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Juventus, da Mooca (e um pouco de Corinthians)

 Há vinte anos o escritor Lourenço Mutarelli lançava o seu primeiro romance, depois de uma bem-sucedida carreira como quadrinista. O cheiro do ralo (Companhia das Letras, 2002), cuja inovadora dicção remete aos balões das HQs, conta a história do perverso dono de uma loja de coisas usadas. Regateando no preço do que compra, e sem fazer questão de vender coisa alguma, o livro vai mostrando – esgarçando os limites da literatura, mas também da vida – as obsessões de sua protagonista. Obra claustrofóbica, ela não dá pistas seguras sobre a localização do estabelecimento e de seu entorno. Sabemos, no entanto, pelo filme homônimo de Heitor Dhalia, baseado no escrito de Mutarelli (o roteiro é de Marçal Aquino), que a cidade pode ser São Paulo e o bairro possivelmente é a Mooca. É que lá pelas tantas, o proprietário da casa de bugigangas, interpretado pelo ator Selton Melo, passa diante de um dos portões do Estádio Conde Rodolfo Crespi, a mítica praça esportiva localizada na Rua Javari, na Zona Leste da capital paulista. Lá é a casa do Clube Atlético Juventus, tradicional clube do futebol paulistano.

Juventus
Gramado do Estádio Conde Rodolfo Crespi, o Estádio da Rua Javari. Fonte: Wikipédia

O grande “J” no portão do estádio lembra o da Juventus Football Club, mas a cor predominante no congênere paulista é o grená, a mesma do histórico rival da Vecchia Signora, o Torino Football Club, ambos de Turim, no Norte da Itália. Não deixa de ser curiosa essa fusão que contenta um e outro lado de imigrantes de antanho. O “J” também está, aliás, no formato da piscina social do clube, que recebe muitos moradores da Mooca, esse antigo bairro de imigrantes italianos, boa parte deles oriunda de frações da classe trabalhadora.

O futebol do Juventus já teve seus dias de sucesso. Até os anos 1980, com altos de baixos, ainda era uma força intermediária do futebol paulista, não raro aprontando contra os tradicionais clubes do estado, fazendo jus ao carinhoso apelido de Moleque Travesso. Em 1983, por exemplo, depois de um grande campeonato paulista no ano anterior, o time da Mooca jogou a primeira fase da Taça de Ouro, torneio correspondente ao Campeonato Brasileiro da Série A. É certo que eram muito mais equipes do que hoje, as que disputavam os campeonatos nacionais, mas mesmo assim, foi um feito e tanto. Embora o desempenho tenha ficado aquém das expectativas, levando o Juve para a Taça de Prata (sim, os piores da primeira fase da Taça de Ouro descendiam, enquanto os melhores do início da Taça de Prata ascendiam, tudo no mesmo ano), a coisa terminou bem, com o time conquistando o título e sagrando-se campeão brasileiro da segunda divisão.

Taça de Prata que também foi jogada pelo Corinthians um ano antes, que subiu e chegou às semifinais da primeira divisão, parando frente ao time que seria campeão da Taça de Ouro de 1982, o Grêmio. Nesse mesmo ano, o alvinegro contratou junto ao Juventus um ponta-direita que se tornaria importante no bicampeonato paulista conquistado sob o signo da Democracia Corinthiana, em 1982/1983. Na verdade, ele já fazia parte da história do clube, mesmo que de forma inversa: em doze partidas contra o Timão, Ataliba fizera nove gols vestindo a camisa grená.  No Parque São Jorge, em um ataque com Sócrates, Casagrande e Zenon, e compondo a ala direita com o ídolo Zé Maria, não seria fácil estar à altura das expectativas. Ataliba não só esteve, como no ano seguinte, atuando pelo Santos, venceu novamente o Paulistão, chegando ao seu particular tricampeonato.

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Os juventinos mais fanáticos costumam se concentrar no setor atrás do gol. Fonte: Wikipédia

Dois ídolos corintianos fizeram o caminho inverso e encerraram suas carreiras no Juventus.  O primeiro foi Vampeta, um dos mais completos médio-volantes que vi atuar. Em 2008 ele jogou o Paulista da primeira divisão pelo Juventus, não conseguindo evitar que a equipe ficasse entre as últimas e terminasse rebaixada. Sem a mesma condição física, já não era sombra do grande jogador do final dos anos 1990 e início da década seguinte, seu melhor momento na carreira. O segundo foi o atacante Gil, que segundo Carlos Alberto Parreira, compôs a melhor ala esquerda do mundo em 2002, com o meia Ricardinho e o lateral-esquerdo Kléber. Sem jogar havia quatro anos, Gil voltou ao futebol para se destacar na Série A3 do Paulista atuando pelo Moleque Travesso, entre 2015 e 2016.

Se o veloz Ataliba cansou de fazer gols no Corinthians antes de se transferir para o Corinthians, outro algoz do Timão (52 tentos marcados em 50 partidas contra o alvinegro), muito melhor e mais famoso, marcou o mais bonito de sua longa e exitosa carreira exatamente contra o Juventus. Numa tarde de domingo, há quase sessenta e três anos, Pelé fez o golaço que fechou a vitória do Santos por quatro a zero. Ainda um menino que não completara 19 anos, empreendeu três chapéus seguidos em defensores juventinos, sem que a bola tocasse o piso, antes do derradeiro, frente ao bom goleiro Mão de Onça (que a ele se referia como “O Cão”), para completar para as redes com uma de suas marcas registradas: a cabeçada.

Enquanto o clube social vai bem, obrigado, o futebol já viveu dias melhores no Juventus. Disputando a Série A2 paulista, o time atual não corresponde aos bons anos do passado. Não faz mal. A grandeza de uma agremiação não se mede pelos títulos, mas pela experiência histórica que ela proporciona. Vai, Juventus!

Ilha de Santa Catarina, fevereiro de 2022.

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Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. Juventus, da Mooca (e um pouco de Corinthians). Ludopédio, São Paulo, v. 152, n. 29, 2022.
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