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Kispest Honvéd: reduto lendário do futebol húngaro

Rodrigo Koch 25 de maio de 2022

Neste breve texto resgato parte da história do lendário time do Honvéd, da Hungria – que serviu de base para a seleção húngara do final da década de 1940 até meados da década seguinte, encantando o mundo com seu estilo de jogo ofensivo e ‘artístico’ –; apresento registros de imagens e descrevo o cenário atual do clube, no qual não passa de um coadjuvante no campeonato nacional e, inclusive, lutando contra um novo rebaixamento; e por fim, relato a experiência de assistir a um jogo da temporada 2021/22 da equipe no seu estádio: Bozsik Arena.

Histórico

O clube foi fundado em 03 de agosto de 1909 – sob o nome de Kispesti AC na cidade de Budapesti –, e se notabilizou por seu lendário time do final dos anos 1940 e primeira metade da década de 50.

O clube foi fundado por um professor para fomentar a prática de esportes e representar a vila de mesmo nome, nos arredores de Budapest – […] incorporada como distrito da capital apenas em 1950. Durante suas primeiras décadas de existência, o time acostumou-se com o mero papel de figurante. […] apenas glórias esparsas, em meio a um mar de mediocridade. (STEIN, 2017)

A equipe teve uma época de ouro, quando foi rebatizada de Budapest Honvéd e se tornou o time do exército húngaro. Puskás, Kocsis, Bozsik e Czibor formaram o núcleo da lendária equipe conhecida como os ‘mágicos magiares’, conquistando o campeonato nacional por quatro vezes na década de 1950.

Ferenc Puskás e József Bozsik estrearam no Kispest em 1943, e nos anos seguintes foram treinados pelo lendário Béla Guttman. Os anos dourados iniciaram em 1949, quando o time foi assumido pelo Ministério da Defesa da Hungria e tornou-se a ‘equipe do exército húngaro’, tendo o técnico da seleção – Gusztáv Sebes– por trás do projeto. No pós-guerra a Hungria se tornou comunista, e a nacionalização dos clubes de futebol deu a Sebes a oportunidade de reunir os principais atletas em uma única equipe. Os dois maiores clubes da Hungria na época eram o Ferencvárosi TC (considerado inadequado para o projeto por causa de suas tradições de direita nacionalista) e o MTK Budapest FC (assumido pela ÁVH, a polícia secreta húngara). O Kispest foi rebatizado de Budapesti Honvéd SE, tendo então o nome vinculado ao Exército Húngaro (Honvédség; Honvéd = defensor da pátria).

Em 1949, por fim, o Kispest perderia o seu caráter local e viraria uma potência. Diante da instauração do regime comunista, a agremiação foi incorporada pelo sistema. Assim como acontecera na União Soviética, os times acabaram apadrinhados por órgãos públicos. E o Kispest se transformou em Honvéd, ‘os defensores da pátria’, controlado pelo exército. As Forças Armadas chegaram a cogitar a adoção do Ferencváros, de longe o clube mais popular do país, mas as suas raízes fascistas e ligadas ao velho nacionalismo fizeram com que os militares desistissem da ideia. Embora menor, o Kispesti tinha suas raízes fincadas nas camadas populares. Conseguir a adesão do povo em pouco tempo, ainda mais com o talento de Puskás e Bozsik, não seria problema (STEIN, 2017).

Foram ‘recrutados’ Kocsis, Czibor e Budai, do Ferencvárosi TC; Loránt, do Vasas SC, e o goleiro Grosics, do Teherfuvar MSE. Reunidos no Honvéd, esse grupo de jogadores formou a espinha dorsal dos lendários Mágicos Magiares, ajudando a Hungria se tornar campeã olímpica em 1952, campeã da Europa Central em 1953, e chegar à final da Copa do Mundo FIFA Suíça 1954.

