envolvidas nessas histórias. Essa proposta nos acompanha como um constante incômodo na feitura do texto, tendo em vista, como ressalta Viviane Vergueiro (2020), a linha tênue que divide a mobilização de dados para construção de ações de enfrentamento às violências e a espetacularização do sofrimento. Ainda assim, acreditamos ser importante recontar histórias cujas versões “oficiais” são deveras enviesadas pela e na “tradicionalidade” do futebol – forjada, também, a partir de atualizações de uma cisheteronorma branca. Dessa forma, nos alinhamos ao pressuposto ético e político da produção de conhecimento defendido por Barbara Pires (2020):

Acredito que nossa tarefa tanto científica quanto política é de tentar sustar, ou ao menos de denunciar, essa sistemática sujeição e regulação dos corpos de cor, dos corpos femininos e dos corpos sexualmente diversos em bases valorativas bem particulares que se tornam tão desiguais a ponto dessas corporalidades serem expostas a formas de violências e de humilhações consideradas “necessárias, razoáveis e proporcionais” pelos órgãos de controle e de justiça (PIRES, p. 262-263, 2020).

A história que nos propomos a recontar é a de Justinus Soni Fashanu ou, simplesmente, Justin Fashanu. Também por obra do acaso (ou não, impossível ter uma resposta definitiva…), a escrita deste ensaio acontece no ano em que Fashanu estaria completando 60 anos de idade. Então, de alguma forma, achamos que é justo assumir que estamos prestando uma homenagem à sua memória e legado.

Ele já foi tema de outros textos publicados no Ludopédio, de autorias diversas, como Wagner Xavier Camargo e Thiago Rosa, por exemplo, além da resenha do documentário – “Forbidden Games: The Justin Fashanu Story”[1]-, elaborada por Victor de Leonardo Figols. Um ponto em comum destes escritos, presente também em boa parte dos materiais disponíveis na internet sobre o jogador, é a centralização de sua história nas dinâmicas relacionadas à sua sexualidade. É realmente memorável que ele tenha sido o primeiro jogador da elite do futebol inglês a se assumir homossexual. Entretanto, cabe lembrar que além de gay, Justin também era um homem negro, descendente de migrantes e que pode ser considerado um ícone futebolístico do final da década de 1970 e durante os anos de 1980. E, como se não bastasse todos os pioneirismos, Justin Fashanu foi o primeiro jogador negro a ser transferido de clube pelo valor de um milhão de libras.

Justin Fashanu
Pôster do filme Forbidden Games: The Justin Fashanu Story. Fonte: Divulgação

Tendo em vista a visibilidade que alcançou e por ser uma figura disruptiva naquele momento, neste ensaio, parece-nos importante complexificar a narrativa hegemonizada sobre este atleta. E, deste modo, nos parece importante, pois, destacar o contexto no qual construiu sua carreira futebolística. Todavia, recontar essa história carrega algumas dificuldades particulares. A mais complicada, dentre elas, é a reconstrução de uma narrativa que não pode contar com o relato do seu protagonista. Quais os efeitos de fazer circular versões tão controversas das vivências desse jogador, com status de verdade? O que se articula nessas construções narrativas?

Isto posto, podemos elencar alguns marcos como fio da tessitura que buscamos descortinar. Justin Fashanu nasceu em Londres no dia 19 de fevereiro de 1961. Ele e seu irmão John eram filhos de imigrantes – mãe guianense e pai nigeriano -, e foram adotados após o divórcio de seus pais, por uma família britânica branca. Essa diferença- desigualdade, que impossibilitava identificações e o reconhecimento da pertença, tinha efeitos concretos sobre a sociabilidade dos irmãos Fashanu. Eles encontraram no ambiente social e de lazer do futebol um cenário menos controverso para se ambientar no bairro onde moravam. Desde muito jovem, Justin parecia se destacar nas contendas futebolísticas, o que atraiu o  interesse de um olheiro do Norwich City que, impressionado com a habilidade do jovem de então 17 anos, o convenceu a atuar profissionalmente pelo clube. 

Fashanu, deste modo, teve uma curta passagem pelas divisões de base e ascendeu para o time profissional do Norwich em 1978. Em três temporadas pelo clube, marcou 40 gols e chegou a ser convocado para jogar no time sub-21 da Inglaterra. Sua visibilidade tornou-se ainda maior após o bom desempenho em 1980-1981. Foram 19 gols anotados nesta edição do Campeonato Inglês, além de ter marcado o gol da temporada contra o poderoso Liverpool – equipe campeã daquela edição da Copa dos Campeões da UEFA. 

