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László Kubala e o FC Barcelona

Victor de Leonardo Figols 27 de março de 2017

László Kubala nasceu em Budapeste, no entre guerras, em 1927. O húngaro, de origem tcheca, iniciou sua carreira como jogador de futebol em um pequeno clube local e rapidamente foi contratado pelo Ferencváros TC, também da cidade de Budapeste.

Em 1946, o jovem jogador se transferiu para o tradicional clube tcheco, o Slovan Bratislava. Já jogando pelo Bratislava, Kubala foi convocado para a Seleção da Tchecoslováquia, antes mesmo de completar os 18 anos de idade. Mesmo tendo nascido na Hungria, Kubala possuía origem tcheca. O jogador que se mostrava uma grande promessa vestiu a camisa da seleção tcheca por dois anos, e já despertava o interesse de diversos clubes europeus, além da potência daqueles anos, a Seleção Húngara.

Kubala vestiu a camisa da seleção da seleção de seu país apenas por um ano, em 1948. Apesar de ser um dos mais talentosos de sua geração, o jogador não fez parte da Seleção da Hungria de 1950 ou a de 1954, que encantou revolucionou o futebol, e foi vice-campeã da Copa do Mundo de 1954. Entre 1948 e 1949, o húngaro voltou a sua cidade natal e vestiu a camisa do Budapesti Vasas. Sua chegada a Budapeste coincidiu com a ascensão comunista naquele país, e não tardou muito para que o regime passasse a controlar a estrutura esportiva. Kubala percebeu que o futebol húngaro estava passando por uma transformação estrutural, tornando-o muito militarizado.

Em 1949, seguindo o passo de diversos outros atletas e técnicos, o jovem jogador fugiu do regime militarizado do esporte, e seguiu para a Áustria, com documentação falsa. A federação húngara tomou conhecimento, e acusou o jogador de ter desertado. Como consequência, foi suspenso pela federação e pela FIFA, por um ano. O único clube em que encontrou abrigo foi o Aurora Pro Patria, da Itália. Pelo clube italiano, jogou apenas pouquíssimo, mas já havia despertado o interesses de outros clubes, entre eles o FC Barcelona.

Sua passagem curta pelo clube italiano foi consequência do exílio, Kubala foi levado para um campo de refugiados, em Cinecittà, na Itália. Em meio a outros húngaros, o jogador conheceu o treinador húngaro Ferdinand Daučík, que mais tarde se casaria com a sua irmã. Daučík, junto com Kubala e outros atletas, fundou o Hungaria, um time formado por exilados húngaros e de outros países do Leste Europeu, que excursionavam pela Europa ocidental, sobretudo na Itália e Espanha.

Em 1950, o Hungaria realizou um amistoso com o Reial Club Deportiu Espanyol de Barcelona, e a notícia de que um talentoso jogador vestia a camisa de um time de exilados já era do conhecimento dos dirigentes espanhóis. O Hungaria já havia derrotado o Real Madrid e a Seleção Espanhola, em jogos amistosos. Durante o jogo entre Espanyol e Hungaria, o então diretor técnico do FC Barcelona observou cuidadosamente a atuação de Kubala, e o que viu foi o suficiente para propor um contrato ao jogador. Em junho de 1950, o FC Barcelona fechava a contratação do talentoso jogador de 23 anos.

Kubala vestindo a camisa do FC Barcelona
Kubala vestindo a camisa do FC Barcelona. Foto: Nationaal Archief (CC BY-SA).

A contratação de Kubala foi disputada entre FC Barcelona e Real Madrid. E mesmo depois de ter fechado com o clube catalão, havia uma pendência para que pudesse atuar. A Espanha dos anos 1950 passava pelo período mais rigoroso do regime ditatorial de Francisco Franco. O Generalíssimo viu nos atletas do Leste Europeu uma oportunidade para fazer propaganda do seu regime. A ideia do ditador era acolher esses atletas e, assim, demostrar para o resto mundo, sobretudo os vizinhos europeus, de que havia liberdade, e mais do que isso, serviria como propaganda anticomunista, já que os atletas eram apresentados como exilados políticos de países comunistas.