Bozsik Arena
Bozsik Arena e suas cercanias no distrito de Kispest, Budapesti (HUN). Fotos: Rodrigo Koch

O Honvéd conquistou a Liga Húngara em 1949-1950, 1950, 1952, 1954 e 1955. Em 1956, disputou a segunda Taça dos Campeões Europeus – um dos torneios antecessores da Champions League – enfrentando na primeira fase o Athletic Bilbao, da Espanha. Os húngaros perderam fora por 3 a 2, mas antes do jogo em casa ser realizado, a Revolução Húngara eclodiu e foi silenciada diante da invasão soviética. Os jogadores decidiram não voltar para a Hungria e pediram que a partida de volta fosse disputada em Bruxelas, na Bélgica. Nos primeiros minutos, Grosics se machucou e, como não eram permitidas substituições, Czibor assumiu a meta. Apesar do placar de 3 a 3, o time foi eliminado por 6 a 5 no placar agregado e, a partir desta data muitos deixaram a Hungria sob o medo de terem que deixar os gramados e pegar em armas. Puskás foi para a Espanha, estreando  pelo Real Madrid CF somente em 1958; Czibor seguiu para a AS Roma e depois para o FC Barcelona; Kocsis para o SC Young Fellows (Suíça) e também depois para o FC Barcelona; Grosics migrou para um clube pequeno da própria Hungria; Bozsik e Budai se mantiveram no Honvéd até o final de suas carreiras.

Durante a década de 1980/90 o clube passou por outro período de sucesso, vencendo mais oito campeonatos húngaros, sendo renomeado Kispest Honvéd FC (1991) e adotando seu nome atual (Budapesti Honvéd FC) em 2003.

O último título

Após 24 anos, o Honvéd voltou a conquistar o Campeonato Húngaro, misturando a festa do título às celebrações pelos 90 anos do nascimento de Puskás. Na virada do milênio o clube se afundou em uma crise, culminando no rebaixamento. A recuperação começou em 2006, após a venda ao empresário americano George Hemingway. Conquistaram duas vezes a Copa da Hungria, mas seguiam como coadjuvantes na liga.

Kispest Honvéd
Símbolos do Kispest Honvéd: mascote e escudo. Fotos: Rodrigo Koch

Na temporada 2016/17, com a volta do técnico Marco Rossi – responsável pela terceira colocação em 2013 – e a chegada de jogadores importantes para o ataque, o Honvéd voltou a brigar pelo título. Nas cinco rodadas anteriores ao compromisso final, o time somou o mesmo número de pontos do Videoton FC, principal concorrente, tendo o confronto direto na última rodada. Mesmo dependendo apenas do empate, venceram por 1 a 0 e reergueram a taça após mais de duas décadas. De lá para cá, o Honvéd ocupou posições medianas ou ruins no cenário nacional da Hungria: de quarto a décimo lugares nas últimas temporadas. Neste último Campeonato Húngaro (2021/22) encerrou em nono lugar, conseguindo escapar do rebaixamento somente na última rodada. Entre o elenco há poucos destaques, como o lateral-direito sérvio Marko Petkovic ou o veterano zagueiro croata Lovric. Outros nomes da atualidade como o meia francês Machach e o atacante Boubacar Traoré, do Mali, não agradam aos fãs do Kispest Honvéd.

Minha experiência

Acompanhei in loco a partida entre Honvéd e Mozökövesd, respectivamente nono e décimo colocados na temporada 2021/22, pela penúltima rodada do Campeonato Húngaro. Em um sábado à tarde, na primavera húngara, me preparei para assistir o confronto. Tive cuidado de ir com roupas nas cores do clube: uma camiseta vermelha lisa, sem qualquer estampa, por baixo de um conjunto (calça e jaqueta) de agasalho preto. Tomei o excelente e rápido transporte público nas proximidades da Raday Utca e segui até o distrito de Kispest, à sudeste do centro histórico de Budapesti. Nas proximidades da Bozsik Arena já havia inúmeras referências aos momentos lendários do Honvéd, com muros pintados nas cores do clube e com os nomes dos antigos craques estampados. Puskas e Bozsik – citados em vários pontos do bairro – também estão eternizados como nome da rua e do estádio sede do Kispest Honvéd. A alameda que dá acesso ao estádio, igualmente está tomada com muretas que homenageiam os principais jogadores da história da equipe. Neste espaço, alguns ambulantes estavam instalados vendendo bandeiras, mantas e camisetas alusivas do Honvéd.

Mesmo tendo alguns de seus símbolos reformulados, o antigo escudo do Kispest Honvéd é mantido na fachada do estádio. Um leão em metal também recebe os espectadores que chegam ao local, bem como um simpático mascote sempre disposto para fotos com os fãs.