Ao final do período de competições, Fashanu foi contratado pela tradicional equipe do Nottingham Forest. Neste clube, além de lesões e infortúnios que são próprios da carreira de qualquer jogador de futebol profissional, foi ficando mais evidente a rejeição do campo futebolístico e da opinião pública à sua visibilidade como um futebolista negro, rico e bem sucedido. 

Antes de seguirmos com essa linha (torta) do tempo, cabem alguns apontamentos relevantes. Em sua tese de doutorado sobre a experiência de jogadores brasileiros negros que migraram e fizeram carreira em clubes estrangeiros, o colega Marcel Diego Tonini faz uma extensa contextualização histórica para pensar o racismo e xenofobia sofridos por jogadores negros que atuaram na Europa. O decurso entre o fim dos anos 1960 e início da década de 1970, principia a abertura do mercado do futebol inglês para a entrada de futebolistas negros, provenientes, naquele momento, em sua maioria, de colônias e ex-colônias britânicas. De acordo com Marcel, “cânticos racistas, urros de macacos e bananas atiradas ao campo foram fatos recorrentes durante todos aqueles anos” (TONINI, 2016, p. 129). Embora tenha ocorrido o gradual aumento da presença de futebolistas negros nos principais clubes ingleses, os mesmos “negros não contavam com qualquer respaldo das autoridades esportivas frente ao racismo recrudescente” (TONINI, 2016, p. 130). Tais cenários evidenciam o colonialismo e a branquitude como “princípios definidores de uma identidade coletiva desejada” pelo campo futebolístico britânico, tendo o preconceito racial como um “valor compartilhado” (TONINI, 2016, p. 132). 

Na fantasia ocidental, o humano (homo) é sujeito da razão e a razão é helênica ou européia: a liberdade, permitida pela razão, representa o distanciamento entre o homem e a natureza. […] Contudo, nesta narrativa, as pessoas que descendem da África não são homens (nem no sexo, nem no gênero), pois não romperam com a natureza; são corpos selvagens e incivilizados, e não sujeitos de si. São apenas escravos dos desejos dos verdadeiros sujeitos – os brancos (FAUSTINO, 2019, p. 15).

Além disso, Tonini (2016) ressalta que o processo de abertura do futebol inglês (e europeu como um todo) para a contratação massiva de atletas estrangeiros ao longo dos anos, deu também vazão para um recrudescimento de lógicas nacionalistas conservadoras. Essa crescente fez do futebol “…uma arena pública singular para a disseminação e a prática do racismo” (p.28). Isso se consolida por meio da fabricação de “máximas”, vigentes até a atualidade, cujo mote era forjado na ideia do futebol como uma forma de suspensão da realidade. E, posto isto, portanto, as ações ocorridas nesse contexto só poderiam ser interpeladas ou guiadas por normativas próprias desta fantasia. Em suma, eram formas de elaborar argumentos facilitadores para as expressões de preconceitos, ódios e violências. Mas não parecia ser suficiente essa permissividade.

Além de ter se mostrado como um das poucas instituições sociais que deu vazão e visibilidade a essas pulsões de grupos intolerantes na sociedade contemporânea, o futebol através de suas entidades pouco fez para combater o racismo, oferecendo, quando não ignorou, punições brandas aos insultantes, fossem torcedores, jogadores, treinadores ou dirigentes. (TONINI, 2016, 136)

Todo esse cenário destacado, que toma novos contornos na contemporaneidade, apontam para uma possibilidade de subjetivação vinculada a presença de um sujeito “muito-humano”,[2]universal, tomado como referência. Essa humanidade garantida passava por dimensões étnico-raciais, à medida que era encarnada na branquitude. E, desta maneira, o destaque de Justin Fashanu subverte a lógica num processo quase paradoxal: ele era reconhecido como o que não se poderia ser. Não era exceção a uma regra, ele era a falha da regra branca que objetivava limitar as contingências para a realidade das pessoas negras. 