Diante dos impeditivos, o FC Barcelona buscou regulamentar a situação de Kubala junto a FIFA, e concomitante, com a Federação Espanhola. A sua liberação só viria na temporada 1950-1951, e junto com ela, o jogador húngaro passava a integrar a Seleção Espanhola de futebol, todavia, sua primeira convocação só aconteceria em 1953.

O período em que Kubala esteve no plantel do clube correspondeu ao período das maiores conquistas do FC Barcelona. Em uma década foram quatro títulos da Liga Espanhola, cinco Copas da Espanha. O ano de 1952 foi mágico para o clube, em uma temporada o clube ganhou cinco títulos: Liga Espanhola, Copa da Espanha, Copa Latina, Copa Eva Duarte e Copa Martini Rossi. Liderado por Kubala, aquele time ficou conhecido como Barça de les Cinc Copes (“O Barça das cinco Copas”).

O sucesso em campo começava a refletir nas arquibancadas. Nesse mesmo período o clube viu a sua torcida crescer significativamente. Entre 1950 e 1960 o clube catalão passou de 26 mil para mais 52 mil sócios. O pequeno estádio de Les Corts já não era suficiente para abrigar a torcida do FC Barcelona, pois o Kubala tinha uma enorme capacidade de levar torcedores para o estádio. Os torcedores enxiam as arquibancadas para ver o húngaro com a bola nos pés.

Entre os dirigentes, ficava cada vez mais claro a necessidade de se construir um novo estádio. O clube passava por um processo de popularização, e Kubala, sem dúvida era um dos responsáveis. As ideias de se ter um novo estádio começaram ainda em 1950, mas foi só em 1953, quando Francesc Miró-Sans chegou a presidência do clube com a proposta de transformar o Camp Nou (“Campo Novo”) em realidade. Em 1954, a construção do estádio teve início, com uma previsão de abrigar 100 mil torcedores. Todavia, o estádio foi inaugurado em 1957 com capacidade para um pouco mais de 80 mil.

O Camp Nou foi construído mesmo com acusações de empréstimos superfaturados e desvios de verba, reflexo de uma má administração que o clube viveu naqueles anos. Acompanhado às acusações, o clube viveu uma escassez de títulos, somada a uma crise econômica, causada pela construção do estádio. Todavia, por outro lado no mesmo período o clube viveu um novo crescimento da sua torcida.

Estátua do Kubala no estádio Camp Nou
Estátua do Kubala no estádio Camp Nou. Foto: Laslovarga.

Kubala colocou o FC Barcelona em outro patamar esportivo. O clube catalão passou a ser respeitado em todo território espanhol. O jogador húngaro saiu do FC Barcelona em 1961, deixando um legado para o clube da capital da Catalunha: um dos maiores estádio da Europa, uma torcida numerosa e apaixonada pelo bom futebol.

Para além dos fatores esportivos, Kubala foi importante na construção da identidade catalã do clube, indiretamente o húngaro teve um papel político no FC Barcelona. Durante os anos mais duros da ditadura de Fraco, o único espaço público em que a língua catalã podia ser falada era nas arquibancadas. O Camp Nou, que inicialmente era apenas um lugar para os torcedores assistirem as jogadas de Kubala, virou um espaço de sociabilidade, de afirmação do nacionalismo catalão, e, sobretudo, um lugar de resistência ao regime franquista. Um húngaro, um estrangeiro, ajudou o FC Barcelona a consolidar a sua imagem de representante da Catalunha.

Filme:
Kubala: Los ases buscan la paz (1955)

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Victor de Leonardo Figols

Doutorando em História na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Bacharel, licenciado e mestre em História pela Universidade Federal de São Paulo (EFLCH / UNIFESP). Estuda as identidades clubísticas e regionais no futebol espanhol dentro do contexto da globalização do futebol. Trabalha com temas de História Contemporânea, com foco nas questões nacionais e na globalização. É membro do Grupo de Estudos sobre Futebol dos Estudantes da UNIFESP (GEFE). Escreve a coluna “O Campo” no site História da Ditadura. E é editor e colunista do Ludopédio.

Como citar

FIGOLS, Victor de Leonardo. László Kubala e o FC Barcelona. Ludopédio, São Paulo, v. 93, n. 29, 2017.
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