Budapest
Livreto informativo da partida e ingresso. Foto: Rodrigo Koch

A Bozsik Arena, após a últimas reformas, comporta confortavelmente (o estádio está totalmente equipado com cadeiras numeradas e coberto), aproximadamente 10 mil torcedores, divididos em quatro setores. O setor A é destinado às posições de imprensa, camarotes, e cadeiras especiais de sócios. Normalmente o setor D (ou parte dele) é destinado aos torcedores adversários, enquanto que setores B e C são ocupados pelo público geral e torcedores cativos. Cheguei ao local cerca de 40 minutos antes do jogo e, sem qualquer demora adquiri meu ingresso no local – sendo atendido em inglês – por modestos 2150 forints, no câmbio atual equivalente a menos de seis euros ou pouco mais de 30 reais. Meu lugar: setor B5, fileira 13, cadeira 2 – em meio às torcidas organizadas do Honvéd. Ambiente acolhedor e familiar. Troquei algumas palavras em inglês com um senhor que estava ao meu lado, acompanhado do jovem filho. Percebi um certo desinteresse dele no jogo em si, tanto que em meio ao segundo tempo, o mesmo deixou sua cadeira para ir buscar cerveja. Não mostrava muito entusiasmo com o time, mas sim dava para compreender uma certa preocupação com um possível rebaixamento.

Kispest Honvéd
Torcidas Organizadas do Kispest Honvéd. Fotos: Rodrigo Koch

Nas arquibancadas, apesar da péssima campanha na temporada atual, observei a presença do público de modo satisfatório. A torcida se manteve motivada e entusiasmada desde a entrada do time em campo até os minutos finais, mesmo diante de um fraco futebol e um placar de 0 a 0. As torcidas organizadas também marcaram a tarde desse sábado com suas bandeiras e cânticos (infelizmente não entendi uma palavra sequer para transcrever algo para os leitores), com objetivo de impulsionar o time em campo. Notei, em certa medida, uma constante nostalgia à época dourada mesclada com sentimentos de esperanças de anos vindouros melhores para o Kispest Honvéd por parte dos seus aficionados mais enraizados. Na atualidade o clube sobrevive de suas glórias do passado. Não gosto de comparativos, pois cada instituição tem seus aspectos culturais e identidade própria; mas se cabe algum comparativo, o Honvéd talvez possa ser considerado um CR Vasco da Gama ou um Santos FC no cenário futebolístico da Hungria. Vida longa ao Kispest Honvéd, reduto lendário do futebol húngaro.

Budapest
Fotos: Rodrigo Koch

Referências

STEIN, L. Como Puskás transformou um clube de bairro em um dos maiores esquadrões da história. Trivela, 3 de abril de 2017. Consultado em 09 de maio de 2022.

STEIN, L. Velho time de Puskás, Honvéd reconquista o Campeonato Húngaro após 24 anos. Trivela, 27 de maio de 2017. Consultado em 09 de maio de 2022.

TAYLOR, R.; JAMRICH, K. Puskas: uma lenda do futebol. São Paulo: DBA Editora, 1998

Wikipédia. Budapest Honvéd Football Club. Consultado em maio de 2022.

Wikipédia. Campeonato Húngaro de Futebol. Consultado em maio de 2022.

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Rodrigo Koch

Pós-Doutor (Sociologia) pelo Institut Universitari de Creativitat i Innovacions Educatives de la Universitat de València, Doutor em Educação (Culturas Juvenis) pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Mestre em Educação (Estudos Culturais) pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), pós-graduado em Administração e Marketing Esportivo pela Universidade Gama Filho (UGF), e graduado em Educação Física pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Vencedor (1º lugar na classificação geral) do Prêmio Brasil de Teses e Dissertações sobre Futebol e Direitos do Torcedor - Edição 2018-2019. Pesquisador Associado do Centro Latino Americano de Estudos em Cultura - CLAEC. Professor adjunto D da Uergs - Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, lotado na unidade Hortênsias-São Francisco de Paula.

Como citar

KOCH, Rodrigo. Kispest Honvéd: reduto lendário do futebol húngaro. Ludopédio, São Paulo, v. 155, n. 27, 2022.
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