Justin Fashanu
Fonte: Reprodução Twitter

Voltando à história, sem perder de vista essa circunscrição de experiências não hegemônicas, é durante o curto período em que jogou pelo Nottingham Forest que parecem ganhar maior evidência os questionamentos acerca do “comportamento extra-campo” de Fashanu, considerado inadequado para o que se esperava de um jogador de futebol masculino. Nas narrativas que reconstituem a carreira de Fashanu, ao se referirem à sua passagem pelo Nottingham Forest, são comuns as menções ao fato do jogador frequentar assiduamente bares e boates gays locais. Esta prática é evocada como um dificultador para sua permanência e bom rendimento na equipe, além de ter sido preponderante para o desgaste de sua relação com o então técnico do time.

Importante aqui também relembrar que a “prática” da homossexualidade entre homens – como se a sexualidade pudesse ser resumida e delimitada na forma de “prática” – por séculos foi considerada crime “contra a natureza” no Reino Unido. Apenas em 1967, com a promulgação do “Sexual Offences Act 1967”, que a Inglaterra e o País de Gales legalizaram atos sexuais na condição de que eles fossem consensuais e envolvessem dois homens com idade a partir de 21 anos, em ambiente privado. Além de ser bastante específica quanto às formas consideradas lícitas de homossexualidade, para Peter Tatchell (2017), a nova legislação ficou muito longe de romper com uma cultura profundamente LGBTIfóbica do país, até contribuindo, em muitas situações, para fomentar a repressão social às sociabilidades homoafetivas em espaços públicos.

A discriminação homofóbica na habitação, no emprego e no fornecimento de bens e serviços no cotidiano permaneceu, sem qualquer proteção legal contra ela até entre 2003 e 2007. Pessoas tiveram seus empregos negados ou foram demitidas por causa de sua orientação sexual e identidade de gênero. Outras foram recusadas ​​ou despejadas de acomodações alugadas. Algumas foram rejeitadas em pubs e restaurantes. Pais gays e mães lésbicas perderam a custódia de seus filhos em casos de divórcio, sem qualquer tipo de reparação legal (TATCHELL, 2017, tradução nossa).

Trazer este contexto é importante para entender a rejeição do campo futebolístico e da opinião pública à performatividade de Justin Fashanu, lida como destoante do padrão de um jogador de futebol. Se no futebol masculino – por tanto tempo caracterizado pela reverência à virilidade e a depreciação do adversário, o outro, pela sua feminização – é aceito e até esperado que um jogador profissional possa se embebedar na companhia de outros homens ou ostente publicamente a conquista sexual de muitas mulheres cisgêneras, é motivo de afronta e consternação pública que um jogador seja visto ou passe a ser associado a ambientes frequentados por pessoas LGBTI+. 

E aqui parece se forjar uma operação atravessada pelo gênero, sexualidade, raça e etnia. A indignação passa por todos esses eixos, que parecem desconsiderados nas análises dessa história . É possível pensar que a trajetória de Justin Fashanu como um homem negro e gay que rapidamente obteve sucesso profissional (e que perdeu tal prestígio quase que na mesma velocidade), passa pela chave da “dupla diáspora” (Veiga, 2018). Essa proposta de entendimento construída por Lucas Veiga (2018), para entender as experiências de homens negros em contextos urbanos brasileiros, nos permite alguns pontos de toque:

A descoberta da homossexualidade pelos garotos negros […] os faz experimentar uma segunda diáspora porque os retira novamente da possibilidade de serem integrados e acolhidos, mas de uma forma ainda mais nociva, posto que esta segunda barreira à aceitação acontece em seus próprios quilombos, ou seja, em sua família em sua comunidade, e até mesmo nos movimentos negros. Assim, um impasse é colocado às bixas pretas: negar a própria sexualidade e aderir à masculinidade heternormativa para se proteger e preservar o amor de seus pares ou afirmar a própria sexualidade e ficar desprotegido, correndo o risco de não ser aceito em seu próprio espaço familiar de pertencimento. Qualquer uma dessas escolhas implica em sofrimento, em ambas é o “afeto-diáspora” que comparece e se desdobra em ansiedade, resignação ou depressão (VEIGA, p.83).

Complexificando ainda mais essa dupla diáspora, podemos desdobrá-la em outras mais, num contexto em que a violência era parte constituinte da lógica estatal: racismo não era passível de punição naquele período, sendo inclusive um tabu à boa parte do parlamento e da sociedade britânica. Além disso, temos o gênero interseccionado também à raça e que se entrelaça à masculinidade. Isso, porque as construções de masculinidade para homens negros cisgêneros passa por lógicas de animalização vinculadas à genitália e à atividade que se estabeleceria no descontrole (DAVIS, 2018). Em contrapartida, quando a questão étnica entra em cena, poderíamos nos deparar com uma suposta passividade atribuída aos homens negros em decorrência da colonialidade e lógicas escravocratas[3](KIMMEL, 1998). 

