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Kafunga de todos os tempos

Thiago Carlos Costa 14 de março de 2017

No último dia 17 de novembro de 2016, completaram-se 25 anos da morte de Olavo Leite Bastos[1], este nome pode não dizer em primeiro momento, mas o seu apelido remete a uma era do futebol mineiro e brasileiro; Kafunga. Nascido no dia 07 de agosto de 1914, na cidade de Niterói no Rio de Janeiro, onde começou seus primeiros passos, ou melhor, defesas no futebol, atuando como goleiro Fluminense Atlético Clube de Niterói[2]. No início da década de 1930 com atuações destacadas pelo time de Niterói, Kafunga foi convocado para atuar pela seleção estadual do Rio de Janeiro para alguns amistosos e competições. Kafunga era o goleiro do Fluminense em uma partida amistosa entre o seu time e a Seleção Mineira[3], que terminou em 10 x 0 para os mineiros. Reza a lenda que Kafunga evitou algo muito pior, que a dezena de gols registrados em suas balizas, naquela partida. Tanto que após este jogo o Clube Atlético Mineiro resolveu investir 80 contos de réis no futebol do goleiro.

Pelo Atlético, Kafunga atuou como goleiro de 1935 até 1954, participando de em torno de 335 partidas, e ao longo destes vinte anos como um dos protagonistas de momentos importantes da história do time mineiro. Possuindo em torno de 1,75cm de altura, Kafunga era tido como um goleiro baixo e com pouca técnica, mas muito seguro e carismático, segundo alguns cronistas e torcedores, era sortudo, e difícil de ser batido. Nesse contexto Kafunga, foi campeão mineiro por 10 vezes, nos anos de 1936, 1938, 1939, 1941, 1942, 1946, 1947, 1950, 1952 e 1953. Em 1936 era o goleiro do time Campeão dos Campeões do Brasil[4], conquistando o primeiro título nacional do Atlético. Outra página marcante da trajetória de Kafunga foi sua participação na famosa excursão dos “Campeões do Gelo[5]” no ano de 1950. Durante essas duas décadas sob as balizas do time alvinegro Kafunga conquistou a confiança de torcedores, a simpatia da imprensa e atuou ao lado de jogadores marcantes como Guará, Ubaldo, Carlyle, Zé do Monte, Lucas, Vavá, dentre outros.  Kafunga encerrou sua carreira no Atlético em 1954, já aos 40 anos de idade, tornando-se a partir dali funcionário do clube, atuando até como treinador interino em algumas oportunidades. Outra contribuição de Kafunga para o Atlético foi por através do seu filho Roberto[6] que como preparador físico integrou a comissão técnica do time campeão brasileiro em 1971.

kafunga
Kafunga. Foto: reprodução.

Dono de uma grande popularidade em Belo Horizonte, e já aposentado do futebol, Kafunga[7] se aventurou na vida política, sendo eleito vereador para quatro mandatos, e uma vez para deputado estadual. Mas foi na imprensa mineira atuando pelo rádio[8] e depois televisão que Kafunga se eternizou definitivamente na memória coletiva dos torcedores e de gerações de mineiros. Com seu estilo popular e com perspicácia singular Kafunga ganhou notoriedade por criar jargões que entraram para o léxico futebolístico em Minas Gerais, e do Brasil. Atuando em transmissões de jogos e em programas de debates de futebol, Kafunga verbalizou bordões como: “gol barra limpa” (gol legal); “gol barra suja” (gol ilegal); “vapt-vupt”; “não tem coré-coré” (sem problemas); “despingolar” (correr desenfreadamente). Além do pensamento que transcendia o futebol com a frase: “no Brasil o errado que está certo”.

Kafunga faleceu em Belo Horizonte no dia em 17 de novembro de 1991, aos 77 anos de idade[9]. Mais que um legado esportivo como atleta, Kafunga se consolidou como um dos pioneiros, ao fazer uma bem sucedida transição da carreira de jogador de futebol para a imprensa esportiva. Para gerações de mineiros foi criado um termo como marco temporal, “no tempo do Kafunga”, para determinar que é algo de um passado distante.

Somando-se a isso no aspecto do futebol, Kafunga é uma das primeiras gerações de jogadores que passou pela transição do profissionalismo do futebol, iniciado em 1933 no Brasil. Atuando entre a década de 1930 até início da década de 1950, pegou a popularização do futebol através da “Era do Rádio”, e depois pela televisão nos anos de 1970. Sua marca, uma linguagem bem humorada e crítica, remetem a um olhar popular para o futebol, dialogando com seu público sem distinções sociais, independente do time. O futebol como evento de massas se alimenta exatamente da sua capacidade de criar e consumir seus personagens e protagonistas de forma autofágica.

O ídolo de outrora passou, o que vale é o ídolo do presente, recordar é viver, mas no futebol, recordar é um exercício ambíguo. As estatísticas e conquistas são revisitadas apenas para exaltar feitos, mas por outro lado, adversários esportivos minimizam a história dos adversários. A causa e efeito disso são clubes de futebol sem memória institucional bem consolidada e que a reboque levam seus personagens; como atletas, treinadores, dirigentes, funcionários, jornalistas, dentre outros para o esquecimento. A memória é seletiva. O trabalho de preservação do futebol se faz permanente por meio de estudos, publicações, e reflexões para que uma amnésia coletiva não tome conta do futebol brasileiro. Mas é preciso mais ações efetivas de preservação, como criação de museus, memoriais, exposições, publicações, documentários e demais com foco na história do futebol brasileiro.

No momento Kafunga permanece como um nome para a história do futebol, como o título de seu programa na Rádio Itatiaia nas tarde de domingo, chamado “Kafunga de todos os tempos”.

[1] http://www.galodigital.com.br/enciclopedia/Olavo_Leite_Bastos

[2] http://fluminenseac.com.br/

[3] https://books.google.com.br/books?id=gA-TVE7UNToC&pg=RA1-PA194&lpg=RA1-PA194&dq=kafunga+revista+placar&source=bl&ots=IqOj5qJaLy&sig=FIjSRJzF1Rwq63bgYl7iQeLSD6E&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjZ7qqFhtjPAhXEGJAKHZQhDx0Q6AEIJzAC#v=onepage&q=kafunga%20revista%20placar&f=false

[4] http://www.galodigital.com.br/enciclopedia/Campe%C3%A3o_dos_Campe%C3%B5es_1936

[5] http://www.ludopedio.com.br/arquibancada/os-campeoes-do-gelo-memoria-esquecimento-silencio/

[6] http://hojeemdia.com.br/esportes/filho-de-kafunga-e-preparador-f%C3%ADsico-do-t%C3%ADtulo-de-1971-roberto-bastos-falece-em-belo-horizonte-1.447592

[7] http://nilodiasreporter.blogspot.com.br/2008/04/kafunga-goleiro-e-frasista.html

[8] http://www.itatiaia.com.br/blog/emanuel-carneiro/kafunga-100-anos

[9]http://www.superesportes.com.br/app/1,9/2012/11/17/noticia_atletico_mg,234800/falecimento-de-kafunga-completa-21-anos.shtml

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Thiago Carlos Costa

Professor e Pesquisador. Doutorando em Estudos do Lazer (EEFFTO-UFMG), Mestre em Estudos Literários (UFMG), Graduado em História (PUC-MG).  Membro do Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagens e Artes (FULIA), da UFMG e também participa do Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas (GEFuT) da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG.

Como citar

COSTA, Thiago Carlos. Kafunga de todos os tempos. Ludopédio, São Paulo, v. 93, n. 15, 2017.
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