Toda essa irracionalidade vinculada à masculinidade cisgênera negra é operada tanto na lógica da submissão – a partir da elucidação de supostas múltiplas tentativas de adequação de Justin Fashanu às expectativas da branquitude -, quanto nessa suposta ação retratada como fruto do descontrole e da hiperssexualização. Ainda que tenha rompido com uma série de ideações, a esta última produção discursiva, especificamente, Fashanu não conseguiria escapar. Era muita subversão para que passasse ileso e ele sabia disso. 

Justin Fashanu
Fonte: Reprodução

Em 1990, ele assume publicamente sua homossexualidade em uma entrevista ao tablóide The Sun. E a partir daí ele começa a ser ignorado e abandonado pelos clubes, que receberam de forma raivosa a sua “saída do armário”. E aqui cabe ressaltar que se é frequente as pessoas se sentirem no direito de questionar a sexualidade alheia, no caso de alguns corpos isso se intensifica. Isso era uma realidade na vida de Fashanu mesmo antes da publicização de sua homossexualidade. Com a desculpa de ser um treinador conservador, no que tange a dedicação ao esporte, Brian Clough, treinador do Nottingham Forest à época, baniu a participação do jogador no clube, acionando até mesmo a polícia.. Como se não bastasse o ódio de treinadores, demais jogadores e do próprio irmão, Justin Fashanu teve que lidar com um escândalo que envolvia a morte de um membro do parlamento inglês em que foi elencado como suspeito, mesmo sem nenhuma aparente ligação com a vítima. E assim, as lógicas racistas e homofóbicas foram sendo conjuntamente tecidas para direcionar seu futuro. Em 1993, ele se mudou para os Estados Unidos, após sua carreira ser minada no futebol inglês. Em 1997 inicia sua carreira como treinador do Maryland Mania e, no ano seguinte, é acusado de estupro por um jovem de 17 anos. 

Um homem, negro, migrante, num estado que considerava a homossexualidade como  crime… Ele alegou consensualidade, mas o julgamento já havia sido feito. Ele retorna ao Reino Unido com medo da prisão e reafirmando sua inocência, mas o caso não seria tão facilmente esquecido. Ele foi assassinado em 02 de maio de 1998 numa garagem, onde se enforcou com fio elétrico. 

Os “desvios” não passariam impunes, mas ele simbolicamente não poderia ser apagado. E, talvez pela percepção de que ele representava muitos, o assassinato foi a forma de garantir que as normas que ele violava não seriam rompidas. 

Justin Fashanu é, ainda nos dias atuais, um ícone quando se pensa na homossexualidade, mas, mais que isso, na homossexualidade negra no contexto do futebol. Seu nome é símbolo de uma resistência ainda complexa no futebol, onde ele acaba tendo a força de um levante, para fazer analogia à Revolta de Stonewall. E, assim, em 2020, por exemplo, foi criada a Fundação Justin Fashanu, que busca educar sobre a diversidade (e menciona diretamente questões étnico-raciais), bem como acolher vítimas de preconceito no contexto futebolístico, garantindo uma prática cada vez mais democrática. 

E por isso, quando iniciamos o texto, mencionamos o risco de que sua história fosse somente lida a partir da dissidência sexual. Não é no sentido de ignorar o quanto isso impacta seu processo de subjetivação, mas de perceber que a operação que forja sua vida, incluso no seu ambiente profissional, é múltipla. Os pedágios que ele teve de pagar por ser o jogador negro de um milhão de libras e o primeiro jogador profissional a se assumir gay publicamente, custaram alto demais.  Não é possível apagar nenhuma dessas dimensões que o atravessavam,  porque entender sua história é não se render às fragmentações que nos capturam. Fazer isso é limitar, mais uma vez, a construção da alteridade, como menciona Fanon (2008). Entrecortar essa experiência é reforçar que não há Outro legítimo e inteligível como um todo. É contar uma história a partir do universal como referente: um universal que tem gênero, sexualidade, raça, classe, etnia. 

Tem feridas não cicatrizáveis nessa história.  E, justamente por isso, sabemos, tentamos recontá-la da forma mais responsável possível, assumindo um certo risco de espetacularização de dores alheias, ao evocar as memórias doídas de Justin Fashanu. No entanto, a máxima tentativa deste exercício compartilhado de escrita é de que “o amanhã não seja o ontem com um outro nome”.[4]

 

Notas

[1] Documentário da Netflix de 2017, dirigido por Jon Carey e Adam Drake.  

[2] Termo cunhado por Ailton Krenak (2020) ao se contrapor às lógicas de hierarquização das humanidades, sendo a referência de “muito humano” a hegemonia da branquitude pautada pela suposta civilização que passa pela tecnologia, tecnocracia e poder – controle -, em contraposição aos “pouco humanos”, que fazem resistência a estas construções, os explorados e dizimados após implementação da “Era do Antropoceno”.

[3] Importante mencionar isso a medida em que há uma mudança na legislação garantidora de cidadania na Inglaterra. No período de nascimento de Justin Fashanu, se estendendo até 1983 a política de cidadania era jus soli. Ou seja, era considerado cidadão inglês quem nascesse em território inglês. Essa medida foi estabelecida em decorrência das lógicas coloniais que facilitariam a permanência nos territórios invadidos. Entretanto, após 1983, essa normativa tornou-se restritiva: a atribuição de cidadania pela territorialidade se restringia a nascidos que tinham pelo menos um dos responsáveis legais – nas lógicas de parentalidade – cidadãos ou residentes regulamentados na Inglaterra. Para saber mais sobre o tema basta acessar: site 1site 2.

[4] Referência à música AmarElo, composta por Emicida em 2019, num sample com a canção “Sujeito de Sorte” de Belchior e interpretada pelo próprio compositor em parceria com Majur e Pabllo Vittar.

Referências

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.

FAUSTINO, Deivison Mendes. Prefácio. In RESTIER, Henrique; SOUZA, Rolf Malungo de (orgs.). Diálogos contemporâneos sobre homens negros e masculinidades. São Paulo: Ciclo Contínuo Editorial, 2019.

KIMMEL, Michael S. A produção simultânea de masculinidades hegemônicas e subalternas. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, 4 (9), p. 103-117, out. 1998. Acessado em 28 de junho de 2021.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2ª edição, 2020. 

TATCHELL, Peter. Don’t fall for the myth that it’s 50 years since we decriminalised homosexuality. In The Guardian (online), 23 de maio de 2017. Acesso em 26/06/2021.

TONINI, Marcel Diego. Dentro e fora de outros gramados: histórias orais de vida de futebolistas brasileiros negros no continente europeu. Tese (Doutorado em História Social) –   Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016.

VEIGA, Lucas. Além de preto é gay: as diásporas da bixa preta. In RESTIER, Henrique; SOUZA, Rolf Malungo de (orgs.). Diálogos contemporâneos sobre homens negros e masculinidades. São Paulo: Ciclo Contínuo Editorial, 2019.

VERGUEIRO, Viviane. Identidade de gênero: Diferenças, Hierarquia e Violência [Curso]. Aula 1, 31 de agosto de 2020. Produção: Farmácia – Fucô, 2020.  

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Bárbara Gonçalves Mendes

Psicóloga, doutoranda em Psicologia Social pela UFMG, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas (GEFuT) e do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT (NUH).

Maurício Rodrigues Pinto

Bacharel em História, pela Universidade de São Paulo (USP, com especialização em Sociopsicologia, na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e mestre pelo programa interdisciplinar Mudança Social e Participação Política, da USP. Corinthiano, no seu mestrado pesquisou masculinidades e a atuação de movimentos de torcedorxs contrários à homofobia e ao machismo no futebol brasileiro. Integrou o coletivo HLGBT (Histórias de Vida LGBT) e participou do projeto que resultou no livro “Histórias de Todas as Cores: Memórias Ilustradas LGBT”, projeto selecionado pelo Programa de Ação Cultural da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo (ProaC), no edital de Promoção das Manifestações Culturais com Temática LGBT.

Como citar

MENDES, Bárbara Gonçalves; PINTO, Maurício Rodrigues. Justin Fashanu e o exercício de escrita política: “para fazer com que o amanhã não seja o ontem”. Ludopédio, São Paulo, v. 145, n. 8, 2021.
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